{"id":357303,"date":"2025-01-19T09:31:34","date_gmt":"2025-01-19T09:31:34","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=357303"},"modified":"2025-01-17T14:29:41","modified_gmt":"2025-01-17T14:29:41","slug":"protecao-de-menores-duracao-do-abuso-e-uma-variavel-que-tem-um-impacto-muito-significativo-nos-efeitos-sobre-a-pessoa-rute-agulhas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/protecao-de-menores-duracao-do-abuso-e-uma-variavel-que-tem-um-impacto-muito-significativo-nos-efeitos-sobre-a-pessoa-rute-agulhas\/","title":{"rendered":"Prote\u00e7\u00e3o de Menores: \u00abDura\u00e7\u00e3o do abuso \u00e9 uma vari\u00e1vel que tem um impacto muito significativo nos efeitos sobre a pessoa\u00bb &#8211; Rute Agulhas"},"content":{"rendered":"<p>O Grupo Vita vai apresentar a 21 de janeiro o seu terceiro relat\u00f3rio de atividades. Este grupo de acompanhamento das situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia sexual de crian\u00e7as e adultos vulner\u00e1veis, no contexto da Igreja Cat\u00f3lica portuguesa, divulga ainda tr\u00eas estudos de investiga\u00e7\u00e3o. Rute Agulhas, coordenadora do Vita, \u00e9 convidada da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia ECCLESIA<!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_309918\" aria-describedby=\"caption-attachment-309918\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/DOC.20231212.41991318.JRV_9776.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-309918 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/DOC.20231212.41991318.JRV_9776.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1280\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/DOC.20231212.41991318.JRV_9776.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/DOC.20231212.41991318.JRV_9776-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/DOC.20231212.41991318.JRV_9776-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/DOC.20231212.41991318.JRV_9776-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/DOC.20231212.41991318.JRV_9776-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/DOC.20231212.41991318.JRV_9776-1536x1024.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-309918\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Lusa<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>Come\u00e7aria por lhe pedir um ponto de situa\u00e7\u00e3o quanto ao n\u00famero de contactos e pedidos de compensa\u00e7\u00e3o\u2026<\/em><\/p>\n<p>Bem, at\u00e9 o momento o Grupo Vita recebeu contactos de 118 pessoas, na sua esmagadora maioria pessoas adultas &#8211; temos uma m\u00e9dia et\u00e1ria de 54 anos. Destas 118 pessoas, o contacto foi feito sobretudo pelo telefone, tamb\u00e9m por email ou pelo formul\u00e1rio do nosso site. Algumas delas querem s\u00f3 desabafar, partilhar, quebrar o segredo que em m\u00e9dia dura 40 anos &#8211; esses s\u00e3o os nossos dados.<\/p>\n<p>Temos um universo de 68 pessoas que quiseram estar connosco e que pediram um atendimento, quase sempre presencial, por vezes online &#8211; tamb\u00e9m depende de onde a pessoa reside, at\u00e9 fora do pa\u00eds temos pessoas -, para podermos aprofundar aqui um bocadinho a situa\u00e7\u00e3o. S\u00e3o muitas vezes pessoas que pedem apoio psicol\u00f3gico, apoio psiqui\u00e1trico, ou \u00e0s vezes n\u00e3o sabem muito bem se precisam, se querem. H\u00e1 aqui alguma ambival\u00eancia, \u00e0s vezes, relativamente a estes processos\u2026<\/p>\n<p>Destas 68, tivemos algumas situa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o se enquadravam bem: nem eram crian\u00e7as, nem eram adultos vulner\u00e1veis. Poderia ter havido uma viola\u00e7\u00e3o do sexto mandamento: pessoas adultas que, j\u00e1 com outra capacidade de consentimento, teriam tido um envolvimento com algu\u00e9m da Igreja.<\/p>\n<p>Na pr\u00e1tica, temos um universo de 62 pessoas &#8211; e essa caracteriza\u00e7\u00e3o vai ser feita de forma bastante detalhada agora neste terceiro relat\u00f3rio de atividades, do ponto de vista da caracteriza\u00e7\u00e3o sociodemogr\u00e1fica, do tipo de situa\u00e7\u00f5es que reportam, onde \u00e9 que aconteciam, como \u00e9 que se sentiam, que impacto \u00e9 que estas situa\u00e7\u00f5es tiveram. Uma conclus\u00e3o importante que n\u00f3s j\u00e1 t\u00ednhamos, de alguma forma, percebido um bocadinho essa tend\u00eancia no segundo relat\u00f3rio, portanto, quando a amostra era um bocadinho ainda mais pequena\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O relat\u00f3rio de 2024?<\/em><\/p>\n<p>O de junho, sim. Portanto, nestes seis meses, com os novos casos, e agora com esta nova an\u00e1lise estat\u00edstica, fica mais claro que, de facto, a dura\u00e7\u00e3o do abuso \u00e9 uma vari\u00e1vel que tem um impacto muito significativo nos efeitos sobre a pessoa. Portanto, no fundo, \u00e9 algo que a literatura nos diz h\u00e1 muito tempo, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>Quanto maior a dura\u00e7\u00e3o, h\u00e1 a partir da maior o impacto, enfim, o impacto depende de uma multiplicidade de vari\u00e1veis, n\u00e3o \u00e9 linear, isto n\u00e3o \u00e9 nenhuma tabela de Excel em que a gente, n\u00e3o \u00e9, diga, \u201colha, tem isto ou n\u00e3o tem isto\u201d, logo o impacto \u00e9 maior ou menor, mas h\u00e1, de facto, um conjunto de crit\u00e9rios que devem ser tidos em conta. Isto at\u00e9 para fazer a ponte para os pedidos de compensa\u00e7\u00e3o financeira: neste momento temos 61 pedidos, 40 por parte de homens. Temos sempre aqui, tamb\u00e9m j\u00e1 na amostra geral, uma percentagem sempre maior de pessoas do sexo masculino.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O que est\u00e1 em conson\u00e2ncia com estudos que foram feitos noutros pa\u00edses\u2026<\/em><\/p>\n<p>\u00c9, exatamente, exatamente. As d\u00e9cadas, na nossa amostra, em que h\u00e1 uma maior preval\u00eancia destas situa\u00e7\u00f5es abusivas, s\u00e3o as d\u00e9cadas de 60 e as d\u00e9cadas de 80 &#8211; 80 especialmente com v\u00edtimas de rapazes &#8211; e, portanto, muitas vezes tamb\u00e9m associados ao contexto do semin\u00e1rio, enfim, o que nos ajuda aqui um pouco a perceber esta assimetria em termos de g\u00e9nero, que contraria os dados da sociedade civil, se sairmos deste contexto.<\/p>\n<p>Estes 61 pedidos, na maior parte, s\u00e3o pessoas que n\u00f3s j\u00e1 conhecemos, portanto, s\u00e3o pessoas que j\u00e1 falaram connosco previamente. Temos 15 situa\u00e7\u00f5es novas, ou seja, 15 pessoas que nos contactaram desde que a Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa (CEP) e a Confer\u00eancia dos Institutos Religiosas de Portugal (CIRP) falaram desta possibilidade e que nos contactaram \u00fanica e exclusivamente para esse efeito.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>O Vita defendia que n\u00e3o tinha material suficiente para validar algumas den\u00fancias, justificando assim o facto de pedir \u00e0s v\u00edtimas que contassem de novo a sua hist\u00f3ria &#8211; depois pediu \u00e0 Confer\u00eancia Bispal Portuguesa altera\u00e7\u00f5es ao regulamento. Quais eram? Foram todas atendidas nas adendas anunciadas, julgo que em novembro?<\/em><\/p>\n<p>Sim. Antes disso, deixe-me explicar que as pessoas que j\u00e1 falaram connosco previamente ou com alguma entidade eclesi\u00e1stica, e em que esse relato est\u00e1 documentado, n\u00e3o t\u00eam de o repetir. N\u00e3o t\u00eam. Curiosamente, n\u00f3s j\u00e1 fizemos oito atendimentos, no \u00e2mbito do processo das compensa\u00e7\u00f5es, j\u00e1 foram atendidas oito pessoas e destas oito, a maioria quer falar novamente sobre o abuso e n\u00f3s dizemos: \u201cn\u00e3o, mas n\u00e3o tem de falar, porque j\u00e1 temos este relato, lembra-se? J\u00e1 falou comigo ou j\u00e1 falou com a minha colega, temos aqui tudo escrito\u201d. Muitas vezes as pessoas dizem: \u201cn\u00e3o, mas eu preciso de falar, sinto-me aliviado\u201d.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Mas tamb\u00e9m h\u00e1 a queixa contr\u00e1ria, das pessoas que n\u00e3o querem repetir\u2026<\/em><\/p>\n<p>Mas se j\u00e1 disseram, n\u00e3o t\u00eam de repetir. Se j\u00e1 disseram, se j\u00e1 relataram, seja junto de n\u00f3s, seja por exemplo de uma comiss\u00e3o diocesana ou de um instituto religioso, isso est\u00e1 documentado.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Sim, o problema que tem existido e que tem sido comentado e at\u00e9 mediaticamente algumas trocas de posi\u00e7\u00f5es tem a ver com o material que foi recolhido pela Comiss\u00e3o Independente.<\/em><\/p>\n<p>Sim, mas esse n\u00f3s n\u00e3o temos acesso absolutamente a nenhum\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Do que parece, portanto, a\u00ed nesse caso, dado que o \u00e2mbito do estudo era espec\u00edfico, sob anonimato e que o material estava destinado \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o, tanto quanto foi dado a entender, neste caso os relatos t\u00eam de ser apresentados de novo\u2026<\/em><\/p>\n<p>T\u00eam, porque se uma pessoa chega ao p\u00e9 de mim ou de n\u00f3s, da Comiss\u00e3o de Instru\u00e7\u00e3o e diz: \u201cmas eu j\u00e1 contei tudo no formul\u00e1rio da Comiss\u00e3o Independente, ou eu at\u00e9 reuni com um elemento X da Comiss\u00e3o Independente e contei toda a minha situa\u00e7\u00e3o\u201d. Mas eu n\u00e3o sei, n\u00f3s n\u00e3o temos isso em lado nenhum, n\u00f3s n\u00e3o temos qualquer informa\u00e7\u00e3o sobre isso. Portanto, \u00e9 nestas situa\u00e7\u00f5es, que ainda assim s\u00e3o residuais, devo dizer, que a pessoa de facto tem de nos contar aquilo que se passou, quando \u00e9 que se passou, com quem \u00e9 que se passou, porque n\u00f3s naturalmente n\u00e3o sabemos\u2026<\/p>\n<p>Todas as outras pessoas que j\u00e1 relataram previamente, que s\u00e3o a maioria, portanto, s\u00f3 15 de facto, \u00e9 que n\u00f3s nunca t\u00ednhamos visto antes e, portanto, vieram agora ter connosco com esse objetivo, as pessoas s\u00f3 relatam se quiserem. E como digo, at\u00e9 eu pr\u00f3pria fiquei espantada, nestes oito atendimentos que j\u00e1 fizemos entre dezembro e agora in\u00edcio de janeiro, eu dizia \u201cn\u00e3o, mas n\u00e3o tenho que dizer de novo, eu j\u00e1 sei, j\u00e1 contou, temos aqui o documento\u201d\u2026 \u201cn\u00e3o, mas eu quero falar, liberta-me, alivia-me\u201d. Portanto, houve de facto aqui algumas pessoas que sentiram isso.<\/p>\n<p>O feedback que temos at\u00e9 o momento destas oito pessoas que entrevistamos, sendo que temos mais agendadas e naturalmente todas as outras agora v\u00e3o ser convocadas para breve, \u00e9 um feedback muito, muito positivo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O regulamento prev\u00ea a constitui\u00e7\u00e3o de dois grupos, um para analisar os pedidos e outro para definir valores. O ponto de situa\u00e7\u00e3o do grupo para definir valores j\u00e1 est\u00e1 criado?<\/em><\/p>\n<p>Que eu saiba n\u00e3o, porque se estivesse eu teria de saber, \u00e9 suposto o Grupo VITA indicar duas pessoas para esse mesmo grupo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ainda \u00e9 prematuro dizer-se ou pensar-se quando \u00e9 que as primeiras compensa\u00e7\u00f5es financeiras v\u00e3o ser pagas?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9, \u00e9 prematuro porque n\u00f3s estamos a fazer tudo &#8211; o Grupo VITA, a equipa de Coordena\u00e7\u00e3o Nacional que integra esta comiss\u00e3o de instru\u00e7\u00e3o ou algu\u00e9m designado pelo instituto religioso -, estamos a tentar, j\u00e1 fizemos avalia\u00e7\u00e3o de oito pessoas, que nos pr\u00f3ximos meses consigamos agendar todas as outras, sendo certo que h\u00e1 aqui tamb\u00e9m uma vari\u00e1vel importante: somos n\u00f3s que vamos ter com as pessoas, a sua zona de resid\u00eancia e portanto temos imensas desloca\u00e7\u00f5es ao norte do pa\u00eds, at\u00e9 \u00e0s ilhas, exatamente estamos a tentar que as pessoas desloquem o menos poss\u00edvel. Portanto, estamos a fazer esses agendamentos com a celeridade que \u00e9 poss\u00edvel, em termos de agenda, e eu acredito que quando tivermos talvez um n\u00famero mais significativo, n\u00e3o vamos esperar pelas 61, que, entretanto, podem ser mais, estarem todas avaliadas para se constituir o segundo grupo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Para n\u00e3o se correr risco do processo se arrastar indefinidamente\u2026<\/em><\/p>\n<p>Exatamente. A minha expectativa, aquilo que eu gostaria que acontecesse era que, em meados de mar\u00e7o, abril, j\u00e1 tiv\u00e9ssemos um n\u00famero suficiente de processos analisados por esta primeira comiss\u00e3o de instru\u00e7\u00e3o, permitindo o in\u00edcio de fun\u00e7\u00f5es do segundo grupo. Houve aqui um prolongamento do prazo, essa foi uma das propostas que n\u00f3s propusemos ao Regulamento em termos de altera\u00e7\u00e3o, a nossa proposta era at\u00e9 junho, ficou em mar\u00e7o, mas ficou em mar\u00e7o com uma condi\u00e7\u00e3o clara que vem expl\u00edcita no Regulamento e j\u00e1 vinha antes: n\u00e3o \u00e9 uma parede, n\u00e3o \u00e9 uma barreira o 31 de mar\u00e7o. Se algu\u00e9m nos contactar em abril ou maio, claramente que essas pessoas v\u00e3o ser atendidas, na mesma.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Aquilo que vimos noutros pa\u00edses \u00e9 que estas situa\u00e7\u00f5es se v\u00e3o arrastar no tempo, ou seja, vai haver pessoas que, no futuro, v\u00e3o falar pela primeira vez\u2026<\/em><\/p>\n<p>Claro que sim, claro que sim. N\u00f3s sabemos muitas vezes tamb\u00e9m, e h\u00e1 pessoas que nos dizem isso agora, que ainda n\u00e3o sabem se querem pedir, que est\u00e3o ambivalentes, j\u00e1 tive pessoas que disseram que n\u00e3o e depois a seguir dizem que sim, e j\u00e1 tive o contr\u00e1rio, j\u00e1 tive uma pessoa agendada que me liga a dizer \u201ceu afinal n\u00e3o quero\u201d e depois \u201cafinal j\u00e1 quero\u201d. Portanto, h\u00e1 uma ambival\u00eancia que \u00e9 natural, que \u00e9 expect\u00e1vel e, portanto, \u00e9 natural que, em tr\u00eas meses que faltam, possa haver pessoas que n\u00e3o sintam ainda a capacidade de dar esse passo e, por isso, essa porta n\u00e3o se fecha a 31 de mar\u00e7o.<\/p>\n<p>Foi um entendimento, n\u00f3s t\u00ednhamos pedido at\u00e9 junho, enfim, ficou at\u00e9 mar\u00e7o, mas ficou aqui este entendimento de que \u00e9 uma porta que n\u00e3o se fecha, como \u00e9 \u00f3bvio, e \u00e9 muito importante passar esta mensagem, porque uma revela\u00e7\u00e3o deste tipo de situa\u00e7\u00f5es, sendo que da nossa amostra 40% das pessoas est\u00e3o a revelar pela primeira vez na vida, agora, depois de uma m\u00e9dia de 43 anos em sil\u00eancio, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil, n\u00e3o \u00e9?<\/p>\n<p>E, portanto, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 porque a data no calend\u00e1rio vai avan\u00e7ando, que o 31 de mar\u00e7o se aproxima, que as pessoas necessariamente conseguem ter essa capacidade, essa coragem e essa confian\u00e7a tamb\u00e9m que \u00e9 preciso ter no sistema e no grupo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Aqui \u00e9 uma quest\u00e3o que eu queria esclarecer, que tem a ver tamb\u00e9m com esta rece\u00e7\u00e3o de testemunhas e de relatos. H\u00e1 alegadas v\u00edtimas que dizem que o Grupo Vita n\u00e3o validou os seus testemunhos e que, por isso, n\u00e3o s\u00e3o inclu\u00eddas nas compensa\u00e7\u00f5es financeiras. Que casos s\u00e3o estes?<\/em><\/p>\n<p>Foi apenas um caso que foi mediatizado, sim, e que foi devidamente fundamentada essa situa\u00e7\u00e3o. Ali\u00e1s, o relat\u00f3rio que foi feito at\u00e9 apareceu no ecr\u00e3 da televis\u00e3o, n\u00e3o \u00e9? Portanto, a pessoa partilhou com o \u00f3rg\u00e3o de comunica\u00e7\u00e3o social em causa. Portanto, sim, houve uma avalia\u00e7\u00e3o e foi entendimento de que aquela situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o preenchia os crit\u00e9rios. Foi uma apenas at\u00e9 o momento.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>No primeiro ano de funcionamento, e de acordo com o relat\u00f3rio que foi apresentado em 2024, o Grupo Vita tinha recebido 105 queixas. No in\u00edcio da nossa conversa disse que neste momento ser\u00e3o 118. S\u00e3o casos atuais ou j\u00e1 prescritos, a maioria deles?<\/em><\/p>\n<p>A maior parte deles s\u00e3o casos prescritos, porque j\u00e1 aconteceram h\u00e1 muito tempo. S\u00e3o pessoas adultas, temos uma m\u00e9dia et\u00e1ria de 50 anos, mas temos aqui uma variabilidade que vai at\u00e9 aos 70 anos de idade. Temos menos processos, de facto muito poucos, com situa\u00e7\u00f5es mais recentes. Isto acho que deve exigir ou implicar-nos aqui uma reflex\u00e3o, n\u00e3o \u00e9? Portanto, se calhar n\u00e3o estamos ainda a conseguir chegar, e da\u00ed a import\u00e2ncia da preven\u00e7\u00e3o que falaremos mais adiante, \u00e0s camadas mais jovens, \u00e0s situa\u00e7\u00f5es que estejam a acontecer agora ou que tenham acontecido mais recentemente. Portanto, situa\u00e7\u00f5es que ainda n\u00e3o teriam prescrito mais recentes, tivemos cerca de duas ou tr\u00eas, que foram naturalmente de imediato sinalizadas \u00e0s entidades competentes, \u00e0 Pol\u00edcia Judici\u00e1ria e ao Minist\u00e9rio P\u00fablico, como fazemos sempre, desde que o suspeito esteja vivo, naturalmente, mesmo quando prescreveu o crime.<\/p>\n<p>O que n\u00f3s tivemos foram duas situa\u00e7\u00f5es importantes, que eu acho que \u00e9 relevante: duas situa\u00e7\u00f5es em que prescreveu do ponto de vista penal, civil, mas em que Roma derrogou essa prescri\u00e7\u00e3o. Ou seja, a Doutrina da F\u00e9 entendeu que aquelas situa\u00e7\u00f5es deveriam passar por um tribunal eclesi\u00e1stico. E temos essas duas situa\u00e7\u00f5es na nossa amostra. Portanto, situa\u00e7\u00f5es acontecidas h\u00e1 muitos anos, uma delas j\u00e1 se concluiu, a outra ainda est\u00e1 a decorrer, mas que tivemos aqui um processo de tribunal eclesi\u00e1stico por decis\u00e3o da Doutrina da F\u00e9, o que eu acho que \u00e9 muito importante, porque \u00e9 algo que no nosso C\u00f3digo Civil e Penal n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel acontecer.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Mas que \u00e9 poss\u00edvel no direito can\u00f3nico\u2026<\/em><\/p>\n<p>E \u00e9 poss\u00edvel no direito can\u00f3nico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Tamb\u00e9m por iniciativa do Papa Francisco. Falando no Papa, ele acaba de lan\u00e7ar uma autobiografia em que dedica uma longa reflex\u00e3o a esta quest\u00e3o dos abusos sexuais, e em que diz claramente: aquilo que as v\u00edtimas t\u00eam de saber \u00e9 que o Papa est\u00e1 do seu lado. Por outro lado, tem-se passado uma ideia, n\u00e3o sei se \u00e9 real, de resist\u00eancia por parte de alguns bispos portugueses. Como \u00e9 que tem sido a colabora\u00e7\u00e3o com os respons\u00e1veis diocesanos?<\/em><\/p>\n<p>A esmagadora maioria das pessoas, das v\u00edtimas que nos contactam, acreditam que o Papa est\u00e1 do seu lado. N\u00e3o questionam isso. Acham, muitas delas, \u00e9 que ele est\u00e1 sozinho, a remar contra uma mar\u00e9 muito gigante.<\/p>\n<p>Quando falamos dos bispos, e n\u00e3o s\u00f3 dos bispos, tamb\u00e9m dos superiores gerais dos institutos religiosos, n\u00e3o podemos ficar s\u00f3 nas dioceses, muitas v\u00edtimas sentem que da parte dos bispos ou dos superiores gerais n\u00e3o h\u00e1 essa mesma prote\u00e7\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 essa mesma, enfim, esta empatia, esta alian\u00e7a. O que \u00e9 que tem acontecido nalgumas situa\u00e7\u00f5es? Algumas v\u00edtimas t\u00eam-nos pedido para falar com os bispos, para serem recebidas, e a mesma coisa aconteceu h\u00e1 duas semanas com uma superiora geral de uma congrega\u00e7\u00e3o feminina. E o feedback que temos das pessoas que falam com os bispos, de uma maneira geral, claro que h\u00e1 uma ou duas exce\u00e7\u00f5es, \u00e9 de que, \u201cafinal, senti empatia, senti que aquela pessoa est\u00e1 ali, de facto, alinhada com as diretrizes que v\u00eam de Roma e com aquilo que o Papa Francisco defende\u201d. Portanto, eu diria que este \u00e9 um caminho. Naturalmente que n\u00e3o h\u00e1 da parte de todos os bispos e da parte de todos os superiores gerais a mesma disponibilidade, a mesma empatia, a mesma abertura.<\/p>\n<p>N\u00f3s j\u00e1 funcion\u00e1mos h\u00e1 um ano e meio, o Grupo Vita, e, portanto, olhando para tr\u00e1s e fazendo aqui um balan\u00e7o deste ano e meio, eu diria que isto tem sido um caminho gradual. A t\u00edtulo de exemplo, numa fase inicial, muitas dioceses e institutos religiosos diziam que se calhar n\u00e3o precisavam de forma\u00e7\u00e3o, porque j\u00e1 tinham tido algures no tempo por parte da entidade A ou B, ou porque n\u00e3o tinham casos, e, portanto, se calhar n\u00e3o precisavam de repensar estas quest\u00f5es\u2026 \u00e0 data de hoje, 50% das dioceses j\u00e1 nos pediram ajuda do ponto de vista da forma\u00e7\u00e3o para padres, di\u00e1conos, catequistas, professores de educa\u00e7\u00e3o moral e religiosa cat\u00f3lica (EMRC), agentes pastorais, etc.<\/p>\n<p>E come\u00e7amos a sentir este mesmo come\u00e7o de pedidos por parte dos institutos religiosos. Os catequistas e os professores de EMRC, vou p\u00f4-los aqui um bocadinho \u00e0 parte, porque desde o in\u00edcio mostraram uma disponibilidade muito grande, atrav\u00e9s do Secretariado Nacional da Educa\u00e7\u00e3o Crist\u00e3 (SNEC).<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>E tem havido j\u00e1 um trabalho com o SNEC?<\/em><\/p>\n<p>J\u00e1, j\u00e1, sim. Portanto, desde o in\u00edcio o SNEC se mostrou muito, muito recetivo, e, portanto, eu diria que os catequistas e os professores de EMRC s\u00e3o aqui um grupo particularmente sens\u00edvel, motivado e a querer perceber como \u00e9 que podem fazer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>J\u00e1 que fala do contexto escolar, doutora Rute, o Grupo Vita recebeu pedidos de ajuda de situa\u00e7\u00f5es ocorridas noutros contextos, que n\u00e3o o eclesial?<\/em><\/p>\n<p>Sim, sim, sim. Tivemos at\u00e9 o momento, se n\u00e3o estou em erro, 18 pedidos de ajuda de situa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o tinham a ver com o contexto da Igreja. Destes 18, a maior parte eram situa\u00e7\u00f5es de abuso, mas acontecidas noutros contextos, nomeadamente na fam\u00edlia, por vizinhos, por tios, portanto, contexto intrafamiliar, que n\u00f3s, naturalmente, depois encaminhamos para as entidades competentes.<\/p>\n<p>Temos tamb\u00e9m pessoas que nos procuram com situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia dom\u00e9stica, por exemplo, que tamb\u00e9m temos depois de procurar a estrutura de apoio mais indicada. Portanto, h\u00e1 pessoas que ainda \u00e0s vezes pensam no Grupo Vita como uma porta tamb\u00e9m para outro tipo de situa\u00e7\u00f5es e n\u00f3s a\u00ed fazemos o devido encaminhamento. Acho que foram 18, se n\u00e3o estou em erro, at\u00e9 o momento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O Grupo Vita tem acompanhado as situa\u00e7\u00f5es em que os alegados abusadores foram suspensos e os processos arquivados? \u00c9 uma quest\u00e3o delicada, porque as pessoas voltam ativo. Como \u00e9 que se gere toda esta situa\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil de gerir, \u00e9 dif\u00edcil de gerir porque para as pessoas, n\u00e3o \u00e9, para as v\u00edtimas, e mesmo para a sociedade, h\u00e1 muitas vezes esta sensa\u00e7\u00e3o de impunidade, enfim, de que afinal isto se calhar n\u00e3o \u00e9 assim t\u00e3o rigoroso como deveria ser. Eu tento \u00e0s vezes que algumas v\u00edtimas percebam a diferen\u00e7a entre haver a convic\u00e7\u00e3o, isto tamb\u00e9m acontece nos nossos tribunais civis, n\u00e3o \u00e9, \u00e0s vezes h\u00e1 a convic\u00e7\u00e3o de que o abuso possa ter acontecido, mas n\u00e3o se conseguiu fazer prova e na d\u00favida, <em>pro reu<\/em>. E isto \u00e0s vezes \u00e9 mesmo muito dif\u00edcil de gerir para uma v\u00edtima, e estou a pensar nas v\u00edtimas todas que acompanhei ao longo da minha vida profissional fora do contexto da igreja, e na igreja \u00e9 especialmente dif\u00edcil\u2026 h\u00e1 sempre esta sensa\u00e7\u00e3o, ou seja, quando num tribunal civil h\u00e1 um processo que \u00e9 arquivado, o juiz tem a convic\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o conseguiu fazer prova e arquiva, ningu\u00e9m diz \u201co juiz est\u00e1 do lado do agressor, o juiz est\u00e1 a proteger o agressor\u201d. Consegue-se perceber que, se calhar efetivamente, n\u00e3o se conseguiu produzir prova. Na Igreja a rea\u00e7\u00e3o imediata \u00e9 \u201cest\u00e3o a encobrir, est\u00e3o a proteger\u201d.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E da\u00ed haver mais dificuldade no seu regresso \u00e0 atividade?<\/em><\/p>\n<p>Sim, estes padres que depois foram arquivados os processos e que voltaram&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>S\u00f3 para ficar claro, obviamente os processos iniciam-se seguindo regras que, neste momento s\u00e3o muito r\u00edgidas, e algumas delas implicam que o processo inicie mesmo sem um conjunto significativo de provas e o arquivamento tamb\u00e9m pode ser na sequ\u00eancia da inoc\u00eancia\u2026<\/em><\/p>\n<p>Exatamente, pode ser na sequ\u00eancia da inoc\u00eancia, de n\u00e3o se ter conseguido fazer prova porque se passaram muitos anos e, at\u00e9 prova em contr\u00e1rio, as pessoas num Estado de Direito t\u00eam de ser consideradas dessa forma. Mas, de facto, \u00e9 dif\u00edcil para as v\u00edtimas lidar com esta situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>S\u00e3o perce\u00e7\u00f5es diferentes\u2026<\/em><\/p>\n<p>Sim, que n\u00f3s tentamos ajudar a integrar e a perceberem que efetivamente s\u00f3 o facto de Roma ter derrogado a prescri\u00e7\u00e3o, por exemplo, j\u00e1 \u00e9 um sinal positivo: merece ser investigado, merece ser avaliado, mesmo que depois seja arquivado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00f3s sabemos que muitos abusos est\u00e3o associados aos abusos de poder. Com o trabalho feito nos \u00faltimos anos, notam-se mudan\u00e7as a este n\u00edvel?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o sei como responder a essa pergunta porque aquilo que eu sinto&#8230; as pessoas mais velhas, quando olham para tr\u00e1s, associam sempre a figura da pessoa abusadora, na maior parte sacerdotes, como algu\u00e9m divino. Portanto, quando algu\u00e9m \u00e9 endeusado, naturalmente a assimetria de poder \u00e9 muito grande.<\/p>\n<p>De facto, s\u00e3o dois patamares completamente diferentes. Eu diria que hoje, pela forma como a religi\u00e3o \u00e9 vivida, j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 esta assimetria t\u00e3o grande, mas continua sempre a haver uma assimetria de poder a partir do momento em que um \u00e9 adulto e outro \u00e9 crian\u00e7a ou jovem, ou em que um \u00e9 adulto e outro \u00e9 um adulto vulner\u00e1vel. Portanto, essa assimetria de poder existe sempre.<\/p>\n<p>Eu diria que, ao longo das d\u00e9cadas, pensando aqui um bocadinho na forma como a pr\u00f3pria religi\u00e3o tem vindo a ser integrada pelas pessoas, hoje a figura do padre j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 vista da mesma maneira como era, se calhar, h\u00e1 40 anos. Mas continua a haver sempre uma assimetria de poder e por isso \u00e9 t\u00e3o importante n\u00f3s empoderarmos as v\u00edtimas, para que de facto sintam que h\u00e1 aqui tamb\u00e9m este caminho de empoderamento e de escuta, e trabalhamos com as institui\u00e7\u00f5es eclesi\u00e1sticas &#8211; seja uma escola, seja uma par\u00f3quia, seja um agrupamento de escuteiros, etc. -, no sentido de se criarem estruturas e uma cultura de cuidado e de prote\u00e7\u00e3o, c\u00f3digos de conduta, regras de conduta que sejam trabalhadas, forma\u00e7\u00e3o para todos estes intervenientes. Portanto, \u00e9 tamb\u00e9m nesta perspetiva que \u00e9 importante, mas a assimetria de poder mant\u00e9m-se.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Das conclus\u00f5es que tamb\u00e9m v\u00e3o ser apresentadas dos tr\u00eas estudos, algumas ir\u00e3o nesse sentido. O que \u00e9 que nos pode j\u00e1 adiantar?<\/em><\/p>\n<p>Sim, n\u00f3s iniciamos h\u00e1 um ano e meio cinco estudos, tr\u00eas est\u00e3o conclu\u00eddos e v\u00e3o ser apresentados agora, e outros dois, que s\u00e3o os programas de preven\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, ser\u00e3o apresentados em maio.<\/p>\n<p>Temos aqui dois conjuntos de estudos um bocadinho diferentes. Um primeiro estudo que n\u00f3s fizemos foi tentar perceber a viv\u00eancia do celibato por parte de religiosos e religiosas.<\/p>\n<p>Tivemos uma amostra com homens e com mulheres. Uma das conclus\u00f5es desse estudo \u00e9 que, de facto, parece haver aqui um maior compromisso com o celibato e este parece ser vivido de uma forma mais satisfat\u00f3ria, quanto mais as pr\u00e1ticas espirituais s\u00e3o regulares e quanto mais h\u00e1 um compromisso com a espiritualidade. E encontramos uma diferen\u00e7a de g\u00e9nero: de acordo com a nossa amostra, que at\u00e9 n\u00e3o \u00e9 assim muito grande e, portanto, precisa de ser aprofundada em estudos futuros, parece haver mais desafios para os homens do que para as mulheres. Pronto, isto significa, primeiro que temos de perceber melhor estas diferen\u00e7as, porque \u00e9 que homens e mulheres vivem o celibato de forma diferente e d\u00e1-nos tamb\u00e9m indica\u00e7\u00e3o de que a viv\u00eancia do celibato ser\u00e1 tamb\u00e9m mais f\u00e1cil e mais integradora quanto melhor o bem-estar psicol\u00f3gico da pessoa. E, portanto, uma das sugest\u00f5es que n\u00f3s fazemos em termos de implica\u00e7\u00e3o futura deste estudo \u00e9 de que, de facto, deveria ser normalizado nos programas de forma\u00e7\u00e3o religiosa, nos semin\u00e1rios, quando as pessoas est\u00e3o a fazer esse caminho, o suporte psicol\u00f3gico ser uma componente normalizada, transversal, para que as pessoas, de facto, possam tamb\u00e9m elaborar este processo.<\/p>\n<p>Esta foi uma primeira \u00e1rea que n\u00f3s quisemos perceber. Porqu\u00ea? Porque as quest\u00f5es do celibato s\u00e3o sempre muito colocadas&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Sim, quando se fala de abusos, h\u00e1 sempre a quest\u00e3o se isso est\u00e1 ligado ou n\u00e3o ao celibato\u2026<\/em><\/p>\n<p>Exatamente. E, de facto, n\u00e3o h\u00e1 literatura que corrobore isso. Ali\u00e1s, sabemos que a maior parte das situa\u00e7\u00f5es abusivas acontecem na fam\u00edlia e n\u00e3o s\u00e3o pessoas celibat\u00e1rias. Portanto, quisemos come\u00e7ar, isto foi apenas um primeiro estudo, come\u00e7ar a estudar as quest\u00f5es do celibato.<\/p>\n<p>Depois temos dois outros estudos, deste conjunto de tr\u00eas, um com catequistas e um com professores de Educa\u00e7\u00e3o Moral e Religiosa Cat\u00f3lica, porque eles s\u00e3o, acima de tudo, os principais agentes a utilizar ou a poder utilizar recursos preventivos junto das crian\u00e7as e dos jovens. Os catequistas, com os seus grupos de catequizandos, e os professores nas escolas, sejam cat\u00f3licas ou p\u00fablicas, enfim, mas est\u00e3o l\u00e1 professores de EMRC. E quisemos perceber como \u00e9 que estes dois grupos se sentem perante este fen\u00f3meno, perante esta problem\u00e1tica, que compet\u00eancia \u00e9 que acham que t\u00eam ou n\u00e3o para a trabalhar, se j\u00e1 o fazem, se n\u00e3o o fazem, que tipo de cren\u00e7as \u00e9 que t\u00eam que podem facilitar ou dificultar a aplica\u00e7\u00e3o de programas de preven\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas do que nos disse ainda h\u00e1 pouco, houve desde muito cedo uma disponibilidade de participar nesta din\u00e2mica\u2026<\/em><\/p>\n<p>Foi desde logo, sim, aqui temos amostras grandes, porque temos aqui uma disponibilidade muito grande por parte destes dois grupos-alvo. O que \u00e9 que n\u00f3s percebemos com estes estudos? Que, de facto, os professores de EMRC sentem-se mais confort\u00e1veis do que os catequistas a abordar este tema, que j\u00e1 o v\u00e3o fazendo, de alguma forma, apesar de muito pontual, porque aconteceu uma not\u00edcia, ou porque algu\u00e9m faz um coment\u00e1rio na aula, portanto, n\u00e3o h\u00e1 um trabalho di\u00e1rio. Sentem que, havendo um programa, havendo um recurso, facilmente o podem integrar no seu trabalho di\u00e1rio, sentem essa necessidade. Naturalmente, encontramos tamb\u00e9m alguns mitos, algumas cren\u00e7as disfuncionais, mas isso tamb\u00e9m n\u00e3o estranhamos que as existam, porque elas s\u00e3o transversais \u00e0 nossa sociedade, n\u00e3o \u00e9? Mas sentimos que h\u00e1 uma maior disponibilidade e para os professores parece que \u00e9 mais f\u00e1cil integrar isto. Os catequistas sentem-se menos \u00e0 vontade, ou seja, reconhecem que sabem pouco sobre o tema, precisam claramente de mais forma\u00e7\u00e3o, t\u00eam mais dificuldade em perceber como \u00e9 que podem integrar os temas da preven\u00e7\u00e3o com os temas do catecismo, e queixam-se tamb\u00e9m de alguma falta de tempo. Por isso, sugerem sempre, o que faz todo sentido, que a preven\u00e7\u00e3o tem de ser sist\u00e9mica, tem de ser abrangente, n\u00e3o pode ser s\u00f3 na catequese ou na aula de Educa\u00e7\u00e3o Moral, tem de ser com a fam\u00edlia, tem de ser na pr\u00f3pria escola, no pr\u00f3prio contexto onde as crian\u00e7as est\u00e3o. Portanto, no fundo, estes dois estudos v\u00eam-nos dizer que \u00e9 preciso continuar a investir na forma\u00e7\u00e3o destas pessoas para se sentirem mais competentes, mais capazes, para poderem depois utilizar os recursos que estamos a produzir. Os outros dois estudos que ser\u00e3o apresentados em mais, s\u00e3o os dois programas de preven\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, um para crian\u00e7as dos 6 aos 9 anos e outro para crian\u00e7as jovens dos 10 aos 14, que \u00e9 um jogo digital. Aquilo que os professores e os catequistas nos dizem \u00e9 que \u201c\u00e9 \u00f3timo que haja recursos, porque eu \u00e0s vezes quero abordar o tema e n\u00e3o sei como\u201d.<\/p>\n<p>\u00c0s vezes tamb\u00e9m surge, e surgiram nestes dois estudos com professores e catequistas, um bocadinho uma ideia errada do que \u00e9 que \u00e9 preven\u00e7\u00e3o. E confunde-se a preven\u00e7\u00e3o com duas ideias, que \u00e9 com a ideologia de g\u00e9nero e com a ideia de que se vai falar de sexo para as crian\u00e7as e se vai falar com uma linguagem sexualmente expl\u00edcita.<\/p>\n<p>Estas duas ideias est\u00e3o erradas, portanto falar de preven\u00e7\u00e3o \u00e9 falar da promo\u00e7\u00e3o de comportamentos saud\u00e1veis, de rela\u00e7\u00f5es saud\u00e1veis com os outros, \u00e9 falar de aprender a diferen\u00e7a entre segredos seguros e inseguros, aprender a pedir ajuda, aprender que n\u00e3o tem de obedecer sempre ao adulto s\u00f3 porque \u00e9 um adulto ou s\u00f3 porque \u00e9 uma figura de autoridade, aprender, no fundo, a proteger aquele que \u00e9 o maior tesouro, que \u00e9 o corpo. Isto naturalmente com materiais l\u00fadicos, que est\u00e3o a ser vistos por pessoas da Igreja, que n\u00f3s chamamos os embaixadores, que est\u00e3o a rever estes materiais e, portanto, quando apresentarmos estes materiais em maio para crian\u00e7as de 1.\u00ba ciclo e para 10-14 anos, ser\u00e3o materiais ajustados \u00e0 idade, com uma linguagem adequada \u00e0 idade. H\u00e1 aqui este contexto da Igreja, que \u201cembrulha\u201destes materiais, mas no fundo os grandes temas s\u00e3o os temas que a literatura nos diz, j\u00e1 h\u00e1 mais de 60 anos, que devem ser trabalhados com as crian\u00e7as e que, de facto, n\u00e3o causam estresse, n\u00e3o causam alarmismo, n\u00e3o causam ansiedade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Queria confront\u00e1-la com declara\u00e7\u00f5es de h\u00e1 pouco tempo da presidente da Comiss\u00e3o Nacional da Promo\u00e7\u00e3o dos Direitos e Prote\u00e7\u00e3o das Crian\u00e7as e Jovens, que admitiu que nada se fez relativamente ao estudo que o governo anterior, do PS, tinha prometido sobre abusos nos diferentes contextos de socializa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as. N\u00e3o h\u00e1 vontade de estudar aprofundadamente este flagelo social?<\/em><\/p>\n<p>Pois, \u00e9 verdade, nada se fez e esse estudo n\u00e3o foi feito. N\u00f3s pr\u00f3prios tamb\u00e9m j\u00e1 o dissemos, em v\u00e1rios quadrantes, que era preciso fazer na sociedade civil aquilo que est\u00e1 a ser feito na Igreja, perceber os abusos intrafamiliares, extrafamiliares, nas escolas, no mundo online, no desporto, ou seja, temos todo um conjunto de contextos onde os abusos acontecem. N\u00e3o temos, em Portugal, um verdadeiro estudo de preval\u00eancia, o que n\u00f3s temos s\u00e3o os novos casos que todos os anos v\u00e3o sendo conhecidos, com a casu\u00edstica que vai sendo partilhada pela Pol\u00edcia Judici\u00e1ria. Eu n\u00e3o sei se n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de vontade ou n\u00e3o, mas o que posso dizer \u00e9 que, e isso tamb\u00e9m \u00e9 p\u00fablico, recentemente houve uma disponibiliza\u00e7\u00e3o do Ministro da Educa\u00e7\u00e3o, da parte da pr\u00f3pria DGE, para pensar sobre isto.<\/p>\n<p>Acho que n\u00e3o me compete a mim dizer se h\u00e1 ou n\u00e3o vontade pol\u00edtica, eu diria que \u00e9 importante repensar as estrat\u00e9gias pol\u00edticas a este n\u00edvel. Por exemplo, est\u00e1 agora a acabar a estrat\u00e9gia de promo\u00e7\u00e3o dos Direitos da Crian\u00e7a: \u00a0o que \u00e9 que foi feito em concreto, que medidas \u00e9 que foram operacionalizadas? \u00c0s vezes est\u00e1 tudo muito bem definido na lei, as diretrizes s\u00e3o muito claras, a legisla\u00e7\u00e3o est\u00e1 bem pensada, mas depois, de facto, n\u00e3o \u00e9 operacionalizado. Eu concordo que, de facto, o estudo j\u00e1 deveria ter sido feito h\u00e1 muito tempo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Grupo Vita vai apresentar a 21 de janeiro o seu terceiro relat\u00f3rio de atividades. Este grupo de acompanhamento das situa\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia sexual de crian\u00e7as e adultos vulner\u00e1veis, no contexto da Igreja Cat\u00f3lica portuguesa, divulga ainda tr\u00eas estudos de investiga\u00e7\u00e3o. Rute Agulhas, coordenadora do Vita, \u00e9 convidada da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia ECCLESIA<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":309918,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[94],"class_list":["post-357303","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-protecao-de-menores"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/357303","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=357303"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/357303\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/309918"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=357303"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=357303"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=357303"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}