{"id":356507,"date":"2025-01-12T09:31:31","date_gmt":"2025-01-12T09:31:31","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=356507"},"modified":"2025-01-10T12:23:46","modified_gmt":"2025-01-10T12:23:46","slug":"igreja-cultura-cantico-das-criaturas-e-o-canto-do-espanto-e-o-poema-do-espanto-do-maravilhamento-perante-todos-os-seres-frei-herminio-araujo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/igreja-cultura-cantico-das-criaturas-e-o-canto-do-espanto-e-o-poema-do-espanto-do-maravilhamento-perante-todos-os-seres-frei-herminio-araujo\/","title":{"rendered":"Igreja\/Cultura: \u00abC\u00e2ntico das Criaturas \u00e9 o canto do espanto, \u00e9 o poema do espanto, do maravilhamento perante todos os seres\u00bb &#8211; Frei Herm\u00ednio Ara\u00fajo"},"content":{"rendered":"<p><em>Em 2025, os Franciscanos celebram os 800 anos do C\u00e2ntico das Criaturas, composto por S\u00e3o Francisco de Assis antes da sua morte. O ano jubilar franciscano iniciou-se a 11 de janeiro e conta com v\u00e1rias iniciativas em Portugal. Este \u00e9 o tema da nossa conversa com o Frei Herm\u00ednio Ara\u00fajo, religioso da Ordem dos Frades Menores, o convidado desta semana da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_356470\" aria-describedby=\"caption-attachment-356470\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/IMG_20250108_113302_edit_16216889027581.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-356470 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/IMG_20250108_113302_edit_16216889027581.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1279\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/IMG_20250108_113302_edit_16216889027581.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/IMG_20250108_113302_edit_16216889027581-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/IMG_20250108_113302_edit_16216889027581-1024x682.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/IMG_20250108_113302_edit_16216889027581-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/IMG_20250108_113302_edit_16216889027581-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2025\/01\/IMG_20250108_113302_edit_16216889027581-1536x1023.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-356470\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/OC<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>LAUDATO SI\u2019, mi\u2019 Signore \u2013 Louvado sejas, meu Senhor\u00bb, cantava S\u00e3o Francisco de Assis. \u00abLouvado sejas, meu Senhor, pela nossa irm\u00e3, a m\u00e3e terra, que nos sustenta e governa e produz variados frutos com flores coloridas e verduras\u00bb. \u00c9 assim que come\u00e7a a enc\u00edclica \u2018Laudato Si\u2019 (2015), do Papa Francisco. \u00c9 uma prova de que este C\u00e2ntico das Criaturas mant\u00e9m a sua atualidade, oito s\u00e9culos depois?<\/em><\/p>\n<p>Sim, realmente mant\u00e9m a atualidade, desde logo pelos temas, pelas problem\u00e1ticas que a\u00ed s\u00e3o abordadas, quer nesta enc\u00edclica, quer depois em muitos outros textos, nomeadamente a \u2018Fratelli Tutti\u2019, mas tamb\u00e9m outras interven\u00e7\u00f5es que s\u00e3o simbolicamente muito significativas do Papa Francisco, onde ele vai evidenciando as diversas problem\u00e1ticas, a partir dos temas, podemos assim dizer, que v\u00e3o aparecendo no C\u00e2ntico.<\/p>\n<p>Esse \u00e9 um dos t\u00f3picos, um dos pontos da nossa conversa, mas diria que h\u00e1 algo que vale a pena tamb\u00e9m e que sugiro que depois possamos ir focando, que \u00e9 o que est\u00e1 na base disso tudo, que eu diria de uma forma simples, para todos entenderem, que \u00e9 a dimens\u00e3o po\u00e9tica da experi\u00eancia de Francisco, consolidada precisamente no poema, porque o C\u00e2ntico \u00e9 um poema.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 uma ideia de que o C\u00e2ntico \u00e9 uma esp\u00e9cie de uma ode \u00e0 natureza, mas ele \u00e9 de facto um espanto perante a exist\u00eancia e tudo o que nos rodeia\u2026<\/em><\/p>\n<p>Exatamente. Diria logo assim, para in\u00edcio de conversa, que \u00e9 preciso ter muito cuidado para n\u00e3o ler o C\u00e2ntico apenas como uma esp\u00e9cie de manifesto de sustentabilidade ou de manifesto ecol\u00f3gico &#8211; tamb\u00e9m tem essa vertente, sem d\u00favida, n\u00e3o quero desvalorizar esse aspeto que tanto entusiasma as pessoas, crentes e n\u00e3o crentes mesmo, as diferentes sensibilidades religiosas, as diferentes comunidades religiosas, mesmo os n\u00e3o crentes, por ser realmente, podemos dizer, um manifesto, mas n\u00e3o podemos ler apenas nessa perspetiva: os temas, as problem\u00e1ticas que v\u00e3o aparecendo no C\u00e2ntico, esta preocupa\u00e7\u00e3o de Francisco de incluir tudo, sem deixar nada de fora.<\/p>\n<p>Importa sobretudo fazer uma segunda leitura, a atualidade po\u00e9tica do C\u00e2ntico das Criaturas. N\u00e3o apenas at\u00e9 deste C\u00e2ntico, porque est\u00e1 inserido numa obra po\u00e9tica de Francisco: S\u00e3o Francisco legou-nos uma regra, um conjunto de textos legislativos que fazem a ordem e a fam\u00edlia franciscana, um corpo doutrinal, sobretudo doutrina espiritual, um conjunto de exorta\u00e7\u00f5es, de cartas que s\u00e3o textos muito interessantes; e legou-nos uma obra po\u00e9tica. Nem sempre isto \u00e9 evidenciado, e aqueles que mais conhecemos, que mais vamos falando de Francisco, ou mesmo os franciscan\u00f3filos, focamos muito o C\u00e2ntico das Criaturas, sobretudo nestes \u00faltimos s\u00e9culos, mas h\u00e1 um conjunto de outros textos, po\u00e9ticos \u2013 a maior parte dizemos que s\u00e3o ora\u00e7\u00f5es, mas t\u00eam toda esta carga muito forte po\u00e9tica -, inclusivamente um c\u00e9lebre poema, \u2018Os Louvores a Deus\u2019, que nasce no contexto do Monte Alverne, da estigmatiza\u00e7\u00e3o. Est\u00e1 muito em linha com o C\u00e2ntico das Criaturas e serve de chave de leitura do C\u00e2ntico &#8211; no in\u00edcio foi dito que o escreveu pouco antes da morte, e eu sublinhava, at\u00e9 para percebermos este fundo do C\u00e2ntico das Criaturas, num contexto pouco antes da morte. A primeira fase da reda\u00e7\u00e3o foi em 1225, por isso \u00e9 que estamos a saber aos 800 anos, e as \u00faltimas estrofes foi j\u00e1 na proximidade da morte \u2013 S\u00e3o Francisco morreu no dia 3 de outubro de 1226. Eu diria que foi escrito num contexto de sofrimento, de enfermidade, ali\u00e1s, no C\u00f3dice mais antigo, o 338 de Assis, o copista tem o cuidado de dizer exatamente isto: este \u00e9 o C\u00e2ntico das Criaturas, Os Louvores das Criaturas, que o bem-aventurado Francisco comp\u00f4s quando estava enfermo, em S\u00e3o Dami\u00e3o.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Esta mensagem de admira\u00e7\u00e3o pela natureza, tem conseguido ultrapassar as barreiras da Igreja Cat\u00f3lica. Isso tamb\u00e9m ajuda a explicar o sucesso, digamos assim, a figura de S\u00e3o Francisco de Assis?<\/em><\/p>\n<p>Sem d\u00favida. Esta atitude contemplativa, que \u00e9 uma experi\u00eancia espiritual de crentes e n\u00e3o crentes, inspira muit\u00edssimo as mais diversas express\u00f5es art\u00edsticas. \u00c9 a admira\u00e7\u00e3o, o espanto, esta atitude\u2026 por isso \u00e9 que o Papa Francisco, a certa altura na enc\u00edclica \u2018Laudato si\u2019 diz que o mundo n\u00e3o \u00e9 apenas um conjunto de problemas a resolver, \u00e9 uma realidade para admirar, contemplar na alegria e no louvor, por isso at\u00e9 este refr\u00e3o \u2018Laudato si\u2019. Tem a ver exatamente com esta atitude de admira\u00e7\u00e3o, de espanto, o C\u00e2ntico das Criaturas \u00e9 o canto do espanto, \u00e9 o poema do espanto, do maravilhamento perante todos os seres, \u00e9 o c\u00e2ntico dos seres unidos ao Ser supremo, ao Alt\u00edssimo, como ele diz &#8211; \u00e9 a primeira palavra-, que revela esta atitude de profunda admira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Olhando para o texto vemos, como j\u00e1 disse, uma grande obra po\u00e9tica da l\u00edngua italiana, al\u00e9m de ser um s\u00edmbolo da prote\u00e7\u00e3o da cria\u00e7\u00e3o. \u00c9 preciso superar uma leitura algo ing\u00e9nua, de S\u00e3o Francisco, e aprender a ler em profundidade tamb\u00e9m a sua mensagem\u2026<\/em><\/p>\n<p>Exatamente, e eu at\u00e9 pegava nisto com exemplos. Quando ele diz \u2018louvado sejas Senhor pela irm\u00e3 \u00e1gua\u2019, se eu vou dizer isto num contexto de uma cat\u00e1strofe natural, em que acabam de morrer pessoas e vidas destru\u00eddas e tudo de destrui\u00e7\u00e3o\u2026 eu n\u00e3o posso dizer \u2018louvado sejas Senhor pela irm\u00e3 \u00e1gua\u2019. Num contexto, por exemplo, de um fogo, \u2018louvado sejas Senhor pelo irm\u00e3o fogo\u2019\u2026 ou uma m\u00e3e que acaba de perder um filho num acidente de via\u00e7\u00e3o, \u2018louvado sejas Senhor pela nossa irm\u00e3 a morte corporal\u2019. O que \u00e9 que isto significa? N\u00e3o \u00e9 a realidade em si, mas aquilo que ela significa, aquilo que ela representa. Por isso \u00e9 que, se fazemos uma primeira leitura algo ing\u00e9nua, n\u00f3s dizemos que isto pouco interessa, \u00e9 uma coisa quase para ler e deitar fora. N\u00e3o! Francisco diz logo no princ\u00edpio, a prop\u00f3sito do sol, que \u00e9 a significa\u00e7\u00e3o do Alt\u00edssimo, \u00e9 s\u00edmbolo do Alt\u00edssimo, mas n\u00e3o \u00e9 apenas o sol, o irm\u00e3o sol, \u00e9 toda a realidade, todas as realidades que s\u00e3o ali inclu\u00eddas, como s\u00edmbolo.<\/p>\n<p>Podemos olhar para todas as realidades da vida em muitas perspetivas, a partir do Alt\u00edssimo ou a partir s\u00f3 de uma realidade mais parcial. Como diz a Sophia, uma realidade inteira, este \u00e9 um ponto essencial para mim na leitura do C\u00e2ntico: a poesia \u00e9 uma via que nos conduz \u00e0 realidade inteira, como diz Sophia, \u00e0 realidade toda, e n\u00e3o a realidades parciais. Por isso \u00e9 que o texto, a sua atualidade po\u00e9tica, \u00e9 t\u00e3o significativa.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Funciona como elemento unificador de uma realidade muito dispersa?<\/em><\/p>\n<p>Exatamente, queiramos ou n\u00e3o, n\u00f3s vivemos numa cultura muito fragmentada. Gosto muito de ler e de reler, por exemplo, Edgar Morin, naquela metodologia que ele prop\u00f5e sempre da transdisciplinaridade, que no fundo consiste em reunir as diversas partes de verdade, de realidade, na aproxima\u00e7\u00e3o, reunir conhecimentos, perceber que numa realidade fragmentada tem de haver este esfor\u00e7o de aproxima\u00e7\u00e3o para uma verdade cada vez mais total e mais plena.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 uma marca cultural e espiritual do c\u00e2ntico das criaturas que se tem vindo a cimentar ao longo dos s\u00e9culos. \u00c9 tamb\u00e9m um desafio para a cria\u00e7\u00e3o art\u00edstica nos dias de hoje?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9, porque esta originalidade de Francisco parte muito da sua experi\u00eancia de profunda liberdade perante Deus, perante tudo, perante todos, desencadeia esta atitude tamb\u00e9m do artista, sempre este fundo po\u00e9tico, porque a poesia \u00e9 liberdade. A poesia \u00e9 abertura ao essencial, e \u00e9 muito interessante, toda a produ\u00e7\u00e3o art\u00edstica, de todos os tempos, e concretamente na contemporaneidade, h\u00e1 quase como uma necessidade de valorizarmos cada vez mais isso, face \u00e0 realidade. N\u00f3s vivemos extremismos complicados, radicalismos complexos, ideologias, e esta liga\u00e7\u00e3o \u00e0 express\u00e3o art\u00edstica \u00e9 algo de muito significativo e provocador at\u00e9 para os artistas dos nossos dias, face a uma cultura t\u00e3o polarizada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Historicamente tivemos posi\u00e7\u00f5es teol\u00f3gicas que subjugavam a natureza \u00e0 vontade do ser humano \u2013 defendendo que a natureza existe para ser explorada pelo ser humano, como a criatura superior, sem a vis\u00e3o positiva de todas as criaturas do C\u00e2ntico. Isto \u00e9 algo que o Papa retoma na \u2018Laudato si\u2019: \u00e9 um ensinamento para uma sociedade marcada por esta explora\u00e7\u00e3o dos recursos e pelos nossos excessos de consumo?<\/em><\/p>\n<p>Eu diria que a base de tudo isto, da experi\u00eancia de Francisco e na rela\u00e7\u00e3o com a atualidade, e tendo presente leituras que s\u00e3o pouco consistentes, incluindo do texto b\u00edblico, o que eu sublinharia, sobretudo, \u00e9 este aspeto de Francisco de viver desapropriado, \u201csem pr\u00f3prio\u201d.<\/p>\n<p>Onde \u00e9 que est\u00e3o as fontes no fundo do C\u00e2ntico das Criaturas? Ele inspirou-se na B\u00edblia, naturalmente, no texto de B\u00edblia, nos Salmos, etc., mas inspirou-se, n\u00e3o nos podemos esquecer disso, na poesia trovadoresca, nos trovadores e dos jograis do sul da Fran\u00e7a, que n\u00f3s conhecemos tamb\u00e9m, e at\u00e9 aprendemos no Liceu a poesia do s\u00e9culo XII, s\u00e9culo XIII. Tamb\u00e9m isto influenciou a It\u00e1lia, a zona de Francisco, concretamente, a \u00dambria, onde ele, ao ler, ao contactar com os textos dos trovadores, percebe que \u00e9 poss\u00edvel amar sem possuir.<\/p>\n<p>Os c\u00e9lebres c\u00e2nticos do amor imposs\u00edvel, do amor long\u00ednquo, etc., portanto, \u00e9 poss\u00edvel amar sem se apropriar, amar sem possuir.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas esse \u00e9 o tipo de rela\u00e7\u00e3o que teologicamente hoje \u00e9 proposta, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 natureza, por exemplo\u2026<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 poss\u00edvel amar sem possuir. Por isso \u00e9 que o Papa coloca como grande linha inspiradora da \u2018Laudato si\u2019, precisamente, este texto de Francisco. \u00c9 poss\u00edvel amar sem possuir. \u00c9 poss\u00edvel amar sem destruir. \u00c9 poss\u00edvel amar sem se apropriar.<\/p>\n<p>\u00c9 muito bonito, Francisco usa o termo pobreza, mas o termo mais original dele at\u00e9 nem \u00e9 propriamente pobreza. N\u00f3s professamos a obedi\u00eancia, a castidade e \u201csem pr\u00f3prio\u201d (<em>sine proprio<\/em>), sem nos apropriarmos. \u00c9 uma forma muito espec\u00edfica de Francisco de Assis dizer a pobreza. Inspirando-se, portanto, nesta tradi\u00e7\u00e3o, quer b\u00edblica, quer da poesia trovadoresca.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>E n\u00e3o subjugar a natureza \u00e0 vontade de ser humano\u2026 <\/em><\/p>\n<p>Exatamente.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>S\u00e3o muitos os receios sobre a forma como os Estados Unidos da Am\u00e9rica se ir\u00e3o posicionar em rela\u00e7\u00e3o, por exemplo, \u00e0 quest\u00e3o das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas. Donald Trump toma posse j\u00e1 no dia 20 de janeiro. Os tratados e os acordos de defesa do ambiente correm s\u00e9rios riscos. H\u00e1 raz\u00f5es para temer para o futuro, frei Herm\u00ednio?<\/em><\/p>\n<p>Eu acho que h\u00e1 raz\u00f5es para temer em rela\u00e7\u00e3o ao futuro, sim. Claro que uma coisa \u00e9 o otimismo e outra coisa \u00e9 a esperan\u00e7a. H\u00e1 raz\u00f5es at\u00e9 para sermos algo pessimistas. Agora, vistas todas estas coisas numa perspetiva mais abrangente, h\u00e1 avan\u00e7os e recursos, certamente. Francisco tem esta proposta, h\u00e1 vis\u00f5es pouco em sintonia com esta proposta, sim. Mas fica sempre, de facto, esta mensagem. \u00c9 sempre uma semente de esperan\u00e7a que podemos ir lan\u00e7ando com este C\u00e2ntico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas esta vis\u00e3o de Trump aproxima-se de forma substancial desta posi\u00e7\u00e3o da subjuga\u00e7\u00e3o da natureza \u00e0 vontade do ser humano?<\/em><\/p>\n<p>Sim, sim. Ali\u00e1s, a gente conhece alguma fundamenta\u00e7\u00e3o, mesmo antropol\u00f3gica, cultural, religiosa. H\u00e1 vis\u00f5es religiosas nada em sintonia com esta vis\u00e3o, podemos dizer, teol\u00f3gica de Francisco e do Papa Francisco.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Falava h\u00e1 pouco da \u2018Fratelli Tutti\u2019. Num mundo marcado pela tecnologia, esta descoberta tamb\u00e9m do outro como irm\u00e3o \u00e9 uma mensagem central?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 uma mensagem central e tamb\u00e9m do C\u00e2ntico das Criaturas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Porque se fala sempre em irm\u00e3o, irm\u00e3&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Exatamente. A \u2018Laudato si\u2019 toca um aspeto do C\u00e2ntico, mas a \u2018Fratelli Tutti\u2019 vem completar muitas outras coisas que tamb\u00e9m est\u00e3o l\u00e1, nomeadamente o ser humano, porque se na primeira parte da interven\u00e7\u00e3o do Papa Francisco, com a \u2018Laudato si\u2019 \u00e9 toda a parte inicial, digamos assim, o cuidado da casa comum, a \u2018Fratelli Tutti\u2019 \u00e9 o cuidado do ser humano, a fraternidade humana, nas mais diversas dimens\u00f5es.<\/p>\n<p>Ali\u00e1s, \u00e9 um documento muito pr\u00f3ximo da declara\u00e7\u00e3o de Abu Dhabi, aquela c\u00e9lebre carta da fraternidade, que \u00e9 inclu\u00edda depois tamb\u00e9m na \u2018Fratelli Tutti\u2019. A declara\u00e7\u00e3o de Abu Dhabi \u00e9 quase um compromisso, digamos assim, inter-religioso pela fraternidade, em favor da fraternidade entre cat\u00f3licos e os mu\u00e7ulmanos. E h\u00e1 um outro texto tamb\u00e9m que eu gostava neste contexto de evidenciar, que \u00e9 o discurso do Papa Francisco em Ur em 2021, aquando da visita ao Iraque. Ur \u00e9 a p\u00e1tria de Abra\u00e3o, na Mesopot\u00e2mia. O Papa disse que, tal como o Abra\u00e3o, n\u00f3s temos de nos deixar interpelar pela sua atitude, olhar para o c\u00e9u, contemplar as estrelas, para caminhar de uma forma mais consistente sobre a terra. Isto \u00e9 muito significativo, porque n\u00f3s n\u00e3o podemos falar de irm\u00e3os sem pai. E vem sublinhar um aspeto, por exemplo, no \u00faltimo cap\u00edtulo da Fratelli Tutti, em que j\u00e1 se aborda a quest\u00e3o da transcend\u00eancia, da experi\u00eancia da transcend\u00eancia, na rela\u00e7\u00e3o com a fraternidade. Esta dial\u00e9tica, podemos assim dizer, entre transcend\u00eancia e iman\u00eancia, a experi\u00eancia da paternidade a Deus e da fraternidade humana.<\/p>\n<p>Nesse contexto, nesse discurso de Ur, o Papa Francisco vem sublinhar e consolidar, digamos assim, todo este pensamento, quer da \u2018Fratelli Tutti\u2019, quer da \u2018Laudato si\u2019.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Como \u00e9 que vai ser assinalado este ano jubilar dos franciscanos em Portugal, at\u00e9 no contexto do Ano Santo, que a Igreja Cat\u00f3lica est\u00e1 a viver a n\u00edvel mundial?<\/em><\/p>\n<p>Sim, a partir da fam\u00edlia franciscana, n\u00f3s podemos dizer que este duplo jubileu, e de uma forma muito bonita, o C\u00e2ntico das Criaturas \u00e9 o grande c\u00e2ntico da esperan\u00e7a. Ajuda-nos de uma forma muito situada, e para quem quiser, quer ao n\u00edvel da fam\u00edlia franciscana, mas quem quiser connosco fazer esta caminhada do ano jubilar, que \u00e9 tamb\u00e9m de esperan\u00e7a, com as diversas atividades que temos, as diversas propostas que vamos fazendo.<\/p>\n<p>Eu sublinhava, por exemplo, uma iniciativa em Lisboa, no Centro Cultural Franciscano: a abertura vai ser com o padre Jo\u00e3o Louren\u00e7o, no dia 23 de janeiro, acerca do poema da cria\u00e7\u00e3o no C\u00e2ntico das Criaturas; no dia 20 de fevereiro, a cria\u00e7\u00e3o na tradi\u00e7\u00e3o hebraica e isl\u00e2mica, com a Miriam Assor e Kalid Jamal. Isto \u00e9 um exemplo, entre muitas outras coisas que n\u00f3s vamos procurar promover.<\/p>\n<p>Gostava de sublinhar, quase desafiar a todos os que nos ouvem: celebrar este ano, no dia 21 de mar\u00e7o, Dia Mundial da Poesia. A nossa proposta \u00e9 fazer com que o C\u00e2ntico das Criaturas, o texto, chegue ao maior n\u00famero de pessoas poss\u00edvel. \u00c9 uma das iniciativas concretamente, mas entre muitas outras que estamos a pensar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Como \u00e9 que est\u00e3o a pensar fazer isso? Fazer chegar a toda a gente? <\/em><\/p>\n<p>Das mais diversas formas, procurando aliados aqui e ali, desde declam\u00e1-lo na rua, at\u00e9, no sistema mais tradicional, passar uma esp\u00e9cie de pagela de uns aos outros, pelas redes sociais, fazer com que nas diversas redes v\u00e1 aparecendo nesses dias, aqui e ali, sistematicamente, o texto do C\u00e2ntico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A pen\u00faltima estrofe do C\u00e2ntico das Criaturas exalta o perd\u00e3o e a paz &#8211; ali\u00e1s, diz-se mesmo que ter\u00e1 conseguido impedir uma guerra civil &#8211; e parece ganhar cada vez mais atualidade, infelizmente, olhando para a realidade que nos rodeia. Esta mensagem de Francisco de Assis, deve chegar a quem tem o poder de travar as guerras?<\/em><\/p>\n<p>Deve chegar, sim, claro. Eu diria, utilizando palavras de Edgar Morin, que h\u00e1 pouco j\u00e1 referi, ele diz que \u201ca invas\u00e3o da hiperprosa cria, em meu entender, a necessidade de uma hiperpoesia\u201d. H\u00e1 esta linguagem de invas\u00e3o, desta hiperprosa, desta narrativa de guerra. Queremos chegar ao maior n\u00famero de pessoas, sensibilizar a partir do C\u00e2ntico das Criaturas, nesta hiperpoesia, nesta din\u00e2mica de um outro olhar para a realidade. \u00c9 claro que no tempo de Francisco havia guerras, entretanto, tivemos guerras terr\u00edveis, o s\u00e9culo XX foi um s\u00e9culo de guerras e agora as guerras continuam. H\u00e1 esta dial\u00e9tica entre a l\u00f3gica do mundo do C\u00e2ntico das Criaturas, o mundo de Francisco e do C\u00e2ntico das Criaturas, e o mundo da guerra, mas, persistentemente, esta mensagem de paz \u00e9 uma possibilidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Seria uma boa sugest\u00e3o de leitura, frei Herm\u00ednio, do C\u00e2ntico das Criaturas por parte dos l\u00edderes mundiais?<\/em><\/p>\n<p>Sem d\u00favida nenhuma. Dos l\u00edderes e de todos aqueles que, como n\u00f3s, querem fazer com que esta mensagem v\u00e1 passando cada vez mais e mais.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em 2025, os Franciscanos celebram os 800 anos do C\u00e2ntico das Criaturas, composto por S\u00e3o Francisco de Assis antes da sua morte. O ano jubilar franciscano iniciou-se a 11 de janeiro e conta com v\u00e1rias iniciativas em Portugal. Este \u00e9 o tema da nossa conversa com o Frei Herm\u00ednio Ara\u00fajo, religioso da Ordem dos Frades [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":356470,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[213],"class_list":["post-356507","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-franciscanos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/356507","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=356507"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/356507\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/356470"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=356507"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=356507"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=356507"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}