{"id":345253,"date":"2024-10-20T09:31:52","date_gmt":"2024-10-20T08:31:52","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=345253"},"modified":"2024-10-18T11:23:41","modified_gmt":"2024-10-18T10:23:41","slug":"mocambique-as-pessoas-estao-a-viver-situacoes-muito-dificeis-muito-precarias-d-diamantino-antunes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/mocambique-as-pessoas-estao-a-viver-situacoes-muito-dificeis-muito-precarias-d-diamantino-antunes\/","title":{"rendered":"Mo\u00e7ambique: \u00abAs pessoas est\u00e3o a viver situa\u00e7\u00f5es muito dif\u00edceis, muito prec\u00e1rias\u00bb &#8211; D. Diamantino Antunes"},"content":{"rendered":"<p><em>O mission\u00e1rio portugu\u00eas \u00e9, desde 2019, o bispo da Diocese de Tete, em Mo\u00e7ambique, onde se encontra, h\u00e1 v\u00e1rios anos, ao servi\u00e7o das popula\u00e7\u00f5es locais. No Dia Mundial das Miss\u00f5es, o religioso \u00e9 o convidado da entrevista semanal conjunta Ecclesia\/Renascen\u00e7a<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_345087\" aria-describedby=\"caption-attachment-345087\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/D-Diamantino-Antunes-3.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-345087 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/D-Diamantino-Antunes-3.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1280\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/D-Diamantino-Antunes-3.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/D-Diamantino-Antunes-3-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/D-Diamantino-Antunes-3-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/D-Diamantino-Antunes-3-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/D-Diamantino-Antunes-3-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/10\/D-Diamantino-Antunes-3-1536x1024.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-345087\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR\/Miguel Rato<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>Partiu como mission\u00e1rio para Mo\u00e7ambique e, h\u00e1 cinco anos, que \u00e9 bispo da Diocese de Tete. Como \u00e9 que tem sido esta experi\u00eancia junto das popula\u00e7\u00f5es?<\/em><\/p>\n<p>Boa, boa. S\u00e3o j\u00e1 mais de 25 anos como mission\u00e1rio em Mo\u00e7ambique, primeiro como sacerdote, agora como bispo, sempre mission\u00e1rio, e tem sido uma experi\u00eancia muito fecunda, uma aprendizagem para mim. Ao mesmo tempo, deu a possibilidade de testemunhar a alegria do Evangelho com os nossos irm\u00e3os, com os quais temos muito em comum. Estamos longe geograficamente, tamb\u00e9m culturalmente, mas temos la\u00e7os hist\u00f3ricos e, depois, na Igreja n\u00e3o h\u00e1 fronteiras\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O minist\u00e9rio episcopal na Diocese de Tete n\u00e3o passa, sobretudo, pelo Pa\u00e7o, mas muito pelo terreno, n\u00e3o \u00e9?<\/em><\/p>\n<p>Sim, estou pouco tempo sentado no Pa\u00e7o, porque a Diocese de Tete tem uma extens\u00e3o muito grande, s\u00e3o 101 mil quil\u00f3metros quadrados, estamos a falar de uma Diocese que tem um territ\u00f3rio muito superior a Portugal continental e insular, com grandes dist\u00e2ncias e com vias de comunica\u00e7\u00e3o que, em muitos lugares, praticamente n\u00e3o existem. S\u00e3o 41 miss\u00f5es, um territ\u00f3rio muito vasto e eu assumi o compromisso de visitar metade das miss\u00f5es em cada ano, em visita pastoral &#8211; a visita pastoral dura uma semana. Contando que, de janeiro at\u00e9 abril n\u00e3o podemos sair por causa das chuvas, praticamente a maior parte do tempo estou em visita \u00e0s miss\u00f5es, portanto estou em contacto direto com os mission\u00e1rios, com as comunidades, n\u00e3o s\u00f3 para celebrar o Crisma, que \u00e9, de facto, tamb\u00e9m um elemento importante da visita pastoral, mas sobretudo para animar e juntos fazermos a miss\u00e3o.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Ou seja, \u00e9 uma Igreja muito diferente daquela que encontramos na Europa. H\u00e1 um caminho a fazer no sentido de, como tem pedido o Papa, se deixar de pensar o catolicismo apenas desde um ponto de vista ocidental e acolher a experi\u00eancia de outras partes do mundo? O atual s\u00ednodo pode ajudar nesse esfor\u00e7o?<\/em><\/p>\n<p>Eu penso que sim, se o S\u00ednodo n\u00e3o se limitar apenas a documentos, mas j\u00e1 o S\u00ednodo em si \u00e9 uma experi\u00eancia de sinodalidade, de comunh\u00e3o, de participa\u00e7\u00e3o, um modo muito diferente, uma metodologia diferente dos s\u00ednodos anteriores. Estou a vir tamb\u00e9m de Roma, da visita Ad Limina &#8211; os bispos de Mo\u00e7ambique tiveram esta visita, que se faz 5 e 5 anos, ao Papa e a todos os organismos da Santa S\u00e9: no encontro que tivemos, que foi um encontro, n\u00e3o foi apenas uma coisa protocolar, mas foi um encontro entre pastores, em que cada um de n\u00f3s p\u00f4de apresentar a sua experi\u00eancia, o Papa tamb\u00e9m partilhou a sua experi\u00eancia. Se a Igreja de Mo\u00e7ambique tem algo de ensinar ou partilhar, e tem, \u00e9 uma experi\u00eancia de uma Igreja jovem, uma Igreja ministerial, laical, onde a dimens\u00e3o sinodal est\u00e1 muito forte, como op\u00e7\u00e3o, mas tamb\u00e9m, sobretudo, em resposta a situa\u00e7\u00f5es hist\u00f3ricas que levaram a Igreja a ser entregue nas m\u00e3os dos leigos. Eles assumiram protagonismo, sobretudo no tempo p\u00f3s-independ\u00eancia, do comunismo, e depois durante a Guerra Civil, mas isso n\u00e3o foi uma medida oportunista, que esta Igreja ministerial de pequenas comunidades continua hoje, apesar de termos mais sacerdotes.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c9 uma quest\u00e3o debatida no S\u00ednodo, sobretudo relativamente minist\u00e9rio ordenado, e obviamente h\u00e1 diferen\u00e7as culturais muito significativas. Este discurso tem de ser adaptado, quando se fala de \u00c1frica? Em particular, como exemplo concreto, o papel dos catequistas \u00e9 uma experi\u00eancia de compromisso laical que \u00e9 preciso valorizar tamb\u00e9m noutros locais?<\/em><\/p>\n<p>Claro, n\u00f3s temos de partir da teoria, daquilo que \u00e9 o magist\u00e9rio da Igreja e aquilo que s\u00e3o as intui\u00e7\u00f5es do Conselho Vaticano II, de uma Igreja povo de Deus, comunh\u00e3o, participa\u00e7\u00e3o; e depois tamb\u00e9m responder, os textos t\u00eam de se encarnar num contexto, devem nascer num contexto e encarnar-se num contexto. A situa\u00e7\u00e3o pastoral que se vive na Europa exige isso hoje, n\u00e3o s\u00f3 porque h\u00e1 menos sacerdotes &#8211; ent\u00e3o vamos dar lugar, import\u00e2ncia e maior responsabilidade aos leigos, n\u00e3o, a voca\u00e7\u00e3o pr\u00f3pria do batizado \u00e9 ser mission\u00e1rio, ser testemunha, ser empenhado. A quest\u00e3o \u00e9 estar em miss\u00e3o e essa miss\u00e3o, de facto, deve ser partilhada e vivida por todos, por todos, ali\u00e1s, a mensagem do Papa para o Dia Mundial das Miss\u00f5es, para este domingo, verdadeiramente acentua essa dimens\u00e3o de que a miss\u00e3o \u00e9 de todos, \u00e9 para todos, \u201cide e convidai todos ao banquete\u201d.<\/p>\n<p>Ent\u00e3o, a\u00ed temos todos uma responsabilidade e o bispo na sua diocese deve ser o animador dos animadores, deve ser o catequista dos catequistas, deve, sobretudo, tamb\u00e9m animar os leigos para um compromisso em todas as \u00e1reas da pastoral.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Quando foi nomeado bispo de Tete, a regi\u00e3o tinha sido atingida por uma cat\u00e1strofe natural. \u00c9 um pa\u00eds, particularmente, exposto a fen\u00f3menos meteorol\u00f3gicos extremos?<\/em><\/p>\n<p>Sim, no ano de 2019 fomos afetados pelo ciclone Idai, mas, entretanto, j\u00e1 tivemos outros, e \u00e9 algo c\u00edclico. Aquilo que acontecia no litoral de Mo\u00e7ambique, de 10 em 10 anos, de 20 em 20 anos, agora j\u00e1 se est\u00e1 a tornar quase anual, e n\u00e3o apenas na zona litoral, que \u00e9 mais afetada, por exemplo, pelos ciclones, pelas correntes, mas tamb\u00e9m o interior.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>S\u00e3o os efeitos das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, n\u00e3o \u00e9? <\/em><\/p>\n<p>S\u00e3o os efeitos das altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas, levando a anos de muita chuva, que causa inunda\u00e7\u00f5es, que causa problemas, e anos de pouca chuva. Por exemplo, h\u00e1 dois anos choveu imenso, houve inunda\u00e7\u00f5es. Este ano n\u00e3o choveu. Estamos a falar de um pa\u00eds que \u00e9 maioritariamente agr\u00edcola, as pessoas vivem da agricultura, agricultura de subsist\u00eancia, e dependem da chuva. Se chove, h\u00e1 abund\u00e2ncia, e normalmente h\u00e1 produ\u00e7\u00e3o. Se chove pouco, ou se chove fora do tempo, de facto h\u00e1 fome.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>As altera\u00e7\u00f5es clim\u00e1ticas tamb\u00e9m a provocar este flagelo maior junto das popula\u00e7\u00f5es que elas j\u00e1 de si, pobres?<\/em><\/p>\n<p>Sim, sim. Devemos ter muita aten\u00e7\u00e3o e cuidado na salvaguarda da natureza. E em Mo\u00e7ambique tamb\u00e9m temos muito que fazer, embora n\u00e3o seja um pa\u00eds muito poluidor, n\u00e3o \u00e9? Porque n\u00e3o temos ind\u00fastria, mas h\u00e1 queimadas descontroladas, h\u00e1 uso abusivo dos terrenos, h\u00e1 desfloresta\u00e7\u00e3o, que de facto tamb\u00e9m causam essas mudan\u00e7as clim\u00e1ticas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Vamos falar, depois destas trag\u00e9dias naturais, de uma trag\u00e9dia humana. Mo\u00e7ambique tem estado no centro de aten\u00e7\u00e3o medi\u00e1tica nos \u00faltimos anos por causa do que se passa com os ataques terroristas em Cabo Delgado, no norte do pa\u00eds. Isso foi agora, ali\u00e1s, referido tamb\u00e9m nos trabalhos do S\u00ednodo. Teme que uma diminui\u00e7\u00e3o da aten\u00e7\u00e3o da comunidade internacional possa fragilizar ainda mais estas popula\u00e7\u00f5es? Quem vive no terreno est\u00e1 protegido?<\/em><\/p>\n<p>Bom, j\u00e1 passaram sete anos do in\u00edcio dessa insurg\u00eancia, \u00e9 muito tempo, \u00e9 muito tempo. Esta insurg\u00eancia tem causado muito sofrimento. Fala-se de 5 mil mortos, milhares e milhares de deslocados, os quais n\u00e3o puderam ainda voltar para as suas terras e possivelmente n\u00e3o voltar\u00e3o t\u00e3o depressa, porque enquanto houver essa inseguran\u00e7a as pessoas t\u00eam medo. \u00c9 evidente que as aten\u00e7\u00f5es do mundo n\u00e3o est\u00e3o viradas para aquele contexto social, b\u00e9lico, est\u00e3o viradas para outros lugares, sobretudo na Ucr\u00e2nia e M\u00e9dio Oriente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas a pergunta \u00e9: esteve em algum momento virada para esse conflito a comunidade internacional?<\/em><\/p>\n<p>Esteve quando houve ataques contra interesses das multinacionais e onde havia presen\u00e7a de n\u00e3o-mo\u00e7ambicanos. A\u00ed sim \u00e9 que se falou deste conflito e teve maior repercuss\u00e3o. \u00c9 evidente que a n\u00edvel internacional, estivemos recentemente com o Santo Padre\u2026 quem de vez em quando recorda estes conflitos esquecidos \u00e9 o Santo Padre e tem-no feito em rela\u00e7\u00e3o a Cabo Delgado, diversas vezes. Est\u00e1 preocupado, n\u00e3o apenas com as palavras, tamb\u00e9m com ajudas efetivas.<\/p>\n<p>A situa\u00e7\u00e3o que se vive l\u00e1 \u00e9 ainda de grande incerteza e o grande problema \u00e9 que n\u00f3s n\u00e3o sabemos quem est\u00e1 por tr\u00e1s desta insurg\u00eancia. Com quem falar, com quem dialogar e at\u00e9 quando vai continuar esta situa\u00e7\u00e3o\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Olhando para a situa\u00e7\u00e3o dos deslocados internos, os parentes pobres da migra\u00e7\u00e3o, porque n\u00e3o sa\u00edram do pa\u00eds, mas sa\u00edram das suas casas e muitas vezes ficam numa condi\u00e7\u00e3o que ningu\u00e9m sabe muito bem como \u00e9 que ser\u00e1 o futuro: h\u00e1 compromisso no terreno, a ajuda humanit\u00e1ria est\u00e1 a chegar a estas pessoas?<\/em><\/p>\n<p>Diminuiu bastante. Claro, a primeira ajuda \u00e9 a de louvar, e isso \u00e9 muito grande, \u00e9 a ajuda intrafamiliar. Estes deslocados, muitos deles foram acolhidos por fam\u00edlias j\u00e1 numerosas que abriram as suas portas para os acolher e dar o apoio inicial. A Igreja, atrav\u00e9s de diversas institui\u00e7\u00f5es e organismos, tem tido tamb\u00e9m um papel muito importante no acolhimento, no apoio material e tamb\u00e9m espiritual, psicol\u00f3gico.<\/p>\n<p>Mas, de facto, nota-se uma diminui\u00e7\u00e3o dos apoios. As pessoas est\u00e3o a viver situa\u00e7\u00f5es muito dif\u00edceis, muito prec\u00e1rias. Claro, j\u00e1 s\u00e3o pessoas que vivem situa\u00e7\u00f5es pobres, \u00e9 diferente de algu\u00e9m que vive num contexto mais rico e depois tem de passar esta experi\u00eancia como deslocado, uma provisoriedade e um sofrimento muito forte. As pessoas v\u00e3o procurando ajudar-se entre si, com o apoio que vem de fora, tentamos ajudar e, nesses aspetos, as dioceses &#8211; porque n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 Cabo Delgado, mas as dioceses vizinhas, que acolheram muitos deslocados -, t\u00eam trabalhado nisso. Dentro tamb\u00e9m da nossa pobreza, cada diocese tamb\u00e9m tem feito algo, ao menos sensibilizar os crist\u00e3os para ajudar todos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A Confer\u00eancia Episcopal Mo\u00e7ambicana deixou uma mensagem a respeito das elei\u00e7\u00f5es gerais de outubro, pedindo a participa\u00e7\u00e3o e o respeito pelas decis\u00f5es da popula\u00e7\u00e3o.<\/em><\/p>\n<p><em>Como \u00e9 que acompanhou o processo? J\u00e1 surgiram, entretanto, algumas den\u00fancias de irregularidades em mesas de voto?\u00a0 <\/em><\/p>\n<p>Sim, j\u00e1, e tamb\u00e9m um pouco de viol\u00eancia, concretamente na minha diocese, na cidade de Matisse. Eu, pessoalmente, vivi todo este ciclo democr\u00e1tico em Mo\u00e7ambique, v\u00e1rias elei\u00e7\u00f5es. Hoje n\u00e3o digo que estou um pouco desanimado ou desiludido, mas vejo que a democracia, infelizmente, est\u00e1 mais no papel do que na pr\u00e1tica.<\/p>\n<p>As elei\u00e7\u00f5es, em vez de serem um momento de reflex\u00e3o, de decis\u00e3o, de construir futuro, s\u00e3o momentos de tens\u00e3o e abalam, digamos assim, a conviv\u00eancia nacional. Isso \u00e9 provocado por excessos de ambas as partes, sobretudo de uma falta de transpar\u00eancia e de cumprimento das regras. De facto, mesmo com observadores ou sem observadores, as elei\u00e7\u00f5es em Mo\u00e7ambique geralmente s\u00e3o afetas de&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00e3o s\u00e3o livres e justas?<\/em><\/p>\n<p>Livres s\u00e3o. Talvez n\u00e3o sejam justas, no sentido de que, no momento da contagem, h\u00e1 sempre suspeitas &#8211;\u00a0 reais, ou talvez aumentadas &#8211; de que h\u00e1 enchimento de urnas, os resultados n\u00e3o s\u00e3o aqueles verdadeiros, s\u00e3o alterados, adulterados. Ent\u00e3o, \u00e9 um momento de muita tens\u00e3o, de muito conflito, e isto desde as primeiras elei\u00e7\u00f5es&#8230;<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E esse clima, especificamente, neste momento, teme que possa se arredondar em viol\u00eancia?<\/em><\/p>\n<p>Eu espero que n\u00e3o, espero que n\u00e3o. Tanto que, um dos trabalhos que a Igreja Cat\u00f3lica, juntamente com outras igrejas e outras organiza\u00e7\u00f5es, foi o apelo, de facto, \u00e0 viv\u00eancia deste tempo muito delicado, com atitudes positivas e colocar, em primeiro lugar, o bem comum, a unidade, o respeito m\u00fatuo, acima daquilo que s\u00e3o os interesses partid\u00e1rios ou as reivindica\u00e7\u00f5es justas que possam existir. \u00c9 sempre um momento delicado, mas penso que s\u00e3o aqueles momentos de tempestade, que depois passar\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ent\u00e3o\u00a0qual ou quais ser\u00e3o os grandes desafios dos vencedores?<\/em><\/p>\n<p>Os grandes desafios \u00e9 saber ter uma vis\u00e3o de futuro e n\u00e3o governar apenas pensando naquilo que s\u00e3o os interesses partid\u00e1rios ou de grupo, \u00e9 ter, no fundo, uma vis\u00e3o do pa\u00eds no seu conjunto, inclusiva, pensar em todos e servir o povo. Servir o povo, isto \u00e9, procurar resolver os problemas das pessoas e n\u00e3o pensar apenas nos interesses de grupo ou de algumas regi\u00f5es, mas no pa\u00eds como um todo. Sabemos que as guerras s\u00e3o provocadas pelo descontentamento das pessoas, sobretudo quando se v\u00eaem injusti\u00e7adas, quando a riqueza que o pa\u00eds tem n\u00e3o \u00e9 dividida de modo equitativo e justo. N\u00f3s temos regi\u00f5es e prov\u00edncias de Mo\u00e7ambique muito ricas em recursos naturais, mas onde o desenvolvimento humano, de facto, est\u00e1 muito atrasado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Vamos voltar agora ao tema do Dia Mundial das Miss\u00f5es, por um motivo muito simples. Chegou Mo\u00e7ambique como mission\u00e1rio do Instituto da Consolata cujo fundador \u00e9 canonizado hoje, o Beato Jos\u00e9 Alamano. Muito brevemente, \u00e9 um momento especial, imagino para si. O que \u00e9 que esta figura representa para a Igreja hoje?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 muito especial porque, sem d\u00favida, o padre Jos\u00e9 Alamano tem muito a dizer \u00e0 miss\u00e3o e fez muito pela miss\u00e3o. Primeiro, porque \u00e9 t\u00edpico. Ele era um padre diocesano, nunca saiu de It\u00e1lia, nunca saiu da sua diocese e teve essa intui\u00e7\u00e3o de fundar dois institutos Ad Gentes, portanto, para a evangeliza\u00e7\u00e3o da \u00c1frica, quando teve essa ideia e fundou os mission\u00e1rios da Consolata em 1901, e as mission\u00e1rias da Consolata, para completar esse servi\u00e7o mission\u00e1rio em 1910, era para a \u00c1frica. Come\u00e7amos no Qu\u00e9nia em 1902, em 1915, Eti\u00f3pia, em 1919, Tanz\u00e2nia, em 1925, Mo\u00e7ambique. E depois, o dia de hoje, o Dia Mundial das Miss\u00f5es, era uma intui\u00e7\u00e3o que ele teve. Em 1912, animando outros superiores gerais de institutos mission\u00e1rios, prop\u00f4s ao Papa Pio X que houvesse um domingo no ano onde toda a Igreja pudesse rezar, refletir e ajudar as miss\u00f5es.<\/p>\n<p>O projeto de um Dia Mundial das Miss\u00f5es n\u00e3o passou, com o Papa Pio X, porque tinha outras preocupa\u00e7\u00f5es, e estava j\u00e1 numa fase quase no final do seu pontificado. E depois essa ideia foi recuperada em 1927 pelo Papa Pio XI. A celebra\u00e7\u00e3o, este ano \u00e9 98\u00ba domingo das miss\u00f5es, porque foi em 1927. Agora, o Beato Alamano no que diz respeito a mim pessoalmente e \u00e0 minha diocese, tem uma particularidade. O \u00faltimo grupo de mission\u00e1rios que enviou para a \u00c1frica, j\u00e1 muito doente, pr\u00f3ximo \u00e0 sua morte, o \u00faltimo grupo que ele aben\u00e7oou, j\u00e1 no leito, na cama, doente, ia para Mo\u00e7ambique. Os mission\u00e1rios da Consolata, o primeiro grupo de mission\u00e1rios da Consolata foi enviado para Mo\u00e7ambique e para a diocese Tete, concretamente, que ainda n\u00e3o existia como diocese, n\u00e3o havia nenhuma diocese em Mo\u00e7ambique ent\u00e3o; foi em outubro de 1925. Portanto, o pr\u00f3ximo ano faz 100 anos. Ele faleceu em fevereiro de 1926. Para mim, foi um grande mission\u00e1rio, n\u00e3o saindo do seu pa\u00eds, mas tendo o cora\u00e7\u00e3o aberto \u00e0 miss\u00e3o da Igreja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E o Papa Francisco, que apesar das suas dificuldades, n\u00e3o se escusa a ir ao encontro, a estar pr\u00f3ximo, \u00e9 tamb\u00e9m, desse ponto de vista, exemplo do ser mission\u00e1rio?<\/em><\/p>\n<p>Certamente que sim, porque as \u00faltimas duas visitas que ele fez foram muito dif\u00edceis. Uma, pela dist\u00e2ncia. Estamos a falar da Indon\u00e9sia, Papua-Nova Guin\u00e9, Timor-Leste, Singapura. De facto, para as condi\u00e7\u00f5es de sa\u00fade que tem, a idade, de facto, foi uma viagem muito esgotante, mas com muita alegria, com muita festa, com muito futuro, com muita esperan\u00e7a. O Luxemburgo e a B\u00e9lgica, mais pr\u00f3ximo, mas com outros problemas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E, particularmente, a B\u00e9lgica que foi muito tenso&#8230;<\/em><\/p>\n<p>Tenso, sim. Mas teve a coragem de ir, e ir a outros lugares tamb\u00e9m, sem d\u00favida, complicados, mas onde precisa da sua presen\u00e7a.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Falamos da canoniza\u00e7\u00e3o do Padre Jos\u00e9 Alamano. Eu queria falar, muito brevemente, de v\u00e1rios projetos em que est\u00e1 muito empenhado, pessoalmente, de processos de canoniza\u00e7\u00e3o de m\u00e1rtires, em Mo\u00e7ambique. M\u00e1rtires da Guiu\u00e1. Tem aqui, tamb\u00e9m, um livro \u00e0 minha frente, sobre os M\u00e1rtires da Chapotera. Qual a import\u00e2ncia de recordar estas pessoas concretas, estes cat\u00f3licos, que deram a sua vida ao servi\u00e7o da f\u00e9?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Porque o mart\u00edrio \u00e9 uma dimens\u00e3o original e sempre presente na vida da Igreja. A Igreja \u00e9 una, santa, cat\u00f3lica, apost\u00f3lica e, tamb\u00e9m, martirial. E a Igreja de Mo\u00e7ambique, de facto, tamb\u00e9m tem essa dimens\u00e3o de testemunho. O m\u00e1rtir \u00e9 aquele que testemunha, que d\u00e1 a vida pela sua f\u00e9, pelo seu Evangelho. E estamos a falar de duas causas que, de facto, s\u00e3o de pessoas que deram a vida por aquilo em que acreditavam. Os catequistas de Gui\u00faa, os m\u00e1rtires de Gui\u00faa s\u00e3o um grupo de fam\u00edlias de catequistas, portanto, leigos, que estavam a formar-se num centro catequ\u00e9tico para servir a Igreja, servir melhor a Igreja, e foram torturados, foram mortos, por causa da sua f\u00e9. Os m\u00e1rtires de Chapotera s\u00e3o dois mission\u00e1rios jesu\u00edtas, um mo\u00e7ambicano, o padre Jo\u00e3o Deus Kamtendza, e um portugu\u00eas, o padre S\u00edlvio Alves Moreira, que foram uma presen\u00e7a importante no contexto de guerra, de viol\u00eancia e tamb\u00e9m do comunismo. E souberam defender o povo, promover a paz, foram homens de f\u00e9, caridade e muita coragem. Por isso, o exemplo deles \u00e9 necess\u00e1rio ser conhecido, porque, evidentemente, n\u00f3s precisamos de exemplos, sobretudo a Igreja em \u00c1frica precisa de modelos de santidade e de mart\u00edrio pr\u00f3prios do continente, e o Mo\u00e7ambique em particular.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O Dia Mundial das Miss\u00f5es \u00e9 um desafio para que todas as comunidades cat\u00f3licas despertem esta dimens\u00e3o de an\u00fancio e evangeliza\u00e7\u00e3o. Sente que se perdeu algum dinamismo em Portugal nesta capacidade de ir ao encontro de outros povos, ou a miss\u00e3o ganhou novas formas?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>A miss\u00e3o ganhou novas formas, porque a miss\u00e3o tamb\u00e9m \u00e9 aqui e, sem d\u00favida, h\u00e1 exemplos de presen\u00e7as muito significativas, expostas a novos desafios pastorais atuais, e temos tamb\u00e9m a presen\u00e7a de n\u00e3o crist\u00e3os no nosso territ\u00f3rio. Nesse aspeto, sim, e \u00e9 um caminho sempre aberto e a melhorar. No que diz respeito ao Esp\u00edrito Mission\u00e1rio, essa dimens\u00e3o Ad Gentes, sem d\u00favida, diminuiu. Eu penso que diminuiu.<\/p>\n<p>Quando \u00e9ramos menos e t\u00ednhamos menos possibilidades, acho que fomos mais longe e fizemos muito mais. E hoje podemos. Hoje podemos, temos outros meios, mas pronto, aquilo que n\u00e3o podemos \u00e9 fechar-nos em n\u00f3s mesmos e nos nossos problemas. Eu penso que a miss\u00e3o \u00e9 uma janela aberta que nos faz ver mais longe e tamb\u00e9m receber ar fresco que precisamos, que \u00e9 o ar do Esp\u00edrito Santo.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Nesse sentido, e para fecharmos a nossa conversa, pergunto-lhe tamb\u00e9m se come\u00e7a a sentir-se que esta l\u00f3gica hist\u00f3rica, cultural, de a Europa como ponto de partida de mission\u00e1rios se comece a inverter e Europa poder ser um destino espec\u00edfico de miss\u00e3o tamb\u00e9m para estas igrejas em crescimento noutros continentes? <\/em><\/p>\n<p>Boa pergunta. Eu estou a vir de \u00c9vora, da Arquidiocese de \u00c9vora e \u00e9 uma diocese mission\u00e1ria no sentido que \u00e9 um territ\u00f3rio mission\u00e1rio, mas aberta \u00e0 miss\u00e3o. Eu este ano enviei para \u00c9vora quatro seminaristas que est\u00e3o a estudar filosofia e teologia no semin\u00e1rio de \u00c9vora e esta arquidiocese recebeu tamb\u00e9m, \u00e9 um semin\u00e1rio mission\u00e1rio. Temos l\u00e1 jovens seminaristas de Angola, de Timor-Leste, de Cabo Verde, de Cuba e agora tamb\u00e9m de Mo\u00e7ambique. E enviei um sacerdote, tamb\u00e9m este ano, para trabalhar na Arquidiocese de \u00c9vora, em Samora Corr\u00eaa, j\u00e1 pr\u00f3ximo Lisboa, que est\u00e1 a fazer mestrado em direito can\u00f3nico na Universidade\u00a0 Cat\u00f3lica, e ao mesmo tempo est\u00e1 a servir pastoralmente na par\u00f3quia de Samora Corr\u00eaa, na Arquidiocese de \u00c9vora. \u00c9 um exemplo e h\u00e1 outros exemplos em Portugal de abertura \u00e0 miss\u00e3o, de colabora\u00e7\u00e3o. Eu penso que sim.<\/p>\n<p>E tamb\u00e9m a igreja de miss\u00e3o, que foi objeto de miss\u00e3o, hoje j\u00e1 come\u00e7a a ser sujeito de evangeliza\u00e7\u00e3o e devemos dar do muito que recebemos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mesmo para fecharmos, olhando para a forma como as comunidades da sua diocese vivem a f\u00e9, o que \u00e9 que gostaria que as comunidades portuguesas pudessem aprender com elas?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Sobretudo a alegria de ser crist\u00e3o e o compromisso e deixar para tr\u00e1s aquela vis\u00e3o de que a igreja \u00e9 dos outros, \u00e9 do padre, \u00e9 do bispo, e sobretudo assumir mais o seu compromisso batismal, ser igreja, porque a igreja, como o Papa nos repetiu aqui, em Portugal, \u00e9 de todos e \u00e9 para todos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O mission\u00e1rio portugu\u00eas \u00e9, desde 2019, o bispo da Diocese de Tete, em Mo\u00e7ambique, onde se encontra, h\u00e1 v\u00e1rios anos, ao servi\u00e7o das popula\u00e7\u00f5es locais. 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