{"id":3474,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/o-natal-no-natal\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"o-natal-no-natal","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-natal-no-natal\/","title":{"rendered":"O Natal no Natal"},"content":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o C\u00e9sar das Neves, Professor Universit\u00e1rio <!--more--> Muita gente se tem surpreendido e perturbado pela anteced\u00eancia com que as lojas, armaz\u00e9ns e at\u00e9 as ruas se vestiram este ano com as suas \u201croupas natal\u00edcias\u201d. Logo em finais de Outubro se ouviram votos de \u201cFeliz Natal\u201d gritados de v\u00e1rias montras. E esses votos chocaram aqueles que se preparavam para celebrar Todos-os-Santos e ainda nem sequer tinham come\u00e7ado a pensar no Advento. O problema merece mais reflex\u00e3o e menos rep\u00fadio do que parece. \u00c9 muito importante separar duas coisas bem diferentes. Uma \u00e9 o nascimento do Menino Jesus, na pobreza e no frio do nosso cora\u00e7\u00e3o, como antes na gruta de Bel\u00e9m; outra \u00e9 a festa que fazemos por esta altura do ano a prop\u00f3sito desse acontecimento. As duas coisas est\u00e3o naturalmente ligadas, mas s\u00e3o muito diferentes. Houve tempos em que ambas andaram a par. Mas elas s\u00f3 estiveram perfeitamente unidas na primeira vez, quando a festa foi feita pela Senhora, S. Jos\u00e9, anjos e pastores no Pres\u00e9pio. Desde ent\u00e3o t\u00eam-se afastado e aproximado ao sabor da Hist\u00f3ria. Da nossa hist\u00f3ria. O nosso tempo n\u00e3o \u00e9 nisto nem muito pior nem muito melhor que outros. Hoje, como seria de esperar, o Menino e o nascimento s\u00e3o os mesmos de sempre, mas os ritmos da festa est\u00e3o comandados pela l\u00f3gica comercial. \u00c9 uma caracter\u00edstica t\u00edpica da actualidade, daquele tempo em que nos foi dado viver. Assim, naturalmente, as festas incluem compras e vendas, promo\u00e7\u00f5es e saldos, enfeites e postais, banquetes e presentes. As comemora\u00e7\u00f5es natal\u00edcias adquirem calend\u00e1rios, cad\u00eancias e contornos dessa forma que o nosso tempo tem de olhar para a vida. Daqui nasce o problema que aflige muitos. De facto, v\u00e1rios crist\u00e3os t\u00eam uma atitude de rep\u00fadio e censura em rela\u00e7\u00e3o ao com\u00e9rcio. Participam dele como todos os outros, mas n\u00e3o deixam de o menosprezar \u00e9tica e intelectualmente. Assim, um bom n\u00famero de crist\u00e3os sente uma repulsa por aquilo que considera a ocupa\u00e7\u00e3o comercial do Natal pelos interesses econ\u00f3micos. Esta \u00e9 a raz\u00e3o de fundo para a surpresa e perturba\u00e7\u00e3o perante as montras natal\u00edcias de Outubro. Por muito justo que seja, esse rep\u00fadio n\u00e3o \u00e9 crist\u00e3o. Ser\u00e1 puritano, moralista, democr\u00e1tico, mas n\u00e3o \u00e9 crist\u00e3o. O com\u00e9rcio, as lojas, os armaz\u00e9ns e as ruas s\u00e3o apenas o mundo real, o mundo como ele se apresenta aos nossos olhos. Em si n\u00e3o \u00e9 bom nem mau, mas ganha o seu valor pelas pessoas reais e concretas que nelas vivem e ganham a sua vida. \u00c9 esse o mundo que o Senhor nos entregou para evangelizar. Temos tend\u00eancia a denegri-lo porque o comparamos com outras eras, que mitificamos como excelentes. Mas essa compara\u00e7\u00e3o \u00e9 esp\u00faria. O tempo que temos \u00e9 \u00fanico que realmente existe e o passado tamb\u00e9m tinha os seus defeitos, bem maiores em certos pontos. Pode dizer-se que a \u00abculpa\u00bb disto \u00e9 do Menino que nasceu. Ele veio salvar o mundo mas n\u00e3o nos tirou no mundo. \u00c9 aqui, no meio das imperfei\u00e7\u00f5es, dos interesses mesquinhos, das actividades de ganha-p\u00e3o, que Ele viveu e nos pediu para vivermos. F\u00ea-lo e pediu-nos para o fazermos sempre com os olhos no C\u00e9u, no sublime, na salva\u00e7\u00e3o. Sempre com amor por esse mundo na sua (e nossa) mis\u00e9ria. Mas obrigou-nos a permanecer no meio dos males do mundo e a\u00ed encontrar e levar a salva\u00e7\u00e3o. N\u00e3o nos ensinou a multiplica\u00e7\u00e3o dos p\u00e3es. S\u00f3 nos ensinou a Paix\u00e3o. O facto de as nossas cidades estarem cheias de tantas manifesta\u00e7\u00f5es natal\u00edcias n\u00e3o pode ser, em primeiro lugar, causa de rep\u00fadio pelos crist\u00e3os. Elas s\u00e3o, naturalmente, motivo de distrac\u00e7\u00e3o, de desorienta\u00e7\u00e3o, de pecado para muitos, incluindo para n\u00f3s. Mas ao mesmo tempo s\u00e3o, para uma grande parte da nossa cidade, a \u00fanica not\u00edcia que v\u00e3o ter do acontecimento incompar\u00e1vel, radical, maravilhoso do Pres\u00e9pio de Bel\u00e9m. Not\u00edcia imprecisa, distorcida, dilu\u00edda. Mas apesar disso \u00fanica not\u00edcia. E para n\u00f3s, s\u00e3o a lembran\u00e7a do muito que ainda falta para a nossa salva\u00e7\u00e3o. Pois se o Menino p\u00f4de viver na pobreza e no frio de uma gruta perto de Bel\u00e9m, se o Menino hoje nos pode suportar nos nossos pecados, tamb\u00e9m n\u00f3s podemos viver e suportar as lojas e armaz\u00e9ns que nos ferem a sensibilidade. Por amor d\u2019Ele. Pelo amor que \u00e9 d\u2019Ele.  Jo\u00e3o C\u00e9sar das Neves, Professor Universit\u00e1rio <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o C\u00e9sar das Neves, Professor Universit\u00e1rio<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[8],"tags":[100,267],"class_list":["post-3474","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-dossier","tag-advento","tag-natal"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3474","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3474"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3474\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3474"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3474"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3474"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}