{"id":35045,"date":"2008-11-04T09:28:07","date_gmt":"2008-11-04T09:28:07","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/11\/04\/como-reagiu-a-igreja-em-portugal-ao-discurso-do-bento-xvi\/"},"modified":"2008-11-04T09:28:07","modified_gmt":"2008-11-04T09:28:07","slug":"como-reagiu-a-igreja-em-portugal-ao-discurso-do-bento-xvi","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/como-reagiu-a-igreja-em-portugal-ao-discurso-do-bento-xvi\/","title":{"rendered":"Como reagiu a Igreja em Portugal ao discurso do Bento XVI?"},"content":{"rendered":"<p>D. Ant\u00f3nio Marcelino: \u00abactivismo pouco centrado no essencial e dificuldade de leitura actual\u00bb  <!--more--> <i>\u201cNa situa\u00e7\u00e3o actual da Igreja e do mundo, ap\u00f3s um tempo t\u00e3o largo de imobilismo e de medo por parte da Igreja ante as mudan\u00e7a s\u00f3cio culturais do mundo, pode dizer-se que \u00e9 mais seguro o risco de novas experi\u00eancias, t\u00e3o ponderado e  medido quanto poss\u00edvel, que permanecer apegados  a formas tradicionais, que hoje j\u00e1 n\u00e3o se adaptam \u00e0 express\u00e3o da mensagem crist\u00e3.\u201d<\/i> (Karl Rahner)  1. Creio ser de justi\u00e7a afirmar-se que, certamente, os respons\u00e1veis da Igreja em Portugal, com os seus colaboradores imediatos, conscientes da realidade que vivem e em que vivem, est\u00e3o preocupados, para al\u00e9m da palavra do Papa, em encontrar caminhos adequados para responder ao maior desafio que \u00e9 feito \u00e0 Igreja no nosso pa\u00eds, o da evangeliza\u00e7\u00e3o, bem como o de dar \u00e0 Igreja Diocesana e \u00e0s suas comunidades, um rosto novo de cariz conciliar.  \u00c9 precisamente este o rosto de uma Igreja Comunh\u00e3o, serva e pobre, express\u00e3o cada vez mais clara do Povo de Deus que caminha no tempo, em luta e sofrimento, portador das promessas e das certezas de Deus, a favor de todos, sem excep\u00e7\u00e3o.  At\u00e9 que ponto o est\u00e3o logrando, \u00e9 uma pergunta pertinente nesta hora e em todas as horas, dominadas pela urg\u00eancia da miss\u00e3o, em tempos dif\u00edceis e, por isso mesmo, mais insistentes e desafiantes. N\u00e3o basta, hoje, o que sempre se fez com generosidade renovada. Tempos diferentes, mundo diferente, desafios diferentes, pensares e saberes diferentes pedem uma ac\u00e7\u00e3o igual nos objectivos, mas diferente nas suas diversas express\u00f5es, mesmo correndo riscos, como adverte K Rahner.  2. Bento XVI falou da necessidade de abrir caminhos de comunh\u00e3o que permitam ver a imagem e o rosto inequ\u00edvocos de uma Igreja que caminha ao ritmo do Vaticano II, na qual todos os seus membros, conscientes da sua dignidade e do seu lugar na comunidade, se sintam protagonistas integrados e participantes na vida eclesial. Insistiu, neste sentido, na necessidade de \u201cmudar o estilo de organiza\u00e7\u00e3o da comunidade eclesial portuguesa e a mentalidade dos seus membros\u201d. Isto exige que se veja, com verdade e coragem, se a Igreja em Portugal j\u00e1 assumiu ou est\u00e1 assumindo as caracter\u00edsticas de uma Igreja Povo de Deus, por isso mesmo Igreja Comunh\u00e3o, plural nos dons, nos carismas e nos minist\u00e9rios, mas uma s\u00f3 na dignidade comum de todos os seus membros, na lei que os anima e compromete, na finalidade concreta da sua miss\u00e3o de an\u00fancio de Jesus Cristo e de di\u00e1logo com o mundo. N\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil poder dizer-se que este caminho, que \u00e9, certamente, desejo e prop\u00f3sito de todos, est\u00e1 andado ou a ser andado com resultados vis\u00edveis.  O Papa deu mais uma achega neste sentido, ao falar do \u201crecto ordenamento da Igreja\u201d  em Portugal sobre a atribui\u00e7\u00e3o das responsabilidades que competem a cada um. De facto, a Igreja do Vaticano II n\u00e3o pode ser mais uma Igreja de cristandade,  na qual a tradicional vertente clerical substitua ou impe\u00e7a a integra\u00e7\u00e3o dos leigos na vida e na miss\u00e3o concreta da Igreja. Se examinarmos esta primeira orienta\u00e7\u00e3o pastoral do Papa, talvez tenhamos que dizer que os resultados n\u00e3o s\u00e3o t\u00e3o positivos, a n\u00edvel de todo o pa\u00eds, como seria desej\u00e1vel que j\u00e1 fossem, quarenta anos depois do Conc\u00edlio. O ritmo tem sido diferente e os resultados n\u00e3o podem ser iguais, mas a verdade \u00e9 que, tamb\u00e9m n\u00e3o se viu nenhum programa com linhas orientadoras do mesmo, emanado da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa com essa finalidade.  A autonomia das dioceses, com as suas tradi\u00e7\u00f5es, caminhada pr\u00f3pria e perfil humano e social diferentes, tem dificultado sempre iniciativas comuns necess\u00e1rias em ordem a uma desejada e urgente renova\u00e7\u00e3o. Mas, sem estas, pensadas por todos os que no Povo de Deus t\u00eam capacidade para isso, e s\u00e3o muitos, e n\u00e3o apenas pelos bispos com os seus presbit\u00e9rios, e acolhidas, responsavelmente, por todas e cada uma das dioceses, n\u00e3o se vislumbram mudan\u00e7as na fisionomia da Igreja e no seu empenho actualizado da miss\u00e3o. Enquanto houver algum predom\u00ednio do clericalismo, aos diversos n\u00edveis, e do individualismo pastoral, que parece satisfazer cada um na autonomia do seu territ\u00f3rio, n\u00e3o ser\u00e1 poss\u00edvel abrir caminhos novos para uma Igreja Comunh\u00e3o, suporte de uma Miss\u00e3o que a identifica com o projecto de Jesus Cristo Ao longo deste ano n\u00e3o se viram muitas iniciativas nesse sentido e poder\u00e1 dizer-se que, lamentavelmente, o processo de renova\u00e7\u00e3o, a n\u00edvel nacional, continua mais ou menos parado, fazendo-se aqui e ali o que parece bem ou poss\u00edvel a cada um, sem qualquer exig\u00eancia comum, como se, de Norte a Sul os grandes problemas s\u00e3o fossem iguais e os territ\u00f3rios geogr\u00e1ficos n\u00e3o confinassem.  3. Bento XVI disse ainda, que o processo de renova\u00e7\u00e3o tem um ponto de partida essencial: o \u201cencontro pessoal com Jesus Cristo que d\u00e1 \u00e0 vida um novo horizonte e, desta forma, um rumo decisivo\u201d. Acrescenta que \u201ca evangeliza\u00e7\u00e3o da pessoa e das comunidades humanas depende, absolutamente, da exist\u00eancia ou n\u00e3o deste encontro com Jesus Cristo\u201d, no qual \u00e9 importante, se n\u00e3o mesmo fundamental, o caminho da \u201cinicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3\u201d nas comunidades paroquiais, que devem, agir como comunidades educativas da f\u00e9. Assim se poder\u00e1 lograr uma viv\u00eancia crist\u00e3, pessoal e comunit\u00e1ria, que seja garantia de fidelidade e de dinamismo apost\u00f3lico, frente a uma sociedade laica, na qual Deus parece ter cada vez menos lugar. Os bons prop\u00f3sitos de uma inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3 programada de que se foi falando em diversas inst\u00e2ncias, n\u00e3o foram longe e n\u00e3o se viu reflex\u00e3o nesse sentido, nem a n\u00edvel de CEP e seus servi\u00e7os, nem a n\u00edvel da quase maioria das dioceses, tanto quanto se sabe. O que se fez numa ou noutra foi constando tanto em dioceses como em movimentos laicais de cariz evangelizador. Fui, por curiosidade, recordar as interven\u00e7\u00f5es de Jo\u00e3o Paulo II aos bispos portugueses  em anteriores visitas ad Limina (1982, 1987, 1999). Bento XVI seguiu no mesmo sentido, com palavras iguais ou pr\u00f3ximas, ante a necessidade de evangeliza\u00e7\u00e3o numa sociedade em mudan\u00e7a e com um povo eivado de tradi\u00e7\u00f5es religiosas , por vezes pouco consistentes e menos esclarecidas. O tempo vai passando e estamos neste ponto: uma Igreja, com grupos maiorit\u00e1rios v\u00e1lidos e apost\u00f3licos, mas pejada de pag\u00e3os ou de crist\u00e3os incoerentes. Que v\u00e3o perdurando e n\u00e3o diminuindo por uma sacramentaliza\u00e7\u00e3o sem evangeliza\u00e7\u00e3o ou catequese.  A n\u00edvel geral e durante s\u00e9culos, n\u00e3o se fez nas comunidades paroquiais, com raras excep\u00e7\u00f5es proporcionadas por movimentos especializados, uma verdadeira inicia\u00e7\u00e3o crist\u00e3, porque se considerava desnecess\u00e1ria numa Igreja de cristandade e de transmiss\u00e3o pac\u00edfica da f\u00e9. E, onde se come\u00e7ou um novo caminho neste sentido, com jovens e adultos, iniciativas v\u00e1lidas, s\u00e9rias e reflectidas foram ficando pelo caminho, por falta de convic\u00e7\u00e3o pastoral e de educadores da f\u00e9, preparados e dispon\u00edveis, que acreditem que o caminho \u00e9 este.   Aparece  mais vis\u00edvel, entre n\u00f3s, a preocupa\u00e7\u00e3o de responder positivamente ao desejo do Papa, quando ele disse aos bispos: \u201cApraz-me pensar em F\u00e1tima como escola de f\u00e9 com  a Virgem Maria por Mestra; l\u00e1 ergueu Ela a sua c\u00e1tedra para ensinar aos pequenos videntes e depois \u00e0s multid\u00f5es as verdades eternas e a arte de orar, crer e amar\u201d. Em F\u00e1tima v\u00e3o-se vendo coisas novas e esperemos que com futuro.  4. Passado mais um ano, \u00e9 minha opini\u00e3o, que, apesar da sua generosa entrega a actividades pastorais tradicionais, ainda que com alguma cosm\u00e9tica exterior de novidade, a Igreja em Portugal parece padecer de dois males do tempo, que paralisam, em grande parte, a sua ac\u00e7\u00e3o e n\u00e3o permitem projectos pastorais inovadores. Trata-se de um activismo pouco centrado no essencial e para este orientado, e uma dificuldade concreta de paragem para ler a realidade, discernir com crit\u00e9rios v\u00e1lidos os apelos profundos das pessoas em geral e muito especialmente dos mais jovens. Assim aparece o empenho em rumos, traduzidos em propostas e respostas a uma sociedade que j\u00e1 n\u00e3o age na linha da f\u00e9, nem procura inspira\u00e7\u00e3o na mensagem evang\u00e9lica e crist\u00e3. Muita gente generosa continua a esgotar-se em actividades sem futuro consistente; muitos planos pastorais aparecem mais voltados para os problemas internos da Igreja, por importantes que estes sejam, que para o seu dever como servidora do mundo que tem e ouvir para melhor dialogar; a muitos leigos bem preparados pede-se-lhes o que muitos outros podem fazer e n\u00e3o um contributo de reflex\u00e3o e planifica\u00e7\u00e3o para que t\u00eam saber e compet\u00eancia.  O tempo passa e parece ser melhor caminho na Igreja, para alguns respons\u00e1veis, agir em fun\u00e7\u00e3o de imediatos que programar por objectivos.  Organizar a Igreja como sociedade humana e com rosto social aceit\u00e1vel \u00e9 muito diferente e, provavelmente, mais f\u00e1cil, que revitaliz\u00e1-la como comunidade de f\u00e9 e como comunidade fraterna, capaz de uma miss\u00e3o no tempo, que \u00e9 anunciar Jesus Cristo, como \u00fanico Salvador, e saber dialogar com o mundo secularizado, em ordem \u00e0 sua humaniza\u00e7\u00e3o e procura de melhores solu\u00e7\u00f5es para os seus maiores problemas, mormente no campo da justi\u00e7a, da verdade e da paz. Neste contexto, para a Igreja e sua ac\u00e7\u00e3o, a criatividade \u00e9 fundamental, com tudo quanto esta exige em rela\u00e7\u00e3o a meios necess\u00e1rios, que v\u00e3o al\u00e9m dos habituais.  5. O problema da Igreja, hoje entre n\u00f3s, parece ser o da sua capacidade de se situar validamente, quer na fidelidade din\u00e2mica \u00e0s orienta\u00e7\u00f5es conciliares que a fazem regressar \u00e0s ra\u00edzes e \u00e0s fontes daquilo que no cristianismo \u00e9 evangelicamente essencial, quer de viver e agir num mundo diferente onde as dificuldades t\u00eam de ser consideradas como desafios e oportunidades. Ante tempos novos, Bento XVI est\u00e1 dando \u00e0 Igreja a que preside, apesar da sua idade, um testemunho extraordin\u00e1rio de fidelidade corajosa ao essencial e de abertura, com uma sensibilidade invej\u00e1vel, ao mundo actual e aos seus dinamismos, dialogando sem receio e abrindo-se aos valores emergentes, venham de onde vierem. A visita pastoral recente a Fran\u00e7a e as not\u00edcias que cada dia nos chegam dos seus mais diversos encontros e interven\u00e7\u00f5es, em Roma ou noutras paragens, mostram caminho a seguir e a actualidade das suas advert\u00eancias e orienta\u00e7\u00f5es. Hoje, para todos, mesmo n\u00e3o crentes, \u00e9 preciso que a Igreja mais respons\u00e1vel d\u00ea raz\u00f5es de esperan\u00e7a, quer aos seus membros, quer \u00e0 sociedade em geral. \u00c9 este o seu dever A comunh\u00e3o com Pedro para melhor servi\u00e7o do Reino, tamb\u00e9m se situa nesta linha. <i>Ant\u00f3nio Marcelino, bispo em\u00e9rito de Aveiro <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. 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