{"id":34815,"date":"2008-10-21T19:16:08","date_gmt":"2008-10-21T19:16:08","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/10\/21\/literatura-e-o-drama-da-palavra\/"},"modified":"2008-10-21T19:16:08","modified_gmt":"2008-10-21T19:16:08","slug":"literatura-e-o-drama-da-palavra","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/literatura-e-o-drama-da-palavra\/","title":{"rendered":"Literatura e o drama da Palavra"},"content":{"rendered":"<p>Confer\u00eancia do Cardeal-Patriarca na Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian <!--more--> \t1. Nunca me tinha sido feita uma proposta t\u00e3o aberta e t\u00e3o pouco definida, como a que recebi da Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian para proferir esta Confer\u00eancia. Certamente por isso a recusa apareceu-me como resposta plaus\u00edvel e, pensava eu, f\u00e1cil de ser aceite. N\u00e3o foi assim: percebi que, mais do que escutar-me sobre um tema concreto, num \u00e2mbito em que n\u00e3o sou especialista, queriam ouvir-me na minha experi\u00eancia de rela\u00e7\u00e3o com a Palavra, simpatia que me comoveu e agrade\u00e7o. Isso colocou-me perante o desafio, de h\u00e1 muito aceite, sempre relegado para o \u00e2mbito \u00edntimo da privacidade pessoal: lan\u00e7ar o olhar sobre uma vida j\u00e1 longa, constru\u00e7\u00e3o \u00e1rdua de uma liberdade, no labirinto complexo de modelos feitos, palavras apod\u00edcticas, simb\u00f3licas sugestivas, mas indefinidas, assumindo sempre a responsabilidade de construir a pr\u00f3pria vida, sem negar nenhum desafio, mas com dificuldade em imitar fosse quem fosse; e reconhecer que nessa aventura da liberdade, a palavra foi elemento decisivo, tantas vezes dram\u00e1tica, mas tamb\u00e9m sugestiva e iluminadora, abrindo caminhos \u00e0 minha descoberta da vida, tantas vezes n\u00e3o explicitamente pensados na mensagem de quem falou ou escreveu. A partir da palavra dos outros, aquela que trazia luz ao meu caminhar era pronunciada por mim. Na constru\u00e7\u00e3o de uma vida, a palavra reveste-se da densidade do drama, em que o leitor ou ouvinte \u00e9 protagonista central. \tAceito balbuciar convosco alguns t\u00f3picos desse drama: fa\u00e7o-o com pudor e humildade, na certeza de que a \u00faltima palavra, mesmo que j\u00e1 tenha sido pronunciada, ainda n\u00e3o foi por mim completamente escutada. Como diz o P. Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a, a prop\u00f3sito dos diversos sentidos para que abre a leitura do texto b\u00edblico, \u201cO para\u00edso \u00e9 o endere\u00e7o perene da leitura\u201d (1). E as suas portas abrir-se-\u00e3o para n\u00f3s ao escutarmos atentamente a Palavra.   \t2. No horizonte da mem\u00f3ria da minha vida procurada por mim, como experi\u00eancia de vida pessoal, nas primeiras etapas n\u00e3o descortino nenhum papel significativo da leitura. Foi o tempo dos modelos vivos de pessoas que me marcaram. De alguns, recordo que desejava ser como eles. Esse \u00e9 o perigo da influ\u00eancia marcante de personagens cuja vida nos atrai: fazer da vida uma imita\u00e7\u00e3o. S\u00f3 mais tarde, conceptualizei que a vida tamb\u00e9m \u00e9 palavra e que as mais belas express\u00f5es da liberdade e da generosidade s\u00e3o o fruto fecundo da palavra escutada. \tEste risco da imita\u00e7\u00e3o bem depressa foi relativizado pelo confronto com pessoas \u201cn\u00e3o-modelo\u201d, ou mesmo \u201canti-modelo\u201d, o que me obrigou a sujeitar \u00e0 cr\u00edtica do meu caminho pessoal todos os modelos com que me confrontava, e a encontrar outros, o mais variados poss\u00edvel, o que s\u00f3 a literatura me proporcionava. Foi uma experi\u00eancia nova confrontar-me com modelos que n\u00e3o conhecia, que me atra\u00edam ou que rejeitava s\u00f3 pelo que escreviam. Se o facto de n\u00e3o os conhecer me deixava maior liberdade para acolher a sua palavra, como desafio \u00e0 liberdade, ficava-me a interroga\u00e7\u00e3o de saber se o que escreviam era um testemunho, uma intui\u00e7\u00e3o ou desejo, ou uma teoria sobre a vida. \tDe qualquer modo, o confronto com \u201cmodelos\u201d e \u201cn\u00e3o modelos\u201d, levou-me a uma interroga\u00e7\u00e3o sobre a minha vida j\u00e1 vivida e aquela que procurava dramaticamente descobrir e construir. Confrontei-me com quest\u00f5es fundamentais sobre o sentido da vida, entre as quais a da exist\u00eancia de Deus ganhou uma centralidade inevit\u00e1vel, porque decisiva. Procurei respostas na literatura, mais do que em modelos vivos de pessoas que conhecia. Mais tarde, vim a perceber que estes dois caminhos de procura de respostas se entrecruzam inevitavelmente e se iluminam mutuamente.  \t3. No que \u00e0 exist\u00eancia de Deus dizia respeito procurava afincadamente uma convic\u00e7\u00e3o racionalmente fundada. Li autores que procuravam demonstrar racionalmente a exist\u00eancia de Deus, comentando as vias tomistas para o conhecimento natural de Deus; basculhei autores que questionavam a exist\u00eancia de Deus, de Marx a Camus. Mas se os argumentos da raz\u00e3o n\u00e3o conseguiam dar-me for\u00e7a para comprometer a vida com Deus, a nega\u00e7\u00e3o de Deus em nome da grandeza do homem e a hist\u00f3ria concebida sem o desafio da transcend\u00eancia mergulhavam-me numa dolorosa sensa\u00e7\u00e3o de vazio e de aus\u00eancia de sentido. Ainda n\u00e3o tinha percebido que \u201cDeus n\u00e3o \u00e9 prisioneiro de nenhum tipo de conhecimento ou de sabedoria\u201d (2). Deus s\u00f3 se torna o absoluto da nossa vida pela f\u00e9, e esta nasce da escuta de uma Palavra eterna, que brota do pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o de Deus. Ajudou-me a encontrar a luz nesses tempos de busca dram\u00e1tica da palavra, uma p\u00e1gina da hist\u00f3ria do Profeta Elias, que devorado pela atrac\u00e7\u00e3o de Deus, mas em crise de f\u00e9 devido \u00e0 descren\u00e7a do seu povo, entra numa gruta e luta, em sil\u00eancio, com o seu drama. Escuta a natureza, a veem\u00eancia do trov\u00e3o, a inseguran\u00e7a do terramoto, a for\u00e7a do fogo, o suave ru\u00eddo de uma brisa ligeira. E \u00e9 nessa paz tranquila da brisa, que lhe pacificou o cora\u00e7\u00e3o, que ele reconhece a presen\u00e7a do Deus vivo (cf. 1Re. 19,9ss). Lembro-me que a paisagem buc\u00f3lica de uma v\u00e1rzea povoada de choupos verdejantes, horizonte da casa de meus pais, me trazia essa serenidade, certamente sentimento acolhedor para a escuta da Palavra de um Deus presente e amoroso, mesmo quando duvidamos ou O negamos. \tTalvez isso me tenha levado a ler autores que diziam encontrar Deus contemplando a beleza e a harmonia do Universo. Ainda hoje estou grato a Thiamertot ou mesmo a Fulton Sheen. O Universo aparecia-me marcado por um Deus belo, harmonioso e omnipotente. Era um Deus pac\u00edfico e pacificador, que se afirmava pela marca da Sua beleza no Universo criado, que n\u00e3o precisava dos meus argumentos para existir e de tal maneira presente que exorcizava qualquer tentativa de nega\u00e7\u00e3o. \u00c9-me grato recordar ainda um livro que foi como a cereja no bolo desta busca de uma palavra que me pacificasse o cora\u00e7\u00e3o. Refiro-me ao \u201cLe Petit Prince\u201d de Saint-Exup\u00e9ry. Com ele percebi que \u00e9 preciso deixar-se cativar, \u201cse laisser aprivoiser\u201d e que o segredo da verdade passa pelo nosso cora\u00e7\u00e3o.  \t4. Esta etapa que referi e me levou a perscrutar a palavra em tantos escritores, desaguou numa grande serenidade. Tinha percebido, como Elias, que \u00e9 na suavidade da brisa, que se escuta a palavra reveladora. Reorientei a direc\u00e7\u00e3o das minhas leituras, voltando a procurar os testemunhos em textos que eram, sobretudo, narrativas de vida. S\u00f3 mais tarde me viria a interessar pela hist\u00f3ria. Lembro-me de Graam Greene e de Bernanos, ou Gustavo Cor\u00e7\u00e3o; foi tamb\u00e9m a \u00e9poca de visitar a grande literatura portuguesa: E\u00e7a de Queiroz, Camilo, J\u00falio Dinis, Almeida Garrett. Tive dificuldade em digerir romances que possuem apenas a vida inventada, sem uma ponte com a vida real tornada narrativa. Mas continuava em mim uma mistura de insatisfa\u00e7\u00e3o e de desejo de que essas narrativas me levassem mais longe, \u00e0 escuta de uma Palavra que recria e regenera. \tProcurei ent\u00e3o narrativas de experi\u00eancias espirituais, em que a busca do absoluto fosse o centro do enredo, o rosto do drama e a resposta de salva\u00e7\u00e3o. Eu precisava de escutar aqueles e aquelas que viveram um drama semelhante ao meu e que atrav\u00e9s de todas as palavras, buscavam a Palavra. J\u00e1 n\u00e3o me lembro por onde comecei, mas guardo no meu cora\u00e7\u00e3o aqueles e aquelas que se tornaram meus irm\u00e3os, companheiros fortes na aventura da descoberta da vida. Agostinho de Hipona, nas suas \u201cConfiss\u00f5es\u201d, Teresa de Lisieux, na \u201cHist\u00f3ria de uma alma\u201d, Isabel da Trindade, Charles Foucault, sobretudo atrav\u00e9s da pena de Ren\u00e9 Voyaume e, j\u00e1 mais tarde, Edith Stein, que me ajudou a fazer a reconcilia\u00e7\u00e3o entre a Filosofia e a F\u00e9. Eram textos fortes, de grande qualidade liter\u00e1ria, que sublinhavam a centralidade envolvente do amor e me revelavam cora\u00e7\u00f5es inquietos na busca da luz definitiva. Se no C\u00e9u houver not\u00edcia do que se passa connosco que ainda peregrinamos neste mundo, Teresa de Lisieux, \u201cla petite Th\u00e8r\u00e9se\u201d sabe a influ\u00eancia decisiva que teve na minha vida. \tNeste tempo em que tentei construir a narrativa da minha vida atrav\u00e9s das narrativas desses autores, procurei completar as intui\u00e7\u00f5es mais belas com a beleza da poesia. Descobri que a beleza pode exprimir o drama e a densidade da exist\u00eancia e que a etapa final da nossa caminhada \u00e9 sempre a atrac\u00e7\u00e3o da beleza. Lembro alguns desses poetas que visitei e a quem procurei escutar: Antero de Quental, Florbela Espanca, Jos\u00e9 R\u00e9gio, Fernando Pessoa, Sofia de Mello Breyner, Miguel Torga. Percebi que tantas vezes o poeta, na sua palavra, se transcende a si mesmo, exprimindo o rec\u00f4ndito do que n\u00e3o quer ser, mas deseja ser. Todos eles, crentes ou descrentes, acabam por tocar pontos altos da sua poesia na evoca\u00e7\u00e3o do sagrado, sobretudo na beleza com que cantam Maria, a M\u00e3e de Jesus. Acabei por vir a tocar, pessoalmente, esta experi\u00eancia de, na nossa palavra, nos transcendermos a n\u00f3s mesmos, o que nos p\u00f5e o problema de saber onde est\u00e1 a nossa verdade, no que j\u00e1 somos, ou no que desejamos ser.  \t5. Tocar de perto este encontro da verdade com a beleza, proporcionou uma das p\u00e1ginas mais gratificantes da minha caminhada, o contacto com a arte, sobretudo a pintura. Foi um procurar escutar a palavra atrav\u00e9s de outra linguagem, que n\u00e3o a escrita. Umberto Eco, na sua \u201cHist\u00f3ria da Beleza\u201d veio dar forma magistral \u00e0 minha intui\u00e7\u00e3o de que a longa caminhada da humanidade na busca da verdade e do sentido pode ser escrita sob a forma de uma hist\u00f3ria da beleza. Foi particularmente marcante o contacto com os pioneiros da pintura moderna, como C\u00e9sanne, Van Gogh, Rouault, Chagall e depois toda a arte n\u00e3o figurativa, que deixa ao \u201cleitor\u201d um papel decisivo na capta\u00e7\u00e3o da mensagem. Ali\u00e1s o leitor como protagonista de toda a leitura, foi, mesmo na literatura, algo que descobri pessoalmente. Num texto, o leitor n\u00e3o l\u00ea apenas o autor, mas l\u00ea-se a si mesmo e encontra-se na sua busca do sentido da vida. \u00c9 por isso que os textos mais apaixonantes s\u00e3o aqueles em que o autor deixa um vasto espa\u00e7o para o leitor. \u00c9 ali\u00e1s esse factor que distingue a literatura de uma outra qualquer escrita. Toda a verdadeira literatura tende a tornar-se cl\u00e1ssica, porque \u201cum cl\u00e1ssico \u00e9 um livro que nunca acabou de dizer o que tem a dizer\u201d (3). \tO dar lugar ao leitor constitui a din\u00e2mica interna de um texto, o que lhe permite ser classificado como literatura. A mensagem de um texto n\u00e3o se esgota no pensamento do autor; o texto \u00e9 aberto \u00e0 reac\u00e7\u00e3o e \u00e0 descoberta do leitor. A literatura encontra a sua verdade na leitura. Como diz Umberto Eco, \u201choje o fantasma do leitor inseriu-se no centro\u201d. \u201cO leitor \u00e9 requerido, suposto e esperado pelo pr\u00f3prio texto. Este \u00e9 uma m\u00e1quina pregui\u00e7osa que pede ao leitor que colabore para preencher uma s\u00e9rie de espa\u00e7os vazios. A pregui\u00e7a do texto, isto \u00e9, a sua incompletude, permite tornar o acto de leitura numa esp\u00e9cie de pacto: compreender o texto constitui para o leitor n\u00e3o uma compreens\u00e3o que lhe seja existencialmente alheia. Compreender \u00e9 compreender-se diante do texto\u201d (4). J\u00e1 S\u00e3o Greg\u00f3rio Magno dizia acerca do pr\u00f3prio texto da B\u00edblia: \u201cScriptura cum legente crescit!, isto \u00e9, a Escritura cresce com quem a l\u00ea (5). \t\u00c9 por isso que a leitura ganha relevo na caminhada pessoal do leitor em busca da verdade e do sentido da vida. J\u00e1 fiz uma vez ou outra a experi\u00eancia de, depois da leitura, dialogar com o autor sobre o seu texto. Devo confessar que senti que n\u00e3o se adiantou muito sobre o di\u00e1logo silencioso do leitor com o texto. E compreendo. O mais que o autor consegue \u00e9 considerar o seu texto aberto \u00e0 leitura do leitor, n\u00e3o podendo lobrigar como cada um se situa a si mesmo frente ao seu texto. Tocamos, a\u00ed, no imponder\u00e1vel da liberdade e da criatividade. Contaram-me que um dia Pablo Picasso dialogou com um grupo de visitantes que, perante o painel da sua autoria na Sede da Unesco em Paris, discutiam o que ele significava. E perante a surpresa da presen\u00e7a do autor, perguntaram-lhe qual era a sua mensagem, o que queria dizer. E ele respondeu que n\u00e3o sabia, estava antes interessado em ouvir a leitura deles. \tFiz esta experi\u00eancia de leitor de uma forma viva e apaixonada. E quando, de mem\u00f3ria, recordo algum desses textos lidos, n\u00e3o tenho a certeza do que recordo mais: se o que o autor me disse, ou o que eu percebi de mim mesmo e do meu caminho lendo esse texto. \u00c9 por isso que \u00e9 apaixonante revisitar, de vez em quando, esses textos marcantes, que foram na nossa vida, marcos perenes na busca de um ideal.   \tA B\u00edblia e a dimens\u00e3o transcendente da Palavra \t6. Quando se fez um longo percurso na compreens\u00e3o de si mesmo em di\u00e1logo com a palavra dos outros, sobretudo quando o aspecto fulcral dessa busca \u00e9 a procura de Deus e da Sua import\u00e2ncia decisiva na vida humana, \u00e9 espont\u00e2neo acabar por dar-se uma centralidade irrecus\u00e1vel \u00e0 B\u00edblia, express\u00e3o da dramatiza\u00e7\u00e3o radical da Palavra. A B\u00edblia aparece-nos, ent\u00e3o, como um conjunto de textos liter\u00e1rios, os mais abertos textos da literatura, a desafiarem o leitor para a inter-ac\u00e7\u00e3o na busca do sentido e da verdade.  \tA import\u00e2ncia da narrativa, sem a preocupa\u00e7\u00e3o da precis\u00e3o positiva da hist\u00f3ria, como reposi\u00e7\u00e3o de factos e eventos, mas, sem se desligar da verdade hist\u00f3rica, introduz-lhe a liberdade simb\u00f3lica, deixando vasto espa\u00e7o para a compreens\u00e3o do leitor, faz a unidade e garante a inser\u00e7\u00e3o f\u00e1cil em toda a narrativa liter\u00e1ria, que procura o sentido da vida a partir da vida vivida. Como escreve Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a, \u201c\u00e9 necess\u00e1rio tomar em considera\u00e7\u00e3o a originalidade do pensamento b\u00edblico, de extrac\u00e7\u00e3o hebraica, t\u00e3o silencioso quanto a formula\u00e7\u00f5es abstractas, e t\u00e3o atento ao concreto, \u00e0 escassez fulminante e essencial do concreto, ao seu pormenorizado realismo. Este pensamento organiza-se de forma narrativa e, como tal, toma aquilo que narra, da experi\u00eancia, e transforma-o em experi\u00eancia daqueles que escutam a sua hist\u00f3ria. N\u00e3o colhe o seu sentido no plano conceptual, mas na arte de nos aproximar de uma hist\u00f3ria que vai sendo contada na pluralidade das hist\u00f3rias e nos ingredientes que s\u00e3o pr\u00f3prios das narra\u00e7\u00f5es\u201d (6).  \t7. O primeiro salto a que a leitura da B\u00edblia conduz o leitor \u00e9 o mergulho na transcend\u00eancia da Palavra. Esta identifica-se com o mais profundo da interioridade daquele que fala e n\u00e3o se esgota na linguagem que procura exprimi-la. Toda a linguagem \u00e9 sempre uma express\u00e3o aproximativa da densidade da Palavra. Santo agostinho estabelecer\u00e1 a distin\u00e7\u00e3o entre o Verbo e a voz, que se aplica \u00e0 Palavra de Deus comunicada em linguagem humana, mas que nos desvela tamb\u00e9m o mist\u00e9rio da pr\u00f3pria palavra humana. A voz procura anunciar aproximativamente a densidade interior da palavra, silenciosa por natureza. Quando \u00e0 voz n\u00e3o corresponde essa densidade interior, a linguagem humana torna-se f\u00fatil e insignificativa, n\u00e3o tem lugar no quadro da nobreza da literatura. \tA palavra da B\u00edblia pretende dizer-nos Deus e o que Deus tem para nos dizer, o que desencadeia no leitor a busca do acolhimento de Deus e descoberta da pr\u00f3pria vida, \u00e0 luz do que Deus procura dizer-nos acerca de n\u00f3s e do conjunto da hist\u00f3ria da humanidade. \tAo procurar dizer-nos Deus, apresenta-no-l\u2019O como pot\u00eancia criadora, como Palavra, como Esp\u00edrito de amor. Intu\u00edmos que Deus \u00e9 Palavra e \u00e9 amor e que a sua pot\u00eancia criadora se realiza atrav\u00e9s da Palavra e do amor. Que Deus \u00e9 Palavra, tornou-se radicalmente claro em Jesus Cristo, a Palavra feita Homem. A sua for\u00e7a criadora e de transforma\u00e7\u00e3o do homem e da hist\u00f3ria, pr\u00f3prios da Palavra, realiza-os a partir da intensidade de amor com que abra\u00e7ou a humanidade, na totalidade da sua exist\u00eancia. N\u2019Ele, a for\u00e7a criadora da Palavra atingiu o seu auge quando nos inundou com o Seu Esp\u00edrito de amor. Em Jesus Cristo, a for\u00e7a criadora da Palavra e a capacidade transformadora do amor unem-se na efic\u00e1cia de uma mesma pessoa, o Verbo encarnado, princ\u00edpio e Senhor do Homem e da Hist\u00f3ria. \tNa B\u00edblia, a for\u00e7a criadora da Palavra preside \u00e0 cria\u00e7\u00e3o e conduz a hist\u00f3ria que se torna, assim, o lugar decisivo da manifesta\u00e7\u00e3o de Deus e do Seu encontro com os homens. Quando o Novo Testamento diz de Jesus Cristo, Verbo encarnado, que por Ele todas as coisas foram feitas (cf. Jo. 1,3; Col. 1,16), al\u00e9m de anunciar a for\u00e7a criadora da Palavra, abre para uma inteligibilidade da cria\u00e7\u00e3o e da hist\u00f3ria, pois a Palavra, al\u00e9m de criadora, revela o sentido e desvela a compreens\u00e3o e a inteligibilidade. A hist\u00f3ria humana \u00e9 uma hist\u00f3ria com sentido, que esconde na sua trama o segredo da sua compreens\u00e3o. \u00c9 por isso que na f\u00e9 b\u00edblica a rela\u00e7\u00e3o e interac\u00e7\u00e3o entre a Palavra de Deus e a palavra humana, entre a inteligibilidade da f\u00e9 e a inteligibilidade racional s\u00e3o naturais e cong\u00e9nitas. \u00c9 a pr\u00f3pria Palavra que sugere e exige uma racionalidade da f\u00e9. \u00c9 que o sentir a for\u00e7a transformadora da densidade interior da Palavra \u00e9 uma experi\u00eancia que nos \u00e9 dado fazer no interior do di\u00e1logo intra-humano, sobretudo quando a palavra \u00e9 uma express\u00e3o do amor.  \tO Verbo e a voz \t8. Tentar exprimir a densidade da Palavra divina em linguagem humana \u00e9 o fen\u00f3meno prof\u00e9tico. Embora aparentado com pr\u00e1ticas semelhantes nas religi\u00f5es e cosmogonias do Oriente m\u00e9dio, o profetismo b\u00edblico \u00e9 um fen\u00f3meno com caracter\u00edsticas \u00fanicas. O profeta \u00e9 algu\u00e9m que Deus escolhe para transmitir na sua palavra humana a densidade da Palavra divina, para que os homens possam desvendar o sentido radical da vida e da hist\u00f3ria. O profeta come\u00e7a por ser possu\u00eddo, pessoalmente, pela densidade da Palavra divina. Os segredos da intimidade de Deus s\u00e3o-lhe comunicados, numa experi\u00eancia forte, que chega a ser violenta, para que a sua linguagem seja verdadeiramente humana. O profeta n\u00e3o \u00e9 um repetidor; fala, tentando comunicar essa densidade interior, de que foi possu\u00eddo, sentindo ele pr\u00f3prio o drama da desadapta\u00e7\u00e3o da sua palavra humana \u00e0 Palavra de Deus de que est\u00e1 possu\u00eddo. Essa desadapta\u00e7\u00e3o atenua-se no caso de Jesus Cristo, onde a Palavra e a voz se identificam. Mas nos crist\u00e3os, que reproduzem as palavras de Cristo, essa inadapta\u00e7\u00e3o volta a acontecer e s\u00f3 se atenua quando, em sil\u00eancio, deixam que o ser de Jesus Cristo tome conta do seu pr\u00f3prio ser. A escuta definitiva da Palavra divina tem a marca da eternidade, quando veremos como somos vistos e conheceremos como somos conhecidos. \tEsta desadapta\u00e7\u00e3o entre o Verbo e a voz \u00e9 o lugar para a inter-ac\u00e7\u00e3o entre o texto b\u00edblico e o leitor. O texto relan\u00e7a-nos para uma caminhada de busca pessoal da verdade e do sentido, que nos permitir\u00e1 descobrir a centralidade decisiva do amor de Deus pelos homens e de Jesus Cristo, enquanto express\u00e3o radical do Seu inter-agir connosco na constru\u00e7\u00e3o da hist\u00f3ria. Todas as narrativas do Novo Testamento nos podem conduzir a descobrir, sempre de novo, essa centralidade de Jesus Cristo. \u00c9 assim nas narrativas de factos e eventos, \u00e9 assim nas par\u00e1bolas, onde a abertura ao caminho do leitor \u00e9 componente din\u00e2mica do pr\u00f3prio g\u00e9nero liter\u00e1rio; \u00e9 assim, por exemplo, naquele texto que \u00e9 considerado a nova edi\u00e7\u00e3o da Lei, a carta magna do cristianismo, conhecido como \u201cbem-aventuran\u00e7as\u201d. Este texto de Mateus 5,1-12, in\u00edcio do vulgarmente chamado Serm\u00e3o da Montanha, \u00e9 um bom exemplo deste horizonte din\u00e2mico e aberto dos textos da Escritura. Segundo Andr\u00e9 Chouraqui, um exegeta de origem judaica, a palavra que Jesus teria usado \u201cashr\u00e9i\u201d, que o grego traduziu por Makarioi, e as tradu\u00e7\u00f5es modernas por \u201cbem-aventurados\u201d, \u201cfelizes\u201d, \u201cbien-heureux\u201d, n\u00e3o designa uma felicidade presente, j\u00e1 adquirida, mas a alegria de quem se p\u00f5e a caminho, \u00e0 procura daqueles valores que h\u00e3o-de constituir a felicidade definitiva, no Reino de Deus. Felizes, \u201cbien-heureux\u201d s\u00e3o aqueles que, escutando Jesus, descobrem o seu caminho e decidem percorr\u00ea-lo no realismo concreto da vida (7). Mais uma vez o texto prepara o encontro com o leitor.  \tUma caminhada em comunidade \t9. Na Escritura o interlocutor de Deus e, por isso, do autor e do texto sagrado, \u00e9 o Povo de Deus. A caminhada sugerida pelo texto \u00e9 feita em comunidade. A Palavra surge como elemento congregador da comunidade. Os caminhos sugeridos, sem deixarem de ser pessoais, s\u00e3o caminhos de todo um Povo peregrino, unido e reunido no dinamismo da esperan\u00e7a e da descoberta da vida. Ainda hoje, na Igreja, a leitura comunit\u00e1ria \u00e9 o modo privilegiado de se confrontar com o texto b\u00edblico. Desde a sua origem, a B\u00edblia foi Migra, isto \u00e9, leitura comunit\u00e1ria e em alta voz. \u201cA B\u00edblia foi leitura, antes de ser livro. E nela persistem marcas dessa gesta\u00e7\u00e3o oral, puramente sonora, dessa recita\u00e7\u00e3o ininterrupta, por gera\u00e7\u00f5es\u201d (8). \tEsta dimens\u00e3o comunit\u00e1ria garante a objectividade da recep\u00e7\u00e3o da mensagem atrav\u00e9s das gera\u00e7\u00f5es. A comunidade crente, que escuta a Palavra e que, escutando-a, se p\u00f5e a caminho \u00e9 a mesma que, h\u00e1 muitas gera\u00e7\u00f5es, se congrega para escutar. A maneira como receberam a Palavra defende-nos do subjectivismo radical na capta\u00e7\u00e3o da sua mensagem, embora essa objectividade de sentido, apoiada no ensinamento progressivo da Igreja, nunca feche o texto a novos desafios e a novas descobertas da exig\u00eancia da caminhada da vida.  \tMerecer\u00e1 a B\u00edblia a qualifica\u00e7\u00e3o de obra liter\u00e1ria? \t10. \u00c9 comummente aceite que a B\u00edblia \u00e9 o livro mais lido e com maior n\u00famero de edi\u00e7\u00f5es. Mas a B\u00edblia n\u00e3o \u00e9 um livro, \u00e9 uma biblioteca, comporta dezenas de livros e de autores distintos, de diversas \u00e9pocas e em variados estilos liter\u00e1rios, que v\u00e3o da narrativa hist\u00f3rica ou simb\u00f3lica, ao g\u00e9nero epistolar e \u00e0 poesia. Esta variedade oferece-nos um contacto com uma grande variedade de culturas antigas, sempre enriquecidas com as culturas que, em cada tempo, procuraram a\u00ed a refer\u00eancia \u00e0 Palavra, na sua riqueza e no seu drama. Se \u201cum cl\u00e1ssico \u00e9 um livro que nunca acabou de dizer o que tem a dizer\u201d, a B\u00edblia cumpre cabalmente essa defini\u00e7\u00e3o. Como escreve Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a, \u201cA B\u00edblia representa uma esp\u00e9cie de \u00abatlas iconogr\u00e1fico\u00bb, um \u00abestaleiro de s\u00edmbolos\u00bb. \u00c9 um reservat\u00f3rio de hist\u00f3rias, um arm\u00e1rio cheio de personagens, um teatro do natural e do sobrenatural, um fascinante laborat\u00f3rio de linguagens. Compreender a B\u00edblia \u00e9 compreender-se, j\u00e1 que, como escreve Giombi, \u00aba B\u00edblia participa de modo determinante no circuito das rela\u00e7\u00f5es que ligam experi\u00eancia religiosa e consci\u00eancia civil na Europa Moderna, a ponto de poder iluminar a pr\u00f3pria identidade europeia\u00bb\u201d (9). \tErich Auerbach, escrevendo sobre o realismo na literatura do Ocidente, considera dois paradigmas fundamentais: a Odisseia e a B\u00edblia; a aventura humana, na viagem fundadora que a B\u00edblia prop\u00f5e, n\u00e3o termina num ponto preciso, o regresso \u00e0 pr\u00f3pria casa do her\u00f3i da Odisseia, mas uma \u201cviagem para uma terra desconhecida, s\u00f3 divisada pela promessa desmedida de Deus\u201d (10). \tA dimens\u00e3o e qualidade liter\u00e1rias n\u00e3o constituem um pormenor frente \u00e0 exig\u00eancia da sacralidade do texto, mas faz parte intr\u00ednseca da linguagem em que Deus comunica a Sua Palavra. A riqueza liter\u00e1ria faz parte integrante da exegese contempor\u00e2nea. A prop\u00f3sito dos Evangelhos um exegeta do nosso tempo \u201calerta para o perigo de ainda aprisionarmos os evangelistas a uma imagem de te\u00f3logos que possuem vis\u00f5es doutrinais bem definidas e n\u00e3o se tomar em devida conta o facto de serem criadores de uma forma liter\u00e1ria que, em di\u00e1logo com as concep\u00e7\u00f5es art\u00edsticas do seu tempo, modelaram uma composi\u00e7\u00e3o forte e original\u201d (11).  \tA Palavra sufocada pelas \u201cvozes\u201d \t11. A Palavra exprime a densidade do drama humano, do sofrimento, do desejo e anseio, da busca da verdade, da defini\u00e7\u00e3o de um projecto. S\u00f3 ela relativiza o individualismo e afirma o homem como necessariamente solid\u00e1rio, correspons\u00e1vel de uma hist\u00f3ria colectiva. Mais do que o balbuciar intimista, a Hist\u00f3ria \u00e9 o lugar da Palavra e \u00e9 atrav\u00e9s dela que Deus \u00e9 tamb\u00e9m, com o Seu Povo, protagonista da Hist\u00f3ria. Esta densidade existencial da Palavra \u00e9 comum a Deus e ao homem. O poder ser possu\u00eddo pela Palavra \u00e9, no homem, uma concretiza\u00e7\u00e3o da afirma\u00e7\u00e3o b\u00edblica, segundo a qual o homem \u00e9 imagem de Deus. \tEsta densidade da Palavra \u00e9 silenciosa, em Deus e no homem. Quando se torna exigente, porventura inevit\u00e1vel, comunic\u00e1-la, usa-se a linguagem, as palavras, a voz, no dizer de Santo Agostinho. Ao contemplar a sociedade em que vivemos, assusta-me a hip\u00f3tese de que as \u201cvozes\u201d possam abafar a Palavra. Antes de falar \u00e9 urgente reassumir o sil\u00eancio. George Steiner faz um diagn\u00f3stico duro sobre a morte da Palavra no nosso tempo: \u201cOs usos da fala e da escrita habituais nas modernas sociedades do Ocidente est\u00e3o doentes, e a doen\u00e7a \u00e9 fatal. O discurso que tece as institui\u00e7\u00f5es sociais, o dos c\u00f3digos jur\u00eddicos, o do debate pol\u00edtico, da argumenta\u00e7\u00e3o filos\u00f3fica e das obras liter\u00e1rias, a ret\u00f3rica leviat\u00e2nica dos meios de comunica\u00e7\u00e3o \u2013 todos esses discursos, em suma, estagnam em clich\u00e9s sem vida, g\u00edrias sem sentido\u201d (12). \t\u00c9 um diagn\u00f3stico severo, que Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a comenta assim: \u201cA crise da consci\u00eancia moderna \u00e9 tamb\u00e9m uma crise da palavra. Afirma\u00e7\u00e3o que parecer\u00e1 um contra-senso quando, como em nenhuma outra \u00e9poca da hist\u00f3ria, homens e sociedades se viram envolvidos (os mesmo submersos!) pela sobre-abund\u00e2ncia dos signos verbais. Hoje as palavras n\u00e3o salvam: adiam ou simulam reden\u00e7\u00f5es. Que caminhos outros teremos, ent\u00e3o, de percorrer para nos reaproximarmos da confiada prece do centuri\u00e3o a Jesus: \u00abdiz somente uma palavra e o meu servo ser\u00e1 curado\u00bb (Lc. 7,7) [13]. Isto leva-me a implorar a todos os que falam ou escrevem, na Igreja e fora dela, nos palcos da pol\u00edtica, da cultura, da comunica\u00e7\u00e3o social, que salvem a Palavra, n\u00e3o a matem sufocada pelas \u201cvozes\u201d, pois s\u00f3 a Palavra maturada no sil\u00eancio ser\u00e1 ouvida e desencadear\u00e1 nos outros caminhos de vida.  \t12. Termino como comecei. Sinto-me cada vez mais atra\u00eddo por esse sil\u00eancio onde a Palavra \u00e9 fonte de sentido e me convida a voltar aos modelos, antes do texto ou atrav\u00e9s do texto.  \tQue os queridos modelos da minha juventude mo perdoem, mas, \u00e0 imita\u00e7\u00e3o de Paulo de Tarso, de quem estamos a celebrar o segundo mil\u00e9nio de nascimento, um s\u00f3 modelo me atrai e me interpela: Jesus Cristo morto e ressuscitado. S\u00f3 Ele me desinstala de todos os presentes humanamente conseguidos e me convida a encetar sempre um caminho novo, para O conhecer melhor, para experimentar am\u00e1-l\u2019O. Viver \u00e9 caminhar e Ele \u00e9 o caminho.  Lisboa, 21 de Outubro de 2008  <i>\u2020 JOS\u00c9, Cardeal-Patriarca<\/i>  <b>NOTAS<\/b> 1 &#8211;  Jos\u00e9 Tolentino Mendon\u00e7a, A Leitura infinita, p. 15 2 &#8211;  Ibidem, p. 81 3 &#8211;  Ibidem, p. 47 4 &#8211; Umberto Eco, in J. Tolentino, op. cit. p. 29 5 &#8211;  In J. Tolentino, op. cit., pp. 15 e 77 6 &#8211; Ibidem, p. 68 7 &#8211; Cf. Andr\u00e9 Chouraqui, Les \u00c9vangiles, p. 53 8 &#8211; J. Tolentino de Mendon\u00e7a, op. cit., p. 14 9 &#8211;  Ibidem, pg. 46 10 &#8211;  Ibidem, pp. 32-33 11 &#8211;  Ibidem, pg. 39 12 &#8211; Ibidem, p. 185 13 &#8211;  Ibidem, p. 185 <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Confer\u00eancia do Cardeal-Patriarca na Funda\u00e7\u00e3o Calouste Gulbenkian<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[203],"class_list":["post-34815","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-europa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34815","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=34815"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34815\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=34815"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=34815"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=34815"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}