{"id":34606,"date":"2008-10-13T11:30:29","date_gmt":"2008-10-13T11:30:29","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/10\/13\/homilia-de-d-antonino-dias-na-sua-entrada-solene-na-diocese-de-portalegre-castelo-branco\/"},"modified":"2008-10-13T11:30:29","modified_gmt":"2008-10-13T11:30:29","slug":"homilia-de-d-antonino-dias-na-sua-entrada-solene-na-diocese-de-portalegre-castelo-branco","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-de-d-antonino-dias-na-sua-entrada-solene-na-diocese-de-portalegre-castelo-branco\/","title":{"rendered":"Homilia de D. Antonino Dias na sua entrada solene na Diocese de Portalegre-Castelo Branco"},"content":{"rendered":"<p>O texto de Isa\u00edas que anuncia a salva\u00e7\u00e3o messi\u00e2nica para todos os povos e sob a imagem de um banquete, lauto e farto, introduz-nos na par\u00e1bola do banquete nupcial do Evangelho, verdadeira met\u00e1fora do Reino de Deus consumado. No contexto da pol\u00e9mica entre Jesus, os chefes dos sacerdotes e anci\u00e3os do povo (1), acentuada pelas par\u00e1bolas dos dois filhos (2) e dos vinhateiros homicidas (3), o Mestre, integrando-se na tradi\u00e7\u00e3o sapiencial judaica, volta a falar-lhes em par\u00e1bolas que, no dizer de alguns te\u00f3logos, s\u00e3o uma esp\u00e9cie de \u201cconversas \u00e0 sobremesa\u201d(Trocm\u00e9); ou \u201cuma forma refinada de conversa, um tanto ir\u00f3nica com a burguesia acomodada, a qual, sem seguir Jesus, mostrava por ele algum interesse religioso (\u2026) e com esta mentalidade O convidava para tomar refei\u00e7\u00f5es em conjunto (Schillebecx)\u201d(4). Como sabemos, Jesus n\u00e3o regateava os convites. Nos Evangelhos, abundam as refer\u00eancias a esta pr\u00e1tica de Jesus que talvez seja a mais caracter\u00edstica da presen\u00e7a do Reino de Deus: a pr\u00e1tica do conv\u00edvio, a presen\u00e7a frequente em banquetes, a reuni\u00e3o \u00e0 mesa n\u00e3o s\u00f3 com os seus mas com todo o g\u00e9nero de pessoas.  S. Jo\u00e3o apresenta Jesus dando in\u00edcio ao seu minist\u00e9rio p\u00fablico como convidado para um banquete nupcial em Cana da Galileia (5). E todos os evangelistas encerram o Seu minist\u00e9rio p\u00fablico \u2013 e a sua vida sobre esta terra \u2013 com uma ceia de despedida (6). E se quem o convidava, porventura o fazia em fun\u00e7\u00e3o dos conceitos de custo e benef\u00edcio como acontece na economia humana onde \u201cn\u00e3o h\u00e1 almo\u00e7os gr\u00e1tis\u201d, Jesus, dentro da \u201ceconomia da salva\u00e7\u00e3o\u201d via nos convites mais uma oportunidade a n\u00e3o desperdi\u00e7ar para o desempenho da sua miss\u00e3o e melhor clarificar o sentido do Reino que anunciava. Com a sua palavra e os seus gestos, denunciava a falsidade de um sistema de pureza que fazia acep\u00e7\u00e3o de pessoas e vedava o conv\u00edvio e acesso \u00e0 salva\u00e7\u00e3o a todos aqueles que eram considerados impuros pela lei. Com a sua delicadeza firme e pedagogia adaptada a cada audit\u00f3rio, denunciava a fragilidade dos l\u00edderes e do sistema que eles montavam. Rompia com todas as barreiras falsamente erguidas em nome de Deus, seu Pai e, n\u00e3o sem grande esc\u00e2ndalo e alarido, anunciava a possibilidade e o direito de todos entrarem na comunidade de salva\u00e7\u00e3o, incluindo os estrangeiros, os pobres, os marginalizados e os pecadores pois \u201cn\u00e3o s\u00e3o os que t\u00eam sa\u00fade que precisam de m\u00e9dico, mas os doentes (\u2026) Eu n\u00e3o vim chamar os justos, mas os pecadores\u201d (7). As par\u00e1bolas contadas por Jesus n\u00e3o s\u00e3o \u201ccan\u00e7\u00f5es de embalar\u201d. Geram pol\u00e9mica e interpelam de tal forma que o discurso passa da simples informa\u00e7\u00e3o \u00e0 provoca\u00e7\u00e3o existencial. Movendo-se no \u00e2mbito do paradoxal, do surpreendente e do n\u00e3o convencional, do chocante e do insensato, provocam sempre uma reac\u00e7\u00e3o, positiva ou negativa.  Em linguagem simples e clara, parece que as par\u00e1bolas viram as coisas ao avesso. Obrigam a ver o mundo e a vida a partir de outras perspectivas, abrem novos horizontes \u00e0 liberdade e levam \u00e0 convers\u00e3o. E se nos colocam graves problemas \u00e9ticos, elas t\u00eam, sobretudo, como objectivo principal, fazer-nos penetrar nos mist\u00e9rios do Reino de Deus que tem origens muito modestas e simples, pouco ou nada percept\u00edveis, e irrompe, para todos, gra\u00e7as \u00e0 iniciativa e ac\u00e7\u00e3o radicalmente gratuita de Deus. A salva\u00e7\u00e3o n\u00e3o depende dos m\u00e9ritos pessoais nem do rigoroso cumprimento da lei, como S. Paulo bem o ilustrou. Depende sim da bondade e da miseric\u00f3rdia que Deus oferece em Jesus. E as vias de acesso \u00e0 salva\u00e7\u00e3o s\u00e3o a f\u00e9, a confian\u00e7a, a abertura humilde \u00e0 ac\u00e7\u00e3o de Deus, a confiss\u00e3o dos pr\u00f3prios pecados e o acolhimento agradecido do Reino, que \u00e9 gra\u00e7a, acolhimento da salva\u00e7\u00e3o que nos \u00e9 oferecida gratuitamente (8). A reuni\u00e3o \u00e0 mesa antes da pascal faz com que os disc\u00edpulos de Jesus O reconhe\u00e7am como Salvador, com uma f\u00e9 soteriol\u00f3gica. Ap\u00f3s a P\u00e1scoa, a mem\u00f3ria e releitura dessa convivialidade conduz a comunidade crist\u00e3 a uma aut\u00eantica convers\u00e3o cristol\u00f3gica a Jesus. A P\u00e1scoa foi a hora do triunfo e foi tamb\u00e9m o dia em que foram celebradas as n\u00fapcias indissol\u00faveis entre Cristo e a sua Igreja. A segunda parte do evangelho \u00e9 um convite \u00e0 reflex\u00e3o de todos os que aceitaram o convite. Todos foram convidados para o banquete, mas o detalhe da veste nupcial personaliza e responsabiliza cada membro, capacitando-o para a entrada no banquete messi\u00e2nico. N\u00e3o basta ser baptizado e ter consci\u00eancia de perten\u00e7a \u00e0 Igreja. Se cada um de n\u00f3s n\u00e3o for fiel \u00e0 l\u00f3gica do Evangelho, se n\u00e3o se apresentar com a veste nupcial da alian\u00e7a, a veste branca da gra\u00e7a, que \u00e9 Cristo em n\u00f3s, com tudo aquilo que ela significa e implica de din\u00e2mica e tens\u00e3o sadia, n\u00e3o participar\u00e1 da alegria messi\u00e2nica tal como os primeiros convidados do Evangelho que n\u00e3o tendo fome nem sede de justi\u00e7a, n\u00e3o quiseram abandonar as pr\u00f3prias seguran\u00e7as materiais e recusaram o convite arranjando desculpas. Mas o que \u00e9 certo \u00e9 que o Banquete do Reino est\u00e1 preparado. E embora os pobres tenham prefer\u00eancia, todos continuam a ser convidados e ningu\u00e9m \u00e9 exclu\u00eddo a n\u00e3o ser aqueles que se excluem a si pr\u00f3prios. Os primeiros encarregados de levar o convite s\u00e3o os profetas do Antigo Testamento, at\u00e9 Jo\u00e3o Baptista. Estes cumpriram a miss\u00e3o de preparar Israel para receber Jesus como Messias. O \u00faltimo grupo representa os ap\u00f3stolos e todos n\u00f3s, os baptizados (9). E se esta par\u00e1bola \u00e9 um convite a que todos aceitemos participar, desde j\u00e1, no banquete com o verdadeiro traje nupcial que \u00e9 a Caridade e as Obras de Miseric\u00f3rdia (10), ela \u00e9 tamb\u00e9m um convite a que saibamos abrir o cora\u00e7\u00e3o e a porta das nossas comunidades, a todas as pessoas, seja qual for a origem e as suas circunst\u00e2ncias existenciais. Mais ainda: a par\u00e1bola \u00e9 tamb\u00e9m forte interpela\u00e7\u00e3o para todos n\u00f3s como enviados a chamar. Que esp\u00e9cie de chamamento fazemos, se o fazemos; ao encontro de quem vamos, se vamos; com que zelo persistimos, se persistimos; que rosto de Deus transmitimos, se \u00e9 que n\u00e3o falamos mais de n\u00f3s e das nossas opini\u00f5es do que d\u2019Ele; com que alegria e entusiasmo fazemos o convite para que ele seja aceite e vivido em ambiente de alegria e festa? Ser\u00e1 que deixamos transparecer a serenidade e a paz que Cristo \u00e9, d\u00e1 e garante, ou vivemos num activismo fren\u00e9tico de fazer fugir e encostar quem nos v\u00ea passar? Que g\u00e9nero de comunidade \u00e9 a nossa, se \u00e9 que constru\u00edmos e temos comunidade? Como vivemos a comunh\u00e3o \u201cque encarna e manifesta a pr\u00f3pria ess\u00eancia do mist\u00e9rio da Igreja\u201d?  Jo\u00e3o Paulo II, na Carta Apost\u00f3lica <I>Tertio Millennio Ineunte &#8211; \u00c0 Entrada do Novo Mil\u00e9nio<\/I> &#8211; afirmava que fazer da Igreja a casa e a escola da comunh\u00e3o \u00e9 \u201co grande desafio que nos espera no mil\u00e9nio que come\u00e7a, se quisermos ser fi\u00e9is ao des\u00edgnio de Deus e corresponder \u00e0s expectativas mais profundas do mundo\u201d. \u201cQue significa isto em concreto?\u201d \u2013 Perguntava o Santo Padre que logo respondia: \u201cTamb\u00e9m aqui o nosso pensamento poderia fixar-se imediatamente na ac\u00e7\u00e3o, mas seria errado deixar-se levar por tal impulso. Antes de programar iniciativas concretas, \u00e9 preciso promover uma espiritualidade de comunh\u00e3o, elevando-a ao n\u00edvel de princ\u00edpio educativo em todos os lugares onde se forma o homem e o crist\u00e3o, onde se educam os ministros do altar, os consagrados, os agentes pastorais, onde se constroem as fam\u00edlias e as comunidades. Espiritualidade de comunh\u00e3o significa, em primeiro lugar, ter o olhar do cora\u00e7\u00e3o voltado para o mist\u00e9rio da Trindade, que habita em n\u00f3s e cuja luz h\u00e1-de ser percebida tamb\u00e9m no rosto dos irm\u00e3os que est\u00e3o ao nosso redor. Espiritualidade da comunh\u00e3o significa tamb\u00e9m a capacidade de sentir o irm\u00e3o de f\u00e9 na unidade profunda do Corpo m\u00edstico, isto \u00e9, como \u201cum que faz parte de mim\u201d, para saber partilhar as suas alegrias e os seus sofrimentos, para intuir os seus anseios e dar rem\u00e9dio \u00e0s suas necessidades, para lhes oferecer uma verdadeira e profunda amizade. Espiritualidade de comunh\u00e3o \u00e9 ainda a capacidade de ver, antes de mais nada, o que h\u00e1 de positivo no outro, para o acolher e valorizar como dom de Deus: um \u201cdom para mim\u201d, como \u00e9 para o irm\u00e3o que directamente o recebeu. Por fim, espiritualidade da comunh\u00e3o \u00e9 saber \u201ccriar espa\u00e7o\u201d para o irm\u00e3o, levando \u201cos fardos uns dos outros\u201d (11) e rejeitando as tenta\u00e7\u00f5es ego\u00edstas que sempre nos amea\u00e7am e geram competi\u00e7\u00e3o, arrivismo, suspeitas, ci\u00fames\u201d. E terminava o Papa afirmando: \u201cN\u00e3o haja ilus\u00f5es! Sem esta caminhada espiritual, de pouco servir\u00e3o os instrumentos exteriores de comunh\u00e3o. Revelar-se-iam mais como estruturas sem alma, m\u00e1scaras de comunh\u00e3o, do que como vias para a sua express\u00e3o e crescimento\u201d (12). Caros fi\u00e9is e amigos Diocesanos de Portalegre-Castelo Branco, aqui estou: eu e as minhas circunst\u00e2ncias. Venho da raia minhota que me permitia comer em casa e ir, se assim o desejasse, tomar caf\u00e9, a p\u00e9, ao estrangeiro, por entre castelos, muralhas e guaritas fronteiri\u00e7as que por l\u00e1 testemunham, de um lado e do outro, aqui e ali, de forma altaneira, vistosa e afoita, as inimizades que existiam entre os pais de antanho destes namorados sem fim. Assim versejou o poeta Jo\u00e3o Verde: <I>\u201cVendo-os assim t\u00e3o pertinho A Galiza mail\u2019o Minho S\u00e3o como dois namorados Que o rio traz separados Quase desde o nascimento! Deixal\u2019os, pois, namorar, J\u00e1 que os pais para casar Lhes n\u00e3o d\u00e3o consentimento\u201d.<\/I> <BR> E venho desta raia minhota para estoutra, mais distinta e distante, que Jos\u00e9 R\u00e9gio, \u00e0 m\u00edngua de ver o seu querido mar de Vila do Conde, viu este Alentejo \u201cOceano de ondas de oiro\u201d (13), de \u201cSerras deitadas nas nuvens\u201d, de \u201cCampos verdes e amarelos, salpicados de oliveiras\u201d, aqui, onde ele tinha na sua casa \u201ctosca e bela\u201d <I>\u201cUma pequena varanda Diante duma janela. Toda aberta ao sol que abrasa, Ao frio que tolhe, gela E ao vento que anda, desanda, E sarabanda, e ciranda De redor da minha casa,(\u2026)\u201d<\/I> (14). <BR> Reconhe\u00e7amos, no entanto, que h\u00e1 entre as duas dioceses do Minho &#8211; Braga e Viana do Castelo &#8211; e esta de Portalegre-Castelo Branco, pelo menos duas coisa em comum: todas t\u00eam os seus encantos e todas t\u00eam gente boa, com ideias, projectos e o desejo de supera\u00e7\u00e3o constante por entre a teimosia de uma vida dura e pouco facilitada.  S. Paulo, a que j\u00e1 nos referimos na segunda leitura desta celebra\u00e7\u00e3o, escreve da cadeia de \u00c9feso aos Crist\u00e3os de Filipos, que aceitaram o convite do Senhor e viviam na din\u00e2mica do Reino. Era uma comunidade generosa, solid\u00e1ria e atenta aos mais necessitados. E tamb\u00e9m quiseram partilhar os seus bens com S. Paulo que se sente comovido pelo gesto e revela os sentimentos de profunda amizade que o prendem \u00e0quela comunidade sem ocultar as contrariedades e priva\u00e7\u00f5es que teve que suportar para anunciar a Pessoa e a mensagem de Jesus Cristo por toda a parte. E, em jeito de quem agradece, recorda-lhes que sabe viver na pobreza e sabe viver na abund\u00e2ncia. Que em todo o tempo e em todas as circunst\u00e2ncias aprendeu a viver desafogadamente e a padecer necessidade. E conclu\u00eda: \u201cTudo posso naquele que me conforta\u201d. Em Cristo ele encontrava a for\u00e7a e a coragem para tudo superar no meio das adversidades da sua vida apost\u00f3lica. Neste momento, sem me querer comparar a S. Paulo, apetece-me dizer-vos como ele: tamb\u00e9m eu aprendi a viver sem exig\u00eancias. Sempre me fui adaptando \u00e0s circunst\u00e2ncias e \u00e0s pessoas que a diversidade das tarefas e das terras me foram impondo. E tamb\u00e9m sempre senti a gratid\u00e3o das pessoas com quem trabalhei, que amei e servi. Confiando, sempre senti a lealdade e a amizade das mesmas e sempre partilhei tarefas e responsabilidades, secundarizando a minha ac\u00e7\u00e3o para fazer valer mais a minha presen\u00e7a amiga e discreta, assumida e persistente, a estimular e valorizar o trabalho de todos quantos colaboravam comigo na diversidade dos servi\u00e7os que me foram sendo confiados. E sempre entendi &#8211; e percebi! &#8211; que uma ac\u00e7\u00e3o pastoral que n\u00e3o nas\u00e7a da paix\u00e3o por Cristo e pelo seu Povo, ou se reduz \u00e0 mera celebra\u00e7\u00e3o de culto apressado e de relacionamento frio com as pessoas, ou n\u00e3o passa de mera agita\u00e7\u00e3o social que cansa e enerva, leva ao funcionalismo que se ocupa, olha e contempla ao grande espelho das iniciativas pontuais, talvez pessoalmente gratificantes para quem as promove, mas pouco ou nada evangelizadoras. Quando assim se actua, talvez se tenha perdido o sentido da miss\u00e3o. E, com certeza, o Esp\u00edrito Santo ou passou para segundo plano ou j\u00e1 foi esquecido e substitu\u00eddo. D\u00e1 a impress\u00e3o que, para dentro das quatro linhas deste grande e importante jogo da vida, Ele n\u00e3o foi convocado. E assim \u00e9 que n\u00e3o vai nada!  Ele \u00e9 o verdadeiro protagonista da evangeliza\u00e7\u00e3o!  N\u00e3o podemos permitir-nos \u2013 a todos n\u00f3s: Bispos, Padres, Di\u00e1conos, Consagrados e Leigos &#8211; que a rotina nos assalte e domine, e nos fa\u00e7a esmorecer ou desviar do essencial. Esta poss\u00edvel acomoda\u00e7\u00e3o, que, ali\u00e1s, \u00e9 sempre uma amea\u00e7a, pode ter os seus custos: em vez de humildes servidores do Senhor nos irm\u00e3os, poder-nos-emos tornar em donos e senhores ensoberbecidos da Sua vinha, escravizando, tolhendo, desprezando, julgando, condenando e seleccionando com os crit\u00e9rios da simpatia e amizade, que nos fazem perder a autoridade e a dimens\u00e3o prof\u00e9tica da miss\u00e3o. Eu sei que \u00e9 f\u00e1cil algu\u00e9m apaixonar-se, at\u00e9 por um projecto ou por uma causa, sobretudo na primavera da vida, idade de todos os sonhos e op\u00e7\u00f5es dinamizadoras do presente e do futuro. Sei, por\u00e9m, que \u00e9 muito mais dif\u00edcil manter-se apaixonado. Mas esse \u00e9 o desafio e o segredo do \u00eaxito pastoral, e at\u00e9 do \u00eaxito pessoal, profissional e familiar. E este desafio tem os seus caminhos de concretiza\u00e7\u00e3o que n\u00e3o deixam morrer o ardor e o entusiasmo da primeira hora. Alguns desses caminhos s\u00e3o comuns a todo e qualquer projecto de vida. No campo pastoral, por\u00e9m, todos reputamos como importantes: o estudo e a reflex\u00e3o da Palavra de Deus, a for\u00e7a da ora\u00e7\u00e3o individual e comunit\u00e1ria, a din\u00e2mica sacramental, a \u201cfantasia da Caridade\u201d, a inser\u00e7\u00e3o dialogante e activa na comunidade, a forma\u00e7\u00e3o permanente e a leitura, \u00e0 luz da f\u00e9, dos acontecimentos que nos chegam, de todos os lados, pelos carreiros e atalhos, pelas diversas estradas e auto-estradas da comunica\u00e7\u00e3o social. Enfim, tudo se reduz, no fim de contas, a uma verdadeira e sustentada espiritualidade da comunh\u00e3o, capaz de gerar seriedade crist\u00e3, din\u00e2mica eficaz e compromisso inadi\u00e1vel, para dentro da Igreja e para fora: no mundo da pol\u00edtica, da actividade associativa, da cultura, das artes, da vida social, da fam\u00edlia, da profiss\u00e3o, enfim, de todas as realidades terrenas que devem ser cristificadas pela presen\u00e7a dos crist\u00e3os que se prezam de o ser e agem em consequ\u00eancia com as suas convic\u00e7\u00f5es crist\u00e3s. Sei tamb\u00e9m que podemos esquecer ou distorcer os caminhos que v\u00e3o de encontro aos predilectos do Senhor, negando-lhes os direitos humanos mais fundamentais. \u00c9 f\u00e1cil sentar o pobre \u00e0 mesa e dar-lhe o peixe. \u00c9 bonito. Pode trazer dividendos de v\u00e1ria ordem e at\u00e9 ser conveniente para o espect\u00e1culo. Mas tamb\u00e9m sei que se \u00e9 f\u00e1cil sentar o pobre \u00e0 mesa, \u00e9 muito mais dif\u00edcil sentar-se \u00e0 mesa do pobre, sentir e sofrer com ele no sil\u00eancio discreto de quem ama e, a\u00ed, ter tempo para ele, perceber a sua fome e sede de justi\u00e7a, ouvi-lo at\u00e9 ao fim e, se for o caso, ensin\u00e1-lo a pescar e garantir-lhe o direito de o fazer em liberdade, sem medo nem complexos, no respeito pela sua dignidade, com direitos e deveres e com voca\u00e7\u00e3o \u00e0 felicidade. Este servi\u00e7o implica em quem o faz o despojamento de si pr\u00f3prio, a pobreza interior. E pobres dos pobres se n\u00e3o fossem os pobres. Os ricos, que surgem de todos os quadrantes, sem excep\u00e7\u00e3o, incluindo crist\u00e3os, prometem e voltam a prometer\u2026 Os pobres, esses d\u00e3o e d\u00e3o-se sem demora. Este \u00e9, com certeza, o maior e principal desafio para uma igreja serva e pobre que sabe que, para ser cred\u00edvel, tem de viver de toalha \u00e0 cinta, amando e servindo, de forma criativa, concreta e libertadora. O resto \u00e9 demagogia! \u00c9 mero entretenimento de novos fariseus para sossegar consci\u00eancias endurecidas em paz podre e provocar que os pobres continuem ao l\u00e9u, despidos da sua dignidade e sem for\u00e7a para a reivindicar. Como sacramento de Deus, como Cristologia viva, a op\u00e7\u00e3o pelos pobres \u00e9 o sinal evangelizador mais vis\u00edvel que a Igreja pode exibir. Est\u00e1 no cerne da vida crist\u00e3 e apresenta-se como sinal inconfund\u00edvel do seguimento de Jesus Cristo que afirmou: pelo amor \u201ctodos conhecer\u00e3o que sois meus disc\u00edpulos\u201d (15). Se n\u00e3o se considera o servi\u00e7o da caridade como parte constitutiva da nova evangeliza\u00e7\u00e3o e da pastoral de toda a comunidade, n\u00e3o s\u00f3 falha o servi\u00e7o, como tamb\u00e9m falha a evangeliza\u00e7\u00e3o que se converte em palavra vazia; e falha tamb\u00e9m a liturgia que se converte em \u201cculto ao culto\u201d ou \u201cculto ao rito\u201d como express\u00e3o de ego\u00edsmo pseudo religioso ou meramente est\u00e9tico (16). A Comiss\u00e3o Nacional de Justi\u00e7a e Paz, bem como as Comiss\u00f5es Diocesanas e outras Entidades eclesiais e civis, n\u00e3o se cansam de nos p\u00f4r a pensar, e bem, sobre a quest\u00e3o da pobreza em Portugal. Entre as preocupa\u00e7\u00f5es dos respons\u00e1veis pela Comiss\u00e3o Nacional de Justi\u00e7a e Paz est\u00e3o a falta de uma consci\u00eancia esclarecida acerca das causas geradoras da pobreza e uma motiva\u00e7\u00e3o colectiva forte para as ultrapassar. Afirmam que \u00e9 preciso desmontar preconceitos e dar a voz aos pobres e colocar a erradica\u00e7\u00e3o da pobreza no centro das pol\u00edticas p\u00fablicas e ocupar a devida visibilidade e consist\u00eancia nas propostas dos programas das v\u00e1rias for\u00e7as pol\u00edticas (17). N\u00e3o duvido que esta preocupa\u00e7\u00e3o esteja sobre a mesa da gente de bem que s\u00e3o os nossos governantes e pol\u00edticos. A preocupa\u00e7\u00e3o j\u00e1 \u00e9 muito importante, sem d\u00favida. Mas, muito mais importante, mais \u00fatil e mais eficaz que a preocupa\u00e7\u00e3o \u00e9 a verdadeira ocupa\u00e7\u00e3o em resolver as situa\u00e7\u00f5es de amargura que, no terreno, come\u00e7am a fazer doer a alma por dentro e por fora. A Igreja, por\u00e9m, de uma maneira geral e dentro da sua Doutrina Social, embora tamb\u00e9m possa bater com a m\u00e3o no peito por n\u00e3o ter sabido fazer mais e melhor, n\u00e3o tem fugido \u00e0s suas responsabilidades mesmo que \u00e0s vezes perceba o olhar vesgo e demasiadamente intrometido de quem saber\u00e1 muito, mas n\u00e3o \u00e9 capaz de fazer mais e melhor. Mas tamb\u00e9m o que importa n\u00e3o \u00e9 quem faz mais ou quem faz menos. O que realmente interessa \u00e9 que os pobres sejam servidos e se sintam amados. Que se ajudem no que eles precisam e se lhes rasguem caminhos ou criem condi\u00e7\u00f5es para que vivam com dignidade e se lhes d\u00ea oportunidade de valorizarem o seu capital humano e de participarem na constru\u00e7\u00e3o da comunidade. Escolhi para o meu lema episcopal uma frase de S. Jo\u00e3o Baptista: \u201cimporta que Ele cres\u00e7a\u2026\u201d (18). Sim, \u00e9 necess\u00e1rio que Ele cres\u00e7a e eu diminua, dizia S. Jo\u00e3o referindo-se a Cristo. Sem abdicar do lugar que o exerc\u00edcio do minist\u00e9rio me imp\u00f5e, esse lema que assumi tenho-o feito valer tamb\u00e9m no meu relacionamento com todas as pessoas com quem tenho vivido e trabalhado e quero continuar a faz\u00ea-lo. Que eu diminua e cada um de v\u00f3s cres\u00e7a em Cristo com entusiasmo e alegria para que a nossa Diocese seja uma verdadeira escola e casa da comunh\u00e3o, toda ela mission\u00e1ria e de rosto materno. Diz a tradi\u00e7\u00e3o, que Santo Ant\u00f3nio, Padroeiro desta Diocese e em cujo dia lit\u00fargico tamb\u00e9m eu fui ordenado Sacerdote na S\u00e1 Catedral de Braga, se voltou para os peixes quando os humanos recusaram ouvir a Palavra de Deus. Neste Ano Paulino, com a intercess\u00e3o e o est\u00edmulo do Padroeiro, em comunh\u00e3o com o Santo Padre e todo o Col\u00e9gio Episcopal que neste momento tem os seus delegados a reflectir, em S\u00ednodo, sobre a Palavra na vida e miss\u00e3o da Igreja, iremos rezar e trabalhar para que toda a Diocese se abra de uma forma muito especial \u00e0 Palavra de Deus e continue a sua caminhada de f\u00e9, com alegria e esperan\u00e7a, em conformidade com a programa\u00e7\u00e3o j\u00e1 pensada, assumida e em andamento.  Que S. Miguel Arcanjo, orago da S\u00e9 Concatedral de Castelo Branco, nos ilumine para que a nossa maneira de anunciar e agir seja consequ\u00eancia desta verdade firme em que acreditamos e leve os outros a exclamar: \u201cQuem como Deus\u201d?  Contemplando Maria, invocada nesta S\u00e9 Catedral como Nossa Senhora da Assun\u00e7\u00e3o, continuemos a aprender o seu jeito sereno de contemplar em sil\u00eancio fecundo e de sermos sacr\u00e1rios de Seu Filho Jesus e de cada pessoa, sobretudo dos mais necessitados que quero eleger como os predilectos do meu minist\u00e9rio pastoral. Que Deus nos ajude e aben\u00e7oe. Portalegre-Castelo Branco, 12 de Outubro de 2008.  <I>Antonino Eug\u00e9nio Fernandes Dias, Bispo de Portalegre-Castelo Branco<\/I>  NOTAS: 1 &#8211; Cf. 21, 23-46  2 -Cf. 21, 28-32 3 &#8211; Cf. 21, 23-43 4 &#8211; Cf. Felic\u00edsimo M. D\u00edez, Crer em Jesus Cristo, viver como crist\u00e3o \u2013 cristologia e seguimento, Ed. Gr\u00e1fica de Coimbra, p\u00e1gs. 586.. 5 &#8211; Cf. Jo 2, 1-12 6 &#8211; Cf. Mt 26, 26-29; Mc 14, 22-25; Lc 22, 19-20; Jn 13, 1-30 7 -Mt 9, 12-13 8 -Cf. Jos\u00e9 Antonio Pagola, Jesus \u2013 uma abordagem hist\u00f3rica, Ed. Gr\u00e1fica de Coimbra, pp.115-152 9 &#8211; Cf. Fernando Armellini, o Banquete da Palavra, Ano A, Ed. Paulinas. 109 &#8211; Cf. Mt 25 11 &#8211; Cf. Gal 6,2 12 &#8211; Jo\u00e3o Paulo II, Carta Apost\u00f3lica \u00c0 Entrada do Novo Mil\u00e9nio, 4 13 &#8211;  Jos\u00e9 R\u00e9gio, Fado Alentejano 14 &#8211; Cf. Jos\u00e9 R\u00e9gio, Toada de Portalegre 15 &#8211; Jo 13, 35. Cf. Jos\u00e9 Dias da Silva, Em nome de Jesus Cristo, Ed. Paulinas, pag. 114 16 &#8211; Cf. Pedro Jaramillo Rivas: Caritativa e Social, in Diccion\u00e1rio de Pastoral y Evangelizaci\u00f3n, Ed. M. Carmelo, 2000, pp. 145-155 17 &#8211; Cf. Manuela Silva, Dos gestos solid\u00e1rios \u00e0s pol\u00edticas nacionais, in Rev. F\u00e1tima Mission\u00e1ria, Outubro de 2008 18 &#8211; Jo 3, 28-30   <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O texto de Isa\u00edas que anuncia a salva\u00e7\u00e3o messi\u00e2nica para todos os povos e sob a imagem de um banquete, lauto e farto, introduz-nos na par\u00e1bola do banquete nupcial do Evangelho, verdadeira met\u00e1fora do Reino de Deus consumado. No contexto da pol\u00e9mica entre Jesus, os chefes dos sacerdotes e anci\u00e3os do povo (1), acentuada pelas [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[113,172,174,179,182,189,191,199,206,207,237,246,261,268,275],"class_list":["post-34606","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-ano-paulino","tag-diocese-de-braga","tag-diocese-de-coimbra","tag-diocese-de-portalegre-castelo-branco","tag-diocese-de-viana-do-castelo","tag-direitos-humanos","tag-economia","tag-espiritualidade","tag-familia","tag-fatima","tag-joao-paulo-ii","tag-liturgia","tag-missoes","tag-nova-evangelizacao","tag-pascoa"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34606","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=34606"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34606\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=34606"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=34606"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=34606"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}