{"id":347977,"date":"2024-11-10T09:31:26","date_gmt":"2024-11-10T09:31:26","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=347977"},"modified":"2024-11-07T12:33:58","modified_gmt":"2024-11-07T12:33:58","slug":"portugal-nenhum-pais-pode-falar-em-crescimento-e-em-desenvolvimento-se-tivermos-uma-pessoa-em-situacao-de-pobreza-e-exclusao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/portugal-nenhum-pais-pode-falar-em-crescimento-e-em-desenvolvimento-se-tivermos-uma-pessoa-em-situacao-de-pobreza-e-exclusao\/","title":{"rendered":"Portugal: \u00abNenhum pa\u00eds pode falar em crescimento e em desenvolvimento se tivermos uma pessoa em situa\u00e7\u00e3o de pobreza e exclus\u00e3o\u00bb"},"content":{"rendered":"<p><em>Na v\u00e9spera da festa lit\u00fargica de S\u00e3o Martinho, s\u00edmbolo da partilha generosa e da fraternidade solid\u00e1ria e a uma semana do VIII Dia Mundial dos Pobres, \u00e9 convidada da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecl\u00e9sia, Maria Jos\u00e9 Vicente, coordenadora nacional da Rede Europeia Antipobreza (EAPN)\/Portugal<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_347978\" aria-describedby=\"caption-attachment-347978\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/1730906077331.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-347978 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/1730906077331.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1080\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/1730906077331.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/1730906077331-400x225.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/1730906077331-1024x576.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/1730906077331-768x432.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/1730906077331-1536x864.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-347978\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR\/Henrique Cunha<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>O n\u00famero de pobres, de acordo com os \u00faltimos dados, at\u00e9 aumentou ligeiramente. Significa que a estrat\u00e9gia de combate n\u00e3o est\u00e1 a resultar?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio fazer uma avalia\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00f3 da estrat\u00e9gia, mas de todas as medidas que t\u00eam sido implementadas ao longo dos anos. Efetivamente, h\u00e1 uma Estrat\u00e9gia Nacional de Combate \u00e0 Pobreza desde 2021, mas h\u00e1 outras estrat\u00e9gias que precisam tamb\u00e9m de ser avaliadas e tidas em considera\u00e7\u00e3o, porque a pobreza \u00e9 multidimensional e \u00e9 necess\u00e1rio olhar para a pobreza nessa perspetiva.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Nessa perspetiva, que fatores \u00e9 que contribu\u00edram mais para que a estrat\u00e9gia, eventualmente, n\u00e3o produza os resultados que devia produzir?<\/em><\/p>\n<p>Realmente n\u00e3o podemos esquecer o contexto que estamos a viver, h\u00e1 causas estruturais da pobreza e da exclus\u00e3o social, nomeadamente a precariedade no mercado de trabalho. \u00c9 necess\u00e1rio tamb\u00e9m aumentar a prote\u00e7\u00e3o social e, efetivamente, verificou-se o aumento do sal\u00e1rio m\u00ednimo, o aumento de algumas presta\u00e7\u00f5es sociais, mas que estas n\u00e3o foram suficientes. Ou seja, n\u00e3o acompanharam o aumento do custo de vida e isso n\u00f3s temos conhecimento, pois estamos presentes nos v\u00e1rios distritos do pa\u00eds e na regi\u00e3o aut\u00f3noma da Madeira e vamos tendo contato com o que realmente as pessoas est\u00e3o a vivenciar dificuldades di\u00e1rias e mensais para fazer face a todas as despesas. E h\u00e1 aqui uma quest\u00e3o que n\u00f3s n\u00e3o podemos esquecer que \u00e9 a crise da habita\u00e7\u00e3o, que \u00e9 relatada por v\u00e1rias fam\u00edlias e por v\u00e1rias pessoas que, neste momento, est\u00e3o a vivenciar situa\u00e7\u00f5es graves para fazer face a este direito, que \u00e9 um direito de todos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Em rela\u00e7\u00e3o a esse tema, eu queria colocar duas quest\u00f5es. A primeira \u00e9, porque temos visto v\u00e1rios casos ligados a esta popula\u00e7\u00e3o, se h\u00e1 uma preocupa\u00e7\u00e3o acrescida por causa dos fluxos migrat\u00f3rios e a segunda \u00e9 a situa\u00e7\u00e3o das pessoas sem abrigo, que claramente tamb\u00e9m n\u00e3o se pode desligar da pobreza?<\/em><\/p>\n<p>Exatamente, s\u00e3o um dos grupos que apresentam uma situa\u00e7\u00e3o de pobreza extrema. Estamos a falar de pessoas que perderam n\u00e3o s\u00f3 as suas habita\u00e7\u00f5es, mas aqui todo um conjunto de outros direitos e eu come\u00e7ava pela segunda quest\u00e3o, que \u00e9 das pessoas em situa\u00e7\u00e3o de sem abrigo e que est\u00e1 relacionada com a quest\u00e3o da crise habitacional que eu j\u00e1 referi, porque temos conhecimento que muitas fam\u00edlias est\u00e3o a ser desalojadas e v\u00e3o parar \u00e0 rua e temos tamb\u00e9m conhecimento de que muitas vezes estas fam\u00edlias t\u00eam crian\u00e7as e para que as crian\u00e7as n\u00e3o fiquem na rua est\u00e3o a ser encaminhadas para centros de alojamento tempor\u00e1rio e sobretudo para institui\u00e7\u00f5es de acolhimento de crian\u00e7as e jovens.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Tem aumentado essa realidade das crian\u00e7as institucionalizadas, digamos assim?<\/em><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o tenho dados que o comprovem, temos conhecimento, porque trabalhamos com institui\u00e7\u00f5es que trabalham nesta \u00e1rea, que nos relatam estas situa\u00e7\u00f5es, de que realmente h\u00e1 esta situa\u00e7\u00e3o, de que as fam\u00edlias est\u00e3o a ser desalojadas e que depois estas fam\u00edlias tamb\u00e9m t\u00eam crian\u00e7as e para que estas n\u00e3o fiquem numa situa\u00e7\u00e3o de sem abrigo s\u00e3o encaminhadas&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Quer isto dizer que a estrat\u00e9gia, as medidas de combate \u00e0s situa\u00e7\u00f5es de crise na habita\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e3o a resultar? Proporia outras medidas?<\/em><\/p>\n<p>Uma das coisas que a EAPN defende \u00e9 que n\u00e3o se pode combater o fen\u00f3meno de forma sectorial. Essa \u00e9 uma das nossas bandeiras. E se n\u00f3s continuarmos a trabalhar de forma sectorial e a olhar para a pobreza de forma sectorial n\u00f3s n\u00e3o conseguimos ter uma interven\u00e7\u00e3o eficaz. Por isso n\u00f3s defendemos que tem de existir uma interven\u00e7\u00e3o articulada e integrada, porque o social \u00e9 tudo e quando eu digo que o social \u00e9 tudo, \u00e9 o social, \u00e9 educa\u00e7\u00e3o, \u00e9 emprego, \u00e9 sa\u00fade, \u00e9 justi\u00e7a, \u00e9 habita\u00e7\u00e3o e todas estas \u00e1reas de interven\u00e7\u00e3o t\u00eam de estar interligadas e \u00e9 aqui que nos parece que falha esta articula\u00e7\u00e3o. Falha quando n\u00f3s olhamos e trabalhamos com as fam\u00edlias e com as pessoas apenas numa dimens\u00e3o, n\u00e3o nas v\u00e1rias dimens\u00f5es de forma articulada e integrada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ali\u00e1s, essa \u00e9 uma das perguntas que eu queria fazer, porque ficou claro do que disse, que pobreza e exclus\u00e3o t\u00eam m\u00faltiplas causas e o combate \u00e0s vezes \u00e9 feito de uma forma, como gostava de dizer, sectorizada e n\u00e3o propriamente olhando para todas as causas estruturais. Osso pode justificar tamb\u00e9m algum sucesso pol\u00edtica, uma aposta errada no combate \u00e0 pobreza?<\/em><\/p>\n<p>Sim, \u00e9 uma das quest\u00f5es, tal como eu disse, que n\u00f3s exigimos, e quando digo aqui exigimos que defendemos, que \u00e9 que existe um compromisso efetivo, n\u00e3o s\u00f3 do governo, de quem tem a responsabilidade em termos legislativos, mas tamb\u00e9m tem de existir um compromisso a outros n\u00edveis, a um n\u00edvel mais micro, e eu aqui referi \u00e0 quest\u00e3o das autarquias, das comunidades intermunicipais, agora com a transfer\u00eancia de compet\u00eancias para as autarquias tamb\u00e9m tem aqui esta responsabilidade mais ao n\u00edvel local e da\u00ed tamb\u00e9m defendermos a defini\u00e7\u00e3o de estrat\u00e9gias locais de combate \u00e0 pobreza, porque os territ\u00f3rios t\u00eam especificidades diferenciadas\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Quem est\u00e1 mais perto pode perceber melhor os problemas\u2026.<\/em><\/p>\n<p>Exatamente, e porque tamb\u00e9m os territ\u00f3rios s\u00e3o diferentes. H\u00e1 uma estrat\u00e9gia nacional que olha para o territ\u00f3rio na sua generalidade, mas depois \u00e9 necess\u00e1rio que essa estrat\u00e9gia deixe aos territ\u00f3rios e que possam ser definidas estrat\u00e9gias e a\u00e7\u00f5es de acordo com as especificidades de cada territ\u00f3rio e tamb\u00e9m de acordo com as pessoas que aquele territ\u00f3rio apresenta com maior vulnerabilidade. E depois aqui n\u00e3o esquecer tamb\u00e9m o cidad\u00e3o comum, ou seja, tornar o combate \u00e0 pobreza como um des\u00edgnio nacional, exige que este compromisso seja um compromisso pol\u00edtico, mas um compromisso de toda a sociedade, de toda a sociedade civil e de todos os cidad\u00e3os.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>N\u00f3s estamos na fase da discuss\u00e3o do Or\u00e7amento do Estado, na especialidade, como \u00e9 que a rede europeia analisa o documento e em particular o que prop\u00f5e para o combate \u00e0 pobreza? Diz-se que o Or\u00e7amento do Estado para o pr\u00f3ximo ano prev\u00ea cerca de 10 mil milh\u00f5es de euros para erradicar a pobreza\u2026.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p>J\u00e1 \u00e9 um dado importante, h\u00e1 aqui uma verba destinada ao combate \u00e0 pobreza, no entanto esta an\u00e1lise parece-nos redutora, tal como eu j\u00e1 disse, n\u00f3s defendemos esta vis\u00e3o integrada, esta vis\u00e3o articulada e por isso h\u00e1 aqui quest\u00f5es, h\u00e1 aqui or\u00e7amentos de outras \u00e1reas que \u00e9 preciso ter presente. N\u00f3s n\u00e3o podemos combater a pobreza sem olhar para as pol\u00edticas da habita\u00e7\u00e3o, sem olhar para as pol\u00edticas da educa\u00e7\u00e3o, da sa\u00fade, etc. Porque uma das causas que nos parece muito evidente atualmente \u00e9 as grandes desigualdades que existem face ao acesso aos mais diversos bens e servi\u00e7os e a quest\u00e3o da habita\u00e7\u00e3o, a quest\u00e3o da educa\u00e7\u00e3o, a quest\u00e3o da sa\u00fade, mesmo olhando para determinados territ\u00f3rios n\u00f3s sentimos que esta desigualdade se acentua mais nuns territ\u00f3rios em detrimento de outros.<\/p>\n<p>Por isso \u00e9 importante existir essa verba alocada ao combate \u00e0 pobreza, mas \u00e9 necess\u00e1rio muito mais e \u00e9 necess\u00e1ria esta articula\u00e7\u00e3o integrada, como eu estava a dizer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Quando se fala de desigualdade de territ\u00f3rio est\u00e1 a pensar entre centros urbanos e centros rurais?<\/em><\/p>\n<p>Sim, por exemplo, mas tamb\u00e9m entre localidades mais pequenas, de maior densidade e que \u00e9 necess\u00e1rio termos tamb\u00e9m presente quando estamos a fazer esse or\u00e7amento e a alocar tamb\u00e9m os financiamentos. E depois h\u00e1 aqui uma quest\u00e3o que \u00e9, s\u00f3 para concluir a pergunta que me fizeram, que \u00e9, nenhum pa\u00eds pode falar em crescimento e em desenvolvimento se tivermos uma pessoa em situa\u00e7\u00e3o de pobreza e exclus\u00e3o social, porque nenhum pa\u00eds cresce e se desenvolve apresentando situa\u00e7\u00f5es de vulnerabilidade a este n\u00edvel, por isso para n\u00f3s todo o or\u00e7amento que for poss\u00edvel alocar a esta causa, a este des\u00edgnio, deve ser alocado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Com mais de 2 milh\u00f5es de portugueses em situa\u00e7\u00e3o de pobreza, n\u00e3o podemos falar de crescimento econ\u00f3mico? <\/em><\/p>\n<p>Este crescimento tem que ser um crescimento em que as pessoas tenham que estar ao servi\u00e7o das pol\u00edticas, ou seja, as pessoas t\u00eam de estar no centro das pol\u00edticas e a economia tamb\u00e9m. A economia tem de estar ao servi\u00e7o das pessoas e n\u00e3o o inverso. Por isso, falar de crescimento econ\u00f3mico \u00e9 tamb\u00e9m falar do bem-estar social, e quando eu falo em bem-estar social \u00e9 este bem-estar que engloba todas estas dimens\u00f5es que integram e que fazem parte da vida de cada pessoa.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Nesse sentido pergunto-lhe se fariam falta outros indicadores quando se debate o or\u00e7amento, quando se debate temas como o crescimento econ\u00f3mico, o sistema financeiro, as balan\u00e7as comerciais\u2026 fazem falta indicadores que olhem mais para a pessoa e menos para os n\u00fameros?<\/em><\/p>\n<p>Faltam esses indicadores e, sobretudo, falta algo que n\u00f3s tamb\u00e9m j\u00e1 defendemos h\u00e1 algum tempo que \u00e9 qualquer medida que seja apresentada, seja feita uma avalia\u00e7\u00e3o do impacto que aquela medida vai ter na vida das pessoas, sobretudo na vida das pessoas que est\u00e3o numa situa\u00e7\u00e3o de maior vulnerabilidade social.\u00a0 Porque se fiz\u00e9ssemos essa avalia\u00e7\u00e3o antes de qualquer medida ser colocada ou aprovada, ter\u00edamos, se calhar, outros resultados. E realmente h\u00e1 muitas medidas, h\u00e1 pol\u00edticas, h\u00e1 indicadores, mas temos de avaliar, e fazer o acompanhamento das medidas e das pol\u00edticas: E n\u00e3o podemos ter medo de avaliar e de dizer que est\u00e1 mal e vamos recuar dois passos para podermos avan\u00e7ar tr\u00eas ou quatro, e por isso \u00e9 que esta quest\u00e3o da avalia\u00e7\u00e3o e de ver se realmente os indicadores que n\u00f3s temos s\u00e3o os mais adequados para aferir a melhoria das condi\u00e7\u00f5es de vida das pessoas \u00e9, sobretudo, uma \u00e1rea que importa ter presente e n\u00e3o termos realmente medo de avaliar as medidas, as estrat\u00e9gias, mas mais do que tamb\u00e9m indicadores, se me permitirem acrescentar aqui esta quest\u00e3o, mais do que indicadores tamb\u00e9m quantitativos apenas, \u00e9 tamb\u00e9m necess\u00e1rio inserir uma avalia\u00e7\u00e3o qualitativa. Ou seja, ouvir as pessoas que vivenciam estas situa\u00e7\u00f5es e que s\u00e3o as benefici\u00e1rias destas medidas, do verdadeiro impacto das mesmas nas suas vidas, porque s\u00f3 quem beneficia destas medidas \u00e9 que tamb\u00e9m tem uma voz muito importante no que diz respeito a esta avalia\u00e7\u00e3o, e muitas vezes \u00e9 esquecida a voz das pessoas que vivenciam e que s\u00e3o as pr\u00f3prias benefici\u00e1rias das medidas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Muitas vezes vemos uma contesta\u00e7\u00e3o de setores pol\u00edticos a medidas de apoio \u00e0s pessoas em situa\u00e7\u00e3o de exclus\u00e3o que s\u00e3o contrariadas muitas vezes no \u00e2mbito te\u00f3rico do bem comum, do que \u00e9 que em pol\u00edtica deve ser feito ou n\u00e3o. Seria tamb\u00e9m bom que quando houvesse esse discurso pudesse contrapor com dados efetivos e com estas hist\u00f3rias de vidas que mudam?<\/em><\/p>\n<p>Exatamente, sim. \u00c9 a participa\u00e7\u00e3o das pr\u00f3prias pessoas na defini\u00e7\u00e3o das pr\u00f3prias medidas, na sua implementa\u00e7\u00e3o, mas depois tamb\u00e9m na sua avalia\u00e7\u00e3o. Ou seja, fala-se da participa\u00e7\u00e3o das pessoas em situa\u00e7\u00e3o de pobreza e exclus\u00e3o social, mas tamb\u00e9m defendemos uma participa\u00e7\u00e3o real, n\u00e3o uma participa\u00e7\u00e3o fict\u00edcia, em que se chamam as pessoas apenas para avaliarem ou numa fase de ausculta\u00e7\u00e3o, \u00e9 importante \u00e9 que as pessoas sintam que s\u00e3o sujeitos ativos no seu processo de inclus\u00e3o e na pr\u00f3pria defini\u00e7\u00e3o das medidas. Por isso, o Parlamento ou a Assembleia da Rep\u00fablica, os partidos pol\u00edticos, todos os decisores, deviam ter momentos em que dedicassem um tempo para ouvir quem realmente vive na primeira pessoa estas situa\u00e7\u00f5es, porque tem um contributo muito, muito v\u00e1lido para a defini\u00e7\u00e3o de medidas que possam realmente ir de encontro \u00e0s suas reais necessidades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Tem sublinhado a import\u00e2ncia de se avaliar, e foi h\u00e1 pouco mais de um ano que se lan\u00e7ou o Plano de A\u00e7\u00e3o para o per\u00edodo 2022-2025 da Estrat\u00e9gia Nacional de Combate \u00e0 Pobreza, se esmiu\u00e7armos o documento para verificar a aplica\u00e7\u00e3o de medidas, n\u00f3s podemos ficar negativamente surpreendidos?<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s ainda n\u00e3o temos essa avalia\u00e7\u00e3o, temos vindo a acompanhar a implementa\u00e7\u00e3o de algumas medidas previstas na Estrat\u00e9gia, mas tal como eu referi, a Estrat\u00e9gia tem metas, isso n\u00e3o podemos esquecer, baseado num conjunto de indicadores, mas para n\u00f3s o mais importante n\u00e3o s\u00e3o as metas, n\u00e3o s\u00e3o os n\u00fameros. \u00c9 saber realmente qual o impacto que esta Estrat\u00e9gia est\u00e1 a ter na vida das pessoas. E realmente aquilo que os dados nos dizem \u00e9 que em termos de taxa de pobreza ou exclus\u00e3o social h\u00e1 aqui uma estagna\u00e7\u00e3o, mas h\u00e1 em termos concretos um ligeiro aumento de pessoas que est\u00e3o nesta situa\u00e7\u00e3o e isso faz-nos defender e exigir medidas mais direcionadas para as v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es que est\u00e3o em cima da mesa hoje em dia, nomeadamente a quest\u00e3o da habita\u00e7\u00e3o, nunca esquecendo esta quest\u00e3o da articula\u00e7\u00e3o e de olhar para a pessoa na sua generalidade, na sua integralidade, que penso que tem sido esse o grande erro, entre aspas, das nossas pol\u00edticas, \u00e9 trabalharmos as pessoas por setores e mesmo n\u00e3o trabalhando nas suas reais necessidades e sobretudo n\u00e3o ouvindo, n\u00e3o definindo processos de inclus\u00e3o com as pr\u00f3prias pessoas. Muitas vezes a interven\u00e7\u00e3o \u00e9 imposta e n\u00e3o h\u00e1 aqui um processo de corresponsabiliza\u00e7\u00e3o e sobretudo de defini\u00e7\u00e3o em conjunto.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Pergunto-lhe olhando para esse cen\u00e1rio de estagna\u00e7\u00e3o que falou, o n\u00famero de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de pobreza n\u00e3o aumenta, mas tamb\u00e9m na verdade n\u00e3o diminui significativamente, v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es sociais, v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es de igreja t\u00eam repetido v\u00e1rias vezes que a pobreza seja um designo nacional, a EAPN Portugal colocou o tema na agenda j\u00e1 h\u00e1 muitos anos e pergunto-lhe se a certa altura n\u00e3o se sente desiludida quando olha para a realidade destes n\u00fameros?<\/em><\/p>\n<p>Sim, s\u00f3 se me permitir, esclarecer esta quest\u00e3o: a taxa em si estagnou, realmente estamos nos 20,1% de pessoas em situa\u00e7\u00e3o de pobreza ou exclus\u00e3o social, mas em termos efetivos h\u00e1 um aumento de cerca de 20 mil pessoas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Porque a popula\u00e7\u00e3o no geral aumentou\u2026.<\/em><\/p>\n<p>Exatamente, era s\u00f3 aqui para retificar esses dados porque \u00e9 importante, ou seja, a taxa mant\u00e9m-se, mas realmente em termos efetivos, em termos brutos, digamos assim, o n\u00famero de pessoas h\u00e1 um ligeiro aumento e \u00e9 importante referir isso. Depois em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 sua quest\u00e3o, n\u00f3s olhamos para tr\u00e1s e olhamos para o trabalho que j\u00e1 foi feito por v\u00e1rias institui\u00e7\u00f5es que est\u00e3o a trabalhar diretamente nesta \u00e1rea, j\u00e1 tivemos v\u00e1rios governos, v\u00e1rios partidos a acompanhar estas mat\u00e9rias e realmente n\u00f3s n\u00e3o conseguimos diminuir o n\u00famero de pessoas que vivem esta situa\u00e7\u00e3o. Isto \u00e9 um desafio. Mas se me permitir, h\u00e1 aqui uma quest\u00e3o que eu gostaria de trazer aqui para a nossa conversa que tem a ver com a perman\u00eancia da culpabiliza\u00e7\u00e3o das pessoas que se encontram nesta situa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Ainda existe na sociedade em geral portuguesa a ideia de que as pessoas se encontram nesta situa\u00e7\u00e3o por sua culpa e isto tem de ser alterado. Estamos a falar de mudan\u00e7a de mentalidades e sobretudo de um novo paradigma e o novo paradigma exige que realmente se olhe para a pobreza, como eu disse, como multidimensional, que \u00e9 necess\u00e1rio intervir nas causas estruturais da pobreza e de que as pessoas n\u00e3o devem ser culpabilizadas por esta situa\u00e7\u00e3o. As pessoas est\u00e3o numa situa\u00e7\u00e3o de pobreza e exclus\u00e3o social.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E at\u00e9 que ponto situa\u00e7\u00f5es como os incidentes que verific\u00e1mos nas \u00faltimas semanas em alguns bairros em Lisboa podem contribuir para essa tese, para essa narrativa de que as pessoas s\u00e3o pobres porque n\u00e3o fazem nada para sair dessa situa\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Uma das quest\u00f5es tem a ver com o contexto em que estas fam\u00edlias est\u00e3o inseridas, neste caso s\u00e3o muitas vezes em contextos que j\u00e1 apresentam algumas fragilidades sociais e muitas vezes contextos em que a pr\u00f3pria sociedade em geral tamb\u00e9m j\u00e1 tem um certo estigma e um certo preconceito face a esses territ\u00f3rios. E aqui debatemo-nos com uma quest\u00e3o que \u00e9 muitas vezes as pessoas s\u00e3o inseridas em guetos e muitos desses contextos nos quais ocorreram esses incidentes s\u00e3o guetos em que as pessoas foram colocadas l\u00e1 durante os anos sem acompanhamento, sem um verdadeiro acompanhamento, muitas vezes isoladas, n\u00e3o inseridas na verdadeira malha urbana onde est\u00e3o. E isto aumenta a exclus\u00e3o e quando n\u00f3s estamos a aumentar com as pr\u00e1ticas do dia-a-dia essa exclus\u00e3o, depois \u00e9 normal que, entre aspas, que existam depois estes conflitos e estes incidentes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E ajuda a alimentar tamb\u00e9m essa ideia\u2026.<\/em><\/p>\n<p>Sim.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Eu queria usar aqui uma imagem que vai passar muito por estes dias, porque n\u00f3s estamos na v\u00e9spera da celebra\u00e7\u00e3o do S\u00e3o Martinho, o soldado romano que usou a espada para cortar a capa, para dar metade da sua capa a um pobre. <\/em><\/p>\n<p><em>O que eu lhe pergunto \u00e9 se a espada neste momento est\u00e1 a ser usada exatamente para o contr\u00e1rio, para cortar a solidariedade, para que estas ideias de associa\u00e7\u00e3o de viol\u00eancia e de culpabilidade da pobreza, reduzam o sentimento solid\u00e1rio das popula\u00e7\u00f5es e da aten\u00e7\u00e3o social aos mais pobres e \u00e0s mais fr\u00e1geis?<\/em><\/p>\n<p>Sim, isso \u00e9 evidente e n\u00f3s n\u00e3o podemos esquecer que a sociedade em geral neste momento \u00e9 uma sociedade muito centrada em si, em si pr\u00f3pria, as pessoas est\u00e3o muito centradas em si, nos seus problemas, nos seus contextos, e h\u00e1 uma certa individualidade. E at\u00e9, digamos, e se permitir um certo fechamento e eu acho que \u00e9 necess\u00e1rio voltar a abrir para o outro e olharmos para o outro, para cada pessoa, na sua humanidade, porque cada pessoa \u00e9 uma pessoa, por isso quando eu dizia h\u00e1 pouco que n\u00f3s devemos de olhar para al\u00e9m dos n\u00fameros, \u00e9 isso mesmo, os n\u00fameros apresentam-nos apenas uma situa\u00e7\u00e3o concreta de uma determinada realidade e que \u00e9 preocupante, mas quando estamos a falar destes dois milh\u00f5es e tal de pessoas que est\u00e3o nesta situa\u00e7\u00e3o, n\u00e3o podemos fazer generaliza\u00e7\u00f5es e tem que existir uma interven\u00e7\u00e3o baseada na proximidade, na confian\u00e7a e sobretudo nessa solidariedade que falava. E aproveitamos esta conversa para isso mesmo, para apelar a esta solidariedade, para apelar a que cada pessoa, no dia a dia, pode e deve ter um papel fundamental no combate \u00e0 pobreza.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas receia que estas situa\u00e7\u00f5es que t\u00eam ocorrido possam eventualmente agudizar ou acentuar a quebra solid\u00e1ria?<\/em><\/p>\n<p>Pode acentuar e sobretudo pode aumentar a culpabiliza\u00e7\u00e3o das pr\u00f3prias pessoas que est\u00e3o a vivenciar estas situa\u00e7\u00f5es e isso \u00e9 uma das quest\u00f5es que temos de combater. A discrimina\u00e7\u00e3o, falando at\u00e9 assim de forma muito aberta, \u00e9 isso mesmo, \u00e9 a discrimina\u00e7\u00e3o e temos de a combater. J\u00e1 se fala at\u00e9 num termo que a pr\u00f3pria EAPN Portugal j\u00e1 trouxe para debate h\u00e1 dois anos, que \u00e9 aporofobia, que \u00e9 o pavor e o \u00f3dio em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s pessoas em situa\u00e7\u00e3o de pobreza. E n\u00f3s temos de combater essas situa\u00e7\u00f5es porque estas pessoas que est\u00e3o nesta situa\u00e7\u00e3o j\u00e1 est\u00e3o numa grande fragilidade que se ainda lhes \u00e9 atribu\u00eddo a culpa por vivenciarem estas situa\u00e7\u00f5es, agrava isto tudo e leva a estados depressivos, de ansiedade e aqui levando isto para outra quest\u00e3o s\u00f3 para perceberem como realmente o social \u00e9 tudo da sa\u00fade mental.\u00a0 Uma das quest\u00f5es que a pr\u00f3pria EAPN tem debatido \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o bidirecional entre pobreza e sa\u00fade mental, ou seja, quem est\u00e1 numa situa\u00e7\u00e3o de pobreza tem maior probabilidade de vir a ter uma doen\u00e7a mental e vice-versa, quem est\u00e1 a vivenciar uma doen\u00e7a mental pode rapidamente cair numa situa\u00e7\u00e3o de pobreza e exclus\u00e3o social porque tamb\u00e9m h\u00e1 muito estigma \u00e0 volta da doen\u00e7a mental.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Foi o Papa Francisco que estabeleceu em 2017 o Dia Mundial dos Pobres, o que demonstra a sua grande preocupa\u00e7\u00e3o para com este problema. Considera que esta preocupa\u00e7\u00e3o do Papa com os pobres, a pobreza, as desigualdades econ\u00f3micas, tem sido de alguma forma seguida pela maioria das comunidades, ou ainda h\u00e1 muita resist\u00eancia ao ensinamento social do Papa Francisco?<\/em><\/p>\n<p>Eu penso que de uma forma geral as institui\u00e7\u00f5es est\u00e3o a seguir e penso que \u00e9 muito importante a pr\u00f3pria igreja, que tamb\u00e9m \u00e9 um ator fundamental nesta luta, naquilo que n\u00f3s definimos como designo nacional, tamb\u00e9m ter esta preocupa\u00e7\u00e3o e n\u00e3o s\u00f3 nesta altura, mas ao longo do ano abordar sempre estas quest\u00f5es, porque nunca \u00e9 demais, costumamos defender isso, nunca \u00e9 demais que todas as pessoas, todos os atores estejam envolvidos nesta causa. Como eu disse, o combate \u00e0 pobreza e \u00e0 exclus\u00e3o social diz respeito a todos. N\u00f3s n\u00e3o podemos s\u00f3 remeter esta quest\u00e3o para os pol\u00edticos, para quem tem o poder de decis\u00e3o, mas temos de tamb\u00e9m corresponsabilizar todos os atores e aqui a igreja \u00e9 um parceiro de excel\u00eancia tamb\u00e9m no que diz respeito a esta causa e ficamos muito satisfeitos que a pr\u00f3pria igreja cat\u00f3lica tamb\u00e9m esteja na defesa das pessoas que vivenciam estas situa\u00e7\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Na v\u00e9spera da festa lit\u00fargica de S\u00e3o Martinho, s\u00edmbolo da partilha generosa e da fraternidade solid\u00e1ria e a uma semana do VIII Dia Mundial dos Pobres, \u00e9 convidada da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecl\u00e9sia, Maria Jos\u00e9 Vicente, coordenadora nacional da Rede Europeia Antipobreza 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