{"id":34605,"date":"2008-10-13T11:08:29","date_gmt":"2008-10-13T11:08:29","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/10\/13\/homilia-da-missa-de-13-de-outubro-do-cardeal-arcebispo-de-vilnius-em-fatima\/"},"modified":"2008-10-13T11:08:29","modified_gmt":"2008-10-13T11:08:29","slug":"homilia-da-missa-de-13-de-outubro-do-cardeal-arcebispo-de-vilnius-em-fatima","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-da-missa-de-13-de-outubro-do-cardeal-arcebispo-de-vilnius-em-fatima\/","title":{"rendered":"Homilia da Missa de 13 de Outubro do Cardeal Arcebispo de Vilnius, em F\u00e1tima"},"content":{"rendered":"<p>Venho hoje como simples peregrino para me unir \u00e0 imensa multid\u00e3o de peregrinos de Portugal e de outros pa\u00edses, vindos para venerar Nossa Senhora de F\u00e1tima, M\u00e3e de Jesus Cristo, M\u00e3e da Igreja, M\u00e3e nossa. Falando recentemente aos jovens reunidos em Sidney para a Jornada Mundial da Juventude, o Papa Bento XVI descreveu a bela cena da anuncia\u00e7\u00e3o do anjo a Maria como uma proposta de matrim\u00f3nio da parte de Deus. O anjo Gabriel, em nome de Deus, convida a Virgem Maria \u201ca uma particular doa\u00e7\u00e3o de si mesma, da pr\u00f3pria vida, do pr\u00f3prio futuro de mulher e de m\u00e3e\u201d. Naquele momento,  Maria diante do Senhor representava toda a humanidade. \u201cEra Deus a avan\u00e7ar com uma proposta de matrim\u00f3nio com a humanidade. Em nosso nome, Maria disse sim\u201d. Esta cena constitui verdadeiramente o momento fundamental da rela\u00e7\u00e3o de Deus com o povo eleito, com a humanidade inteira. Que maravilha este sim, este fiat de Maria, que mudou a hist\u00f3ria da rela\u00e7\u00e3o de Deus com a humanidade, a hist\u00f3ria do mundo! Um sim, com o qual Maria, jovem mulher, cheia de \u00e2nsia e a tremer, aceitou o convite do Anjo em nome de Deus. \u201cComo \u00e9 poss\u00edvel isso?\u201d O anjo teve que a tranquilizar: \u201cN\u00e3o temas, Maria, porque achaste gra\u00e7a diante de Deus&#8230; O Esp\u00edrito Santo descer\u00e1 sobre ti&#8230;\u201d A proposta de Deus perturbava-a, mas Maria, com a for\u00e7a do Esp\u00edrito Santo teve a coragem de dizer sim em nome de todos n\u00f3s. Maria teve que repetir este sim a Deus em cada dia da sua vida, aceitando participar nas vicissitudes do Filho. Um sim que provocou a incompreens\u00e3o de Jos\u00e9, homem justo. Um sim que teve de voltar a dizer em Bel\u00e9m, onde n\u00e3o havia lugar para dar \u00e0 luz o seu filho, o Filho de Deus; um sim, quando o velho Sime\u00e3o profetizou que uma espada lhe havia de trespassar o cora\u00e7\u00e3o; um sim durante a vida vivida silenciosamente na pequena aldeia da Palestina, onde Maria conheceu a monotonia, a preocupa\u00e7\u00e3o com o p\u00e3o de cada dia, os sofrimentos e as l\u00e1grimas, e tamb\u00e9m as pequenas alegrias da vida em Fam\u00edlia. Quanta ang\u00fastia experimentou depois o cora\u00e7\u00e3o de Maria ao ver a crescente hostilidade da gente de Nazar\u00e9, do povo, das autoridades religiosas! Um sim aos p\u00e9s da cruz, sofrendo por ver a crucifix\u00e3o e agonia do seu Filho, sem poder fazer nada para aliviar a sua dor. Um sim, quando ouviu Jesus dizer ao ap\u00f3stolo Jo\u00e3o \u201cEis a tua m\u00e3e\u201d e a Maria, \u201cEis o teu filho\u201d. O sim pronunciado naquela hora envolve-nos a todos, porque Cristo morrendo na cruz confiou a Maria todos os homens. Desde aquele momento, Maria n\u00e3o podia mais desinteressar-se do caminho dos seus filhos. O cora\u00e7\u00e3o da M\u00e3e de Deus \u00e9 um cora\u00e7\u00e3o humano, um cora\u00e7\u00e3o de mulher, um cora\u00e7\u00e3o de m\u00e3e. Neste cora\u00e7\u00e3o materno, Deus p\u00f4s tudo o que h\u00e1 de mais belo, de mais doce, de mais nobre. Em F\u00e1tima, Maria apareceu tendo na m\u00e3o direita o seu Cora\u00e7\u00e3o imaculado, \u201csinal do amor que salva\u201d, como o explicou a Irm\u00e3 L\u00facia. Por isso, desde h\u00e1 s\u00e9culos nos l\u00e1bios dos fi\u00e9is de qualquer idade, sejam crian\u00e7as, adolescentes, adultos, idosos e mesmo moribundos, surge espont\u00e2nea a ora\u00e7\u00e3o Ave Maria. Hoje, reunidos em F\u00e1tima, repetimos a sauda\u00e7\u00e3o do anjo, Ave Maria, Ave m\u00e3e nossa, sempre pr\u00f3xima dos teus filhos, pronta a alegrar-se ou a chorar com os teus filhos, a consolar-nos, a escutar as nossas ora\u00e7\u00f5es. As apari\u00e7\u00f5es de Maria aos tr\u00eas pastorinhos na Cova da Iria s\u00e3o uma prova do seu amor materno por Portugal, pela Europa, pelo mundo inteiro. A cada um de n\u00f3s Deus confiou uma miss\u00e3o, uma voca\u00e7\u00e3o \u00e0 qual devemos dar o nosso sim, empreendendo como Maria o caminho, a peregrina\u00e7\u00e3o da f\u00e9. Um sim que significa fidelidade \u00e0 voz da consci\u00eancia, a fim de que as nossas palavras sejam sempre sinceras. \u201cSeja este o vosso modo de falar: Sim, sim; n\u00e3o, n\u00e3o. Tudo o que for al\u00e9m disto procede do esp\u00edrito do mal\u201d,  disse Jesus (Mt 5,37). Isto vale tamb\u00e9m para as nossas ac\u00e7\u00f5es, que devem ser sempre coerentes, conformes com as nossas palavras. H\u00e1 sempre o perigo de procurar mil desculpas perante as exig\u00eancias de uma vida autenticamente crist\u00e3. Hoje mais do que nunca sente-se a necessidade de um corajoso testemunho crist\u00e3o para conservar uma f\u00e9 robusta perante os perigos da indiferen\u00e7a ou da ignor\u00e2ncia. \u00c9 t\u00e3o importante viver na verdade, n\u00e3o sermos surdos \u00e0 voz de Deus que ressoa na nossa consci\u00eancia. O nosso sim quer dizer a aceita\u00e7\u00e3o da vontade de Deus concreta, em cada dia da nossa vida. Um sim nas nossas rela\u00e7\u00f5es com os irm\u00e3os e as irm\u00e3s, para poder estabelecer rela\u00e7\u00f5es humanas verdadeiras, sinceras, inspiradas na caridade. Venho da Litu\u00e2nia, pa\u00eds que, durante mais de cinquenta anos, esteve sob o jugo do comunismo ateu. Posso testemunhar que, quando se perde o sentido de Deus, se perde tamb\u00e9m o sentido do homem. Quando se viveu durante anos num clima de mentira, de medo, de suspeita, de falta de sinceridade, de desconfian\u00e7a no outro, parece que n\u00e3o mais se pode acreditar na possibilidade de estabelecer uma rela\u00e7\u00e3o fundada no respeito, na sinceridade, na verdade, da abertura ao outro, do amor crist\u00e3o. Ouso falar de ferida antropol\u00f3gica, de um obscurecimento da consci\u00eancia e da polui\u00e7\u00e3o da mente. Confio, por\u00e9m, que se sair\u00e1 desta letargia, deste nevoeiro e alegro-me por encontrar tantas pessoas, tantos jovens que buscam autenticidade, coer\u00eancia de vida, que procuram a verdade e querem viver na verdade. \u00c9 preciso coragem para dizer sim \u00e0 vida matrimonial, verdadeira voca\u00e7\u00e3o selada pelo sacramento com o qual se pronuncia diante de Deus e diante dos homens um sim definitivo, um sim aben\u00e7oado pelo pr\u00f3prio Deus, um sim para toda a vida: \u201cO que Deus uniu n\u00e3o o separe o homem (Mt 19,6). Isto parece superar as for\u00e7as humanas, mas precisamente por isso, nos momentos de crise, \u00e9 preciso dirigir-se a Deus, implorar a ajuda de Maria. A fam\u00edlia que reza unida, permanece unida. Dizer sim ao chamamento ao sacerd\u00f3cio, \u00e0 vida consagrada a Deus e ao servi\u00e7o do pr\u00f3ximo, esquecendo-se de si mesmo para seguir Cristo. Um sim \u00e0s promessas do nosso baptismo, conscientes de formarmos uma comunidade de irm\u00e3os e irm\u00e3s empenhada em edificar o Reino de Deus j\u00e1 na terra, um povo em caminho para o Reino celeste. A nossa f\u00e9 em Deus n\u00e3o se reduz a uma rela\u00e7\u00e3o privada, \u00edntima com Deus, mas dever permear toda a nossa vida, vida pessoal, vida em fam\u00edlia, vida na Igreja, vida na sociedade, procurando o bem comum. O crist\u00e3o n\u00e3o pode permanecer passivo, indiferente, mas deve empenhar-se na constru\u00e7\u00e3o de um mundo mais justo e mais fraterno. Penso na nossa Europa, que esquece as suas ra\u00edzes crist\u00e3s, onde se defendem ideias e mesmo ideologias contr\u00e1rias ao direito natural, que n\u00e3o correspondem certamente ao des\u00edgnio do Criador. Se alargamos o nosso olhar ao mundo inteiro, vemos em cada dia imagens de guerra, de terrorismo, crian\u00e7as que morrem de fome, popula\u00e7\u00f5es inteiras reduzidas a uma extrema inseguran\u00e7a  e mis\u00e9ria, \u00e0s quais devemos oferecer a nossa solidariedade. Porqu\u00ea vos falo de tudo isto, aqui, em F\u00e1tima?  Porque penso que as apari\u00e7\u00f5es de Nossa Senhora em F\u00e1tima s\u00e3o a express\u00e3o da dor do Cora\u00e7\u00e3o de Maria, do cora\u00e7\u00e3o da M\u00e3e, ao ver como \u00e9 pisada a lei divina, e quantas ofensas  s\u00e3o feitas ao Seu Filho. As apari\u00e7\u00f5es de F\u00e1tima assumem um significado \u00fanico, prof\u00e9tico. Em termos muito concretos, Maria interv\u00e9m na hist\u00f3ria do continente europeu, advertindo-nos para os perigos terr\u00edveis do comunismo ateu, que semeou tanto mal, \u00f3dio, guerras no s\u00e9culo passado. No in\u00edcio do s\u00e9culo XX, Maria procurou fazer-nos sair do torpor espiritual, anunciando castigos, sofrimentos terr\u00edveis para na\u00e7\u00f5es inteiras por causa da ideologia ateia, que, rejeitando Deus, pisava tamb\u00e9m a dignidade do homem, os seus direitos fundamentais e, em particular, a liberdade religiosa. Foi verdadeiramente um s\u00e9culo de m\u00e1rtires! Em F\u00e1tima, a M\u00e3e de Deus dirigiu um convite forte \u00e0 convers\u00e3o, \u00e0 penit\u00eancia, \u00e0 ora\u00e7\u00e3o, que podem mudar o curso da hist\u00f3ria, o destino da Europa e do mundo. O apelo de Maria n\u00e3o foi suficientemente escutado e oportunamente recebido. Hoje ecoam nos nossos ouvidos as advert\u00eancias de Nossa Senhora de F\u00e1tima, que nos convida a rezar com ela o ros\u00e1rio, a fazer penit\u00eancia, a convertermo-nos. As suas apari\u00e7\u00f5es s\u00e3o um sinal da miseric\u00f3rdia de Maria, da Divina Miseric\u00f3rdia, que n\u00e3o quer a morte mas sim a convers\u00e3o e a salva\u00e7\u00e3o dos pecadores. O servo de Deus Jo\u00e3o Paulo II, cuja vida esteve profundamente ligada aos mist\u00e9rios de F\u00e1tima, disse-nos que a Divina miseric\u00f3rdia \u00e9 o \u00faltimo limite posto ao mal no mundo. Confiemo-nos todos a Maria com a bela ora\u00e7\u00e3o de Jo\u00e3o Paulo II: \u201cMaria, M\u00e3e de Miseric\u00f3rdia, vela por todos, para que n\u00e3o se torne v\u00e3 a cruz de Cristo, para que o homem n\u00e3o se afaste do caminho do bem, n\u00e3o perca a consci\u00eancia do pecado, cres\u00e7a na esperan\u00e7a em Deus rico de miseric\u00f3rdia (Ef 2,4) (Enc\u00edclica Veritatis Splendor). \t\t\t                                <i>\u2020 Audrys  J. Card. Backis Arcebispo de Vilnius <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Venho hoje como simples peregrino para me unir \u00e0 imensa multid\u00e3o de peregrinos de Portugal e de outros pa\u00edses, vindos para venerar Nossa Senhora de F\u00e1tima, M\u00e3e de Jesus Cristo, M\u00e3e da Igreja, M\u00e3e nossa. 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