{"id":35120,"date":"2008-11-07T11:58:21","date_gmt":"2008-11-07T11:58:21","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/11\/07\/reflexao-de-d-joaquim-goncalves-sobre-o-ano-paulino-3\/"},"modified":"2008-11-07T11:58:21","modified_gmt":"2008-11-07T11:58:21","slug":"reflexao-de-d-joaquim-goncalves-sobre-o-ano-paulino-3","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/reflexao-de-d-joaquim-goncalves-sobre-o-ano-paulino-3\/","title":{"rendered":"Reflex\u00e3o de D. Joaquim Gon\u00e7alves sobre o Ano paulino"},"content":{"rendered":"<p>\u00abO Ano Paulino: A Casa da Palavra\u00bb <!--more--> 1 &#8211; Terminou em Roma, no \u00faltimo Domingo do m\u00eas de Outubro, dia 26, a 12\u00aa assembleia ordin\u00e1ria do S\u00ednodo dos Bispos, dedicada a \u201cA Palavra de Deus na vida e miss\u00e3o da Igreja\u201d. Do trabalho realizado na aula sinodal durante tr\u00eas semanas, foram apresentadas ao Papa 55 propostas para ele elaborar um documento pastoral definitivo. Na redac\u00e7\u00e3o dessas propostas, o Arcebispo Ravasi, Presidente do Conselho Pontif\u00edcio para a Cultura, em linguagem de bom comunicador, clara e sint\u00e9tica, recorreu a imagens humanas e belas, falando de \u00aba voz da Palavra de Deus, o rosto da Palavra, a casa da Palavra e as estradas da Palavra\u00bb.  Dessa s\u00edntese faz-se um breve coment\u00e1rio, repetindo algo do que em textos anteriores aqui se foi dizendo. 2 &#8211; Quando se fala da \u00abPalavra de Deus\u00bb, referimo-nos a um mundo mais vasto que a B\u00edblia que \u00e9 somente a Palavra escrita. E a pergunta radical que se faz \u00e9 saber quando e como \u00e9 que Deus falou? \u00c9 o chamado problema da \u00abRevela\u00e7\u00e3o\u00bb, uma quest\u00e3o anterior \u00e0 da an\u00e1lise da B\u00edblia.  A resposta \u00e9 que Deus falou, em primeiro lugar, pela cria\u00e7\u00e3o do mundo, como lembrou S. Paulo aos Romanos (1,19-20). O universo \u00e9 \u00abobra de Deus\u00bb, e, nessa condi\u00e7\u00e3o, reveladora da sabedoria divina, tal como acontece com qualquer obra de arte que, antes de ser objecto de rendimentos e de neg\u00f3cio, \u00e9 reveladora do g\u00e9nio do artista criador. O mundo criado \u00e9, pois, a primeira voz de Deus, uma voz n\u00e3o aud\u00edvel mas \u00abescrita com muitas cores\u00bb (S.Efr\u00e9m) na tela do universo: \u00abpela sua palavra Deus criou os c\u00e9us, e, por isso, os c\u00e9us proclamam a gl\u00f3ria de Deus e o firmamento anuncia a obra das suas m\u00e3os\u00bb. A partir do Renascimento, o universo deixa de ser chamado \u00abcria\u00e7\u00e3o\u00bb e passa a designar-se \u00abNatureza\u00bb, donde tudo nasce e fonte de rendimento econ\u00f3mico para o homem (\u00e1gua, min\u00e9rios, madeira, for\u00e7a motriz, terra ar\u00e1vel, ca\u00e7a, flores, fruta, cereais, animais mar\u00edtimos e terrestres). Essa mudan\u00e7a de linguagem \u00e9 o sinal da mudan\u00e7a de mentalidade que iria desaguar no laicismo moderno (R.Guardini). A outra voz de Deus \u00e9 o conjunto das tradi\u00e7\u00f5es religiosas dos antigos hebreus, um min\u00fasculo povo do M\u00e9dio Oriente, a viver um rigoroso monote\u00edsmo transcendente num espa\u00e7o onde tinha vigorado um sedutor culto sensual como era o cananeu e rodeado de povos polite\u00edstas. Todos os historiadores das religi\u00f5es e das culturas antigas s\u00e3o un\u00e2nimes em reconhecer o facto ins\u00f3lito dessa cultura monote\u00edsta do M\u00e9dio Oriente, n\u00e3o se vislumbrando para essa originalidade uma explica\u00e7\u00e3o humana plaus\u00edvel: nem a terra original de Abra\u00e3o, vindo da Caldeia, nem o Egipto onde cresceu o povo hebreu e donde partiu para Cana\u00e3, nem as tribos locais a\u00ed residentes, nem os povos vizinhos conheciam o monote\u00edsmo vigoroso presente na tradi\u00e7\u00e3o dos hebreus. Essa tradi\u00e7\u00e3o religiosa dos hebreus seria mais tarde passada a escrito.  Essas duas realidades \u2013 a Cria\u00e7\u00e3o e as tradi\u00e7\u00f5es religiosas dos antigos hebreus \u2013 s\u00e3o a voz original de Deus. 3 &#8211; Mais tarde, o pr\u00f3prio Verbo de Deus, que j\u00e1 estava presente na Cria\u00e7\u00e3o, viria em pessoa ao mundo, fazendo-se homem verdadeiro e vivendo no seio desse min\u00fasculo povo de Israel: \u00abo Verbo fez-se carne e habitou entre n\u00f3s\u00bb (Jo 1). Desde modo, \u00aba palavra criadora\u00bb adquire um rosto humano, hist\u00f3rico e vis\u00edvel. \u00abCristo \u00e9 a imagem de Deus invis\u00edvel\u00bb, escreve Paulo aos Colossenses (1,23), e toda a revela\u00e7\u00e3o anterior converge para Jesus Cristo, atingindo a\u00ed a plenitude da revela\u00e7\u00e3o. Compreende-se a profundidade de S. Agostinho ao dizer que \u00abo Velho Testamento anuncia veladamente o que o Novo dir\u00e1 de modo claro\u00bb, pelo que a B\u00edblia deve ser lida a partir do Novo. E S. Jer\u00f3nimo, o homem que traduziu a B\u00edblia hebraica para latim, dir\u00e1 com igual rigor que \u00abignorar a Sagrada Escritura \u00e9, na pr\u00e1tica, ignorar Jesus Cristo\u00bb pois \u00e9 Ele quem fala em toda a B\u00edblia. Rigorosamente, a B\u00edblia pretende ajudar o leitor a estabelecer com Jesus Cristo e, atrav\u00e9s de Jesus Cristo, com o Pai, uma rela\u00e7\u00e3o afectiva e vital, levar \u00e0 ora\u00e7\u00e3o. Paulo chama \u00e0 Igreja \u00abcoluna e fundamento da verdade (1Tim 3,15), e nela est\u00e1 a doutrina a partir da qual se deve rejeitar outras doutrina (1Tim 1,3-6,3-4.20-21). A guarda dessa Palavra e a miss\u00e3o oficial de a levar ao mundo foi confiada por Jesus \u00e0 comunidade dos seus seguidores, mormente aos Pastores da Igreja: \u00abquem vos ouve a Mim ouve, e quem vos despreza a Mim despreza\u00bb (Lc 10,16), evitando discuss\u00f5es in\u00fateis e escolhendo pessoas capazes de a transmitir (2 Tim 1,13-14; 2,2.16-17;3,14-16; 4,1-5).  O correcto entendimento da Palavra faz-se no interior dessa comunidade dos seguidores de Jesus, e, por isso, no final do S\u00ednodo, Bento XVI lembrou que o trabalho cient\u00edfico dos estudiosos sobre as circunst\u00e2ncias hist\u00f3rias e geogr\u00e1ficas da redac\u00e7\u00e3o dos textos \u00e9 necess\u00e1rio mas insuficiente, requerendo-se tamb\u00e9m a escuta da Tradi\u00e7\u00e3o viva no interior da Igreja, pois tanto o texto escrito como a Tradi\u00e7\u00e3o viva da Igreja nasceram da f\u00e9 do Povo de Deus e destinam-se a servir a f\u00e9 desse Povo. Fora dessa \u00abCasa da Palavra\u00bb o texto escrito estiola e degenera. A Igreja \u00e9, portanto, a casa da Palavra, como escreveu S. Pedro (2 Ped 3,1-2; 3,15-16).  Finalmente, a Palavra deve ser difundida no mundo presente e futuro, pois \u00aba Palavra de Deus n\u00e3o est\u00e1 algemada\u00bb (2Tim 2,9). Para isso, h\u00e1 que percorrer as estradas da Palavra: as estradas cl\u00e1ssicas que Paulo percorreu \u2013 vias terrestres e mar\u00edtimas, trabalho de grupos e de multid\u00f5es, em ambientes afectos e meios hostis, a estrada da oralidade, dos contactos individuais e dos textos escritos; e as estradas modernas da tecnologia contempor\u00e2nea &#8211; r\u00e1dio, televis\u00e3o, cinemas, inform\u00e1tica e Internet.  4 &#8211; Chegados aqui, interrogue&#8211;se o leitor sobre o entendimento da Igreja como \u00abCasa da Palavra\u00bb: A B\u00edblia \u00e9 assumida como um \u00ablivro da comunidade crist\u00e3\u00bb, ou como \u00abum livro religioso do mundo\u00bb, um livro \u00f3rf\u00e3o de pai e m\u00e3e, onde cada um vai buscar o que deseja? Entende-se que a B\u00edblia \u00e9 somente a \u00abPalavra de Deus escrita\u00bb, havendo, al\u00e9m dela, a \u00aba Tradi\u00e7\u00e3o viva da Igreja\u00bb, e que esses dois rios da Palavra correm na \u00abcasa da Igreja\u00bb? Compreende-se a raz\u00e3o profunda por que uma edi\u00e7\u00e3o da B\u00edblia feita unicamente com o texto escrito, sem quaisquer notas sobre a liga\u00e7\u00e3o dos textos e o sentido dos mesmos, deixando tudo ao crit\u00e9rio do leitor, \u00e9 uma falsa autonomia da B\u00edblia, geradora de d\u00favidas e confus\u00e3o? A pr\u00f3pria B\u00edblia lembra que o texto precisa de ser explicado e que nenhuma profecia \u00e9 de interpreta\u00e7\u00e3o particular (Act 8, 28-35; 2Ped 1,19-21; 2,1-3).  No mundo escolar, na linguagem corrente e nos meios de comunica\u00e7\u00e3o social fala-se do Universo como \u00abnatureza\u00bb ou tamb\u00e9m como \u00abcria\u00e7\u00e3o\u00bb? Compreende-se o alcance do \u00abC\u00e2ntico das criaturas\u00bb de S. Francisco de Assis, que n\u00e3o \u00e9 somente um texto po\u00e9tico mas a afirma\u00e7\u00e3o do universo como \u00abrevela\u00e7\u00e3o\u00bb?   <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abO Ano Paulino: A Casa da Palavra\u00bb<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[113,120,295,168,311],"class_list":["post-35120","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-ano-paulino","tag-bento-xvi","tag-biblia","tag-diocese-da-guarda","tag-sinodo-dos-bispos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35120","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=35120"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/35120\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=35120"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=35120"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=35120"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}