{"id":34744,"date":"2008-10-18T15:23:32","date_gmt":"2008-10-18T15:23:32","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/10\/18\/por-uma-igreja-mais-missionaria\/"},"modified":"2008-10-18T15:23:32","modified_gmt":"2008-10-18T15:23:32","slug":"por-uma-igreja-mais-missionaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/por-uma-igreja-mais-missionaria\/","title":{"rendered":"Por uma Igreja mais mission\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p>D. Ant\u00f3nio Couto defende a necessidade de um maior compromisso mission\u00e1rio, olhando para al\u00e9m do trabalho pastoral na inf\u00e2ncia e adolesc\u00eancia <!--more--> Anunciar o Evangelho porqu\u00ea e para qu\u00ea? Num mundo cada vez mais plural, s\u00e3o muitas as novas fronteiras da Miss\u00e3o, que desafiam modelos tradicionais de pensamento e ac\u00e7\u00e3o, por parte da Igreja.  D. Ant\u00f3nio Couto, presidente da Comiss\u00e3o Episcopal das Miss\u00f5es, defende, em entrevista publicada na edi\u00e7\u00e3o especial do seman\u00e1rio Ag\u00eancia ECCLESIA, a necessidade de um maior compromisso mission\u00e1rio de todos os cat\u00f3licos e advoga mudan\u00e7as na forma de encarar a ac\u00e7\u00e3o pastoral das comunidades.  <br \/><b>Di\u00e1logo e an\u00fancio s\u00e3o caminhos diversos na rela\u00e7\u00e3o com os n\u00e3o-crist\u00e3os ou podem estar em sintonia?<\/b> \u00c9 claro que est\u00e3o em sintonia, completando- se mutuamente. Bastar\u00e1 ler com aten\u00e7\u00e3o a Instru\u00e7\u00e3o \u00abDi\u00e1logo e an\u00fancio: reflex\u00f5es e refer\u00eancias sobre o an\u00fancio do Evangelho e o di\u00e1logo inter-religioso\u00bb, de 19 de Maio de 1991, do Pontif\u00edcio Conselho para o Di\u00e1logo Inter-religioso e da Congrega\u00e7\u00e3o para a Evangeliza\u00e7\u00e3o dos Povos. O Di\u00e1logo \u00e9 um caminho que se deve cultivar sempre. Aproxima as pessoas, cria la\u00e7os de amizade, faz-nos ver que todos temos coisas belas e ricas a transmitir e a receber. Tamb\u00e9m o amor aos irm\u00e3os nos far\u00e1 muitas vezes entrar pela via do di\u00e1logo. O an\u00fancio leva-nos a dizer claramente Cristo, a nossa riqueza fundamental.  Encontramos, por vezes, belas surpresas. Refiro o caso do velho mission\u00e1rio americano Bob McCahill, dos Padres de Maryknoll. Trabalha no Bangladesh h\u00e1 mais de 30 anos, e, como o pr\u00f3prio confessa, nunca anunciou publicamente o Evangelho. O Bangladesh \u00e9 um pa\u00eds de extrema pobreza e com uma popula\u00e7\u00e3o maioritariamente mu\u00e7ulmana. Bob McCahill faz a sua ora\u00e7\u00e3o da manh\u00e3 e celebra a Eucaristia sozinho, na sua barraca, e depois pega na bicicleta e vai ao encontro das pessoas: fala com todos, mas presta particular aten\u00e7\u00e3o aos doentes. Muda de terra de tr\u00eas em tr\u00eas anos. No primeiro ano, as pessoas olham este americano com alguma desconfian\u00e7a. No segundo ano, j\u00e1 o olham com simpatia. No terceiro ano, cria-se um clima de grande simpatia e perguntam-lhe a raz\u00e3o de querer viver no meio deles. \u00c9 ent\u00e3o que ele fala de Jesus Cristo.   <br \/><b>Faz sentido quantificar\/qualificar o trabalho mission\u00e1rio pelo n\u00famero de convers\u00f5es?<\/b> Faz sentido ver o trabalho mission\u00e1rio pela intensidade da nossa dedica\u00e7\u00e3o e testemunho. De resto, diz o Evangelho, desmentindo a estat\u00edstica, que se deve procurar e encontrar com afinco a ovelha perdida. \u00c9 uma s\u00f3, mas conta tanto como milh\u00f5es. A estat\u00edstica, todavia, pode servir para sabermos melhor os terrenos que pisamos.  Em 1965, o Conc\u00edlio calculava em dois mil milh\u00f5es (2.000.000.000) o n\u00famero de n\u00e3o-crist\u00e3os (AG, n.\u00ba 10). Vinte e cinco anos depois, em 1990, Jo\u00e3o Paulo II refere que este n\u00famero quase duplicou (RM, n.\u00ba 3). \u00c9 sempre \u00fatil consultar os n\u00fameros referidos no &#8220;International Bulletin of Missionary Research&#8221;, que calculava para esse ano de 1990 tr\u00eas mil quatrocentos e quarenta e nove milh\u00f5es e oitenta e quatro mil (3.449.084.000) n\u00e3o-crist\u00e3os, e para o ano 2000 o n\u00famero de quatro mil e sessenta e nove milh\u00f5es e seiscentos e setenta e dois mil (4.069.672.000) n\u00e3o-crist\u00e3os. Em 2006 esse n\u00famero subia para quatro mil e trezentos e setenta e tr\u00eas milh\u00f5es e setenta e seis mil (4.373.076.000) n\u00e3o-crist\u00e3os.  As estimativas apontam para 2025 uma popula\u00e7\u00e3o mundial de 7.851.455.000, com 2.630.559.000 crist\u00e3os (1.334.338.000 cat\u00f3licos), e 5.220.896.000 n\u00e3o-crist\u00e3os. Isto, sim, deve deixar-nos interrogados e levar-nos a tomar uma consci\u00eancia mais viva do testemunho crist\u00e3o que damos.   <br \/><b>Que lugar tem o an\u00fancio da Verdade num mundo cada vez mais plural e multifacetado?<\/b> A velha quest\u00e3o de Pilatos &#8211; \u00abO que \u00e9 a verdade?\u00bb &#8211; \u00e9 mesmo uma quest\u00e3o velha, mal formulada e ultrapassada. Por isso, Jesus n\u00e3o respondeu. N\u00f3s n\u00e3o perguntamos \u00abO que \u00e9 a verdade?\u00bb, mas \u00abQuem \u00e9 a verdade?\u00bb. A verdade n\u00e3o \u00e9 uma coisa ou uma ideia, mas uma pessoa que ama at\u00e9 ao fim. Esta verdade pessoal, \u00e9 \u00f3bvio que devemos cultiv\u00e1-la e testemunh\u00e1-la sempre, sejam quais forem as coordenadas geogr\u00e1ficas, religiosas ou culturais em que vivamos. Seja o mundo plural ou singular. Amar o outro, diferente de mim, at\u00e9 ao fi m, \u00e9 a verdade. E \u00e9 verdadeiramente esta a atitude que conta. N\u00e3o se trata, v\u00ea-se bem, de querer impor qualquer coisa seja a quem for.   <br \/><b>As novas formas de Miss\u00e3o s\u00e3o uma forma \u00ablight\u00bb do compromisso para toda a vida de outros tempos?<\/b> Pode fazer-se turismo toda a vida ou apenas algum tempo. A Miss\u00e3o \u00e9 dedica\u00e7\u00e3o total, com toda a intensidade, seja por toda a vida ou apenas por um dia. A Miss\u00e3o verdadeiramente vivida nunca \u00e9 \u00ablight\u00bb; se \u00e9 \u00ablight\u00bb, n\u00e3o \u00e9 miss\u00e3o. Compreendo que a pergunta tenha a ver com os jovens que, generosamente, querem dedicar algum tempo da sua vida ao servi\u00e7o dos seus irm\u00e3os diferentes e mais pobres. Quem o faz por amor, um dia que seja, ter\u00e1 encontrado a alegria do Reino de Deus. Basta um simples copo de \u00e1gua com amor, diz bem o Evangelho. \u00c9 \u00f3bvio que o mundo est\u00e1 a mudar e a miss\u00e3o tamb\u00e9m. Haver\u00e1 sempre mission\u00e1rios <i>ad vitam<\/i> (para toda a vida, ndr). A miss\u00e3o tempor\u00e1ria \u00e9 do nosso tempo e vai aumentar. Lembremo-nos que h\u00e1 um s\u00e9culo atr\u00e1s s\u00f3 os homens (padres e religiosos) iam em miss\u00e3o. Hoje, 80 % do pessoal mission\u00e1rio s\u00e3o mulheres! A medida ser\u00e1 sempre a medida do amor! Seja muita ou pouca gente, muito ou pouco tempo!   <br \/><b>\u00c9 preciso investir mais no an\u00fancio aos que j\u00e1 ouviram falar de Jesus e n\u00e3o o acharam relevante?<\/b>  \u00c9 preciso investir sempre tudo para todos. Para os que ouviram e para os que n\u00e3o ouviram. Os que ouviram, se n\u00e3o o acharam relevante, \u00e9 porque n\u00e3o ouviram. Ou talvez porque n\u00f3s n\u00e3o soubemos transmitir. Os judeus piedosos ainda hoje dizem: \u00abse amanh\u00e3 os meus filhos n\u00e3o seguirem a nossa religi\u00e3o, a culpa n\u00e3o \u00e9 deles; a culpa \u00e9 nossa, porque n\u00e3o soubemos transmitir-lhes toda a beleza do juda\u00edsmo\u00bb. O mesmo podemos dizer do cristianismo. O mal n\u00e3o est\u00e1 sempre nos outros. Tamb\u00e9m est\u00e1 em n\u00f3s. \u00c9, portanto, necess\u00e1rio amar este mundo e as pessoas e anunciar-lhes ou testemunhar-lhes Cristo, que n\u00e3o \u00e9 uma ideia ou uma causa morta, mas uma pessoa viva no meio de n\u00f3s. N\u00e3o h\u00e1 primeiro an\u00fancio e segundo ou terceiro an\u00fancio. O an\u00fancio, para ser verdadeiro e se \u00e9 verdadeiro, \u00e9 sempre primeiro! Come\u00e7a por fazer estragos em n\u00f3s! O segundo ou terceiro \u00e9 requentado: n\u00e3o empenha quem o faz nem quem o recebe!   <br \/><b>Como classifica a situa\u00e7\u00e3o mission\u00e1ria da Igreja em Portugal?<\/b> \u00c9 ineg\u00e1vel que os Institutos Mission\u00e1rios continuam a escrever p\u00e1ginas selectas de vigor mission\u00e1rio, arrastando atr\u00e1s de si muitos jovens e cooperadores. No que diz respeito \u00e0s nossas dioceses e par\u00f3quias, a situa\u00e7\u00e3o parece-me bastante sossegada, no mau sentido, como quem diz que isso n\u00e3o \u00e9 connosco. \u00c9 imperioso e absolutamente urgente que a Igreja portuguesa se empenhe, no seu todo, numa vast\u00edssima campanha de verdadeira forma\u00e7\u00e3o de evangelizadores, para que se possa, logo que poss\u00edvel mas de forma sistem\u00e1tica, levar o Evangelho a todas as camadas da popula\u00e7\u00e3o portuguesa (crian\u00e7as, jovens, adultos e idosos) e pelo mundo fora.  N\u00e3o podemos mais ficar tranquilamente dentro das igrejas, sacristias e sal\u00f5es paroquiais, de bra\u00e7os cruzados, \u00e0 espera que as pessoas venham ter connosco. Somos n\u00f3s que devemos ir ao encontro das pessoas. E o paradigma \u00e9 o an\u00fancio <i>ad gentes<\/i>, e n\u00e3o uma pastoral de manuten\u00e7\u00e3o. Rasgar horizontes significa n\u00e3o ficar a olhar apenas para o umbigo, mas abrir-se ao diferente. Aprender outra vez a viver e a anunciar o Evangelho. Sei l\u00e1, vejo que as nossas par\u00f3quias assentam quase todas as baterias nas crian\u00e7as, para as quais se orienta uma parte substancial dos esfor\u00e7os pastorais. A compara\u00e7\u00e3o pode ajudar. \u00c9 como se, em Portugal, 90% dos m\u00e9dicos fossem pediatras. Restavam 10 % para a popula\u00e7\u00e3o adulta! V\u00ea-se bem que temos de mudar bastantes coisas.   <br \/><b>O que se pode esperar do Congresso Mission\u00e1rio recentemente realizado?<\/b> Esperar? Por quem ou por qu\u00ea? \u00c9 claro que s\u00e3o precisas directrizes. Vamos prepar\u00e1-las. Mas eu acredito e sei que a aragem do Esp\u00edrito anda por a\u00ed. O assunto diz respeito a todos os baptizados, que n\u00e3o precisam de pedir licen\u00e7as para evangelizar. Sobretudo os fi\u00e9is leigos, cuja ac\u00e7\u00e3o pode e vai chegar a todos os recantos onde nasce e cresce a vida: na fam\u00edlia, no bairro, na escola, na f\u00e1brica, no hospital\u2026 \u00c9 importante sensibilizar os sacerdotes. Mas eu concordo com D. Francesco Lambiasi, bispo de Rimini, na It\u00e1lia, que disse (eu ouvi) e escreveu (eu li): \u00abA evangeliza\u00e7\u00e3o, ou a fazem os leigos ou n\u00e3o se faz\u00bb. Eles est\u00e3o e chegam melhor ao cora\u00e7\u00e3o do mundo. Antevejo uma grande seara em movimento. <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>D. 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