{"id":35173,"date":"2008-11-11T15:02:34","date_gmt":"2008-11-11T15:02:34","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/11\/11\/ha-75-anos-nascia-a-accao-catolica-portuguesa\/"},"modified":"2008-11-11T15:02:34","modified_gmt":"2008-11-11T15:02:34","slug":"ha-75-anos-nascia-a-accao-catolica-portuguesa","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/ha-75-anos-nascia-a-accao-catolica-portuguesa\/","title":{"rendered":"H\u00e1 75 anos nascia a Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica Portuguesa"},"content":{"rendered":"<p>Paulo Fontes afirma que \u00abcelebrar os 75 anos da funda\u00e7\u00e3o da ACP n\u00e3o poder\u00e1 ser feito com o olhar virado apenas para o passado\u00bb <!--more--> H\u00e1 75 anos, uma carta do papa Pio XI ao cardeal-patriarca de Lisboa D. Manuel Gon\u00e7alves Cerejeira, datada de 10 de Novembro de 1933, assinalava oficialmente o lan\u00e7amento da Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica Portuguesa (ACP), nova organiza\u00e7\u00e3o do apostolado cat\u00f3lico no pa\u00eds. A promulga\u00e7\u00e3o das suas Bases Org\u00e2nicas pelo episcopado portugu\u00eas, a 16 de Novembro do mesmo ano, traduzia o in\u00edcio do processo de institucionaliza\u00e7\u00e3o da ACP como organiza\u00e7\u00e3o nacional, visando integrar todos os sectores do apostolado e cobrindo todas as dioceses do pa\u00eds, de modo a totalizar uma nova forma de presen\u00e7a da Igreja Cat\u00f3lica na sociedade, marcada pela vis\u00e3o de um catolicismo militante, em prol do que ent\u00e3o se designava pela \u201creconquista crist\u00e3\u201d ou \u201crecristianiza\u00e7\u00e3o crist\u00e3\u201d da sociedade. A sua cria\u00e7\u00e3o resultou de factores internos e externos que favoreceram o seu aparecimento e moldaram a sua identidade no quadro de recomposi\u00e7\u00e3o do catolicismo nacional e de reestrutura\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria Igreja em Portugal, cujo marco mais significativo fora a realiza\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio Plen\u00e1rio Portugu\u00eas, em 1926.  Desde finais do s\u00e9culo XIX que, ao sentimento de fragilidade vivido pelo catolicismo no seio de uma sociedade em processo de seculariza\u00e7\u00e3o, correspondera uma vontade de revitaliza\u00e7\u00e3o e um \u00edmpeto associativo dos cat\u00f3licos, de que a Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica Portuguesa foi, de certo modo, herdeira. A estrat\u00e9gia definida pelo episcopado portugu\u00eas em 1926 ia no sentido do refor\u00e7o da chamada \u201cuni\u00e3o cat\u00f3lica\u201d, da secundariza\u00e7\u00e3o de tudo o que dividia os cat\u00f3licos, incluindo a pol\u00edtica, e de afirma\u00e7\u00e3o da autonomia e capacidade de ac\u00e7\u00e3o da Igreja na sociedade, sob a direc\u00e7\u00e3o dos bispos, enquanto express\u00e3o da autoridade cat\u00f3lica na sociedade. A \u201cparticipa\u00e7\u00e3o dos fi\u00e9is leigos no apostolado hier\u00e1rquico da Igreja\u201d marca o entendimento eclesiol\u00f3gico dos anos 30 e parte dos anos 40. O ideal hist\u00f3rico de uma \u201cnova cristandade\u201d teorizado por Jacques Maritain, afirmando o primado do espiritual, constitu\u00eda o horizonte de mobiliza\u00e7\u00e3o para os que integravam o que ent\u00e3o se designava por \u201cex\u00e9rcito de Cristo-Rei\u201d. A teologia de Cristo-Rei foi, ali\u00e1s, um dos principais p\u00f3los de refer\u00eancia doutrinal at\u00e9, pelo menos, ao final dos anos 50 do s\u00e9culo XX; e a ACP fez sua a Festa de Cristo-Rei, institu\u00edda em 1925. A ideia de que havia que aliar o \u201ccombate interior\u201d de cada um ao \u201ccombate exterior\u201d na sociedade era o quadro de compreens\u00e3o de um apostolado que se pretendia simultaneamente religioso e social. A \u201cquest\u00e3o social\u201d, isto \u00e9 o conflito capital-trabalho e a \u201cimerecida mis\u00e9ria\u201d em que viviam os novos sectores sociais urbanos, em particular o operariado industrial, estimulavam a procura de nova respostas sociais, para que a doutrina social da Igreja e a ent\u00e3o chamada \u201csociologia crist\u00e3\u201d procuravam contribuir, oferecendo refer\u00eancias para a ac\u00e7\u00e3o social e a participa\u00e7\u00e3o c\u00edvica dos cat\u00f3licos. A natureza espec\u00edfica da nova Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica assentava, desde o in\u00edcio, na ideia do apostolado organizado, realizado por leigos sob mandato da Hierarquia. Foi necess\u00e1rio esperar pelos seus desenvolvimentos e dificuldades, assim como pelas novas din\u00e2micas do p\u00f3s-II Guerra Mundial, a par da reflex\u00e3o teol\u00f3gica desenvolvida por Yves Congar e outros, para se afirmar a especificidade e autonomia do apostolado dos leigos, que a realiza\u00e7\u00e3o do I e II Congressos Mundiais do Apostolado dos Leigos bem exprimiu (1951 e 1957). No caso portugu\u00eas, combinou-se a ideia de um apostolado total, capaz de responder e integrar todos os sectores da sociedade, com uma organiza\u00e7\u00e3o duplamente especializada: segundo o sexo e a idade, dando origem a quatro Organiza\u00e7\u00f5es (Liga dos Homens da Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica, Liga das Mulheres da Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica, Juventude Cat\u00f3lica e Juventude Cat\u00f3lica Feminina); e de acordo com os chamados \u201cmeios sociais\u201d &#8211; agr\u00e1rio, escolar, independente, oper\u00e1rio e universit\u00e1rio -, dando origem a 20 Organismos Especilizados. Paralelamente, a hierar-quiza\u00e7\u00e3o interna e a centraliza\u00e7\u00e3o em cada um dos tr\u00eas planos em que a organiza\u00e7\u00e3o se estruturava (local ou paroquial, diocesano e nacional) procurava assegurar efic\u00e1cia a um movimento que visava, simultaneamente, a forma\u00e7\u00e3o de um \u201cescol\u201d (os militantes e dirigentes) e a influ\u00eancia na \u201cmassa\u201d.  Os desenvolvimentos do trabalho de forma\u00e7\u00e3o e reflex\u00e3o teol\u00f3gicas, a preocupa\u00e7\u00e3o com o enraizamento social do trabalho de cristianiza\u00e7\u00e3o, a par da activa participa\u00e7\u00e3o nas din\u00e2micas internacionais ou supranacionais do catolicismo, foram factores que contribu\u00edram decisivamente para conferir ao movimento cat\u00f3lico portugu\u00eas alguns novos tra\u00e7os nos anos 50 a 70, em especial: a forma\u00e7\u00e3o humana, c\u00edvica e religiosa de v\u00e1rias gera\u00e7\u00f5es de cat\u00f3licos, conforme a uma espiritualidade mais incarnada e cristoc\u00eantrica, pese embora o peso do marianismo nas devo\u00e7\u00f5es dos movimentos de Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica; o desenvolvimento de um catolicismo social reformista, partindo do estudo e procura de solu\u00e7\u00f5es para a realidade nacional, bloqueada pela persist\u00eancia pol\u00edtica do Estado autorit\u00e1rio ap\u00f3s a II Guerra Mundial; o aparecimento de novas elites cat\u00f3licas nos mais diversos sectores da sociedade, em particular universit\u00e1rio, intelectual e cultural, mas tamb\u00e9m oper\u00e1rio e de novos sectores profissionais, a par da emerg\u00eancia de novas lideran\u00e7as e din\u00e2micas sociais, a n\u00edvel da juventude, das mulheres, das fam\u00edlias e do movimento sindical e patronal, entre outros.  Nos anos 70, o esgotamento do paradigma de movimento cat\u00f3lico que a ACP corporizou explica o seu desmembramento como corpo org\u00e2nico em 1974, sendo que a realiza\u00e7\u00e3o do II Conc\u00edlio do Vaticano constituiu um importante ponto de viragem neste processo. Muitas das perspectivas teol\u00f3gicas e pastorais que o Conc\u00edlio viera reconhecer e proclamar tiveram na vida e trabalho da Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica, em todo o mundo, um pioneirismo e um alicerce que, no longo prazo, explicam a sua secundariza\u00e7\u00e3o, mormente o reconhecimento do valor pleno do apostolado dos leigos, sem necessidade de recurso ao mandato episcopal ou o valor da liberdade religiosa e do pluralismo eclesial e social. No caso portugu\u00eas, o paralelismo cronol\u00f3gico verificado entre a vig\u00eancia do Estado Novo e a exist\u00eancia da ACP (1933-1974) n\u00e3o deve ser interpretado num registo causal, mas deve procurar-se no h\u00famus cultural e sociol\u00f3gico da realidade portuguesa, que aqui n\u00e3o podemos analisar.  O desmembramento da ACP como corpo org\u00e2nico n\u00e3o significou o fim daquela experi\u00eancia. Ao inv\u00e9s, nalguns casos, traduziu-se no relan\u00e7amento de parte dos movimentos que entretanto se tinham autonomizado no seu interior, alguns dos quais continuam o seu trabalho nos dias de hoje, embora em contexto e em modalidades bem diversos dos iniciais. De igual modo, muitas das intui\u00e7\u00f5es sociais, teol\u00f3gicas e pastorais nascidas no seio da Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica fizeram o seu caminho, encontrando noutras din\u00e2micas sociais e movimentos eclesiais a sua forma de express\u00e3o, nomeadamente: o \u201capostolado do semelhante pelo semelhante\u201d, preconizado pelo papa Pio XI; o m\u00e9todo da \u201crevis\u00e3o de vida\u201d, aprendido na escola da JOC (Juventude Oper\u00e1ria Cat\u00f3lica) de Joseph Cardjin, seu fundador e figura emblem\u00e1tica do movimento cat\u00f3lico internacional; a afirma\u00e7\u00e3o do \u201capostolado de leigos\u201d, apoiado na presen\u00e7a e acompanhamento dos \u201cassistentes eclesi\u00e1sticos\u201d, fun\u00e7\u00e3o para que se recrutaram e formaram dezenas de padres em todo o pa\u00eds e a partir donde se projectaram figuras marcantes do catolicismo social; a distin\u00e7\u00e3o entre \u201cmiss\u00e3o interna\u201d e \u201cmiss\u00e3o externa\u201d, conforme a uma vis\u00e3o que muito contribuiu para a reflex\u00e3o missiol\u00f3gica e a reformula\u00e7\u00e3o da pr\u00f3pria no\u00e7\u00e3o de miss\u00e3o; e, por \u00faltimo, a ideia de \u201cmilit\u00e2ncia cat\u00f3lica\u201d que, sendo-lhe anterior, aqui encontrou um lugar privilegiado de express\u00e3o ao longo do s\u00e9culo XX. Para todos os que se interessam pela mem\u00f3ria e hist\u00f3ria da ACP, celebrar os 75 anos da funda\u00e7\u00e3o da ACP n\u00e3o poder\u00e1 ser feito com o olhar virado apenas para o passado, mas sobretudo para o presente, numa atitude de abertura ao futuro, na procura dos \u201ccaminhos n\u00e3o andados\u201d que, tamb\u00e9m hoje, necessitam ser descobertos e trilhados, na dupla fidelidade \u00e0 realidade vivida e \u00e0 pessoa de Jesus Cristo. <i>Paulo Fontes, Centro de Estudos de Hist\u00f3ria Religiosa &#8211; UCP, autor da tese de doutoramento &#8221; Elites Cat\u00f3licas na Sociedade e na Igreja em Portugal: o papel da Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica Portuguesa (1940-1961)&#8221;, defendida em 2006. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Paulo Fontes afirma que \u00abcelebrar os 75 anos da funda\u00e7\u00e3o da ACP n\u00e3o poder\u00e1 ser feito com o olhar virado apenas para o 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