{"id":351097,"date":"2024-12-01T09:31:38","date_gmt":"2024-12-01T09:31:38","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=351097"},"modified":"2024-11-29T15:56:53","modified_gmt":"2024-11-29T15:56:53","slug":"portugal-medidas-sociais-que-temos-hoje-perpetuam-situacao-de-assistencialismo-e-de-pobreza-isabel-jonet","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/portugal-medidas-sociais-que-temos-hoje-perpetuam-situacao-de-assistencialismo-e-de-pobreza-isabel-jonet\/","title":{"rendered":"Portugal: \u00abMedidas sociais que temos hoje perpetuam situa\u00e7\u00e3o de assistencialismo e de pobreza\u00bb &#8211; Isabel Jonet"},"content":{"rendered":"<p><em>No fim de semana em que decorre mais uma campanha de recolha do Banco Alimentar contra a Fome, \u00e9 convidada da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia ECCLESIA a presidente da Federa\u00e7\u00e3o Portuguesa dos Bancos Alimentares<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_155549\" aria-describedby=\"caption-attachment-155549\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/isabel-jonet01.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-155549 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/isabel-jonet01.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"900\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/isabel-jonet01.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/isabel-jonet01-400x240.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/isabel-jonet01-1024x614.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/isabel-jonet01-768x461.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/isabel-jonet01-1080x648.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/isabel-jonet01-1280x768.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/isabel-jonet01-980x588.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2019\/11\/isabel-jonet01-480x288.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-155549\" class=\"wp-caption-text\">Foto Renascen\u00e7a<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>Que apelo deixa aos que neste fim de semana se dirigem \u00e0s compras e ainda hesitam em contribuir para a campanha do Banco Alimentar?<\/em><\/p>\n<p>Os portugueses conhecem atualmente muito bem os Bancos Alimentares, porque efetivamente s\u00e3o 21 Bancos Alimentares disseminados por todo o territ\u00f3rio nacional, continente e regi\u00f5es aut\u00f3nomas. E isto foi uma rede social real que se foi construindo ao longo dos \u00faltimos 34 anos e que tem quase como que um acordo t\u00e1cito com os portugueses que v\u00e3o \u00e0s compras: n\u00f3s convidamos os portugueses a participar, partilhando um pouco daquilo que v\u00e3o comprar para a sua casa, mas tamb\u00e9m \u2013 e \u00e9 muito importante &#8211; partilhando um pouco do seu tempo. Estas campanhas n\u00e3o se podiam fazer sem um n\u00famero enorme de volunt\u00e1rios, s\u00e3o 40 mil pessoas que, vestindo a mesma camisola, est\u00e3o em mais de 2 mil lojas. Estas pessoas sabem exatamente aquilo que est\u00e3o ali a fazer e quem est\u00e1 a doar os alimentos tamb\u00e9m sabe exatamente aquilo para que est\u00e1 a contribuir: para que outras pessoas possam ter comida na sua mesa. Esta \u00e9 uma realidade muito dura, mas \u00e9 aquela que existe ainda hoje em dia. N\u00f3s temos fam\u00edlias portuguesas que n\u00e3o t\u00eam, todos os dias, aquilo de que precisam para comer.<\/p>\n<p>E essas fam\u00edlias vivem muito desta solidariedade que \u00e9 ativa, mas que \u00e9 uma coisa muito interessante, \u00e9 que todos aqueles que est\u00e3o a dar, seja ao seu tempo, seja aos alimentos, n\u00e3o sabem para quem \u00e9 que est\u00e3o a contribuir, e d\u00e3o-no de uma forma an\u00f3nima, mas generosa, porque confiam nos bancos alimentares.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A \u201ccasa\u201d Banco Alimentar Contra a Fome alberga cada vez mais pessoas, ao contr\u00e1rio do que acontece, por exemplo, na quest\u00e3o da crise da habita\u00e7\u00e3o, em que pretendemos alojar todas as pessoas que precisam, a Casa Banco Alimentar ter\u00e1 certamente mais sucesso quanto mais vazia ficar. Pergunto, estamos a fazer o necess\u00e1rio para \u201cdesalojar\u201d os inquilinos desta casa?<\/em><\/p>\n<p>Bom, eu diria que o Banco Alimentar \u00e9 uma casa com v\u00e1rias moradas. E estas v\u00e1rias moradas s\u00e3o todas as Institui\u00e7\u00f5es de Solidariedade Social que, no terreno, ajudam cada uma das fam\u00edlias. Efetivamente, a nossa taxa de sucesso total era quando pud\u00e9ssemos encerrar o Banco Alimentar, porque n\u00e3o havia pessoas que precisavam de ajuda. E hoje n\u00e3o \u00e9 isso que se passa. Aquilo que vemos \u00e9 que &#8211; infelizmente e apesar de muitas medidas sociais que t\u00eam sido tomadas &#8211; alterou-se um pouco o perfil das pessoas que pedem ajuda e que precisam de receber ajuda, porque nem todos a pedem, mas temos ainda muitas pessoas que dependem da solidariedade de terceiros para poder chegar at\u00e9 ao fim do m\u00eas e ter uma vida mais ou menos digna.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Os n\u00fameros mostram que h\u00e1 mais pessoas em situa\u00e7\u00e3o de pobreza ou em risco de exclus\u00e3o social, mas falou de uma mudan\u00e7a de perfil, e o perfil j\u00e1 n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o n\u00famero, \u00e9 aquilo que define as pessoas. O que \u00e9 que se est\u00e1 a passar, porque \u00e9 que h\u00e1 um tipo de pessoas diferente a chegar aos bancos alimentares e a pedir ajuda.<\/em><\/p>\n<p>Os n\u00fameros tamb\u00e9m s\u00e3o importantes. Eu, sendo economista, gosto de n\u00fameros porque ajudam a quantificar a situa\u00e7\u00e3o, e hoje aquilo que \u00e9 certo \u00e9 que um quinto da popula\u00e7\u00e3o portuguesa vive com menos de 525 euros por m\u00eas. Ora, isto \u00e9 tremendo: um quinto das pessoas portuguesas vive com muitas dificuldades.<\/p>\n<p>Hoje n\u00f3s temos um perfil diferente daquele que existia quando cheguei ao banco alimentar h\u00e1 32 anos. Dantes n\u00f3s t\u00ednhamos, sobretudo, pessoas idosas, que tinham baix\u00edssimas pens\u00f5es de reforma, muitas vezes mulheres, vi\u00favas, que n\u00e3o tinham tido uma carreira contributiva, e pessoas que n\u00e3o tinham as compet\u00eancias necess\u00e1rias para o mercado de trabalho. Hoje, apesar de tudo, a situa\u00e7\u00e3o dos idosos &#8211; n\u00e3o \u00e9 que tenha melhorado -, est\u00e1 menos m\u00e1 do que aquilo que existia, porque, apesar de tudo, temos pens\u00f5es de reforma muito, muito baixas, mas as medidas sociais t\u00eam permitido algum pequeno folgo a estas pens\u00f5es mais baixas. E tamb\u00e9m um conjunto de outras presta\u00e7\u00f5es sociais que t\u00eam sido tomadas, que t\u00eam sido adotadas, como, por exemplo, com participa\u00e7\u00e3o na totalidade dos medicamentos, etc. Mas temos hoje trabalhadores pobres, pessoas que t\u00eam um trabalho, que t\u00eam um sal\u00e1rio, que j\u00e1 trabalham um hor\u00e1rio completo e, por vezes, que andam a saltitar para completar essas horas de trabalho, t\u00eam filhos, muitas vezes mais novas, mas que o peso da habita\u00e7\u00e3o representa, por vezes, mais de 60% do rendimento dispon\u00edvel. E esse rendimento dispon\u00edvel j\u00e1, de si, \u00e9 muito baixo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00e3o conseguem escapar \u00e0 situa\u00e7\u00e3o de pobreza, mesmo trabalhando?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o conseguem porque o peso da habita\u00e7\u00e3o \u00e9 muito elevado, mas tamb\u00e9m porque, quando tentam procurar uma casa mais barata\u2026 por vezes, n\u00f3s estamos a falar de fam\u00edlias que dividem apartamentos e que t\u00eam cada uma um quarto, onde no mesmo espa\u00e7o tem de dormir um casal e, por vezes, os filhos em colch\u00f5es. Estas pessoas n\u00e3o vivem de molde a construir uma fam\u00edlia que, harmoniosamente, se possa desenvolver enquanto tal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Tem vindo a chamar a aten\u00e7\u00e3o nos \u00faltimos tempos, precisamente, para esta realidade dos trabalhadores pobres. \u00c9 um n\u00famero que vem aumentando em Portugal, \u00e9 uma realidade que est\u00e1 a aumentar decorrente, em parte, desta crise da habita\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Vem aumentando de forma preocupante, porque, como disse, muitas destas fam\u00edlias t\u00eam crian\u00e7as, mas vem aumentando sem se ver muito bem como \u00e9 que isto se vai resolver, porque aqui n\u00e3o basta apenas dar dinheiro e dar apoios sociais, porque aquilo que as pessoas precisam \u00e9 de uma habita\u00e7\u00e3o mais condigna, mas sobretudo, de um emprego que n\u00e3o seja prec\u00e1rio e no qual possam ganhar o suficiente para todas as necessidades do seu agregado familiar. E, portanto, enquanto a m\u00e1quina da economia n\u00e3o se puser em marcha, gerando riqueza e, com isto, eu quero dizer, criando melhor e mais emprego, eu n\u00e3o vejo como vamos conseguir dar a volta a esta situa\u00e7\u00e3o. H\u00e1 tamb\u00e9m, um fator que \u00e9 muito cr\u00edtico: \u00e9 que n\u00f3s temos, hoje, muitos trabalhadores prec\u00e1rios que vivem de biscates e, portanto, para al\u00e9m de um trabalho declarado, t\u00eam um emprego fora da economia, mas que exigem um esfor\u00e7o muito, muito grande em termos de hor\u00e1rio e acabam por andar a correr de um lado para o outro, muitas vezes as mulheres, descurando aquilo que era necess\u00e1rio, porque n\u00e3o t\u00eam capacidade nem alternativa, isto de forma muito realista, de poder levar para casa o dinheiro todo que precisavam para os filhos terem uma vida confort\u00e1vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>Voltando \u00e0 realidade da Federa\u00e7\u00e3o dos Bancos Alimentares, h\u00e1 registo, os n\u00fameros est\u00e3o a aumentar, h\u00e1 um aumento no n\u00famero de pedidos de ajuda?<\/p>\n<p>Eu n\u00e3o diria que os n\u00fameros est\u00e3o a aumentar, mas que os n\u00fameros n\u00e3o est\u00e3o a diminuir e \u00e9 isso que me preocupa: apesar dos apoios sociais e apesar de, ano ap\u00f3s ano, se falar disto, virem estat\u00edsticas de termos sucessivos governos, sucessivas entidades preocupadas com o tema da pobreza, o n\u00famero dos pobres n\u00e3o diminui e a taxa de pobreza n\u00e3o diminui, ent\u00e3o, a pobreza alterou-se, no entanto, o peso que ela tem hoje na sociedade portuguesa \u00e9 muito, muito elevado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Qual \u00e9 a perce\u00e7\u00e3o que tem, ent\u00e3o, porque \u00e9 que as estrat\u00e9gias n\u00e3o est\u00e3o a funcionar?<\/em><\/p>\n<p>Por um lado, eu acho que n\u00e3o conhecemos exaustivamente o problema, mas, sobretudo, h\u00e1 medidas que s\u00e3o transversais, porque tem de ser assim, mas que n\u00e3o s\u00e3o adequadas a algumas das situa\u00e7\u00f5es que s\u00e3o especiais. E, portanto, o que \u00e9 que n\u00f3s estamos a fazer? Estamos a padronizar respostas, muitas vezes dando solu\u00e7\u00f5es que n\u00e3o s\u00e3o as mais adequadas e tirando at\u00e9 aos apoios sociais a capacidade de intervir onde eles s\u00e3o mais necess\u00e1rios. O Estado tem de ajudar mesmo aqueles que precisam e esses t\u00eam de ter um apoio. Para tudo o resto, t\u00eam de ser criadas condi\u00e7\u00f5es para que n\u00e3o precisem. Ora, as medidas sociais que temos hoje perpetuam esta situa\u00e7\u00e3o de assistencialismo e de pobreza porque as pessoas habituam-se a viver com os m\u00ednimos sabendo que, se pedirem apoios onde quer que existam, v\u00e3o acabando por aparecer e as pessoas perdem at\u00e9 uma ambi\u00e7\u00e3o de exigir mais e melhor. E, portanto, penso que h\u00e1 que n\u00e3o descurar esta solidariedade, \u00e9 por isso que o Banco de Com\u00e9rcio Alimentar faz tamb\u00e9m estas campanhas, n\u00e3o s\u00f3 para angariar alimentos mas tamb\u00e9m para falar da pobreza e desta realidade com a qual n\u00e3o nos podemos conformar, mas h\u00e1 que, de forma objetiva, segmentar as v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es de pobreza e tratar diferente daquilo que \u00e9 diferente. tratar a situa\u00e7\u00e3o dos reformados com pens\u00f5es baixas de uma maneira, tratar a situa\u00e7\u00e3o dos sem-abrigo de outra maneira &#8211; mesmo na quest\u00e3o das pessoas sem-abrigo, saber aqueles que est\u00e3o na rua porque t\u00eam problemas de \u00e1lcool e drogas e aqueles que est\u00e3o na rua porque n\u00e3o t\u00eam casa e trabalho. Segmentar de forma a ir retirando a cada uma destas categorias todas aquelas pessoas ou fam\u00edlias que se conseguem ir salvando de uma situa\u00e7\u00e3o que \u00e9 indigna, mas dando alguma esperan\u00e7a e n\u00e3o trazendo um conformismo para que os pobres achem que h\u00e1 uma transmiss\u00e3o geracional de pobreza que \u00e9 natural. Em Portugal n\u00f3s temos uma transmiss\u00e3o intergeracional da pobreza que \u00e9 elevad\u00edssima e as pessoas parecem quase que est\u00e3o conformadas com isso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Isso significa que ser pobre \u00e9 mesmo uma fatalidade no nosso pa\u00eds?<\/em><\/p>\n<p>Em muitos casos \u00e9 e as pessoas est\u00e3o conformadas com isso. N\u00f3s temos hoje pessoas mais qualificadas, a escolaridade hoje \u00e9 muito mais elevada e, portanto, as pessoas t\u00eam mais conhecimentos e isso deveria significar que t\u00eam melhores empregos. Mas o que \u00e9 que temos? Temos, por vezes, pessoas licenciadas que est\u00e3o a exercer um trabalho que deveria ser desempenhado por pessoas menos qualificadas. Temos hoje caixas de supermercado que s\u00e3o pessoas licenciadas, que n\u00e3o encontram um lugar para as suas qualifica\u00e7\u00f5es porque elas s\u00e3o desadequadas e, portanto, est\u00e3o a retirar pessoas que teriam capacidade e compet\u00eancia para fazer esse trabalho que \u00e9 mais bem remunerado e est\u00e3o fora do mercado. Ainda por cima, temos muitos jovens que, se podem, v\u00e3o-se embora de Portugal porque aqui n\u00e3o veem futuro e isso \u00e9 terr\u00edvel, pensar que n\u00f3s estamos a deixar sair muitos daqueles que podiam ajudar a construir um Portugal mais esperan\u00e7oso e com um melhor futuro at\u00e9 para as pessoas que t\u00eam menos qualifica\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 pouco falava do conformismo das pessoas, mas provavelmente n\u00e3o estava a referir ao facto de alguns culparem os pobres por estarem nessa situa\u00e7\u00e3o\u2026<\/em><\/p>\n<p>Toda esta situa\u00e7\u00e3o cria todo esse ambiente e as pessoas que n\u00e3o gostam de ser pobres -, ningu\u00e9m gosta de ser pobre, s\u00f3 quem \u00e9 pobre \u00e9 que sabe a dificuldade que \u00e9 &#8211; n\u00e3o vendo a alternativa procuram esquemas que lhes permitam, apesar de tudo, sobreviver nessa pobreza. O nosso olhar tem de ser um olhar que vai ao encontro da situa\u00e7\u00e3o de cada pessoa, pondo-se no lugar, pensando \u201co que \u00e9 que eu faria se estivesse nesta situa\u00e7\u00e3o?\u201d. Se calhar, faz\u00edamos o mesmo, procurando esquemas e procurando, de alguma forma, sobreviver com, por vezes, muito, muito pouco e \u00e9 isso que se passa em Portugal: temos muitas pessoas que t\u00eam de viver de tudo aquilo que conseguem obter para conseguir ter os m\u00ednimos. T\u00ednhamos de ser mais rigorosas, at\u00e9, na forma como est\u00e3o a ser atribu\u00eddos todos os subs\u00eddios, todos os apoios, para que estas pessoas queiram e tenham capacidade de dar uma volta \u00e0 sua vida e n\u00e3o se conformem nesta situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Eu pergunto se, perante esta consci\u00eancia de quem est\u00e1 no terreno, mas, \u00e0s vezes, tamb\u00e9m perante alguma falta de consci\u00eancia de quem n\u00e3o conhece minimamente a situa\u00e7\u00e3o dos mais pobres, se existe o risco de uma clivagem entre as v\u00e1rias camadas da popula\u00e7\u00e3o portuguesa?<\/em><\/p>\n<p>Estas campanhas dos Bancos Alimentares servem, tamb\u00e9m, para que n\u00e3o se registe essa clivagem que \u00e9 tremenda. Por vezes, e, hoje em dia, isso \u00e9 ainda mais dif\u00edcil de contornar, as pessoas vivem apenas na sua vidinha e vivem numa pequena bolha que, hoje, lhes \u00e9 trazida pelos seus telem\u00f3veis, pelas suas redes sociais, pelas suas redes familiares e acham que todos os outros t\u00eam uma vida semelhante. Ora, n\u00e3o \u00e9 assim: estas campanhas dos bancos alimentares e, tamb\u00e9m, o voluntariado que incentivamos, lado a lado, pessoas de todas as idades, pessoas de todas as origens, pessoas de todos os clubes de futebol, at\u00e9, lado a lado, ombro a ombro, naquilo que \u00e9 um desafio que \u00e9 como a todos, que \u00e9, eu dou o meu tempo, eu dou os meus produtos porque eu n\u00e3o me posso conformar que haja pessoas que t\u00eam uma vida assim.<\/p>\n<p>E convidamos muitas pessoas para irem ao Banco Alimentar, mas, tamb\u00e9m, para visitar as institui\u00e7\u00f5es que, no terreno, ajudam estas pessoas. Um contacto com a realidade era algo que n\u00e3o faria mal a alguns dos pol\u00edticos que, depois, apontam a dedo algumas medidas, seja de direita, seja de esquerda. Eu, por vezes, ou\u00e7o muitas pessoas falarem na televis\u00e3o e na r\u00e1dio e fico espantada com o desconhecimento que revelam e com a sobranceria que falam em rela\u00e7\u00e3o \u00e0queles que t\u00eam umas vidas dific\u00edlimas, em cada dia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Pode dar um exemplo?<\/em><\/p>\n<p>Muitas vezes vejo pessoas, seja de direita ou de esquerda, que prop\u00f5em medidas sem saber daquilo que falam. Ainda h\u00e1 pouco tempo, quando se registaram aquelas situa\u00e7\u00f5es aqui na Amadora, ouvi coment\u00e1rios que revelam um total desconhecimento do que \u00e9 a vida nestes bairros e a dificuldade que h\u00e1, para as pessoas que vivem nestes bairros, de terem uma vida calma e onde os equil\u00edbrios s\u00e3o completamente prec\u00e1rios. a maneira como as pessoas falam, como se conhecessem, de pessoas que nunca puseram os p\u00e9s num bairro social, nem sabem o que \u00e9 para estas pessoas viverem num bairro social\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>E esse contacto com a realidade revela que a imigra\u00e7\u00e3o trouxe novos desafios para quem est\u00e1 no terreno, para ajudar?<\/p>\n<p>Trouxe desafios grandes, o primeiro deles \u00e9 a l\u00edngua. Hoje temos muitos imigrantes que nem sequer falam portugu\u00eas nem ingl\u00eas. Muitos destes imigrantes, por vezes, p\u00f5em os filhos na escola, no ensino p\u00fablico e eles n\u00e3o sabem uma palavra de portugu\u00eas e n\u00e3o falam ingl\u00eas. Portanto, h\u00e1 logo ali um problema de l\u00edngua. Depois h\u00e1 um problema de mentalidades, de culturas, at\u00e9 de forma como as pessoas se alimentam e trouxe algum desequil\u00edbrio a bairros que estavam mais ou menos arrumados por tipo de popula\u00e7\u00e3o, que se foi construindo at\u00e9 com rela\u00e7\u00f5es familiares e de vizinhan\u00e7a, mas que de repente vem ser perturbada por pessoas que est\u00e3o de fora e que t\u00eam de se adaptar a um ritmo do bairro, por vezes, destabilizando aquele que \u00e9 esse ritmo. Estes imigrantes novos, a forma como vivem e at\u00e9 a forma como fluem \u00e0 procura de outros empregos, vem perturbar esta realidade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Tem de haver uma preocupa\u00e7\u00e3o maior com a integra\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Tem de haver mais estruturas no terreno que conhe\u00e7am estas pessoas e possam facilitar essa integra\u00e7\u00e3o, para que ela seja harmoniosa e n\u00e3o crie desequil\u00edbrios nos bairros.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Fa\u00e7o-lhe uma pergunta sobre uma figura que tem sido muito relevante nesta den\u00fancia da pobreza e do sistema que promove a exclus\u00e3o, que \u00e9 o Papa Francisco. Ele tem falado muito no descarte dos mais vulner\u00e1veis. \u00c9 uma voz que precisa de ser mais ouvida?<\/em><\/p>\n<p>Eu penso que o Papa Francisco tem uma comunica\u00e7\u00e3o como nunca nenhum Papa teve. Primeiro porque ele, por si pr\u00f3prio, \u00e9 um comunicador, mas depois porque est\u00e1 numa \u00e9poca onde \u00e9 muito mais f\u00e1cil comunicar e onde tudo aquilo que se diz chega mais rapidamente a quem quer ler. O que eu pergunto \u00e9 se todos querem ouvir e querem ler aquilo que o Papa Francisco diz.<\/p>\n<p>Porque, por exemplo, o Papa Francisco recomenda que haja uma articula\u00e7\u00e3o entre as v\u00e1rias entidades que no terreno apoiam a pobreza e n\u00f3s ainda vemos, em zonas muito bem definidas, que as institui\u00e7\u00f5es ao inv\u00e9s de colaborarem se disputam&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Quando n\u00e3o h\u00e1 mesmo uma sobreposi\u00e7\u00e3o\u2026<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 sobreposi\u00e7\u00e3o naquilo que devia haver uma complementaridade. E, portanto, aquilo que eu tenho recomendado \u00e9 que, para cada fam\u00edlia carenciada, se tenha uma esp\u00e9cie de gestor de caso, que possa acompanhar essa fam\u00edlia em todas as suas necessidades, seja de sa\u00fade, seja alimentar, seja de educa\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Est\u00e1 previsto numa estrat\u00e9gia em combate \u00e0 pobreza\u2026<\/em><\/p>\n<p>Mas, \u00e0s vezes, quando as previs\u00f5es n\u00e3o saem do papel, \u00e9 mais dif\u00edcil. Portanto, muitas vezes, aquilo que temos assistido \u00e9 que as pr\u00f3prias institui\u00e7\u00f5es que se organizam no terreno e que fazem espoletar uma situa\u00e7\u00e3o que poderia estar prevista, mas n\u00e3o \u00e9 concretiz\u00e1vel, se elas pr\u00f3prias n\u00e3o quiserem. E \u00e9 isso que n\u00f3s vemos, \u00e9 que hoje, muitas vezes, s\u00e3o as entidades no terreno que n\u00e3o querem que se mude o <em>status quo<\/em>.<\/p>\n<p>Ora, enquanto n\u00e3o se mudar, e \u00e9 isso que o Papa Francisco pensa que diz de uma forma muito clara, enquanto n\u00e3o olharmos para as pessoas mais carenciadas como algu\u00e9m que precisa de um olhar que n\u00e3o \u00e9 apenas caritativo, \u00e9 um olhar total e integral sobre cada uma dessas pessoas, n\u00f3s n\u00e3o vamos conseguir ter f\u00f3rmulas que promovam as autonomias e as responsabilidades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Muitas institui\u00e7\u00f5es de solidariedade v\u00eam alertando para uma certa exaust\u00e3o de quem ajuda. Tem, de alguma forma, notado dificuldades a esse n\u00edvel?<\/em><\/p>\n<p>Eu diria que, sobretudo para as pessoas que t\u00eam de estar no terreno todos os dias, \u00e9 dif\u00edcil porque a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o muda. Ano ap\u00f3s ano, dia ap\u00f3s dia, sempre os mesmos problemas sem ter uma capacidade para mudar. Mas hoje n\u00f3s temos muitos volunt\u00e1rios, muito mais volunt\u00e1rios do que t\u00ednhamos, e temos sobretudo jovens volunt\u00e1rios que, de forma comprometida, querem dar tempo e que t\u00eam uma vontade real de participar. E isso para mim \u00e9 muito esperan\u00e7oso, porque quando conseguimos aproximar esses jovens, estas novas camadas desta situa\u00e7\u00e3o real, podemos, de alguma forma, mudar o olhar e a forma como s\u00e3o desenhados os planos de interven\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m podemos gerar mudan\u00e7a pelo comportamento e pelo exemplo. E, portanto, eu tenho sempre esperan\u00e7a, sou uma otimista e acredito que esta exaust\u00e3o que se v\u00ea nas pessoas, sobretudo nas pessoas que h\u00e1 anos e anos e anos est\u00e3o neste setor social, que possa, se assim elas o quiserem, ser um testemunho que possa ser bem passado a outras pessoas. Obviamente diferentes, hoje temos menos freiras, temos menos padres que v\u00e3o aos bairros, mas temos outro tipo de pessoas e temos de aceitar que em cada momento temos aquilo que \u00e9 mais necess\u00e1rio, mas sobretudo aquilo que \u00e9 o poss\u00edvel.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>No fim de semana em que decorre mais uma campanha de recolha do Banco Alimentar contra a Fome, \u00e9 convidada da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia ECCLESIA a presidente da Federa\u00e7\u00e3o Portuguesa dos Bancos Alimentares<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":155549,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[314],"class_list":["post-351097","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/351097","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=351097"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/351097\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/155549"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=351097"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=351097"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=351097"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}