{"id":347380,"date":"2024-11-03T09:30:03","date_gmt":"2024-11-03T09:30:03","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=347380"},"modified":"2024-11-03T10:54:21","modified_gmt":"2024-11-03T10:54:21","slug":"entrevista-sinodo-nunca-houve-um-exercicio-tao-vasto-de-sinodalidade-de-democraticidade-na-igreja","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/entrevista-sinodo-nunca-houve-um-exercicio-tao-vasto-de-sinodalidade-de-democraticidade-na-igreja\/","title":{"rendered":"Entrevista\/S\u00ednodo: \u00abNunca houve um exerc\u00edcio t\u00e3o vasto de sinodalidade, de democraticidade, na Igreja\u00bb"},"content":{"rendered":"<p style=\"font-weight: 400;\"><em>O te\u00f3logo Jo\u00e3o Duque analisa as conclus\u00f5es da XVI Assembleia Geral do S\u00ednodo dos Bispos na entrevista Renascen\u00e7a\/Ecclesia, que resultou na afirma\u00e7\u00e3o da \u00abinfalibilidade a partir de baixo\u00bb e na convic\u00e7\u00e3o de que a quest\u00e3o do diaconado feminino \u00abn\u00e3o vai poder ser adormecida\u00bb<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_347381\" aria-describedby=\"caption-attachment-347381\" style=\"width: 1500px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-347381 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Joao-Duque_Joao-Claudio2.jpg\" alt=\"\" width=\"1500\" height=\"1000\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Joao-Duque_Joao-Claudio2.jpg 1500w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Joao-Duque_Joao-Claudio2-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Joao-Duque_Joao-Claudio2-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Joao-Duque_Joao-Claudio2-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/11\/Joao-Duque_Joao-Claudio2-391x260.jpg 391w\" sizes=\"(max-width: 1500px) 100vw, 1500px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-347381\" class=\"wp-caption-text\">Foto Jo\u00e3o Cl\u00e1udio Fernandes<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"font-weight: 400; text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Paulo Rocha (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Come\u00e7ava com a pergunta que mais vezes vi colocada nos \u00faltimos dias e que tem a ver com as expectativas que o s\u00ednodo poderia despertar. H\u00e1 raz\u00f5es para que as pessoas se sintam frustradas com o resultado obtido? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Sim e n\u00e3o. E essa \u00e9, de facto, a pergunta eventualmente mais dif\u00edcil. Tamb\u00e9m depende muito das expectativas que se colocavam.\u00a0Os pr\u00f3prios envolvidos muito diretamente no S\u00ednodo manifestam uma parte de desilus\u00e3o, mas bastante satisfa\u00e7\u00e3o, apesar de tudo, com o resultado. \u00c9 claro que, em grande parte, a desilus\u00e3o se deve a quest\u00f5es muito concretas, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0s quais haveria eventualmente alguma expectativa, mas que, analisando com cuidado o pr\u00f3prio estatuto do S\u00ednodo, n\u00e3o era expect\u00e1vel que algumas tivessem uma decis\u00e3o no final do S\u00ednodo. Grande parte dessas quest\u00f5es &#8211; salvaguardando possivelmente uma delas, da qual poderemos depois falar &#8211; ficaram em aberto no final do S\u00ednodo, o que significa que n\u00e3o ficou o caminho vedado, inclusivamente com a cria\u00e7\u00e3o das comiss\u00f5es para analisar algumas quest\u00f5es muito concretas. Essas quest\u00f5es s\u00e3o tratadas agora nessas comiss\u00f5es, porque exige, al\u00e9m de mais, alguma intromiss\u00e3o com o Direito Can\u00f3nico, em alguns casos, e algum amadurecimento, noutros casos. O documento como tal tem sido bastante saudado, mesmo pelos grupos mais cr\u00edticos e que tinham uma expectativa mais elevada, dado o teor do documento, que \u00e9 considerado melhor, mesmo em rela\u00e7\u00e3o ao \u2018Instrumentum Laboris\u2019 e aos documentos anteriores.\u00a0\u00a0Nesse sentido, a maioria dos mais cr\u00edticos est\u00e1 bastante satisfeito com o produto final, tanto quanto se pode estar nestas circunst\u00e2ncias.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>\u00a0Apesar disso, e j\u00e1 depois do S\u00ednodo ter terminado, a Ag\u00eancia Ecclesia interpelou o secret\u00e1rio-geral do S\u00ednodo dos Bispos, o cardeal M\u00e1rio Grech, a partir de quem afirma que \u2018a montanha pariu um rato\u2019, mesmo com esta express\u00e3o. O secret\u00e1rio-geral rejeitou a cr\u00edtica, referindo-se a mudan\u00e7as em \u00e1reas como a transpar\u00eancia ou a corresponsabilidade, e a aposta em organismos de participa\u00e7\u00e3o, \u00e0 celebre express\u00e3o \u2018todos, todos, todos\u2019. S\u00e3o mudan\u00e7as suficientes para avaliar positivamente 3 anos de trabalho?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Os 3 anos de trabalho, penso eu, devem ser avaliados em si mesmos. O que se fez ao longo destes 3 anos tem alguma validade, j\u00e1 por si. Toda a din\u00e2mica. Nunca houve um S\u00ednodo com um levantamento t\u00e3o global, t\u00e3o universal, tamb\u00e9m nunca houve recursos, nomeadamente tecnol\u00f3gicos, que possibilitassem isso como hoje \u00e9 poss\u00edvel.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Nunca houve um exerc\u00edcio t\u00e3o vasto de sinodalidade, podemos chamar mesmo de democraticidade, na Igreja, como ao longo deste S\u00ednodo, e isso vale j\u00e1 por si. A transforma\u00e7\u00e3o da linguagem nos documentos \u00e9 tamb\u00e9m significativa, e implicou este tempo todo. \u00c9 um documento com uma linguagem que se distancia um pouco de certas linguagens de tradi\u00e7\u00e3o eclesi\u00e1stica, num sentido um bocadinho pejorativo do termo, e, nesse sentido, considero que \u00e9 tamb\u00e9m positivo.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Quanto \u00e0 express\u00e3o \u2018a montanha pariu rato\u2019&#8230; H\u00e1 quem utilize a imagem do camelo e do cavalo: quando se trata de uma comiss\u00e3o para preparar um cavalo e sai um camelo, que anda, como sabemos, muito mais devagar, mas que tem a capacidade de atravessar os desertos, o que significa que h\u00e1 algumas transforma\u00e7\u00f5es propostas que s\u00e3o de bastante peso, e n\u00e3o podemos esperar que sejam decididas de imediato e sem mais aprofundamento. A rapidez da nossa cultura exigiria, eventualmente, uma decis\u00e3o mais r\u00e1pida, mas talvez seja avisado n\u00e3o a tomar.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Tamb\u00e9m \u00e9 preciso ver que, relativamente aos pontos mais pol\u00e9micos, n\u00e3o houve unanimidade nem sequer neste documento, que nesses pontos \u00e9 relativamente gen\u00e9rico. E nos casos mais pol\u00e9micos, o caso concreto do lugar da mulher na Igreja foi de facto a parte do documento que teve mais votos contra. Ora, um S\u00ednodo, tem de levar em conta as diversas sensibilidades, tamb\u00e9m aqueles que n\u00e3o est\u00e3o de acordo com uma proposta maiorit\u00e1ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Precisamente, o documento diz que \u201cn\u00e3o h\u00e1 nenhuma raz\u00e3o para que as mulheres n\u00e3o assumam pap\u00e9is de lideran\u00e7a na igreja\u201d, mas afirma tamb\u00e9m que \u201c\u00e9 necess\u00e1rio um maior discernimento a este respeito\u201d. A minha pergunta \u00e9: n\u00e3o era de esperar que nesta altura j\u00e1 houvesse algo mais concreto sobre o papel das mulheres?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Sim&#8230; H\u00e1 coisas concretas referidas, mas dentro do enquadramento atual, quer sacramental, quer do Direito Can\u00f3nico. Ou seja, acentua-se a import\u00e2ncia de colocar mulheres em espa\u00e7os e lugares de lideran\u00e7a, sem ainda vincular a quest\u00e3o com o Sacramento da Ordem. Claro, n\u00f3s sabemos que \u00e9 um argumento que n\u00e3o \u00e9 suficiente, porque enquanto os lugares de verdadeira lideran\u00e7a e de \u00faltima decis\u00e3o na Igreja estiverem vinculados ao Sacramento da Ordem &#8211; o cardeal-prefeito do Dicast\u00e9rio para a Doutrina da F\u00e9 considera que se poderia separar eventualmente a fun\u00e7\u00e3o de lideran\u00e7a e de governo do Sacramento da Ordem, mas isso n\u00e3o parece vi\u00e1vel, e possivelmente nem sequer desej\u00e1vel na Igreja &#8211; a quest\u00e3o da ordena\u00e7\u00e3o continua a ser uma quest\u00e3o permanente: h\u00e1 certos lugares de decis\u00e3o aos quais a mulher, s\u00f3 pelo facto de ser mulher, n\u00e3o tem acesso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Na sua opini\u00e3o, o S\u00ednodo aponta, de facto, para essa possibilidade ou n\u00e3o? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o havendo raz\u00f5es, e os cr\u00edticos, nomeadamente aqueles que t\u00eam avan\u00e7ado muito bons argumentos para o n\u00e3o impedimento do acesso \u00e0 Ordem por parte da mulher, e cada vez t\u00eam apresentado melhores argumentos em rela\u00e7\u00e3o a isso, dizem precisamente que o importante deste documento \u00e9 declarar que n\u00e3o h\u00e1 raz\u00f5es, impedimentos, coisa que j\u00e1 tinha sido afirmada anteriormente, ou melhor, o contr\u00e1rio, que havia esses impedimentos e essas raz\u00f5es, e que fossem inclusivamente raz\u00f5es teol\u00f3gicas. Isso j\u00e1 \u00e9 importante.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Depois, a realiza\u00e7\u00e3o concreta, que em princ\u00edpio passar\u00e1 em primeiro lugar pelo diaconado, quanto a mim \u00e9 insuficiente, como \u00e9 l\u00f3gico e todos sabemos, a n\u00e3o ser que transformemos muito a figura do diaconado permanente atual, mas passar\u00e1 por a\u00ed, e a\u00ed ter\u00e1 que trabalhar a comiss\u00e3o. \u00c9 certo que j\u00e1 h\u00e1 uma comiss\u00e3o que vinha a trabalhar isso. Os resultados de facto n\u00e3o foram satisfat\u00f3rios. E eu acredito que dada a insist\u00eancia deste tema, e o envolvimento cada vez mais forte das mulheres na vida da Igreja, mas a um n\u00edvel de lideran\u00e7a j\u00e1 muito significativo, cada vez mais significativo, inclusivamente no S\u00ednodo, essa quest\u00e3o n\u00e3o vai poder ser adormecida.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Falta a palavra do Papa na sua opini\u00e3o?\u00a0 <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\u00c9 uma decis\u00e3o que tem de ser muito bem sustentada noutros organismos mesmo antes do Papa. Eu n\u00e3o me atrevo a fazer um ju\u00edzo sobre a posi\u00e7\u00e3o do Papa, pessoalmente,\u00a0 e\u00a0 admito que com a idade que tem, seja algo de dif\u00edcil decis\u00e3o para ele. Mas tamb\u00e9m acredito que ele n\u00e3o queira nem nunca v\u00e1 tomar uma decis\u00e3o sozinho a n\u00e3o ser muito sustentado por v\u00e1rios organismos relativamente a isso. Porque \u00e9 uma decis\u00e3o de bastante peso, sobretudo porque ser\u00e1 a abertura de um caminho que poder\u00e1 vir a levar \u00e0 ordena\u00e7\u00e3o no presbiterado e no episcopado at\u00e9, como outras confiss\u00f5es crist\u00e3s j\u00e1 possuem. E, portanto, n\u00e3o me parece que seja uma quest\u00e3o s\u00f3 do papado, \u00e9 uma quest\u00e3o do sistema como tal e tem que haver muita seguran\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Agora, parece-me que o caminho se tornou relativamente irrevers\u00edvel, n\u00e3o ainda suficientemente maduro, at\u00e9 porque \u00e9 precisamente esse n\u00famero, o n\u00famero 60 do documento, foi aquele que teve mais votos contra, apesar de ser uma percentagem m\u00ednima, mas teve mais votos contra, mesmo nesta reda\u00e7\u00e3o, que \u00e9 uma reda\u00e7\u00e3o ainda relativamente gen\u00e9rica e redonda, mas com uma acentua\u00e7\u00e3o interessante do valor da mulher da Igreja. J\u00e1 agora chamo a aten\u00e7\u00e3o para o facto de que a parte inicial do documento toca nos fundamentos, logo, logo no primeiro par\u00e1grafo, penso eu: abre com uma refer\u00eancia \u00e0 denomina\u00e7\u00e3o de Madalena como ap\u00f3stola dos ap\u00f3stolos, algo que j\u00e1 S\u00e3o Tom\u00e1s fez e que vem da tradi\u00e7\u00e3o da Igreja. N\u00e3o me parece inocente essa refer\u00eancia e penso que ela vai constituir um caminho que ir\u00e1, mais tarde ou mais cedo, desembocar em resultados muito concretos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Fica esta pista.\u00a0H\u00e1 outras quest\u00f5es que ficam a\u00ed abertas, como por exemplo a do celibato dos sacerdotes. Um primeiro passo nesta quest\u00e3o, n\u00e3o poderia passar pelo desenvolvimento da experi\u00eancia nas igrejas locais, por exemplo, alguma ou algumas confer\u00eancias episcopais poderem avan\u00e7ar?\u00a0 <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Por acaso, o tema em si \u00e9 praticamente silenciado. De facto, h\u00e1 ali uma refer\u00eancia simp\u00e1tica \u00e0s igrejas orientais, de rito oriental e padres celibat\u00e1rios ou casados, o que significa que o assunto \u00e9 assumido como natural e perfeitamente normal. Mas depois o assunto n\u00e3o \u00e9 trabalhado. \u00c9 sim trabalhado com bastante profundidade a proposta de uma reorganiza\u00e7\u00e3o, dir\u00edamos, da descentraliza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">E isso a\u00ed parece-me muito significativo. Acho que \u00e9 capaz de ser dos pontos em que mais se avan\u00e7ou, dos pontos em que, eventualmente, o Direito Can\u00f3nico ser\u00e1 chamado a fazer altera\u00e7\u00f5es significativas e o peso das Confer\u00eancias Episcopais e, eventualmente, da conjuga\u00e7\u00e3o das confer\u00eancias em zonas continentais poder\u00e1 levar \u00e0 delega\u00e7\u00e3o de certas decis\u00f5es, nomeadamente as decis\u00f5es disciplinares e, eventualmente, rituais mais lit\u00fargicos para regi\u00f5es do Ocidente, n\u00e3o precisando de uma decis\u00e3o central homog\u00e9nea, nesse n\u00edvel, da parte de toda a Igreja Latina, que, na pr\u00e1tica, tem sido isso que tem impedido certas decis\u00f5es, nomeadamente a quest\u00e3o do celibato. Eu penso que a quest\u00e3o do celibato, se fosse abordada regionalmente, pelo menos por Continentes, eventualmente em alguns continentes a obriga\u00e7\u00e3o j\u00e1 n\u00e3o se existiria como tal. Acredito que essa transforma\u00e7\u00e3o mais, dir\u00edamos, das estruturas globais de governo da Igreja possa vir a permitir decis\u00f5es parciais que, depois, acabam por ter impacto nas outras regi\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>E esse foi, ali\u00e1s, um aspeto abordado em confer\u00eancia de imprensa, quando se sugeriu a transforma\u00e7\u00e3o da linguagem relativamente \u00e0 ideia de Igreja Universal e \u00e0 sua rela\u00e7\u00e3<\/em>o com as v\u00e1rias comunidades locais. H\u00e1 aqui uma transforma\u00e7\u00e3o eclesiol\u00f3gica em curso?<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Em certo sentido, sim, embora n\u00e3o com novidade total. Em rigor, esse tipo de organiza\u00e7\u00e3o j\u00e1 existe na organiza\u00e7\u00e3o por patriarcados, por exemplo, das igrejas orientais, cat\u00f3licas ou n\u00e3o. Do ponto de vista eclesiol\u00f3gico, dir\u00edamos que \u00e9 mais a exce\u00e7\u00e3o, embora tenha durado muitos s\u00e9culos a centraliza\u00e7\u00e3o do estilo latino, a vincula\u00e7\u00e3o a uma Igreja quase global da Igreja Cat\u00f3lica Romana de rito latino, do que propriamente a diversidade de ritos e a diversidade de organiza\u00e7\u00e3o disciplinar, que\u00a0 \u00e9 at\u00e9 mais tradicional e bastante mais antiga. Nesse sentido, considero que esta transforma\u00e7\u00e3o eclesiol\u00f3gica \u00e9 para a recupera\u00e7\u00e3o de uma tradi\u00e7\u00e3o importante, que \u00e9 a articula\u00e7\u00e3o da unidade na diversidade e n\u00e3o na uniformidade.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A confus\u00e3o da uniformidade foi-se desenvolvendo ao longo dos s\u00e9culos e n\u00f3s acab\u00e1mos por identificar a unidade da Igreja muito com a uniformidade e o controle central. Tem algumas vantagens, evita alguma fragmenta\u00e7\u00e3o, que nomeadamente os nossos irm\u00e3os das igrejas n\u00e3o cat\u00f3licas, protestantes em geral, reconhecem e \u00e0s vezes t\u00eam dificuldade de lidar com essa fragmenta\u00e7\u00e3o, mas h\u00e1 um pre\u00e7o muito grande a pagar, que \u00e9 a centraliza\u00e7\u00e3o e sobretudo, mesmo num processo sinodal, a dificuldade de chegar a consensos m\u00ednimos relativamente a alguns pontos, os quais claramente s\u00f3 ser\u00e3o sol\u00faveis nesta reorganiza\u00e7\u00e3o mais descentralizada da Igreja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>O Papa Francisco assumiu as conclus\u00f5es da Assembleia Sinodal como suas, como Magist\u00e9rio Pontif\u00edcio, e decidiu n\u00e3o escrever uma exorta\u00e7\u00e3o p\u00f3s-sinodal e enviar o texto votado pelos participantes no S\u00ednodo \u00e0 Igreja em todo o mundo. O que diz este gesto do Minist\u00e9rio Petrino?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Esse sim \u00e9 um gesto in\u00e9dito, tanto quanto sei, e \u00e9 um gesto muito significativo. Em rigor, corresponde a um exerc\u00edcio do Minist\u00e9rio, do Magist\u00e9rio, neste caso, mas do pr\u00f3prio Minist\u00e9rio Papal, cuja infalibilidade \u00e9 uma infalibilidade a partir de baixo, a partir de toda a popula\u00e7\u00e3o. Na pr\u00e1tica, a partir dos \u201ccensus fidelium\u201d, eventualmente consensos, mesmo que n\u00e3o seja total, de todos os fi\u00e9is. Nesse sentido, tem uma base teol\u00f3gica muito forte, pode ter at\u00e9 um impacto no pr\u00f3prio paradigma da no\u00e7\u00e3o de poder e at\u00e9 de governo, que n\u00e3o \u00e9 propriamente hier\u00e1rquico, de cima para baixo, mas \u00e9 constitu\u00eddo por delega\u00e7\u00e3o, e em alguns casos nem sequer por delega\u00e7\u00e3o, ou seja, de forma muito sinodal, de baixo para cima, o que d\u00e1 ao povo de Deus um estatuto de Magist\u00e9rio e n\u00e3o a um grupo de especialistas, muito menos de especialistas ordenados, n\u00e3o reserva a esse grupo esse estatuto. N\u00e3o \u00e9 um poder magisterial direto, \u00e9 um poder magisterial confirmado pela figura da Unidade, pela figura do Papa. Mas essa confirma\u00e7\u00e3o, em rigor, assume a conclus\u00e3o do processo sinodal. A pr\u00f3pria Igreja, nos contextos em que vivemos hoje, j\u00e1 se sentia relativamente mal com o facto de reunir, na ocasi\u00e3o eram sobretudo bispos, os representantes de todo o povo de Deus, que fazem um documento, ou uma proposta de documento, e depois o documento ser exarado a partir de uma esp\u00e9cie de poder absoluto papal.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Acho que o Papa Francisco interpretou muito bem o sentimento eclesial e esse gesto \u00e9 um gesto claro de supera\u00e7\u00e3o de uma matriz que, em rigor, j\u00e1 n\u00e3o se adequava, n\u00e3o digo aos nossos tempos, \u00e0 nossa forma mesmo eclesial de ver as coisas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Pessoalmente, espero que o gesto se mantenha: que nunca mais depois de um s\u00ednodo, um Papa vai fazer um documento diferente daquele que o s\u00ednodo produziu.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>E muitos outros pontos e temas poder\u00edamos analisar com mais detalhe, ficar\u00e1 para uma pr\u00f3xima oportunidade, isto porque queremos tamb\u00e9m falar do futuro&#8230; E uma ideia que praticamente todos os participantes no S\u00ednodo quiseram passar foi a de que o \u2018S\u00ednodo come\u00e7a agora\u2019. Ser\u00e1 que os crentes v\u00e3o entender esta mensagem, a mensagem de que, como algu\u00e9m tamb\u00e9m j\u00e1 disse, que acabou o s\u00ednodo, come\u00e7a a sinodalidade?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Isso \u00e9 verdade. J\u00e1 come\u00e7ou um pouco antes, na pr\u00e1tica, mas todo o documento \u00e9 orientado para isso, \u00e9 orientado para uma nova forma de vivermos a Igreja.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o podemos esconder uma coisa: isso vai depender muito das lideran\u00e7as eclesiais, quer queiramos, quer n\u00e3o. Se as lideran\u00e7as eclesiais n\u00e3o derem corpo a todas as propostas, sugest\u00f5es, indica\u00e7\u00f5es, e algumas quase de car\u00e1ter obrigat\u00f3rio, de implementa\u00e7\u00e3o de regimes sinodais, passo a express\u00e3o, na vida das comunidades, desde as pequenas par\u00f3quias, pequenos grupos, at\u00e9 a organiza\u00e7\u00e3o das dioceses, supra diocesana, etc. nomeadamente quest\u00f5es de prestar contas, quest\u00f5es de controle, quest\u00f5es de transpar\u00eancia, precisamente para evitar todo o tipo de abusos de poder&#8230; Se as lideran\u00e7as eclesiais n\u00e3o derem corpo a isto muito concreto, localmente, isto poder\u00e1 dentro de algum tempo estar completamente esquecido e uma nova tentativa de sinodalidade n\u00e3o vai ter o efeito que teve esta. Mas eu acredito firmemente que as diversas lideran\u00e7as eclesiais v\u00e3o claramente dar corpo a isto, de forma at\u00e9 institucionalizada, porque aquilo que vai ficar para o futuro n\u00e3o \u00e9 a mera boa vontade de alguns, ser\u00e1 aquilo que vamos conseguir fazer passar para estruturas institucionalizadas e que salvaguardem a justi\u00e7a e a participa\u00e7\u00e3o de todos os fi\u00e9is.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>A rece\u00e7\u00e3o das conclus\u00f5es do Conc\u00edlio Vaticano II permanece em processo, 60 anos depois. O que \u00e9 que podemos esperar do acolhimento das decis\u00f5es de 3 anos deste processo sinodal, que resulta num documento muito aberto, desafiando a reflex\u00e3o em cada comunidade local?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Os tempos s\u00e3o outros, apesar de tudo. Eu acho que o tempo de rece\u00e7\u00e3o e aplica\u00e7\u00e3o ser\u00e1 mais breve. O estilo do documento tamb\u00e9m \u00e9 um pouco diferente, \u00e9 muito orientado para certos pontos da din\u00e2mica das comunidades eclesiais e, nesse sentido, at\u00e9 de mais f\u00e1cil aplica\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Temos um exemplo no Conc\u00edlio Vaticano II: o documento de mais f\u00e1cil aplica\u00e7\u00e3o, at\u00e9 certo ponto pelo menos, era o documento sobre a Liturgia. E, de facto, teve a aplica\u00e7\u00e3o quase imediata, as transforma\u00e7\u00f5es foram not\u00f3rias logo de seguida, depois com todas as din\u00e2micas mais radicais ou menos radicais. Eu acredito que o impulso sinodal vai continuar e, portanto, a rece\u00e7\u00e3o nas comunidades vai ser sem interrup\u00e7\u00e3o. E os pontos que ficaram em estudo v\u00e3o ser reclamados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Uma proposta, uma sugest\u00e3o para a Igreja Cat\u00f3lica em Portugal, a partir deste trabalho sinodal e deste documento final?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1 quest\u00f5es muito concretas: a quest\u00e3o da transpar\u00eancia e a quest\u00e3o da presta\u00e7\u00e3o de contas, desde as par\u00f3quias \u00e0s dioceses, \u00e9 algo que tem de entrar na nossa din\u00e2mica quotidiana. A quest\u00e3o da organiza\u00e7\u00e3o justa mesmo das institui\u00e7\u00f5es eclesiais, nomeadamente daquelas que t\u00eam empregados &#8211; n\u00f3s temos muitos centros sociais, n\u00f3s temos escolas, n\u00f3s temos v\u00e1rias coisas &#8211; o controle da justi\u00e7a relativamente a todos os que trabalham na Igreja \u00e9 algo que tem de ser implementado de imediato e com muito cuidado. Depois, os \u00f3rg\u00e3os de consulta, de ajuda na decis\u00e3o, de participa\u00e7\u00e3o na decis\u00e3o, quer a n\u00edvel diocesano, onde eles j\u00e1 est\u00e3o mais ou menos implementados, mas sobretudo a n\u00edvel paroquial, concretamente os conselhos pastorais paroquiais, \u00e9 algo que tem de ser imediatamente implementado. Transformar a Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa, se for esse o caso, num \u00f3rg\u00e3o com capacidade de decis\u00e3o para as diversas dioceses em Portugal, com um mais impacto pr\u00e1tico na vida dessas dioceses, na medida em que, em \u00faltima inst\u00e2ncia, cada diocese faz o que quer relativamente \u00e0s decis\u00f5es da Confer\u00eancia Episcopal, tamb\u00e9m \u00e9 outro aspeto. Mas a\u00ed at\u00e9 pode haver altera\u00e7\u00f5es no Direito Can\u00f3nico relativamente ao estatuto, at\u00e9 legislativo da pr\u00f3pria Confer\u00eancia Episcopal.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O te\u00f3logo Jo\u00e3o Duque analisa as conclus\u00f5es da XVI Assembleia Geral do S\u00ednodo dos Bispos na entrevista Renascen\u00e7a\/Ecclesia, que resultou na afirma\u00e7\u00e3o da \u00abinfalibilidade a partir de baixo\u00bb e na convic\u00e7\u00e3o de que a quest\u00e3o do diaconado feminino \u00abn\u00e3o vai poder ser adormecida\u00bb<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":347381,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[630],"tags":[311,321],"class_list":["post-347380","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-sinodo-dos-bispos","tag-ucp"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/347380","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=347380"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/347380\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/347381"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=347380"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=347380"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=347380"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}