{"id":350071,"date":"2024-11-23T09:56:37","date_gmt":"2024-11-23T09:56:37","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=350071"},"modified":"2025-08-28T17:01:38","modified_gmt":"2025-08-28T16:01:38","slug":"do-passado-um-presente-sao-vicente-de-paulo-e-a-seguranca-social","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/do-passado-um-presente-sao-vicente-de-paulo-e-a-seguranca-social\/","title":{"rendered":"DO PASSADO, UM PRESENTE &#8211; S\u00e3o Vicente de Paulo e a Seguran\u00e7a Social"},"content":{"rendered":"<p><em>Padre Jos\u00e9 Alves, Congrega\u00e7\u00e3o da Miss\u00e3o<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/02-Imagem-Jubileu-CM-com-fundo.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-350076  alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/02-Imagem-Jubileu-CM-com-fundo-1024x1024.jpg\" alt=\"\" width=\"399\" height=\"399\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/02-Imagem-Jubileu-CM-com-fundo-1024x1024.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/02-Imagem-Jubileu-CM-com-fundo-260x260.jpg 260w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/02-Imagem-Jubileu-CM-com-fundo-150x150.jpg 150w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/02-Imagem-Jubileu-CM-com-fundo-768x768.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/02-Imagem-Jubileu-CM-com-fundo-300x300.jpg 300w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/02-Imagem-Jubileu-CM-com-fundo-500x500.jpg 500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/02-Imagem-Jubileu-CM-com-fundo.jpg 1080w\" sizes=\"(max-width: 399px) 100vw, 399px\" \/><\/a>Se por \u201cSeguran\u00e7a Social\u201d entendermos certo conforto, algum apoio, nas dificuldades causadas por debilidades, como a doen\u00e7a, a velhice, o desemprego, ou por crises sociais, tais como guerras e epidemias, podemos dizer que S\u00e3o Vicente de Paulo tamb\u00e9m pensou nisso e, assim, relacion\u00e1-lo com a ideia de algo que se aproxime do conceito de Seguran\u00e7a Social. N\u00e3o imaginemos quotas, taxas, descontos ou subs\u00eddios fixos ou pens\u00f5es. Nada disso. Tal, vai ser obra dos fins do s\u00e9culo XIX e princ\u00edpios do s\u00e9culo XX. Mas a ideia de estar presente e atuante para ajudar a libertar-se da desgra\u00e7a, quem por ela foi atingido, andava-lhe na cabe\u00e7a porque a mis\u00e9ria tanto dentro da cidade de Paris como nas long\u00ednquas terras das prov\u00edncias devastadas pela guerra, urgia. Ali, em Paris, todos os dias esbarrava com a mis\u00e9ria mais gritante; das long\u00ednquas terras da Lorena (guerra entre a Fran\u00e7a, a \u00c1ustria e a Pr\u00fassia) vinham descri\u00e7\u00f5es horr\u00edveis de verdadeiro inferno e apelos lancinantes de aux\u00edlio.<\/p>\n<p>De Paris, da casa de S\u00e3o L\u00e1zaro, qual minist\u00e9rio de Seguran\u00e7a Social, partiam lanchas pelo rio Sena acima, e carro\u00e7as pelas estradas, ora poeirentas ora enlameadas, carregadas de roupas, mantimentos e de tudo o que era necess\u00e1rio para a sobreviv\u00eancia de milhares e milhares de pessoas. Para al\u00e9m da dureza dos transportes, era preciso contar com os assaltantes, igualmente pobres e mendigos esfomeados; mas perigosos eram tamb\u00e9m os soldados mercen\u00e1rios a quem n\u00e3o eram pagos os devidos soldos.<\/p>\n<p>E o que levavam esses carregamentos sa\u00eddos da casa de S\u00e3o L\u00e1zaro e da \u201cloja da Caridade\u201d, esp\u00e9cie de armaz\u00e9m onde tudo era preparado pelas Confrarias da Caridade? (1) Roupas, agasalhos, alimenta\u00e7\u00e3o\u2026 Tudo bem aconchegado gra\u00e7as \u00e0s senhoras das Confrarias e \u00e0s religiosas dos conventos\u2026<\/p>\n<p>A certa altura, o Padre Vicente percebe que o dinheiro come\u00e7a a faltar e a generosidade das pessoas tem limites.\u00a0 As necessidades s\u00e3o permanentes e as ajudas s\u00e3o sempre pontuais! E que as pessoas n\u00e3o se alimentam com dinheiro se n\u00e3o houver nada para comprar. E, assim, come\u00e7ou a desenvolver uma pedagogia que pretendia levar ao autossustento. Ao artista, a par do alimento de emerg\u00eancia, fornecer-lhe-\u00e1 a ferramenta do seu trabalho; ao campon\u00eas, se houver terra livre, fornecer-lhe-\u00e1 enxadas, charruas e sementes. E n\u00e3o faltam conselhos de quem tem alguma experi\u00eancia adquirida na inf\u00e2ncia: <em>\u00abque aproveitem qualquer bocado de terra\u00bb<\/em>, <em>\u00abque a remexam bem\u00bb<\/em> e <em>\u00aba estrumem, porque n\u00e3o sei se, no pr\u00f3ximo ano, terei algo para enviar\u00bb.<\/em> Eis alguns excertos das cartas ou de simples bilhetes que acompanhavam estes carregamentos. N\u00e3o resisto a transcrever parte de uma carta cujas ideias fundamentais s\u00e3o insistentemente repetidas noutras com igual destino:<\/p>\n<p><em>\u00abRogo-lhe, que, entretanto, veja em que lugares da Campanha e da Picardia h\u00e1 gente mais pobre e com mais precis\u00e3o de uma assist\u00eancia destas: mais precis\u00e3o, repito. Poder\u00e1 recomendar-lhe, ao passar, que amanhem qualquer bocado de terra, o removam e o estrumem e pe\u00e7am a Deus que lhes mande sementes. E, sem nada prometer, poder\u00e1 deixar a esperan\u00e7a de que Deus os ouvir\u00e1\u00bb. \u00abQuerer\u00edamos igualmente conseguir que todos os outros pobres \u2013 homens e mulheres \u2013 que n\u00e3o t\u00eam terras, ganhassem a vida. Para isso, dar\u00edamos \u00e0queles, ferramentas e, \u00e0s mulheres, rocas e estopa ou l\u00e3 para fiarem. Isto s\u00f3 aos mais pobres! Se os soldados os n\u00e3o roubarem, poder\u00e3o amealhar alguma coisa e refazer-se de tudo, pouco a pouco.\u00bb <\/em>(2)<\/p>\n<p>Dentro da cidade de Paris refugiavam-se muitas pessoas; fugindo dos horrores da guerra, enfrentavam agora os horrores do desemprego, da fome. Calculava-se \u00e0 volta de 40 mil mendigos. Um comerciante ofereceu ao Padre Vicente de Paulo uma substancial quantia de 100.000 libras. Resolve ele p\u00f4r em pr\u00e1tica uma ideia que ia ganhando cada vez mais for\u00e7a e alguma forma: criar uma casa, \u00e0 experi\u00eancia, com capacidade para 40 utentes (20 homens e 20 mulheres), a cujo internamento se podiam candidatar todos os artes\u00e3os que tivessem desempenhado uma profiss\u00e3o e a quem a guerra tinha atirado para a mis\u00e9ria. Pensou na obra, esbo\u00e7ou-a, mas entregou a sua concretiza\u00e7\u00e3o a Lu\u00edsa de Marillac, o seu bra\u00e7o direito no servi\u00e7o aos mais pobres e cofundadora da Companhia das Filhas da Caridade.<\/p>\n<p>Por ser obra in\u00e9dita ao servi\u00e7o dos pobres, esmerou-se ela por que tudo corresse bem. Num pequeno bilhete ao Padre Vicente de Paulo, Lu\u00edsa diz-lhe que s\u00f3 falta preencher dois lugares, que as senhoras da Confraria confecionaram roupas novas para todos, e pede-lhe que, no dia seguinte, a viesse inaugurar. (3)<\/p>\n<p>Nessa casa desenvolveriam a sua antiga profiss\u00e3o e o produto dos seus trabalhos destinava-se \u00e0s suas despesas pessoais (exemplificando, dizia-se que podia ser para o seu copito de vinho), inspirando alguma seguran\u00e7a no futuro. E saiu-se t\u00e3o bem a concretiza\u00e7\u00e3o da ideia que despertou o entusiasmo das v\u00e1rias associa\u00e7\u00f5es da Caridade da cidade de Paris, que quiseram fazer algo, mas em grande: o chamado \u201cHotel Dieu\u201d. Mas, por ser t\u00e3o grande, o poder pol\u00edtico tomou conta da ideia e puxou para si a sua concretiza\u00e7\u00e3o, empregando para tal a for\u00e7a policial. Claro que n\u00e3o resultou. T\u00e3o bela ideia, falhou no seu objetivo.<\/p>\n<p>Destas e de muitas outras iniciativas do Padre Vicente de Paulo, que seria fastidioso continuar a citar, ressaltam algumas ideias, novas para o tempo e que continuam a fazer caminho:<\/p>\n<ol>\n<li>A caridade crist\u00e3 e o apoio social n\u00e3o podem reduzir-se a mero assistencialismo. \u00c9 uma quest\u00e3o de dignidade. Despertar nas pessoas, idosas ou desempregadas, a criatividade, conservar e desenvolver a sua capacidade produtiva; torn\u00e1-las agentes do seu pr\u00f3prio desenvolvimento e da luta contra a situa\u00e7\u00e3o em que se encontram e acompanh\u00e1-las, tamb\u00e9m faz parte da caridade crist\u00e3.<\/li>\n<li>Numa vis\u00e3o crist\u00e3, quem se empenha numa obra destas \u00e9 express\u00e3o da Provid\u00eancia de Deus: <em>\u00abque pe\u00e7am a Deus\u2026 e sem nada prometer poder\u00e1 deixar a esperan\u00e7a de que Deus os ouvir\u00e1\u00bb.<\/em> Deus s\u00f3 atuar\u00e1 se houver quem seja express\u00e3o viva da sua solicitude e assim ajude a \u201crefazer\u201d e a \u201creconstruir\u201d a vida com dignidade.<\/li>\n<li>\u00c9 patente a exig\u00eancia de organiza\u00e7\u00e3o, a necessidade de um levantamento s\u00e9rio dos necessitados. A assist\u00eancia n\u00e3o pode ser a esmo, obedecendo \u00e0 lei do \u201csalve-se quem puder\u201d: <em>\u00abSer\u00e1 preciso que escrevais os nomes destes ditos pobres para que no tempo de distribuir, lhes v\u00e1 ter a esmola e n\u00e3o a outros que conseguissem passar em seu lugar. Para os distinguir convenientemente, \u00e9 preciso v\u00ea-los em suas pr\u00f3prias casas e conhecer \u201cde visu\u201d, os mais necessitados e os que s\u00e3o menos\u00bb.<\/em> (4)<\/li>\n<li>A vida crist\u00e3 sempre se desenvolveu e, para ser aut\u00eantica, tem que continuar a desenvolver-se \u00e0 volta destes tr\u00eas pilares que t\u00eam Cristo como pedra fundamental: o aprofundamento da f\u00e9, na evangeliza\u00e7\u00e3o; a celebra\u00e7\u00e3o, na liturgia; e a concretiza\u00e7\u00e3o, na pr\u00e1tica da caridade. Assim o entendeu S\u00e3o Vicente de Paulo, inspirador de n\u00e3o s\u00f3 das obras da Caridade Crist\u00e3, mas tamb\u00e9m de outras obras sociais que se foram desenvolvendo ao longo destes quatro s\u00e9culos.<\/li>\n<\/ol>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;&#8212;-<\/p>\n<p>(1) As Confrarias da Caridade, a primeira funda\u00e7\u00e3o de Vicente em 1617, consistiam em grupos organizados de caridade paroquial.<\/p>\n<p>(2) J. Calvet, <em>Cara Caridade: Vicente de Paulo<\/em>, p. 163.<\/p>\n<p>(3) Cfr. J. Calvet, <em>Santa Lu\u00edsa de Marillac<\/em>, p. 142.<\/p>\n<p>(4) J. Calvet, <em>Cara Caridade: Vicente de Paulo<\/em>, p. 163.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Jos\u00e9 Alves, Congrega\u00e7\u00e3o da Miss\u00e3o<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":345947,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[984],"class_list":["post-350071","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao","tag-400-anos-vicentinos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/350071","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=350071"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/350071\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/345947"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=350071"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=350071"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=350071"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}