{"id":354081,"date":"2024-12-22T12:38:36","date_gmt":"2024-12-22T12:38:36","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=354081"},"modified":"2024-12-22T21:02:55","modified_gmt":"2024-12-22T21:02:55","slug":"entrevista-a-partir-da-luz-que-irradia-do-presepio-de-belem-sejamos-capazes-de-dizer-nao-ha-guerra-patriarca-de-lisboa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/entrevista-a-partir-da-luz-que-irradia-do-presepio-de-belem-sejamos-capazes-de-dizer-nao-ha-guerra-patriarca-de-lisboa\/","title":{"rendered":"Entrevista: \u00abA partir da luz que irradia do Pres\u00e9pio de Bel\u00e9m, sejamos capazes de dizer n\u00e3o h\u00e1 guerra\u00bb &#8211; Patriarca de Lisboa (c\/ v\u00eddeo)"},"content":{"rendered":"<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia ECCLESIA, D. Rui Val\u00e9rio analisa a atualidade, refere-se aos imigrantes como uma oportunidade, fala das greves e de direitos \u00abde terceiros\u00bb, afirma que os valores do 25 de abril s\u00e3o os do 25 de novembro e a aponta a uma esperan\u00e7a que implique \u00abempenho na hist\u00f3ria\u00bb<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<div class=\"epyt-video-wrapper\"><iframe  id=\"_ytid_65658\"  width=\"480\" height=\"270\"  data-origwidth=\"480\" data-origheight=\"270\" src=\"https:\/\/www.youtube.com\/embed\/l4SZevA3n9A?enablejsapi=1&#038;autoplay=0&#038;cc_load_policy=0&#038;cc_lang_pref=pt&#038;iv_load_policy=1&#038;loop=0&#038;rel=0&#038;fs=1&#038;playsinline=1&#038;autohide=2&#038;theme=dark&#038;color=red&#038;controls=1&#038;disablekb=0&#038;\" class=\"__youtube_prefs__  epyt-is-override  no-lazyload\" title=\"YouTube player\"  allow=\"fullscreen; accelerometer; autoplay; clipboard-write; encrypted-media; gyroscope; picture-in-picture; web-share\" referrerpolicy=\"strict-origin-when-cross-origin\" allowfullscreen data-no-lazy=\"1\" data-skipgform_ajax_framebjll=\"\"><\/iframe><\/div>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Paulo Rocha<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Tem a equipa episcopal, o n\u00famero de bispos auxiliares que pretendia. Est\u00e1 formada a equipa para o trabalho agora em todas as frentes? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 um dos sinais da esperan\u00e7a que n\u00f3s temos a apresentar e uma das raz\u00f5es do nosso louvor e agradecimento ao Senhor: finalmente, a equipa est\u00e1 constitu\u00edda, est\u00e1 formada e, portanto, devemos agradecer, antes de mais, a Deus o nosso Senhor, mas tamb\u00e9m ao Papa Francisco, que teve essa aten\u00e7\u00e3o para com Lisboa, n\u00e3o vou dizer num curto, mas num relativamente curto espa\u00e7o de tempo: ter atendido \u00e0 necessidade e \u00e0 urg\u00eancia de ter uma equipa episcopal formada.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>O D. Rui deixa a Diocese das For\u00e7as Armadas e For\u00e7as de Seguran\u00e7a. Um trabalho que lhe era, particularmente pr\u00f3ximo&#8230;<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 verdade! Trabalhar nas For\u00e7as Armadas e nas For\u00e7as de Seguran\u00e7a \u00e9 um desafio permanente e, nessa medida, \u00e9 fascinante. Consegue ser muito hol\u00edstico, um trabalho muito hol\u00edstico, no sentido em que tem momentos muito acutilantes do ponto de vista lit\u00fargico, como celebra\u00e7\u00f5es, para assinalar os momentos liturgicamente significativos, depois era tamb\u00e9m um espa\u00e7o em que pod\u00edamos ir ao encontro dos militares nas opera\u00e7\u00f5es, tanto no territ\u00f3rio nacional como nas For\u00e7as Nacionais Destacadas, ou ent\u00e3o, por vezes, visitar militares que estavam a bordo de um navio. Ou seja, \u00e9 um trabalho que \u00e9 caracterizado por uma diversidade tal que acaba por ser uma fonte de fasc\u00ednio para todos n\u00f3s.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>\u00c9 uma das fronteiras de que fala o Papa Francisco?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Sem d\u00favida que \u00e9. At\u00e9 porque, nas For\u00e7as Armadas, n\u00f3s encontramos um microcosmos da sociedade no seu todo. E, nessa medida, a a\u00e7\u00e3o pastoral castrense \u00e9 uma pastoral aberta.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Aberta porque, permanentemente, o sacerdote, portanto o pastor, \u00e9 convidado, interpelado, desafiado a ir ao encontro para fazer caminho juntos. A ir ao encontro com disponibilidade para atender \u00e0quilo que o outro tem na sua riqueza, na sua identidade, na sua multiformidade constitutiva da sua personalidade. E, muitas vezes, n\u00f3s, nas For\u00e7as Armadas, o que encontramos s\u00e3o pessoas que n\u00e3o partilham nem a nossa tradi\u00e7\u00e3o nem a nossa f\u00e9. Partilham sempre os nossos valores, isso \u00e9 evidente. Mas isso obriga-nos a essa pastoral fronteira.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Agora, como equipa episcopal jovem \u2013 acredito que em poucos momentos da hist\u00f3ria assim aconteceu, e fruto tamb\u00e9m da solidariedade entre as dioceses, com bispos a partir de Lisboa ou a chegar a Lisboa \u2013 e nos diferentes perfis dessa equipa episcopal, tem as compet\u00eancias e as possibilidades de atua\u00e7\u00e3o e de cumprimento de um programa que pensa para o patriarcado? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o haja d\u00favida nenhuma! Todos os nossos bispos auxiliares e o patriarca t\u00eam como \u201cleitmotiv\u201d da sua atua\u00e7\u00e3o pastoral o servi\u00e7o e o servir uma diocese e uma por\u00e7\u00e3o do povo de Deus muito concreta. Ao mesmo tempo, h\u00e1 um naipe de valores, do ponto de vista pastoral, significativos e relevantes, que n\u00f3s partilhamos. De entre esses valores, eu colocaria, em primeiro lugar, a pessoa de Jesus Cristo e colocaria a f\u00e9. Em segundo lugar, a dimens\u00e3o sociocaritativa, a presen\u00e7a dos mais desfavorecidos, o an\u00fancio que n\u00f3s recebemos de Jesus no Evangelho de Lucas, quando oferece o seu programa mission\u00e1rio, que \u00e9 de ser enviado aos pobres, aos mais desfavorecidos, aos mais necessitados. E eu poderia continuar um pouco neste ritmo para dizer que h\u00e1 uma sintonia perfeita em termos de orienta\u00e7\u00e3o e concretiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<figure id=\"attachment_353677\" aria-describedby=\"caption-attachment-353677\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/rui-valerio-patriarcado.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-353677 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/rui-valerio-patriarcado-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/rui-valerio-patriarcado-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/rui-valerio-patriarcado-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/rui-valerio-patriarcado-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/rui-valerio-patriarcado-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/rui-valerio-patriarcado-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/rui-valerio-patriarcado.jpg 1900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-353677\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Patriarcado de Lisboa<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>E que se conjuga em diferentes perfis dos pr\u00f3prios bispos auxiliares&#8230;<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Porque tem de ser assim. Lisboa \u00e9 uma realidade muito pluriforme, em que tem muito acentuadamente tanto a dimens\u00e3o urbana, citadina, como a dimens\u00e3o rural. Depois, tem uma forte preponder\u00e2ncia da dimens\u00e3o acad\u00e9mica, alberga em si, no territ\u00f3rio da nossa diocese, uma s\u00e9rie de universidades. Por outro lado, \u00e9 uma regi\u00e3o onde a ind\u00fastria \u00e9 muito forte e muito presente. Est\u00e1 tamb\u00e9m presente a dimens\u00e3o da tecnologia, da intelig\u00eancia artificial, a pr\u00f3pria realidade militar (\u00e9 no territ\u00f3rio que corresponde ao patriarcado de Lisboa que existem significativas e importantes unidades, seja das For\u00e7as Armadas, seja das For\u00e7as de Seguran\u00e7a). \u00c9 em Lisboa que existe a sede do poder legislativo, do poder executivo, dos \u00f3rg\u00e3os de soberania.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Tudo isto faz com que haja uma dimens\u00e3o pluriforme daquilo que \u00e9 a realidade da diocese, \u00e0 qual \u00e9 necess\u00e1rio responder, \u00e0 qual \u00e9 necess\u00e1rio estar presente. E toda a dimens\u00e3o da sa\u00fade, com os grandes hospitais nacionais aqui presentes, toda a dimens\u00e3o da justi\u00e7a&#8230; Enfim: pod\u00edamos quase dizer que n\u00e3o h\u00e1 setor da vida que n\u00e3o tenha uma forte e central presen\u00e7a aqui em Lisboa.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Por uma esperan\u00e7a ativa<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>J\u00e1 vamos a alguns desses setores, porque merecem tamb\u00e9m uma an\u00e1lise e cuidado. Antes gostava de partir de uma afirma\u00e7\u00e3o que tem na 1\u00aa carta pastoral: \u201co principal capital humanit\u00e1rio que hoje a Igreja pode oferecer \u00e9 a esperan\u00e7a\u201d. \u00c9 uma afirma\u00e7\u00e3o que, por certo, comungamos, mas diante de uma sociedade que est\u00e1 necessitada de bens muito concretos, de necessidades muito espec\u00edficas, ser\u00e1 que a sociedade de lisboeta, os lisboetas ficam de cora\u00e7\u00e3o cheio com esta afirma\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A esperan\u00e7a \u00e9, antes de mais, uma perspetiva de vida. A esperan\u00e7a \u00e9 olhar &#8211; e vou usar a sua linguagem &#8211; \u00e9 olhar para uma mesa que est\u00e1 carente, uma mesa que est\u00e1 pobremente caracterizada, e descobrir nessa pobreza rasgos de uma nova vida, de novos horizontes, de um novo futuro, de um novo tempo, de uma nova hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Para isso \u00e9 preciso uma matriz crente? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Para isso \u00e9 necess\u00e1rio uma luz que nos ilumine e que nos inspire. Porque eu quando olho para o epis\u00f3dio de Jesus, num dia que declina, ao fim da tarde e tem \u00e0 sua volta uma multid\u00e3o imensa que necessita de comer, repare que aquilo que se tem s\u00e3o cinco p\u00e3es e dois peixes. A esperan\u00e7a \u00e9 olhar para aqueles cinco p\u00e3es e para aqueles dois peixes, como faz Jesus, e dizer: partilhai. Da esperan\u00e7a surge uma atitude de envolvimento, uma atitude de partilha, uma atitude de empenho na hist\u00f3ria, uma atitude de justi\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>T\u00e3o pr\u00f3pria tamb\u00e9m deste tempo de Natal&#8230;<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Por isso \u00e9 que eu digo que a esperan\u00e7a \u00e9, antes de mais, uma perspetiva, mas uma perspetiva de atua\u00e7\u00e3o. N\u00e3o \u00e9 um piedoso desejo, mas a esperan\u00e7a obriga-me a uma mobiliza\u00e7\u00e3o de atuar.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Na carta pastoral aponta precisamente o Natal tamb\u00e9m como o acontecimento origem dessa esperan\u00e7a, mas perguntava-lhe: como \u00e9 que \u00e9 poss\u00edvel, por exemplo, afirmarmos convictamente essa esperan\u00e7a diante da instabilidade pol\u00edtica, que vemos agora acontecer sobretudo na Madeira, vimos acontecer no Parlamento portugu\u00eas com equil\u00edbrios constantes&#8230; \u00c9 poss\u00edvel irmos tendo esperan\u00e7a, por exemplo, na pol\u00edtica? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">N\u00f3s corremos o risco de nos deixarmos despojar de tudo, mas a esperan\u00e7a ningu\u00e9m a leva, ningu\u00e9m a rouba. A Sofia (de Mello Breyner Andresen) tem um poema maravilhoso que eu gostaria de estampar dentro do cora\u00e7\u00e3o: \u201cApesar das ru\u00ednas e da morte, onde sempre acabou cada ilus\u00e3o, h\u00e1 de ressurgir uma nova exalta\u00e7\u00e3o \u201c. S\u00e3o palavras que pertencem ao poema de Sofia, a qual nos ensina que \u00e9 precisamente porque existe esta contrariedade, esta ant\u00edtese da hist\u00f3ria, que a esperan\u00e7a se recomenda, \u00e9 necess\u00e1ria, \u00e9 imperiosa. O ser humano ser\u00e1 capaz de contornar e contrariar os ventos da hist\u00f3ria se for um homem, se for uma mulher de esperan\u00e7a. Sen\u00e3o, \u00e9 cilindrado pura e simplesmente pela for\u00e7a da ang\u00fastia e pela for\u00e7a do desespero.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>25 de abril e 25 de novembro<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Quer isso dizer, por exemplo, que o comemorar os 50 anos do 25 de Abril neste clima de alguma instabilidade pol\u00edtica \u00e9, na sua opini\u00e3o, um sinal de maturidade democr\u00e1tica?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Eu n\u00e3o diria &#8211;\u00a0 vamos por partes \u00e0 sua pergunta &#8211; que n\u00f3s estamos num momento de instabilidade pol\u00edtica.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Pelo menos, acordos parlamentares que obrigam a negocia\u00e7\u00f5es&#8230;<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Mas isso faz parte, desculpe-me uma express\u00e3o, do jogo democr\u00e1tico.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Mal seria aquela democracia onde n\u00e3o houvesse um pr\u00f3 e um contra. Mal seria essa democracia!<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Aquilo que n\u00f3s estamos a verificar, em termos pol\u00edticos, \u00e9 parte integrante de uma democracia amadurecida, uma democracia &#8211; eu reconhe\u00e7o &#8211; nem sempre linear, que teve o seu sofrimento, como todos os partos t\u00eam, mas que hoje \u00e9, ela pr\u00f3pria, e com o 25 de Abril evocado, fator de esperan\u00e7a para a nossa sociedade.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Porque hoje todos n\u00f3s reconhecemos que, n\u00e3o obstante as ant\u00edteses da hist\u00f3ria que t\u00eam acontecido, a verdade \u00e9 que ela constitui uma rampa de lan\u00e7amento, um motor de arranque para aquilo que \u00e9 a nossa vida do dia a dia.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Foi uma op\u00e7\u00e3o certa comemorar tamb\u00e9m o 25 de Novembro?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A hist\u00f3ria s\u00e3o acontecimentos, realidades temporais e espaciais que acontecem protagonizadas por determinadas pessoas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Olhar para a hist\u00f3ria e separar um acontecimento do outro&#8230; Esse \u00e9 que \u00e9 o erro. \u00c9 verdade que h\u00e1 momentos referenciais para determinadas decis\u00f5es que levam a cabo determinados projetos. Mas tamb\u00e9m \u00e9 verdade que nunca podemos e n\u00e3o devemos perder de vista o todo de qualquer projeto. E o todo de qualquer projeto, por vezes, obriga-me a olhar \u00e0 sua tese, \u00e0 sua ant\u00edtese, para encontrar uma verdadeira s\u00edntese.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 compreens\u00e3o da hist\u00f3ria, uma vis\u00e3o muito \u201c\u00e0 l\u00e1 Hegel\u201d, quando ele nos diz que todos os acontecimentos da hist\u00f3ria se pertencem reciprocamente.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Os valores que eu vi inspirarem o 25 de Abril, que eu vi ou que eu senti inspiradores do 25 de Abril, foram os valores que eu vi inspiradores do 25 de Novembro. S\u00e3o os mesmos que eu vi inspiradores de outras datas da nossa hist\u00f3ria.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Greves, direitos e deveres<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>E \u00e9 precisamente nessa leitura tamb\u00e9m que lhe pedia o coment\u00e1rio a situa\u00e7\u00f5es de greve, por exemplo, dos bombeiros, que foi particularmente vis\u00edvel, do INEM, com consequ\u00eancias que infelizmente que provocaram v\u00edtimas de alguns cidad\u00e3os, e agora tamb\u00e9m da higiene urbana, que pode afetar estes dias de Natal. Como articular direitos, que s\u00e3o da democracia, com a estabilidade social que tamb\u00e9m \u00e9 requerida?<\/em><\/p>\n<figure id=\"attachment_311645\" aria-describedby=\"caption-attachment-311645\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignleft\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-311645\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/D.-Rui-Valerio-patriarca-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/D.-Rui-Valerio-patriarca-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/D.-Rui-Valerio-patriarca-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/D.-Rui-Valerio-patriarca-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/D.-Rui-Valerio-patriarca-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/01\/D.-Rui-Valerio-patriarca.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-311645\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/LJ<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Antes de mais, eu gostaria aqui de esclarecer que o meu pai, toda a gente o sabe, era camionista; a minha m\u00e3e era, chamava-se na altura, trabalhadora dom\u00e9stica; eu pr\u00f3prio, durante as f\u00e9rias grandes, que tinham tr\u00eas meses, trabalhava nas f\u00e1bricas da minha terra, no Conselho de Our\u00e9m. E, portanto, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 greve, h\u00e1 que dizer que \u00e9 uma conquista civilizacional, de sociedades solidamente estruturadas, \u00e9 uma forma que os trabalhadores t\u00eam ao seu alcance para a afirma\u00e7\u00e3o dos seus direitos, para a salvaguarda dos mesmos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Mas, dito isto, tamb\u00e9m sou da opini\u00e3o \u2013 e admito que ela possa ser profundamente contestada \u2013 que \u00e9 necess\u00e1rio haver aqui um elo de salvaguarda dos direitos, de quem tem direito a um determinado servi\u00e7o. Ou seja, neste deve e haver de conflito de direitos, \u00e9 necess\u00e1rio fazer uma reflex\u00e3o para nos questionarmos como, em \u00faltima an\u00e1lise, a afirma\u00e7\u00e3o leg\u00edtima de uma pretens\u00e3o, no respeito de um direito, n\u00e3o esteja a atropelar direitos de terceiros. Eu n\u00e3o sei como \u00e9 que isso ser\u00e1 resolvido, e certamente os entendidos na \u00e1rea da sociologia, da economia, da \u00e9tica o saber\u00e3o. Eu gostaria apenas de colocar as minhas palavras e de dar uma resposta neste sentido: que a leg\u00edtima afirma\u00e7\u00e3o e luta por um direito n\u00e3o v\u00e1 atropelar direitos de terceiros, quando esses terceiros, porventura, s\u00e3o sempre o elo fraco da equa\u00e7\u00e3o social.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Maternidades e a crise da natalidade<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Sobre a sa\u00fade: o fecho de maternidades faz com que seja dif\u00edcil nascer em Portugal?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Eu creio que n\u00e3o. Eu creio que a crise da natalidade ter\u00e1 porventura outras raz\u00f5es. As causas ser\u00e3o outras, s\u00e3o muito complexas. Estar a enumerar tr\u00eas ou quatro poderia pecar por defeito, porque h\u00e1 mais.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Mas \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o que causa apreens\u00e3o&#8230;<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 uma situa\u00e7\u00e3o que causa apreens\u00e3o, causa dor, obviamente.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Quando estamos a falar de crise de natalidade, estamos a falar de como uma sociedade, um pa\u00eds se est\u00e1 a comprometer, no seu futuro. E, por isso, \u00e9 com tristeza, \u00e9 mesmo genu\u00edna a minha dor, quando verificamos que as nossas sociedades est\u00e3o cada vez mais reduzidas e diminu\u00eddas nas taxas dos nascimentos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Imigrantes como oportunidade<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Estamos a acolher muitos imigrantes, assim deve continuar a acontecer. Que regulamenta\u00e7\u00e3o \u00e9 necess\u00e1rio ter neste setor, na sua opini\u00e3o? Tendo presente tamb\u00e9m o turismo de sa\u00fade, o acesso ao Sistema Nacional de Sa\u00fade por parte da popula\u00e7\u00e3o migrante.<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Eu vou dizer duas coisas que, na minha perspetiva, s\u00e3o \u00f3bvias. Nomeadamente, quando n\u00f3s procedemos a um discernimento iluminado pela Palavra e pela mensagem daquele Menino que \u00e9 o pr\u00f3prio Filho de Deus e que nos vai visitar.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Em primeiro lugar, o ser humano \u00e9 um valor em si. O ser humano \u00e9 detentor de uma dignidade que n\u00f3s todos devemos respeitar, devemos salvaguardar, defender. Em consequ\u00eancia disso, se a afirma\u00e7\u00e3o dessa dignidade implica para o pr\u00f3prio a necessidade de deixar a sua terra, deixar a sua fam\u00edlia, deixar a sua gente para se lan\u00e7ar numa aventura que, para o pr\u00f3prio, \u00e9 completamente desconhecida, como \u00e9 o caso do migrante (hoje \u00e9 quem chega, no passado foram os portugueses que viveram essa vicissitude ou essa aventura)&#8230;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Quando n\u00f3s verificamos que ser migrante, mais do que ser a express\u00e3o de um gosto \u00e9 a express\u00e3o de uma necessidade, ent\u00e3o eu digo \u201cvamos com calma\u201d&#8230; Vamos com calma na maneira como tratamos esta quest\u00e3o recorrendo a n\u00fameros.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Em segundo lugar, creio que \u00e9 um grande desafio para n\u00f3s, como sociedade portuguesa: que saibamos fazer dos migrantes &#8211; e agora vou ser ponderado na palavra que uso &#8211; que saibamos fazer de homens e mulheres que s\u00e3o migrantes n\u00e3o um problema, n\u00e3o uma amea\u00e7a, mas um trunfo, uma oportunidade.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Afinal de contas, n\u00f3s somos uma sociedade, um pa\u00eds com tantos s\u00e9culos de hist\u00f3ria. J\u00e1 vivemos tanto e eu diria quase que j\u00e1 vivemos tudo. Por isso, tamb\u00e9m para esta quest\u00e3o da migra\u00e7\u00e3o, n\u00f3s vamos encontrar, estou certo disso, uma solu\u00e7\u00e3o em que ao mesmo tempo se afirmem estes dois valores: por um lado, estamos a promover a dignidade de quem chega, n\u00e3o estamos a p\u00f4r em causa a sua condi\u00e7\u00e3o de ser humano, e, por outro lado, estamos a fazer com que, para o pa\u00eds, este migrante seja realmente um contributo, seja um fator positivo, seja um fator de progresso.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Solu\u00e7\u00e3o? Espero que as pessoas que se entendem destes fen\u00f3menos sociais se empenhem para rapidamente resolverem esta quest\u00e3o. Estou em crer que a demora em encontrar uma solu\u00e7\u00e3o \u00e9 apenas o resultado de um estudo, de uma an\u00e1lise que est\u00e1 a ser elaborada \u00e0 qual estamos todos atentos e a qual queremos ver surgir, a todo o momento.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Na pr\u00e1tica, isso significa ter uma pol\u00edtica de portas abertas ou criar algum tipo de regulamenta\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o vou ainda por a\u00ed, ainda n\u00e3o cheguei a esse ponto! Primeiro, \u00e9 necess\u00e1rio que todo o discurso e toda a op\u00e7\u00e3o que for feita &#8211; n\u00e3o sei qual \u00e9, n\u00e3o vou particularizar \u2013 tenha em conta estes dois padr\u00f5es, estes dois horizontes: dignidade do ser humano e que o migrante seja uma oportunidade, uma possibilidade para Portugal.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Uma quest\u00e3o a resolver a n\u00edvel europeu e n\u00e3o s\u00f3 a n\u00edvel nacional? H\u00e1 Pacto para as Migra\u00e7\u00f5es e Asilo&#8230;<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Eu tenho dito isso! O problema da migra\u00e7\u00e3o, como outras quest\u00f5es que est\u00e3o a\u00ed na ordem do dia, na an\u00e1lise social, alcan\u00e7am uma certa dimens\u00e3o que j\u00e1 n\u00e3o s\u00e3o solucion\u00e1veis apenas com medidas locais ou nacionais. S\u00f3 com medidas da Uni\u00e3o Europeia.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">E a Uni\u00e3o Europeia tem a obriga\u00e7\u00e3o de fazer isso. Porqu\u00ea? Porque o cidad\u00e3o que hoje n\u00f3s estamos a apelidar de migrante, porque est\u00e1 aqui e estamos a elaborar toda esta pan\u00f3plia de solu\u00e7\u00f5es para o encontro com ele, daqui por dois meses est\u00e1 em Paris ou est\u00e1 em Roma. E, portanto, a Uni\u00e3o Europeia n\u00e3o se pode desinteressar deste tema. Tenho dito isto tantas vezes atrav\u00e9s da comunica\u00e7\u00e3o social e penso que era a hora da Uni\u00e3o Europeia abordar este tema como um tema priorit\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Sem-abrigo<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>A Comunidade de Vida e Paz vai adiantando n\u00fameros sobre as pessoas em situa\u00e7\u00e3o de sem-abrigo, referindo que, no centro de Lisboa, podem estar a diminuir, mas a aumentar nas periferias. H\u00e1 uma estrat\u00e9gia em curso desde algum tempo para retirar as pessoas da rua que assim o desejem, mas que, infelizmente, n\u00e3o atingiu os objetivos a que se prop\u00f4s, at\u00e9 pelo Presidente da Rep\u00fablica.<\/em> <em>Ser\u00e1 um problema sem solu\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o! Falar de problema sem solu\u00e7\u00e3o neste contexto de esperan\u00e7a, seria at\u00e9 contradit\u00f3rio!<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Eu acho que, para o problema dos sem-abrigo, os problemas de quem vive na rua, era muito importante ter uma estrat\u00e9gia que n\u00e3o chega a ser local, n\u00e3o chega a ser nacional, tem de ser europeia. Porqu\u00ea? Porque o problema que n\u00f3s verificamos ou encontramos hoje nas nossas cidades&#8230; Eu h\u00e1 pouco tempo, h\u00e1 poucos dias, estive em Roma e encontrei l\u00e1 tamb\u00e9m essa situa\u00e7\u00e3o. Em Paris, encontrei essa situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O n\u00famero de sem-abrigo, por um lado, parece que n\u00e3o diminui, mas, por outro lado, tamb\u00e9m \u00e9 verdade que existem algumas franjas de Lisboa onde j\u00e1 se verifica essa diminui\u00e7\u00e3o. No entanto, e a matem\u00e1tica n\u00e3o engana, est\u00e3o a surgir polos, fatores, onde essa situa\u00e7\u00e3o de precariedade ou se mant\u00e9m ou est\u00e1 a aumentar.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o tendo solu\u00e7\u00f5es pr\u00e1ticas e concretas para apresentar &#8211; quem me dera! \u2013 o que posso dizer \u00e9 que conhe\u00e7o institui\u00e7\u00f5es, entidades, conhe\u00e7o pessoas singulares, individuais, que est\u00e3o verdadeiramente dedicadas a socorrer, a ir ao encontro dos sem-abrigo.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O que eu quero dizer, e \u00e9 uma mensagem muito natal\u00edcia esta que vou transmitir e, porventura, para mim \u00e9 importante: h\u00e1 um determinado momento em que n\u00f3s, \u00e0 pessoa, ao irm\u00e3o ou \u00e0 irm\u00e3 que \u00e9 sem-abrigo, lhe podemos dizer \u2013 n\u00e3o sei se o conforto ou n\u00e3o, acredito que n\u00e3o, mas podemos transmitir-lhe esta mensagem \u2013 que n\u00e3o est\u00e1 sozinho, que acredite que h\u00e1 pessoas dispon\u00edveis a ajud\u00e1-lo, a ir ao encontro dele, que eles n\u00e3o est\u00e3o s\u00f3s. Da parte da Igreja, a mensagem que temos para oferecer n\u00e3o se esgota a\u00ed, mas se calhar come\u00e7a por a\u00ed, de saberem que n\u00f3s estamos empenhados em, pelo menos, garantir o indispens\u00e1vel para a vida, para a sobreviv\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Depois, o problema da habita\u00e7\u00e3o \u00e9 muito complexo. Eu pr\u00f3prio j\u00e1 tentei compreender o porqu\u00ea e as nuances e h\u00e1 muitas raz\u00f5es que tornam esse assunto muito complicado, muito complicado. E depois existe o fator da mobilidade com que hoje as pessoas passam os seus dias e vivem as suas vidas e realizam as suas hist\u00f3rias.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Gostaria de transmitir aqui uma palavra de esperan\u00e7a, mesmo a quem \u00e9 sem-abrigo, e aquilo que eu acho s\u00e3o, na relativa dimens\u00e3o das nossas institui\u00e7\u00f5es, propostas concretas para que as pessoas deixem a rua, para que as pessoas sejam acolhidas&#8230; Por exemplo, falou da Comunidade Vida e Paz, mas h\u00e1 outras que t\u00eam como objetivo exatamente esta meta: tirar a pessoa da rua.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Tumultos em Lisboa<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Estou-me a recordar dos tumultos que aconteceram na regi\u00e3o de Lisboa, em outubro. Recebeu com surpresa, tomou conhecimento com surpresa desses tumultos?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">De certa forma&#8230; Eu n\u00e3o vou dizer que somos uma sociedade de brandos costumes, n\u00e3o vou dizer isso, mas somos uma sociedade onde \u00e9 f\u00e1cil chegar \u00e0 fala, ao encontro com as inst\u00e2ncias que se desejam. E, portanto, foi com alguma surpresa que ouvi e participei daquilo que estava a acontecer. Foi para mim tamb\u00e9m uma surpresa sabendo que Portugal \u00e9 uma na\u00e7\u00e3o que acolhe bem e que integra bem.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Esta quest\u00e3o de Portugal ser uma esp\u00e9cie de microcosmos ou de micromundo \u00e9 uma coisa que j\u00e1 vem l\u00e1 atr\u00e1s. Sempre fomos um pa\u00eds de emigra\u00e7\u00e3o, um pa\u00eds que esteve presente e que recebeu pessoas de geografias diversas. N\u00f3s sempre soubemos integrar e sempre soubemos acolher. E hoje a realidade \u00e9 um pouco diferente, obviamente, e por isso surgiram esses tumultos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>S\u00e3o sinal de qu\u00ea?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Talvez sejam sinais de um certo mal-estar que existe no interior das pessoas, que se sentem, talvez, injusti\u00e7adas por aquilo que est\u00e3o a viver, que n\u00e3o se sentem devidamente escutadas nas suas justas reivindica\u00e7\u00f5es e exig\u00eancias.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">No entanto, sou muito esperan\u00e7oso relativamente a isso. Porque quando visitamos os nossos bairros, quando vamos ao encontro das pessoas, verificamos que s\u00e3o pessoas que t\u00eam ali uma bondade genu\u00edna dentro delas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Apoios a partir da Jornada Mundial da Juventude<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Falemos da Jornada Mundial da Juventude. Podemos falar de muitos frutos que acontecem, por certo, no percurso de cada jovem, de cada pessoa. Mas gostava que deixasse aqui alguma informa\u00e7\u00e3o, se \u00e9 poss\u00edvel avan\u00e7ar, sobre a ajuda que pode resultar da Jornada Mundial da Juventude.<\/em> <em>Para quando o in\u00edcio do apoio a projetos concretos, a partir do que foi o superavit da jornada?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A Funda\u00e7\u00e3o JMJ tem uma dire\u00e7\u00e3o que \u00e9 aut\u00f3noma, tem uma autonomia total e absoluta. Tem um presidente, que \u00e9 o Sr. D. Alexandre Palma. Tem tamb\u00e9m, como referencial e como luz iluminadora e inspiradora e regulamentadora, os estatutos, portanto regulamentos. E os estatutos afirmam claramente duas coisas &#8211; firmam v\u00e1rias, mas estas duas s\u00e3o aquelas que agora nos podemos sublinhar: em primeiro lugar, que a Funda\u00e7\u00e3o JMJ tem um car\u00e1ter de apoiar, de auxiliar, projetos que cheguem, projetos que apare\u00e7am, projetos que ser\u00e3o apresentados; e, em segundo lugar, que sejam projetos que se destinem, fundamentalmente, a dois destinat\u00e1rios bem espec\u00edficos, que s\u00e3o os jovens e que a inf\u00e2ncia. E dentro, desta din\u00e2mica, a Funda\u00e7\u00e3o est\u00e1 apta, est\u00e1 a receber, est\u00e1 a recolher esses projetos, que far\u00e1 depois uma an\u00e1lise, que far\u00e1 depois o discernimento e que depois ir\u00e1 apoi\u00e1-los localmente, temporariamente, conforme aquilo que for acordado para que isso aconte\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Mas h\u00e1 prazos para que isso possa come\u00e7ar a acontecer? Acredito que os projetos j\u00e1 tenham chegado&#8230;<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Os prazos ser\u00e3o pautados e ser\u00e3o realizados \u00e0 medida que forem chegando e \u00e0 medida que esses prazos tiverem uma resposta.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Mas quando n\u00f3s falamos da JMJ, aquilo que deve realmente sobressair &#8211; para al\u00e9m deste aspeto que \u00e9 importante, mas que n\u00e3o ser\u00e1 o mais importante &#8211; \u00e9 aquele de nos ter deixado aqui um entusiasmo e uma m\u00edstica de juventude em que n\u00f3s verificamos que os jovens querem e est\u00e3o mais pr\u00f3ximos da Igreja de Jesus Cristo.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Guerra para acolher o Pr\u00edncipe da paz?<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Pedia-lhe um coment\u00e1rio \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de guerra internacional, seja na Ucr\u00e2nia, na Terra Santa, noutras geografias do mundo&#8230; Nomeadamente na Terra Santa \u00e9 um sinal de contradi\u00e7\u00e3o, sobretudo nesta de Natal, no local onde nasceu o Pr\u00edncipe da Paz?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Como disse o Papa Francisco na audi\u00eancia geral, no Vaticano, uma guerra \u00e9 sempre a derrota da humanidade. \u00c9 o pr\u00f3prio ser humano que ali vem diminu\u00eddo. Em segundo lugar, gostaria de dizer, e aqui com alguma tristeza, que tanto na Ucr\u00e2nia como no Medio Oriente s\u00e3o guerras que de certa forma s\u00e3o contra natura: cilindraram completamente aqueles princ\u00edpios e valores \u00e9ticos, humanistas, que n\u00f3s acredit\u00e1vamos e pens\u00e1vamos j\u00e1 estarem afirmados e estabelecidos indelevelmente, que eram indestrut\u00edveis. Quando vemos inocentes, crian\u00e7as, \u00e0s vezes at\u00e9 doentes, a serem v\u00edtimas desta viol\u00eancia e desta guerra, ficamos arrepiados&#8230; Em terceiro lugar, e para que n\u00e3o tenha este tom t\u00e3o pessimista, eu creio que o Pr\u00edncipe da Paz, quando surgiu precisamente em Bel\u00e9m, uma terra que neste momento em que n\u00f3s estamos a escutarmo-nos um ao outro os seus habitantes s\u00e3o obrigados a escutar o estrondo dos m\u00edsseis e das bombas, eu creio que sim, \u00e9 um sinal de contradi\u00e7\u00e3o. E o ponto positivo, se \u00e9 que me posso expressar assim, \u00e9 que, olhando para o que ali acontece, n\u00f3s como humanidade saibamos dizer n\u00e3o. Aquilo n\u00e3o. Aquilo \u00e9 estrangeiro ao pr\u00f3prio ser humano. Aquilo n\u00e3o nos pertence. N\u00f3s n\u00e3o nos identificamos com aquilo.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A partir da luz que irradia do pres\u00e9pio de Bel\u00e9m, sejamos capazes de dizer n\u00e3o h\u00e1 guerra, n\u00e3o h\u00e1 viol\u00eancia, ficarmos escandalizados por ela.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O Papa Francisco tem insistido muito num ponto que eu fa\u00e7o quest\u00e3o aqui de referir, que \u00e9 o de passarmos a a\u00e7\u00f5es concretas. Nossa Senhora, quando apareceu em F\u00e1tima aos pastorinhos, apareceu num contexto que estava em conflito a n\u00edvel mundial, estava-se em guerra. E ela apresentou-nos o caminho que foi a ora\u00e7\u00e3o, concretamente, a recita\u00e7\u00e3o do Santo Ros\u00e1rio. Neste momento, a nossa diocese de Lisboa, com todas as dioceses de Portugal, estamos a levar a cabo, neste preciso momento, uma campanha de solidariedade, de recolha de meios para podermos auxiliar o martirizado povo do M\u00e9dio Oriente. Aqui em Lisboa, at\u00e9 se quis dar um toque simb\u00f3lico a essa d\u00e1diva e a essa recolha \u00e9 no pr\u00f3prio Dia de Reis, no primeiro domingo de janeiro, em que haver\u00e1 a recolha e haver\u00e1 o envio para o M\u00e9dio Oriente.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Em terceiro lugar, dirijo-me concretamente aos mais jovens: \u00e9 urgente que v\u00f3s, caros jovens, que nutris dentro do vosso cora\u00e7\u00e3o aqueles valores que criam verdadeiramente civiliza\u00e7\u00f5es do amor, que vos empenhais mais nas coisas p\u00fablicas, nestes projetos humanit\u00e1rios, neste bem comum que \u00e9 necess\u00e1rio.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><strong>Jubileu 2025<\/strong><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Um \u00faltimo tema, para falarmos do jubileu, para falarmos desse desafio que colocou a Diocese de Lisboa no reativar o lugar de esperan\u00e7a, como escreve na Carta Pastoral, onde diz que o primeir\u00edssimo lugar \u00e9 a fam\u00edlia.<\/em><em>Simbolicamente, convocou uma fam\u00edlia de cada par\u00f3quia para o in\u00edcio do jubileu no Patriarcado de Lisboa. Que sinal \u00e9 este? Que estrat\u00e9gia \u00e9 esta para o ano jubilar? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Afirmativo! Precisamente porque a fam\u00edlia \u00e9 o lugar do nosso acolhimento na vida, no mundo, na hist\u00f3ria, mas tamb\u00e9m porque a nossa presen\u00e7a na fam\u00edlia oferece-nos uma perspetiva e um ponto de vista para, a partir dele, lan\u00e7armos um olhar para a exist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Saber que a fam\u00edlia pertence \u00e0 nossa identidade e \u00e0 nossa hist\u00f3ria, e n\u00f3s pertencemos \u00e0 fam\u00edlia, quer dizer que, perante n\u00f3s, todos os projetos, todas as decis\u00f5es, todos os caminhos ser\u00e3o realizados e percorridos n\u00e3o sozinhos, mas sempre com algu\u00e9m.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1 uma m\u00e1xima que \u00e9 muito usada nos meios castrenses que diz: sozinhos n\u00f3s podemos ir mais depressa, mas em companhia vamos mais longe. E \u00e9 este sentido que toca a esperan\u00e7a. Uma coisa \u00e9 estarmos na vida num ponto de vista solit\u00e1rio. Uma outra coisa \u00e9 quando n\u00f3s somos acompanhados.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Porque dizemos que o mist\u00e9rio pascal \u00e9 a fonte de toda a esperan\u00e7a? Porque escancarou horizontes de eternidade, porque venceu a morte com aquela vida plena, com a pr\u00f3pria vida de Deus. Mas \u00e9 tamb\u00e9m pelo facto de que Jesus, que estava a viver um momento t\u00e3o atroz, na mais atroz das solid\u00f5es \u2013 \u201cPai, porque me abandonaste?\u201d \u2013 nunca deixou de ter a seu lado algu\u00e9m, Nossa Senhora, o disc\u00edpulo amado, o pr\u00f3prio Cirineu que o acompanha e que o ajuda a transportar a cruz. E, portanto, isso inverte completamente, transforma completamente os desafios que n\u00f3s temos na exist\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Em entrevista \u00e0 Ag\u00eancia ECCLESIA, D. Rui Val\u00e9rio analisa a atualidade, refere-se aos imigrantes como uma oportunidade, fala das greves e de direitos \u00abde terceiros\u00bb, afirma que os valores do 25 de abril s\u00e3o os do 25 de novembro e a aponta a uma esperan\u00e7a que implique \u00abempenho na hist\u00f3ria\u00bb<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":353677,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[814,343,258],"class_list":["post-354081","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","tag-ano-santo-2025","tag-diocese-de-lisboa","tag-migracoes"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/354081","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=354081"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/354081\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/353677"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=354081"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=354081"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=354081"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}