{"id":352483,"date":"2024-12-11T11:02:25","date_gmt":"2024-12-11T11:02:25","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=352483"},"modified":"2024-12-11T11:12:35","modified_gmt":"2024-12-11T11:12:35","slug":"lusofonias-mocambique-nos-olhos-de-mia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/lusofonias-mocambique-nos-olhos-de-mia\/","title":{"rendered":"LUSOFONIAS &#8211; Mo\u00e7ambique nos olhos de Mia"},"content":{"rendered":"<p><em>Tony Neves, em Maputo<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignnone wp-image-352484 size-large\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/lusofonias-mocambique-1024x683.jpg\" alt=\"\" width=\"1024\" height=\"683\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/lusofonias-mocambique-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/lusofonias-mocambique-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/lusofonias-mocambique-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/lusofonias-mocambique-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/12\/lusofonias-mocambique.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 1024px) 100vw, 1024px\" \/><\/p>\n<p>Aterrei em Maputo numa manh\u00e3 quente, depois de sair gelado de Lisboa e ter, em Luanda, experimentado apenas o ar condicionado do aeroporto. Mo\u00e7ambique est\u00e1 a bra\u00e7os com uma crise pol\u00edtica e social que \u00e9 rescaldo das elei\u00e7\u00f5es cujos resultados n\u00e3o foram aceites pela oposi\u00e7\u00e3o. As muitas manifesta\u00e7\u00f5es, regra geral violentas, que marcaram os \u00faltimos tempos, criaram instabilidade e aumentaram o mal estar social que tem perturbado a vida j\u00e1 t\u00e3o sofrida das popula\u00e7\u00f5es mais fr\u00e1geis deste pa\u00eds lus\u00f3fono.<\/p>\n<p>Cheguei, mais uma vez, com uma enorme vontade de abra\u00e7ar os meus irm\u00e3os mission\u00e1rios\u00a0 que aqui partilham a sorte e a m\u00e1 sorte deste bom povo, t\u00e3o martirizado ao longo da hist\u00f3ria, hoje a viver tempos dram\u00e1ticos e ainda sem ver grandes luzes no fundo do t\u00fanel.<\/p>\n<p>Nos dias que precederam esta viagem, tive a alegria de ler o \u00faltimo romance de Mia Couto, o escritor-bi\u00f3logo que mostra Mo\u00e7ambique ao mundo e que inspira quantos o leem. \u2018A Cegueira do Rio\u2019, leva-nos at\u00e9 ao norte do pa\u00eds onde o enorme Rovuma faz fronteira com a Tanz\u00e2nia. Mia Couto transporta-nos at\u00e9 ao long\u00ednquo 1914. O autor \u00e9 de opini\u00e3o que o assalto alem\u00e3o, a partir da Tanz\u00e2nia, que matou 12 pessoas no posto militar portugu\u00eas de Madziwa, est\u00e1 na origem da Primeira Grande Guerra Mundial no continente africano. O romance evoca ainda a \u2018Revolta dos Maji-Maji\u2019, realizada entre 1905 e 1907 contra a cultura for\u00e7ada do algod\u00e3o, onde as tropas alem\u00e3s mataram entre 200 e 300 mil camponeses! Mas que massacre t\u00e3o abomin\u00e1vel! Na nota final do livro, o autor lembra que, segundo n\u00fameros oficiais de 1919, as campanhas africanas desta Guerra provocaram 148\u00a0212 mortos, s\u00f3 em Angola e Mo\u00e7ambique!<\/p>\n<p>Mia Couto habituou-nos \u00e0 sua escrita criativa, mas tamb\u00e9m a uma reflex\u00e3o sobre a humanidade e as atitudes que p\u00f5em em causa a dignidade e os direitos das pessoas. A obra divide-se em 14 cap\u00edtulos e 93 n\u00fameros. Tem diversos protagonistas que, em muitos momentos, falam na primeira pessoa. Cada um dos n\u00fameros come\u00e7a com uma cita\u00e7\u00e3o de um autor ou um prov\u00e9rbio. Para n\u00e3o contar a hist\u00f3ria e n\u00e3o estragar a leitura deste romance, limito-me a provocar os ouvintes e leitores com frases que destaquei deste novo livro, nascido em terras de Mo\u00e7ambique: \u2018Em \u00c1frica o ch\u00e3o \u00e9 muito antigo, mas os caminhos s\u00e3o sempre rec\u00e9m-nascidos. A raz\u00e3o \u00e9 simples: os carreiros desaparecem na esta\u00e7\u00e3o das chuvas\u2019 (p.22); \u00a0\u2018Ningu\u00e9m pode viajar sem visitar as pessoas. Os que moram no caminho s\u00e3o o pr\u00f3prio caminho\u2019 (p.41); \u2018A grande quest\u00e3o para quem foge n\u00e3o \u00e9 o destino. \u00c9 at\u00e9 quando ter\u00e1 de fugir\u2019 (p.42); \u2018O que mais me tira o sono \u00e9 saber que os que mandam em tudo j\u00e1 perceberam que n\u00e3o t\u00eam o controlo de nada\u2019 (p.80); \u2018Em \u00c1frica tudo \u00e9 caminho. Porque tudo termina e tudo come\u00e7a em cada esta\u00e7\u00e3o do ano\u2019 (p.86); \u2018N\u00e3o sabem que, em certos lugares, partir \u00e9 uma senten\u00e7a e voltar \u00e9 um milagre\u2019 (p.106); \u2018O passado j\u00e1 n\u00e3o existe. N\u00e3o existe nem para te proteger, nem para me amea\u00e7ar\u2019 (p.107); \u2018Escreve mesmo depois de deixar de haver palavras\u2019 (p.108); \u2018Quem n\u00e3o respeita as mulheres n\u00e3o pode amar nem ser amado pela vida\u2019 (p.109); \u2018Os bichos s\u00e3o iguais \u00e0s pessoas: os que n\u00e3o pedem favores s\u00e3o donos da sua vida\u2019 (p.120).<\/p>\n<p>\u2018Os sentimentos s\u00e3o como roupa a secar ao sol: apenas os pobres exibem essas intimidades em p\u00fablico\u2019 (p.124); \u2018Ao escrever, ele voltava a p\u00f4r o mundo em ordem\u2019 (p.125); \u2018H\u00e1 tr\u00eas modos de sair da guerra: morto, her\u00f3i ou sobrevivente\u2019 (p138); \u2018Agora tenho de descansar. Foi tanta viagem que os meus p\u00e9s ganharam alergia ao ch\u00e3o\u2019 (p.141); \u2018S\u00e3o precisas duas pessoas para que haja sil\u00eancio\u2019 (p.148); \u2018Que um rio s\u00f3 \u00e9 eterno porque vive de outras \u00e1guas. Solit\u00e1rios, os rios adoecem\u2019 (p.148); \u2018Um soldado olha o mundo devagar. Sabe que pode ser a \u00faltima vez\u2019 (p.152); \u2018Ningu\u00e9m vai para a guerra. Estamos dentro dela, sem darmos conta\u2019 (p.160); \u2018Voc\u00eas europeus dan\u00e7am aos pares. N\u00f3s dan\u00e7amos com o mundo inteiro\u2019 (p.185); \u2018Deixei para o fim a doen\u00e7a que mais me intrigava: a cegueira dos rios\u2019 (p.222); \u2018Nas grandes trag\u00e9dias, quando as v\u00edtimas s\u00e3o demasiadas. Ningu\u00e9m se d\u00e1 ao trabalho de as contar. E o que n\u00e3o se pode contar converte-se em nada\u2019 (p.226); \u2018A vida \u00e9 uma corda sem ponta: \u00e1gua numa extremidade e areia na outra\u2019 (p.252); \u2018\u00c9s descendente de um grande combatente. O teu pai deu a vida pela vida dos outros\u2019 (p.313); \u2018Lav\u00e1mos os rios, apag\u00e1mos as cinzas, desamarramos as nuvens\u2019 (p.318).<\/p>\n<p>Aqui, por terras mo\u00e7ambicanas, partilharei este tempo de Advento e o Natal. Os Espiritanos vivem e trabalham em cinco dioceses, com miss\u00f5es nas periferias de cidades e tamb\u00e9m em comunidades do interior. Semana ap\u00f3s semana, Lusofonias vai amplificar o que eu vir, ouvir, sentir e viver.<\/p>\n<p>Tony Neves, em Maputo<\/p>\n<div class=\"ast-oembed-container \" style=\"height: 100%;\"><iframe title=\"Spotify Embed: LUSOFONIAS - Mo\u00e7ambique nos olhos de Mia\" style=\"border-radius: 12px\" width=\"100%\" height=\"152\" frameborder=\"0\" allowfullscreen allow=\"autoplay; clipboard-write; encrypted-media; fullscreen; picture-in-picture\" loading=\"lazy\" src=\"https:\/\/open.spotify.com\/embed\/episode\/3GJIAGJbQxp2zwm8I8hFfl?si=n826bN-aQcq6uRexAwBT9g&#038;utm_source=oembed\"><\/iframe><\/div>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Tony Neves, em Maputo<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":299394,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-352483","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/352483","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=352483"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/352483\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/299394"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=352483"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=352483"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=352483"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}