{"id":353653,"date":"2024-12-20T09:46:48","date_gmt":"2024-12-20T09:46:48","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=353653"},"modified":"2024-12-19T15:48:48","modified_gmt":"2024-12-19T15:48:48","slug":"o-homem-light","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-homem-light\/","title":{"rendered":"O Homem Light"},"content":{"rendered":"<div><em>Padre V\u00edtor Pereira, Diocese de Vila Real\u00a0<\/em><\/div>\n<p><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_268285\" aria-describedby=\"caption-attachment-268285\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-268285\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-268285\" class=\"wp-caption-text\">Padre Vitor Pereira, Diocese de Vila Real<\/figcaption><\/figure>\n<p>O psiquiatra espanhol Enrique Rojas publicou h\u00e1 uns anos um livro denominado \u201cO Homem Light\u201d, em que faz uma radiografia admir\u00e1vel do homem e cultura atuais. Ali podemos encontrar a fonte da falta de sentido e do muito infort\u00fanio que persegue o homem contempor\u00e2neo, o fio da meada do turbilh\u00e3o de contradi\u00e7\u00f5es, insatisfa\u00e7\u00f5es e desumanidade em que vivemos.<\/p>\n<p>Nos \u00faltimos anos, uma s\u00e9rie de produtos light invadiu o mercado, facilmente ao nosso dispor em qualquer hipermercado. S\u00e3o produtos que foram alterados na sua identidade, nomeadamente no grau de gordura ou a\u00e7\u00facar que oferecem, para n\u00e3o serem t\u00e3o nocivos \u00e0 sa\u00fade e para satisfazerem os n\u00edveis de eleg\u00e2ncia e est\u00e9tica que o homem contempor\u00e2neo prolatou. Alguns especialistas j\u00e1 alertaram que est\u00e3o cheios de mentiras e que as subst\u00e2ncias que s\u00e3o adicionadas para a sua muta\u00e7\u00e3o poder\u00e3o n\u00e3o ser as mais saud\u00e1veis. Mas como o homem atual \u00e9 escravo da sua imagem, em nome dela est\u00e1 disposto a tudo.<\/p>\n<p>O que s\u00e3o, afinal, os produtos light? S\u00e3o produtos que perderam a sua ess\u00eancia, o seu conte\u00fado, a sua alma, o seu sabor. Ainda sabem a alguma coisa, mas correm o perigo de n\u00e3o saber a nada. Querem ser t\u00e3o suaves e leves, que pouco faltar\u00e1 para serem reduzidos a nada. Segundo a opini\u00e3o de Enrique Rojas, depois da queda dos totalitarismos e da cren\u00e7a nas ideologias, que dominou grande parte do s\u00e9culo vinte, e na senda dos produtos light, nasceu tamb\u00e9m \u00abum homem light\u00bb: \u00abum homem sem ess\u00eancia, sem conte\u00fado, sem valores, entregue ao dinheiro, ao poder, ao \u00eaxito e ao prazer ilimitado e sem restri\u00e7\u00f5es\u00bb, um homem \u00abque tem por bandeira uma tetralogia niilista: hedonismo (prazer), consumismo (ter e desfrutar), permissividade (vale tudo) e relativismo (subjetividade). Todos eles impregnados de materialismo.\u00bb<\/p>\n<p>N\u00e3o nos \u00e9 dif\u00edcil constatar isto. S\u00e3o estes os valores que atualmente fazem correr a maioria das pessoas. Mas, s\u00e3o estes os valores que d\u00e3o solidez e sentido \u00e0 vida? \u00abO homem light carece de pontos de refer\u00eancia, vive num grande vazio moral e n\u00e3o \u00e9 feliz, ainda que tenha materialmente tudo\u00bb, afirma o autor.<\/p>\n<p>\u00c9 certo que o per\u00edodo dos totalitarismos, onde predominou o autoritarismo, o terror, a opress\u00e3o, a viol\u00eancia, o desrespeito pelos direitos humanos, lan\u00e7ou a suspeita sobre os princ\u00edpios e os valores, minou a vontade de se entregar a algo ou a algu\u00e9m, e despoletou a \u00e2nsia coletiva da eclos\u00e3o de um tempo de exerc\u00edcio da liberdade, e o desmoronamento das ideologias torpedeou o empenho por mudar a sociedade e se entregar a causas e a ideais, e afagou a desilus\u00e3o e o desencanto, mas o homem que surgiu despois daquela \u00e9poca tenebrosa tamb\u00e9m est\u00e1 muito longe de poder concretizar a realiza\u00e7\u00e3o da sua humanidade. Nas palavras de Enrique Rojas, desabrochou um homem relativamente bem informado, mas com escassa educa\u00e7\u00e3o humana, entregue ao pragmatismo. Tudo lhe interessa, mas s\u00f3 a n\u00edvel superficial. N\u00e3o \u00e9 capaz de fazer a s\u00edntese daquilo que recolhe e, por conseguinte, \u00e9 um sujeito trivial, v\u00e3o, f\u00fatil, que aceita tudo e n\u00e3o tem crit\u00e9rios s\u00f3lidos na sua conduta. Reveste-se das seguintes caracter\u00edsticas: \u00abpensamento d\u00e9bil, convic\u00e7\u00f5es sem firmeza, apatia nos seus compromissos (que reduz ao m\u00ednimo); indiferen\u00e7a feita de curiosidade e relativismo ao mesmo tempo; a sua ideologia \u00e9 o pragmatismo e o imediato; a sua norma de conduta \u00e9 o h\u00e1bito social, o que se tolera e o que est\u00e1 na moda; a sua \u00e9tica fundamenta-se na estat\u00edstica, substituta da consci\u00eancia; a sua moral, repleta de neutralidade, falta de compromisso e subjetividade, \u00e9 relegada para a intimidade, sem se atrever a vir a p\u00fablico\u00bb. Diagn\u00f3stico soberbo. Eis alguns frutos do homem light: crise e rutura do casamento, o drama das drogas, o culto da noite (muitas vezes para esconder um dia sem metas, sem sentido, sem objetivos e sem ideais), o absentismo ao trabalho, deteriora\u00e7\u00e3o das rela\u00e7\u00f5es humanas, decr\u00e9scimo da educa\u00e7\u00e3o, enfraquecimento das associa\u00e7\u00f5es e do esp\u00edrito associativo, individualiza\u00e7\u00e3o em detrimento da sociedade ou da comunidade, entre outros.<\/p>\n<p>Estes tempos convulsos que vivemos, que s\u00e3o consequ\u00eancia do homem light que reinou nos \u00faltimos anos, devem-nos despertar para uma nova conce\u00e7\u00e3o de ser homem e de ser sociedade, um novo paradigma de que j\u00e1 muitos falam, mas um novo paradigma que n\u00e3o tenha medo de encarar a verdade mais profunda da vida e do homem, na resposta aos anseios mais profundos do cora\u00e7\u00e3o humano, e que procure o que \u00e9 mais nobre e digno do ser humano. Enrique Rojas deixa-nos a sua solu\u00e7\u00e3o: \u00abFrente \u00e0 cultura do instante (uma exist\u00eancia in\u00fatil) est\u00e1 a solidez dum pensamento humanista; frente \u00e0 aus\u00eancia de v\u00ednculos, o compromisso com os ideais. \u00c9 necess\u00e1rio superar o pensamento d\u00e9bil com argumentos e propostas suficientemente atrativas para o homem, de forma a possibilitar que este eleve a sua dignidade e as suas pretens\u00f5es\u00bb, \u00abh\u00e1 que conseguir um ser humano que esteja disposto a saber o que \u00e9 bem e o que \u00e9 mal; que se apoie no progresso humano e cient\u00edfico, mas que n\u00e3o se entregue \u00e0 cultura da vida f\u00e1cil, onde qualquer motiva\u00e7\u00e3o tem apenas como fim o bem-estar, um determinado n\u00edvel de vida ou o prazer sem limites. Um homem consciente de que n\u00e3o pode haver verdadeiro progresso humano enquanto este n\u00e3o se desenvolver numa base moral\u00bb.<\/p>\n<p>Arremato, com uma \u00faltima frase de Enrique Rojas: \u00abO homem light n\u00e3o tem refer\u00eancias, perdeu o seu ponto de mira e encontra-se cada vez mais desorientado ante as grandes interroga\u00e7\u00f5es da exist\u00eancia. Quando se perdeu a b\u00fassola, a \u00fanica sa\u00edda \u00e9 navegar \u00e0 deriva, sem saber a que agarrar-se no que respeita a temas chave da vida, o que conduz \u00e0 aceita\u00e7\u00e3o e canoniza\u00e7\u00e3o de tudo. \u00c9 uma nova imaturidade, que foi crescendo lentamente, e que hoje j\u00e1 tem uma n\u00edtida fisionomia\u00bb.<\/p>\n<p>Encontrar-se com Jesus Cristo neste natal e abrir-se ao seu Evangelho, \u00e9 o melhor presente que muitos podem dar a si mesmos e aos outros.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre V\u00edtor Pereira, Diocese de Vila Real\u00a0<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":268285,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-353653","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/353653","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=353653"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/353653\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/268285"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=353653"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=353653"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=353653"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}