{"id":349961,"date":"2024-11-21T16:37:32","date_gmt":"2024-11-21T16:37:32","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=349961"},"modified":"2024-11-21T17:35:38","modified_gmt":"2024-11-21T17:35:38","slug":"espiritualidade-a-igreja-do-futuro-deve-ser-a-igreja-que-acompanha-padre-tomas-halik","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/espiritualidade-a-igreja-do-futuro-deve-ser-a-igreja-que-acompanha-padre-tomas-halik\/","title":{"rendered":"Espiritualidade: \u00abA Igreja do futuro deve ser a Igreja que acompanha\u00bb &#8211; padre Tom\u00e1s Hal\u00edk"},"content":{"rendered":"<p><em>Te\u00f3logo checo apresenta em Portugal a sua nova obra, \u00abO sonho de uma nova manh\u00e3. Cartas ao Papa\u00bb<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_349910\" aria-describedby=\"caption-attachment-349910\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/tomas-alik-3.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-349910 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/tomas-alik-3.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/tomas-alik-3.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/tomas-alik-3-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/tomas-alik-3-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/tomas-alik-3-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/tomas-alik-3-391x260.jpg 391w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-349910\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/TAM<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Oct\u00e1vio Carmo<\/em><\/p>\n<p><em>Antes da segunda sess\u00e3o da Assembleia Geral do S\u00ednodo, foi citado numa das medita\u00e7\u00f5es do retiro, com a afirma\u00e7\u00e3o \u201co futuro da Igreja depende da sua capacidade de ir ao encontro dos que procuram, na nossa sociedade\u201d. Ir ao encontro. Ainda somos demasiado autossuficientes como cat\u00f3licos?<\/em><\/p>\n<p>Penso que dever\u00edamos concentrar-nos mais num setor muito brilhante da sociedade. As pessoas respondem \u00e0 pergunta \u201cqual \u00e9 a sua filia\u00e7\u00e3o religiosa?\u201d com \u201cnada, nenhuma\u201d. Chamamos-lhe, em sociologia, os \u201cnenhuns\u201d [nones]. Alguns deles s\u00e3o ateus dogm\u00e1ticos, mas \u00e9 uma minoria. Alguns s\u00e3o apate\u00edstas, ap\u00e1ticos \u00e0 religi\u00e3o, \u00e9 algo que n\u00e3o lhes interessa. Mas tamb\u00e9m h\u00e1 muitos buscadores espirituais. H\u00e1 tamb\u00e9m muitas pessoas que foram educadas como cat\u00f3licas, mas que depois deixaram a Igreja, porque n\u00e3o encontraram as verdadeiras respostas para as suas quest\u00f5es existenciais.<\/p>\n<p>Portanto, este \u00e9 um sector [nones] muito colorido e crescente das pessoas do nosso mundo. E penso que devemos encontrar uma forma de dialogar com eles, de os tentar compreender. N\u00e3o podemos empurr\u00e1-los de volta para as estruturas existentes da Igreja, as estruturas institucionais, as estruturas mentais. Devemos abrir mais estas estruturas, abrir a nossa mentalidade e acompanhar estas pessoas. Isto \u00e9 tamb\u00e9m a sinodalidade. O Papa Francisco disse que a Igreja deve ser acolhedora, a Igreja deve ser capaz de integrar muitas pessoas, a Igreja para todas as pessoas, todos, para todos. Por isso, penso que este di\u00e1logo com essas pessoas, especialmente com os que procuram [o autor usa a express\u00e3o inglesa \u2018seekers\u2019], \u00e9 muito importante. N\u00e3o creio que tenhamos feito o suficiente, neste aspeto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>No seu novo livro, encoraja a redescobrir a for\u00e7a interior esquecida da religi\u00e3o\u2026<\/em><\/p>\n<p>Sim, a for\u00e7a interior da religi\u00e3o \u00e9 a espiritualidade. Concentramo-nos demasiado nas estruturas institucionais, nos rituais, mas tamb\u00e9m nas quest\u00f5es morais. Todas estas coisas s\u00e3o importantes, mas mais importante ainda \u00e9 a vida espiritual pessoal das pessoas, o estilo do ser crist\u00e3o. E isso est\u00e1 ligado \u00e0 dimens\u00e3o espiritual da vida humana, penso que deveria ser a coisa mais importante atualmente, no nosso trabalho pastoral.<\/p>\n<p>Isso era evidente no tempo da Covid-19, quando as igrejas estavam fechadas. Para algumas pessoas, o cristianismo era praticamente ir \u00e0 Missa de domingo. Mas as igrejas estavam fechadas e tiveram de encontrar outra forma de praticar a sua f\u00e9. E penso que foi realmente a pedagogia de Deus. Por vezes, Deus fecha-nos algumas portas, algumas portas tradicionais, e temos de procurar criativamente outras. Para muitas pessoas, foi a oportunidade de falar sobre a f\u00e9 nas suas pr\u00f3prias fam\u00edlias. H\u00e1 muitas fam\u00edlias cat\u00f3licas que nunca falam de f\u00e9 em casa, francamente, sobre as suas d\u00favidas, sobre os seus problemas.<\/p>\n<p>E neste tempo do coronav\u00edrus, quando as igrejas estavam fechadas, come\u00e7aram, algumas delas, a ler a B\u00edblia em casa, a falar sobre a f\u00e9. E acho que isso \u00e9 muito importante.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A prop\u00f3sito disso, insistiu que a chamada perda de f\u00e9 na sociedade secular n\u00e3o \u00e9 um esgotamento da espiritualidade humana. Tem impacto nas formas institucionais de religi\u00e3o. Isto \u00e9 um desafio para a Igreja Cat\u00f3lica?<\/em><\/p>\n<p>Sim, claro, mas temos de ser flex\u00edveis e criativos, encontrar novas formas. Por exemplo, penso que a vanguarda do novo estilo pastoral \u00e9 o chamado cuidado pastoral por categorias. Os capel\u00e3es do ex\u00e9rcito, os capel\u00e3es das pris\u00f5es, os capel\u00e3es das escolas, os capel\u00e3es dos hospitais, s\u00e3o para todos. O capel\u00e3o da pris\u00e3o n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 para os criminosos piedosos, \u00e9 para toda a gente. Penso que \u00e9 o nosso futuro, porque toda a gente tem uma dimens\u00e3o espiritual na sua vida, na sua personalidade, e as pessoas precisam de ser acompanhadas, porque a vida espiritual \u00e9 algo que n\u00e3o \u00e9 dado por completo no in\u00edcio. \u00c9 uma vida, e na vida h\u00e1 crises, h\u00e1 buscas, h\u00e1 algumas noites escuras. \u00c9 assim na nossa vida, e \u00e9 assim na nossa vida espiritual, \u00e9 assim na nossa f\u00e9.<\/p>\n<p>As pessoas precisam de algu\u00e9m que as acompanhe com respeito, que as escute, n\u00e3o apenas para ter todas as boas respostas para todas as perguntas. N\u00e3o, para ouvir, para acompanhar, para irmos juntos, e esta \u00e9 a sinodalidade, irmos juntos. Por isso, penso que, neste acompanhamento das pessoas, a Igreja do futuro deve ser a Igreja que acompanha.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O seu novo livro chega num momento muito especial, uma vez que j\u00e1 mencionou a sinodalidade, o processo sinodal. Este livro \u00e9 composto por uma s\u00e9rie de cartas a um Papa imagin\u00e1rio, Rafael, e nos seus sonhos h\u00e1 uma nova forma de olhar para o servi\u00e7o de um Papa. O pr\u00f3prio processo sinodal tamb\u00e9m revisitou a quest\u00e3o das formas como o bispo de Roma exerce o seu minist\u00e9rio. Que mudan\u00e7as podemos esperar? <\/em><\/p>\n<p>O papado \u00e9 uma das institui\u00e7\u00f5es mais antigas do nosso mundo e est\u00e1 a mudar, na hist\u00f3ria. Est\u00e1 a mudar muito: se vir os Papas na antiguidade, na Idade M\u00e9dia, no s\u00e9culo XIX e atualmente, h\u00e1 grandes diferen\u00e7as. At\u00e9 durante a minha vida, quando era crian\u00e7a, se vir as fotografias e os filmes com o Papa Pio XII, h\u00e1 um triunfalismo com todo os desfiles, e isso muda passo a passo. Mas tamb\u00e9m, durante a minha vida, vi o Papa Paulo VI, que era levado na cadeira gestat\u00f3ria, e agora o Papa Francisco est\u00e1 a beijar e a lavar os p\u00e9s a mulheres mu\u00e7ulmanas na pris\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>Portanto, h\u00e1 grandes mudan\u00e7as. Tamb\u00e9m o Papa Jo\u00e3o Paulo II ofereceu um di\u00e1logo com as Igrejas n\u00e3o-cat\u00f3licas sobre o papel do sucessor de Pedro como bispo que constr\u00f3i as pontes entre as Igrejas. Este \u00e9 o seu papel, e penso que muito foi feito, mas ainda h\u00e1 muito a fazer, para encontrar estas formas de construir pontes, e precisamos do Papa como representante de todo o Cristianismo, porque para o di\u00e1logo com os mu\u00e7ulmanos e com as outras religi\u00f5es \u00e9 muito importante que tenhamos um porta-voz. O Papa Francisco \u00e9 muito popular entre muitas pessoas fora da Igreja &#8211; \u00e9 muito criticado por algumas pessoas dentro da Igreja \u2013 e penso que este seria o objetivo do papado no futuro, construir pontes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A esse respeito, acha que seria importante promover a celebra\u00e7\u00e3o de um S\u00ednodo ecum\u00e9nico sobre a evangeliza\u00e7\u00e3o, como sugerido no documento final da \u00faltima Assembleia Sinodal?<\/em><\/p>\n<p>Sem d\u00favida. Enviei uma carta ao Papa Francisco com algumas propostas. Tive a ideia de que talvez o pr\u00f3ximo passo no caminho sinodal devesse ser o S\u00ednodo ecum\u00e9nico dos te\u00f3logos.<\/p>\n<p>Em maio, estive a acompanhar o encontro sinodal dos p\u00e1rocos, em Roma: foi importante, porque os p\u00e1rocos s\u00e3o muito importantes na Igreja, mas tamb\u00e9m os te\u00f3logos s\u00e3o muito importantes na Igreja, e penso que tamb\u00e9m merecem algum tipo de S\u00ednodo, que deveria ser ecum\u00e9nico. Especialmente no anivers\u00e1rio do primeiro Conc\u00edlio Ecum\u00e9nico [Niceia, 325], no pr\u00f3ximo ano, \u00e9 uma boa oportunidade para convocar este primeiro S\u00ednodo teol\u00f3gico, o S\u00ednodo ecum\u00e9nico.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitas confer\u00eancias, tamb\u00e9m as confer\u00eancias ecum\u00e9nicas, mas \u00e9 algo diferente, este m\u00e9todo sinodal. N\u00e3o \u00e9 apenas a confer\u00eancia cient\u00edfica, \u00e9 esta conversa no Esp\u00edrito Santo. H\u00e1 este momento de nos ouvirmos uns aos outros, de contemplarmos juntos, e penso que seria um grande acontecimento, um S\u00ednodo de te\u00f3logos, mas ecum\u00e9nico. E o tema deveria ser reconhecer os sinais dos tempos, quais s\u00e3o os desafios do nosso tempo, e como a Igreja deve reagir a esses desafios.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Nesta perspetiva, que papel desempenhar\u00e1 a sinodalidade no futuro da Igreja?<\/em><\/p>\n<p>Penso que \u00e9 absolutamente decisivo, \u00e9 o mais importante, porque deve ser a forma da Igreja. O Papa Francisco disse que a sinodalidade \u00e9 uma nova forma de ser crist\u00e3o, \u00e9 uma nova forma de ser Igreja no nosso mundo. Portanto, nova e velha, porque, de certa forma, est\u00e1 a regressar \u00e0s ra\u00edzes apost\u00f3licas da Igreja. A velha Igreja, a Igreja dos in\u00edcios, era a Igreja sinodal, mas, especialmente durante a modernidade tardia, a Igreja tornou-se uma esp\u00e9cie de contracultura contra a cultura moderna, a ci\u00eancia moderna, a filosofia moderna, etc. Sem a sabedoria de reconhecer o que \u00e9 realmente mau e perigoso, mas o que \u00e9 tamb\u00e9m uma promessa.<\/p>\n<p>Por isso, penso que devemos ser uma Igreja sinodal, isto \u00e9, a Igreja que \u00e9 mais cat\u00f3lica no sentido universal, ecum\u00e9nica, aberta, acolhedora, integradora, portanto, realmente m\u00e3e e irm\u00e3.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Quando o processo sinodal come\u00e7ou em 2021, houve uma consulta global e muitas, muitas quest\u00f5es foram trazidas para a mesa. Nem todas foram decididas ou discutidas, claro, h\u00e1 grupos de trabalho agora no Vaticano at\u00e9 ao pr\u00f3ximo ano, mas podemos imaginar, por exemplo, padres casados, os \u2018viri probati\u2019, para o servi\u00e7o habitual nas par\u00f3quias? E que papel espera que as mulheres possam desempenhar nestas novas comunidades?<\/em><\/p>\n<p>Em primeiro lugar, a Igreja precisa de uma descentraliza\u00e7\u00e3o, porque muitas coisas dependem da cultura. Sabe, j\u00e1 foi visto no S\u00ednodo sobre a fam\u00edlia [2014-2015], que a fam\u00edlia em Fran\u00e7a \u00e9 muito diferente da fam\u00edlia em \u00c1frica, por isso n\u00e3o podemos ter uma orienta\u00e7\u00e3o geral. Sim, h\u00e1 algumas coisas que s\u00e3o substanciais, mas h\u00e1 muitas coisas que s\u00e3o especiais, consoante a cultura e a mentalidade.<\/p>\n<p>H\u00e1 muitos padres casados na Igreja Cat\u00f3lica. A Igreja Cat\u00f3lica de rito oriental tem padres casados, e n\u00f3s tamb\u00e9m temos na nossa parte latino-romana da Igreja Cat\u00f3lica, houve padres casados durante mil anos, e agora h\u00e1 alguns deles, que se converteram do anglicanismo e de algumas igrejas protestantes, que s\u00e3o padres casados, e n\u00e3o h\u00e1 qualquer problema com isso. Haver\u00e1 talvez, mas tem de haver uma reforma da educa\u00e7\u00e3o, da forma\u00e7\u00e3o dos padres, porque o padre com uma fam\u00edlia est\u00e1 numa situa\u00e7\u00e3o muito diferente do celibat\u00e1rio. Isso pode ajudar a resolver alguns problemas, mas haver\u00e1 novos problemas, sei-o pelos meus amigos da Igreja Protestante, que t\u00eam pastores divorciados e por a\u00ed fora\u2026<\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o de todos os problemas, mas penso que no futuro haver\u00e1 ambos na Igreja, padres casados e celibat\u00e1rios. Os celibat\u00e1rios talvez voltem \u00e0s origens, que foram as comunidades mon\u00e1sticas, e isso tem sentido, mas para alguns padres nas par\u00f3quias seria talvez mais conveniente se tivessem a sua pr\u00f3pria fam\u00edlia. Veremos.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o das mulheres depende ainda mais da cultura, do reconhecimento da sua dignidade. A situa\u00e7\u00e3o na nossa parte do mundo \u00e9 bastante diferente da situa\u00e7\u00e3o em muitos pa\u00edses africanos ou asi\u00e1ticos. Por isso, penso que no futuro haver\u00e1 muito mais lugares, cargos e possibilidades para as mulheres na Igreja. Passo a passo, o Papa est\u00e1 j\u00e1 agora a convidar as mulheres para alguns pap\u00e9is importantes na Igreja, mesmo no Vaticano, e penso que este caminho ir\u00e1 mais longe, mas tamb\u00e9m depende das condi\u00e7\u00f5es culturais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Falou j\u00e1 do encontro sinodal dos p\u00e1rocos, quando esteve l\u00e1 disse que o catolicismo deve livrar-se da heresia do triunfalismo. Isso \u00e9 um sintoma de medo? Poder\u00e1 explicar algumas op\u00e7\u00f5es pol\u00edticas que se dizem crist\u00e3s?<\/em><\/p>\n<p>O que chamo de triunfalismo \u00e9 a tenta\u00e7\u00e3o de n\u00e3o distinguir entre a Igreja na terra, a comunidade dos peregrinos, e a Igreja triunfante: n\u00e3o somos a Igreja dos santos no C\u00e9u, portanto tamb\u00e9m n\u00e3o somos os detentores de toda a verdade. Apenas Jesus Cristo pode dizer \u201ceu sou a verdade\u201d, n\u00f3s n\u00e3o somos Jesus Cristo, somos seguidores de Cristo, somos disc\u00edpulos de Cristo, estamos a caminho, somos \u2018communio viatorum\u2019, somos a comunidade dos peregrinos, esta \u00e9 a defini\u00e7\u00e3o da Igreja pelo Conc\u00edlio do Vaticano, baseada nas fontes b\u00edblicas.<\/p>\n<p>Este triunfalismo \u00e9 uma grande tenta\u00e7\u00e3o e temos de dizer \u201cn\u00e3o, a Igreja tem de ser a Igreja que est\u00e1 sempre a caminho\u201d. N\u00e3o podemos parar e dizer que agora est\u00e1 tudo bem, que n\u00e3o podemos mudar nada, n\u00e3o, a Igreja est\u00e1 sempre em movimento e a identidade da Igreja n\u00e3o \u00e9 um conjunto de artigos, mas Cristo vivo ressuscitado, o Cristo que vive na Igreja, e a obra do seu Esp\u00edrito est\u00e1 em curso, n\u00e3o podemos par\u00e1-la.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Falando de alt-right, disse que se as Igrejas se casarem com partidos pol\u00edticos, pagar\u00e3o sempre caro por isso. Porqu\u00ea?<\/em><\/p>\n<p>Claro, porque a Igreja deve ser realmente uma Igreja universal e, portanto, h\u00e1 pessoas que s\u00e3o mais de esquerda, algumas pessoas precisam de mudan\u00e7as, s\u00e3o mais progressistas; j\u00e1 algumas pessoas sentem a responsabilidade da tradi\u00e7\u00e3o. Ambas devem ter o seu lugar na Igreja e t\u00eam a liberdade de escolher os seus partidos pol\u00edticos.<\/p>\n<p>Claro que h\u00e1 alguns partidos extremistas, \u00e0 esquerda e \u00e0 direita, cujo programa n\u00e3o \u00e9 compat\u00edvel com os valores fundamentais do Cristianismo, por causa do racismo, da viol\u00eancia, etc. H\u00e1 fanatismo da esquerda e da direita, temos de dizer n\u00e3o a esses partidos extremistas, mas h\u00e1 muitos partidos democr\u00e1ticos, t\u00eam programas diferentes e os crist\u00e3os t\u00eam a liberdade de escolher, como aconteceu nas \u00faltimas elei\u00e7\u00f5es nos Estados Unidos da Am\u00e9rica, quando o Papa disse que cada um deve escolher de acordo com a sua pr\u00f3pria consci\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>No seu livro, fala das tecnologias digitais, que est\u00e3o a transformar o nosso mundo e a nossa rela\u00e7\u00e3o com a verdade. Pergunto-lhe se a teologia tem feito o suficiente, se tem estado suficientemente atenta a este facto?<\/em><\/p>\n<p>A tecnologia est\u00e1 a mudar muitas, muitas coisas e a intelig\u00eancia artificial \u00e9 um instrumento muito poderoso, pode ser um instrumento para o bem e para o mal tamb\u00e9m. Por isso h\u00e1 muitos artigos teol\u00f3gicos sobre isto, mas ainda \u00e9 uma quest\u00e3o em aberto e veremos no futuro a influ\u00eancia da intelig\u00eancia artificial na pedagogia e tamb\u00e9m na Igreja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Diz que o Papa levou o Cristianismo ao limiar de um lugar espiritual novo, mais alargado e anteriormente desconhecido. O que \u00e9 que sonha para a Igreja, depois de Francisco? <\/em><\/p>\n<p>Gosto muito do Papa Francisco e espero que o seu sucessor siga na mesma dire\u00e7\u00e3o, \u00e9 preciso ser sens\u00edvel aos sinais dos tempos. O mundo est\u00e1 a mudar muito rapidamente, na nossa era, e ser\u00e1 uma tarefa muito importante para o Papa ser o guardi\u00e3o da tradi\u00e7\u00e3o, n\u00f3s temos a responsabilidade pela nossa tradi\u00e7\u00e3o, mas por outro lado temos de estar abertos, sens\u00edveis aos sinais dos tempos.<\/p>\n<p>Espero que o pr\u00f3ximo Papa seja o homem que tenha a coragem de fazer algumas mudan\u00e7as, mas tamb\u00e9m com a fidelidade ao que \u00e9 realmente fundamental para os crist\u00e3os.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c9 curiosa a ideia de um lugar espiritual conhecido, porque como cat\u00f3licos temos tend\u00eancia a pensar que j\u00e1 descobrimos tudo sobre a espiritualidade&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Penso que toda a gente, cada pessoa tem a sua vida espiritual, mas deve ser cultivada, tal como o sentido da beleza, o sentido da arte, da m\u00fasica, do humor. Penso que tamb\u00e9m \u00e9 papel da Igreja que acompanha cultivar a nossa vida espiritual pessoal.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O mundo parece estar a desmoronar-se, com as guerras, as crises e as altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, mas o seu novo livro \u00e9 sobre sonhos. Devemos atrever-nos a ter esperan\u00e7a?<\/em><\/p>\n<p>Claro que sim. A nossa tarefa \u00e9 sermos o povo da esperan\u00e7a. Fa\u00e7o uma distin\u00e7\u00e3o entre otimismo e esperan\u00e7a. O otimismo \u00e9 por vezes uma ilus\u00e3o de que tudo ser\u00e1 melhor, melhor e melhor. \u00c9 uma ilus\u00e3o. Por vezes, passamos por momentos muito dif\u00edceis, pelas noites escuras da alma, na nossa vida privada, tamb\u00e9m na nossa hist\u00f3ria, e temos de atravessar esta crise e tenta\u00e7\u00f5es, estes per\u00edodos dif\u00edceis no caminho da Igreja, atrav\u00e9s da hist\u00f3ria e dos nossos caminhos individuais.<\/p>\n<p>Assim, a esperan\u00e7a \u00e9 uma for\u00e7a para suportar a situa\u00e7\u00e3o, que \u00e9 objetivamente dif\u00edcil, mas temos a nossa confian\u00e7a que Deus tem a palavra na sua m\u00e3o; por vezes n\u00e3o compreendemos muitas coisas, mas a f\u00e9 \u00e9 tamb\u00e9m paciente. Escrevi sobre isso no meu primeiro livro, que foi traduzido para portugu\u00eas, era a \u2018Paci\u00eancia com Deus\u2019. \u00c0s vezes a f\u00e9 em Deus est\u00e1 escondida, mas devemos ter paci\u00eancia e confian\u00e7a. A esperan\u00e7a \u00e9 tamb\u00e9m a paci\u00eancia para suportar uma situa\u00e7\u00e3o dessas, porque estamos perante um mist\u00e9rio.<\/p>\n<p>A f\u00e9 \u00e9 a coragem de entrar na nuvem do mist\u00e9rio. Por isso, n\u00e3o podemos ter todas as coisas abertas, claras. S\u00e3o Paulo diz que vemos como num espelho, apenas parcialmente. Por vezes temos de viver com algumas quest\u00f5es em aberto, e n\u00e3o precisamos do otimismo como uma ilus\u00e3o, de que tudo vai correr bem, mas da paci\u00eancia e da for\u00e7a para suportar a situa\u00e7\u00e3o dif\u00edcil.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A paci\u00eancia para esperar por uma nova manh\u00e3?<\/em><\/p>\n<p>Com certeza.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Te\u00f3logo checo apresenta em Portugal a sua nova obra, \u00abO sonho de uma nova manh\u00e3. Cartas ao Papa\u00bb<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":349910,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6],"tags":[199,358,311],"class_list":["post-349961","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","tag-espiritualidade","tag-publicacoes","tag-sinodo-dos-bispos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/349961","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=349961"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/349961\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/349910"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=349961"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=349961"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=349961"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}