{"id":34630,"date":"2008-10-13T15:43:38","date_gmt":"2008-10-13T15:43:38","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/10\/13\/reflexao-de-d-joaquim-goncalves-sobre-o-ano-paulino-2\/"},"modified":"2008-10-13T15:43:38","modified_gmt":"2008-10-13T15:43:38","slug":"reflexao-de-d-joaquim-goncalves-sobre-o-ano-paulino-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/reflexao-de-d-joaquim-goncalves-sobre-o-ano-paulino-2\/","title":{"rendered":"Reflex\u00e3o de D. Joaquim Gon\u00e7alves sobre o Ano paulino"},"content":{"rendered":"<p>O Ano Paulino: Palavra falada e Palavra escrita  <!--more--> 1- Todas as m\u00e3es gravam com j\u00fabilo a hora em que os filhos pronunciaram a primeira palavra, e, no p\u00f3lo oposto, os filhos guardam com sofrimento a hora em que seus pais disseram a \u00faltima palavra antes de fecharem os l\u00e1bios para sempre. A palavra foi, num caso, sinal de vida a florescer e, no outro, sinal de vida a apagar-se.  De modo an\u00e1logo, os noivos fixaram para sempre a hora em que declararam o seu amor e, no futuro, sentem que o amor cresce sempre que repetem essa palavra inicial. As pr\u00f3prias cartas de noivado vivem do calor que s\u00f3 eles conhecem. T\u00eam algo de pudor \u00edntimo, como disse Fernando Pessoa ao escrever que \u00abtoda a carta de amor \u00e9 rid\u00edcula quando lida na pra\u00e7a p\u00fablica\u00bb. Em tudo isto, a palavra falada revela a pessoa, e, passada a escrito, vive do calor com que foi dita. \u00c9 um pouco o que passa com a hist\u00f3ria da B\u00edblia. Os antigos Hebreus sentiam-se ufanos por terem um \u00abDeus que fala\u00bb, que \u00abn\u00e3o \u00e9 como os outros deuses, os \u00eddolos pag\u00e3os, que t\u00eam boca mas n\u00e3o falam, que t\u00eam ouvidos mas n\u00e3o ouvem, que t\u00eam garganta mas n\u00e3o articulam qualquer som\u00bb, e consideravam um tempo de desgra\u00e7a aquele em que n\u00e3o houvesse nenhum profeta. A \u00abpalavra\u00bb \u00e9 a vida do Povo b\u00edblico. At\u00e9 o acto de criar \u00e9 referido na B\u00edblia como obra da palavra: Deus criou o mundo pela sua palavra, \u00aba palavra \u00e9 omnipotente\u00bb.  Essa palavra ouvida dos profetas e falada durante s\u00e9culos seria passada a escrito para ser lida, mas a sua proclama\u00e7\u00e3o oral na assembleia ficou sempre como a express\u00e3o aut\u00eantica da palavra. Significativamente, o S\u00ednodo chama-se \u00abS\u00ednodo da Palavra\u00bb e n\u00e3o \u00abS\u00ednodo da B\u00edblia\u00bb, porque dizer \u00abPalavra de Deus\u00bb \u00e9 dizer mais que dizer \u00abB\u00edblia\u00bb, porque a B\u00edblia \u00e9 a \u00abPalavra escrita\u00bb que nasceu da \u00abPalavra falada\u00bb. Conv\u00e9m, por isso, lembrar algumas quest\u00f5es cl\u00e1ssicas relativas \u00e0 forma\u00e7\u00e3o da B\u00edblia. 2- De facto, antes de haver entre os hebreus qualquer \u00abEscritura\u00bb, existiam tradi\u00e7\u00f5es religiosas orais. Ao serem passadas a escrito, deram origem \u00e0s \u00abEscrituras\u00bb e sobre elas se fizeram e escreveram depois coment\u00e1rios diversos donde nasceram diferentes escolas de Juda\u00edsmo que deram origem \u00e0s \u00abtradi\u00e7\u00f5es dos homens\u00bb, e que Jesus reprovaria pelo seu car\u00e1cter exc\u00eantrico, por vezes oposto aos Mandamentos de Deus. Algo an\u00e1logo aconteceu mais tarde com o Novo Testamento: antes de ser escrito, existiu um evangelho oral que daria origem aos quatro Evangelhos. Nem tudo, por\u00e9m, foi passado a escrito, como afirma S. Jo\u00e3o: \u00abh\u00e1 muitas outras coisas que fez Jesus e que n\u00e3o est\u00e3o escritas neste livro, as quais, se fossem escritas uma por uma, creio que o mundo n\u00e3o poderia conter os livros que seria preciso escrever\u00bb (Jo 21,25). Algumas dessas coisas ficaram na tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 de que d\u00e3o testemunho textos escritos por crist\u00e3os dos primeiros s\u00e9culos, bispos e te\u00f3logos e catequistas, chamados por isso \u00abvar\u00f5es apost\u00f3licos e \u00abPadres ou pais da Igreja\u00bb.  Esses textos formam a chamada \u00abTradi\u00e7\u00e3o da Igreja\u00bb. Ajudam a compreender o texto escrito, s\u00e3o uma fonte riqu\u00edssima de informa\u00e7\u00e3o, e da maior import\u00e2ncia para o di\u00e1logo entre cat\u00f3licos, protestantes e ortodoxos, porque falam da Igreja num tempo em que ainda n\u00e3o havia as actuais divis\u00f5es. Torna-se assim evidente que, entre a \u00abB\u00edblia\u00bb ou \u00abPalavra de Deus escrita\u00bb e a \u00abTradi\u00e7\u00e3o da Igreja\u00bb, h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o \u00edntima. Sendo a \u00abTradi\u00e7\u00e3o da Igreja\u00bb anterior \u00e0 B\u00edblia escrita e depois continuada em novas reflex\u00f5es, \u00e9 a Tradi\u00e7\u00e3o Igreja que, sem descurar o estudo cient\u00edfico do texto b\u00edblico, nos garante o seu sentido.  Compreende-se: Um texto escrito \u00e9, de si, um texto opaco, directamente ligado a uma hist\u00f3ria e geografia concretas e carece de ser lido por quem o escreveu. \u00abUma Escritura n\u00e3o se auto anuncia, permanece muda enquanto n\u00e3o for proclamada na comunidade onde nasceu\u00bb. Quem melhor conhece uma carta de noivado do que os noivos que a escreveram e os amigos que com eles viveram e os ouviram falar do seu amor? Por causa da assist\u00eancia permanente do Esp\u00edrito Santo no interior da Igreja, esta \u00e9 capaz de ler o texto b\u00edblico com o mesmo sentido com que foi escrito.  Ao lado dos quatro Evangelhos oficiais, dos escritos da \u00abTradi\u00e7\u00e3o da Igreja\u00bb, e em oposi\u00e7\u00e3o a eles, surgiram nos primeiros s\u00e9culos outros textos de gente marginal \u00e0 f\u00e9, cheios de fantasistas, os chamados \u00abevangelhos ap\u00f3crifos\u00bb e \u00abgn\u00f3sticos\u00bb, ditos \u00abmais inteligentes\u00bb, que ultimamente conheceram grande divulga\u00e7\u00e3o na Europa inteira. 3- A \u00abB\u00edblia\u00bb e a \u00abTradi\u00e7\u00e3o da Igreja\u00bb s\u00e3o, pois, insepar\u00e1veis. Durante s\u00e9culos, os Protestantes fixaram-se exclusivamente no texto escrito da B\u00edblia, e os Cat\u00f3licos pareceu darem prefer\u00eancia \u00e0 \u00abTradi\u00e7\u00e3o\u00bb. Hoje \u00e9 cada vez mais aceite por todos que a B\u00edblia e a Tradi\u00e7\u00e3o n\u00e3o s\u00e3o duas fontes paralelas, independentes e aut\u00f3nomas, da revela\u00e7\u00e3o de Deus. Derivam ambas da \u00fanica fonte de revela\u00e7\u00e3o que \u00e9 Jesus Cristo (Constitui\u00e7\u00e3o Dei Verbum,11). \u00c9 tamb\u00e9m aceite por todos, menos pelos Judeus, que o Novo Testamento \u00e9 a revela\u00e7\u00e3o completa do que j\u00e1 vinha anunciado no Antigo. Na revela\u00e7\u00e3o feita aos antigos hebreus j\u00e1 trabalhava a Sabedoria. O texto do G\u00e9nesis diz que Deus \u00abcriou o mundo pela palavra\u00bb e em todo o Antigo Testamento repete-se constantemente que \u00aba \u00abpalavra \u00e9 eficaz\u00bb, que \u00abn\u00e3o regressa \u00e0s alturas sem cumprir a sua obra\u00bb. Essa palavra tem um comportamento de \u00abpessoa\u00bb, e Paulo desvendar\u00e1 o mist\u00e9rio dessa palavra ao afirmar que Jesus \u00e9 a essa Sabedoria de Deus incarnada, \u00e9 o Verbo que j\u00e1 estava presente em toda a Cria\u00e7\u00e3o: n\u2019Ele foram criadas todas as coisas no c\u00e9u e na terra, vis\u00edveis e invis\u00edveis. Por Ele e para Ele tudo foi feito e n\u2019Ele tudo subsiste (Col 1). Torna-se claro que a \u00abPalavra de Deus \u00e9 uma pessoa, \u00e9 Jesus Cristo, o Verbo feito homem. \u00abNo princ\u00edpio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus e o Verbo era Deus\u00bb. Tudo foi feito por Ele e sem Ele nada foi feito, e, vindo ao mundo, ilumina todo o homem (Jo 1, 10). Compreende o leitor por que se diz que a \u00abmesa da Palavra\u00bb e a \u00abmesa da Eucaristia\u00bb formam uma s\u00f3 mesa? Compreende por que raz\u00e3o junto do \u00abamb\u00e3o\u00bb da Palavra h\u00e1 sempre uma \u00abcadeira\u00bb e que o presidente da Palavra \u00e9 o que preside tamb\u00e9m \u00e0 Eucaristia, unindo as duas? Compreende o leitor a raz\u00e3o por que o S\u00ednodo quis que, depois do S\u00ednodo da Eucaristia, se fizesse este S\u00ednodo sobre a Palavra e que na celebra\u00e7\u00e3o da Missa deve sentir-se uma integra\u00e7\u00e3o das duas mesas? \u00abO p\u00e3o da Palavra\u00bb e \u00abp\u00e3o da Eucaristia\u00bb s\u00e3o o mesmo Jesus, realmente presente nas duas mesas, ainda que de modo distinto.  Abra o leitor a sua B\u00edblia e leia as refer\u00eancias ao livrinho de Ezequiel 3,1-3 e do Apocalipse 10,8-11, aos livros, escrituras e rolos de S. Paulo (1Tes 5,25; 2Tim 3,15; 4,13; Rom 1,2) e veja o modo como Paulo rel\u00ea o AT e retira o v\u00e9u que cobre os escritos do Antigo Testamento (2 Cor3,14-16).   <i>D. Joaquim Gon\u00e7alves, Bispo de Vila Real  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Ano Paulino: Palavra falada e Palavra escrita<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[113,168,183,203],"class_list":["post-34630","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-ano-paulino","tag-diocese-da-guarda","tag-diocese-de-vila-real","tag-europa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34630","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=34630"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34630\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=34630"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=34630"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=34630"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}