{"id":34405,"date":"2008-10-01T15:27:54","date_gmt":"2008-10-01T15:27:54","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/10\/01\/o-povo-timorense-e-a-nossa-missao\/"},"modified":"2008-10-01T15:27:54","modified_gmt":"2008-10-01T15:27:54","slug":"o-povo-timorense-e-a-nossa-missao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-povo-timorense-e-a-nossa-missao\/","title":{"rendered":"O povo timorense \u00e9 a nossa miss\u00e3o"},"content":{"rendered":"<p>Se se fizesse uma lista de pessoas profundamente conhecedoras da hist\u00f3ria dos \u00faltimos 30 anos deTimor-Leste, dois padres jesu\u00edtas portugueses apareceriam, com certeza, a encabe\u00e7ar essa lista. A passar um tempo de descanso em Portugal, o padre Jo\u00e3o Felgueiras (JF) e o padre Jos\u00e9 Martins (JM) contaram ao Di\u00e1rio do Minho (DM) algumas experi\u00eancias vividas no decurso da longa miss\u00e3o em Timor-Leste. O padre Jo\u00e3o Felgueiras \u00e9 natural das Caldas das Taipas, Guimar\u00e3es, e nasceu no dia 9 de Junho de 1921. O padre Jos\u00e9 Martins \u00e9 natural de S\u00e3o Rom\u00e3o do Neiva, Viana do Castelo, onde, no passado dia 7, celebrou as bodas de ouro sacerdotais. Os desafios colocados a Timor e \u00e0 Igreja timorense s\u00e3o, para estes dois sacerdotes, v\u00e1rios e urgentes. Mas tamb\u00e9m concordam que \u00abTimor pode muito bem ser uma j\u00f3ia da Igreja e da comunidade internacional\u00bb. Num pa\u00eds marcado pela guerrilha interna, pela invas\u00e3o indon\u00e9sia, por referendos, pelo processo moroso que levou \u00e0 independ\u00eancia, os dois jesu\u00edtas mission\u00e1rios s\u00e3o un\u00e2nimes em afirmar que \u00aba morrer e a morrer\u00bb morriam em Timor. Porque, explicam, o povo timorense \u00e9 a sua miss\u00e3o.  <b>DM &#8211; Como se deu a ida para Timor?<\/b> <b>JF<\/b> &#8211; Estava no Col\u00e9gio da Companhia de Jesus, em Cernache, e o Padre Provincial prop\u00f4s-me ir para Timor. Isto em Maio de 1970. Fiquei surpreendido e, ent\u00e3o, pedi um tempo para reflex\u00e3o. Em Dezembro desse ano, parti de Cernache rumo a Timor. Neste tempo, entre o pedido do Provincial e a minha partida, li muitos livros sobre Timor a fim de criar uma vis\u00e3o mais objectiva daquele Pa\u00eds. Li praticamente todos os livros que havia e que estavam na biblioteca do col\u00e9gio e isso enriqueceu a minha vis\u00e3o. Preparei-me para partir, com consci\u00eancia renovada da minha miss\u00e3o de crist\u00e3o, de sacerdote e de jesu\u00edta. Tomei esta miss\u00e3o a s\u00e9rio, n\u00e3o apenas como uma aventura cega. Inseri-me no esp\u00edrito dos grandes mission\u00e1rios, sabendo da responsabilidade que era e da pr\u00f3pria beleza da miss\u00e3o em si. <b>JM<\/b> &#8211; A minha ida para Timor foi muito diferente da do padre Jo\u00e3o, porque eu nunca tinha pensado, durante a minha forma\u00e7\u00e3o, ir para terras de miss\u00e3o, nem nunca tinha pedido isso aos meus superiores. Estava a fazer os meus estudos em Roma, no \u00faltimo ano da licenciatura em Teologia Espiritual, quando o Provincial me perguntou se eu tinha alguma objec\u00e7\u00e3o de ir a Timor por dois anos, no m\u00e1ximo tr\u00eas. Acabado esse per\u00edodo viria para Portugal trabalhar. Claro que n\u00e3o me opus e, acabados os estudos, em 23 de Setembro de 1974, embarquei para Timor. <b>DM &#8211; Como decorreu a viagem?<\/b> <b>JF<\/b> &#8211;  Procurei aproveit\u00e1-la o melhor poss\u00edvel, no sentido de me informar e de conhecer mais o Pa\u00eds. Antes de ir para Timor, passei por Roma, onde passei o Natal de 1970, e l\u00e1 encontrei o ainda estudante de Teologia Jos\u00e9 Alves Martins. De Roma, parti para outra etapa b\u00edblica e Paulina \u2013 Atenas \u2013, antes de me dirigir para Jerusal\u00e9m. Foi uma experi\u00eancia espiritual \u00fanica na minha vida. Fiquei na casa dos Franciscanos e, com uma fam\u00edlia argentina, percorri todos os lugares santos de Jerusal\u00e9m. A passagem por estes locais ajudou-me ainda mais a fortalecer a consci\u00eancia da miss\u00e3o que abra\u00e7ava e que se chamava Timor. A Jerusal\u00e9m seguiu-se Goa, por onde andou S\u00e3o Francisco Xavier. Depois, Hong Kong, onde um atraso ocasional permitiu que contactasse com os focolarinos, com quem estava j\u00e1 bem relacionado porque tinha participado numa Mari\u00e1polis, em F\u00e1tima. Nesse encontro, contactei com v\u00e1rios estudantes de teologia timorenses, entre eles o actual Bispo de D\u00edli. Seguiu-se Macau e entrar l\u00e1 foi para mim uma alegria imensa. Todo este tempo foi uma esp\u00e9cie de curso preparat\u00f3rio de ambienta\u00e7\u00e3o para entrar em Timor. Quando parti de Macau rumo \u00e0 minha miss\u00e3o, recordo que me atrasei para o avi\u00e3o. Ao chegar ao aeroporto, mandaram-se ir a correr para conseguir entrar ainda no avi\u00e3o, mesmo sem revistar as malas. A primeira vez que sobrevoei Timor foi muito emocionante. Tinha a consci\u00eancia que estava a sobrevoar terras \u201cvirgens\u201d que me iam acolher para desempenhar a miss\u00e3o. Aterrei no aeroporto de Baucau e da\u00ed parti noutro avi\u00e3o, pequeno, que me levou a D\u00edli. L\u00e1, estava \u00e0 minha espera a comunidade que me ia receber. A alegria, ao encontrar os meus novos companheiros foi muito grande. Contactei com os sacerdotes que trabalhavam em Timor e, depois, fui saudar o Bispo de D\u00edli, D. Jos\u00e9 Joaquim Ribeiro, que tinha sido meu companheiro como seminarista em \u00c9vora. <b>DM &#8211; Qual era a miss\u00e3o?<\/b> <b>JM<\/b> &#8211; A minha miss\u00e3o era ser director espiritual no Semin\u00e1rio de D\u00edli e professor. Chegado a Timor, comecei imediatamente a cumprir a minha miss\u00e3o. N\u00e3o tive uma longa prepara\u00e7\u00e3o como o padre Jo\u00e3o Felgueiras e o processo da minha ida decorreu rapidamente. Claro que o objectivo, aparentemente, era diferente. Eu ia a Timor, o padre Jo\u00e3o foi para Timor. Encarei a minha ida como uma esp\u00e9cie de est\u00e1gio, embora j\u00e1 fosse sacerdote. A circunst\u00e2ncia que me fez continuar at\u00e9 aos dias de hoje foi a guerra civil, em 1975, entre os dois maiores partidos timorenses \u2013 a Uni\u00e3o Democr\u00e1tica Timorense e a Frente Revolucion\u00e1ria de Timor-Leste. Mesmo a\u00ed n\u00e3o tinha inten\u00e7\u00e3o de ficar para sempre. Em 7 de Setembro desse ano, a Indon\u00e9sia invade Timor e eu fiquei como que retido. N\u00e3o quis sair e fui continuando, continuando, at\u00e9 hoje. Entre 1986 e 1990, por causa de umas f\u00e9rias do padre Jo\u00e3o, fiquei como reitor do semin\u00e1rio. No meio das dificuldades, dos perigos e da tens\u00e3o, houve espa\u00e7os de tempo felizes. <b>JF<\/b> &#8211; A minha miss\u00e3o era o Semin\u00e1rio de D\u00edli, numa encosta da cidade. Quando cheguei, a comunidade reuniu-se para me dar as boas-vindas e numa das primeiras conversas que tive com um seminarista, perguntando-lhe se sabia o motivo de eu ter ido para Timor, ouvi uma frase que ainda hoje n\u00e3o esqueci. Disse-me esse rapaz: \u201cO padre veio, porque acreditou\u201d. Fiquei impressionado com aquela frase, vinda da boca do primeiro seminarista timorense com quem falei. Esse rapaz acabou por ser preso pelos indon\u00e9sios e veio a falecer na sequ\u00eancia dos maus tratos. No tempo que fui reitor, de 1971 a 1975, t\u00ednhamos uma vida normal de semin\u00e1rio. Os rapazes tinham um excelente \u00edndice intelectual. Contudo, o 25 de Abril aqui em Portugal perturbou muito o ambiente de Timor. J\u00e1 n\u00e3o era o Timor que eu tinha encontrado quando cheguei. O Semin\u00e1rio n\u00e3o foi excep\u00e7\u00e3o a essa perturba\u00e7\u00e3o e instabilidade, por causa das movimenta\u00e7\u00f5es pol\u00edticas. Alguma coisa estava a fervilhar e isso sentia-se. Os fundadores dos partidos, se n\u00e3o todos uma grande parte, tinham sido seminaristas, que eram das pessoas mais cultas do pa\u00eds. O Semin\u00e1rio organizou, em Agosto de 1975, por ordem do prelado, uma peregrina\u00e7\u00e3o a Nossa Senhora de Aitara. Mas, o golpe de 9 de Agosto e o consequente contra-golpe criou grande perturba\u00e7\u00e3o e guerrilha entre os timorenses. Est\u00e1vamos na montanha, em peregrina\u00e7\u00e3o, quando tudo isso aconteceu. Porque ia dar-se um conflito armado, n\u00f3s tivemos que sair para as montanhas. Na incerteza, fomos para Baucau. Nos postos administrativos \u00e9ramos avisados que os cl\u00e9rigos deviam sair de Timor. Efectivamente, as religiosas tinham ordens superioras para abandonar o Pa\u00eds. Para os padres, n\u00e3o havia essa ordem de sa\u00edda. Eu tamb\u00e9m n\u00e3o podia sair deixando os seminaristas dispersos. Regressei, ent\u00e3o, para a casa dos Salesianos onde estavam os seminaristas \u00e0 minha espera. Fic\u00e1mos por l\u00e1. Est\u00e1vamos reunidos no trabalho e na ora\u00e7\u00e3o at\u00e9 que o Bispo informou que a Indon\u00e9sia estava a invadir Timor. Com o dom\u00ednio indon\u00e9sio n\u00e3o havia guerra no interior mas apenas nas fronteiras, para onde se dirigiam diariamente milhares de homens soldados. Mas, a invas\u00e3o alastrou. O Semin\u00e1rio foi bombardeado e totalmente destru\u00eddo. Durante este ataque, lembro que est\u00e1vamos no interior da capela, estendidos debaixo dos bancos, para evitar os estilha\u00e7os. Est\u00e1vamos persuadidos de que os indon\u00e9sios iriam respeitar os lugares da Igreja e at\u00e9 t\u00ednhamos posto bandeiras brancas, mas mesmo assim fomos bombardeados. Quando parou este ataque sa\u00edmos de l\u00e1. Instal\u00e1mo-nos numa casa de um timorense que nos deu guarida, no relevo da encosta da cidade. Come\u00e7\u00e1mos a cavar buracos e valas no ch\u00e3o para nos protegermos dos bombardeamentos, que aconteciam diariamente, de canh\u00f5es, morteiros e metralhadoras. Foi uma \u00e9poca terr\u00edvel. As pessoas quando viram que nem os lugares da Igreja haviam sido respeitados pelos indon\u00e9sios fugiram todas dizendo: \u201cVieram para nos matar a todos\u201d. Nesse preciso momento, a Indon\u00e9sia perdeu todas as hip\u00f3teses de simpatia dos timorenses. Este ambiente de viol\u00eancia decorreu at\u00e9 ao referendo de 1999, que foi favor\u00e1vel \u00e0 independ\u00eancia de Timor. <b>DM &#8211; No meio de tanta tens\u00e3o e perigo, consegue escolher o melhor momento?<\/b> <b>JM<\/b> &#8211; O melhor momento que vivi em Timor foi, efectivamente, no primeiro ano que cheguei, entre 1974 e 1975, porque foi um ano de paz. Os tempos de paz s\u00e3o sempre bons momentos. Tamb\u00e9m a fase seguinte ao referendo foi um bom momento que passei, assim como a reabertura do Semin\u00e1rio em D\u00edli, no ano de 1978. <b>DM &#8211; E o pior?<\/b> <b>JM<\/b> &#8211; Houve concretamente dois momentos em que senti a vida por um fio muito t\u00e9nue. Quando est\u00e1vamos refugiados nas montanhas, por causa da invas\u00e3o da Indon\u00e9sia, no dia 18 de Dezembro, vim ao Semin\u00e1rio Menor diocesano e fui atingido na anca por um estilha\u00e7o de morteiro. Apesar da profundidade da ferida, consegui chegar ao semin\u00e1rio. Tamb\u00e9m, em Setembro de 1999, com D\u00edli debaixo de fogo pelas mil\u00edcias, um dos padres que estava connosco foi morto a tiro. Ao que parece queriam roubar os nossos carros. Foi um momento providencial, porque sentimos a morte muito perto, morte essa que chegou, infelizmente, para esse padre alem\u00e3o que estava connosco. Faltam catequistas, seminaristas e sacerdotes&#8230; <b>DM &#8211; Quais s\u00e3o os desafios de Timor?<\/b> <b>JM<\/b> &#8211; A estrutura\u00e7\u00e3o do pa\u00eds \u00e9 essencial, mas conv\u00e9m que os l\u00edderes pol\u00edticos sejam pessoas bem formadas. Neste momento, parece-me que Timor n\u00e3o tem isso. At\u00e9 tem pessoas formadas, mas falta-lhes experi\u00eancia de governa\u00e7\u00e3o. S\u00e3o tr\u00eas os departamentos a necessitar de ac\u00e7\u00e3o imediata: Agricultura, Sa\u00fade e Educa\u00e7\u00e3o. Timor tem recursos e meios, no entanto falta-lhe projectos. Ao n\u00edvel da educa\u00e7\u00e3o, o desafio \u00e9 tremendo. A L\u00edngua Portuguesa, que \u00e9 oficial desde o referendo, s\u00f3 \u00e9 falada por pessoas com mais de 35 anos. \u00c9 importante apostar na aprendizagem do Portugu\u00eas, que est\u00e1 nos programas apenas at\u00e9 ao 6.\u00ba ano. Ao n\u00edvel do turismo, faltam todos os projectos. <b>DM &#8211; E os desafios da Igreja timorense?<\/b> <b>JF<\/b> &#8211; Antes de mais, manter a lealdade e o respeito para com o povo timorense, porque as suas caracter\u00edsticas deviam ser mantidas, preservadas e respeitadas. A Igreja tem um papel importante na defesa e na promo\u00e7\u00e3o da dignidade dos timorenses. Por isso, \u00e9 essencial que a hierarquia crie consci\u00eancia para pensar no futuro de Timor. Em Timor faltam catequistas, seminaristas e sacerdotes&#8230; Mas falta tamb\u00e9m, forma\u00e7\u00e3o, catequese. Apostar na qualidade. Timor pode muito bem ser uma j\u00f3ia da Igreja e da comunidade internacional. <b>JM<\/b> Os mission\u00e1rios que v\u00e3o para Timor devem aprender o T\u00e9tum e o Portugu\u00eas. Infelizmente, isso n\u00e3o acontece. Por exemplo, na nossa comunidade fal\u00e1mos Ingl\u00eas. Tem havido brandura por parte do Minist\u00e9rio da Educa\u00e7\u00e3o e da Igreja a esse respeito. <b>DM &#8211; Regressam a Timor no dia 20 de Outubro para fazer o qu\u00ea? <\/b> <b>JF<\/b> Faremos o que sempre fizemos: o povo timorense \u00e9 a nossa miss\u00e3o. Durante todos estes anos fomos leais ao povo e \u00e0 miss\u00e3o. Ambos temos a consci\u00eancia de que fomos e vamos continuar a ser oper\u00e1rios fi\u00e9is do Senhor. Cri\u00e1mos a Escola \u201cAmigos de Jesus\u201d que tem alguns la\u00e7os com a Companhia de Jesus, mas \u00e9 aut\u00f3noma. Pretende favorecer e dar valores humanos e religiosos que a crian\u00e7a precisa para o seu lento e gradual crescimento. Este ano, a escola conta com 512 alunos. Apesar de j\u00e1 existir h\u00e1 dez anos, o edif\u00edcio foi benzido em Maio deste ano. Fica situado junto \u00e0 casa dos Jesu\u00edtas em D\u00edli. A escola precisa de ajuda monet\u00e1ria principalmente para o pagamento aos professores. Para isso, as pessoas podem enviar os seus donativos para uma conta que foi criada com essa finalidade. Sabemos que os portugueses, e os bracarenses em particular, s\u00e3o generosos. Por exemplo, a Igreja de Braga ofereceu, h\u00e1 poucos anos, todos os livros lit\u00fargicos para todas as par\u00f3quias timorenses. B\u00edblias, rituais das celebra\u00e7\u00f5es, o Vaticano II, os volumes da Liturgias das Horas, tudo foi oferecido pela Arquidiocese. A escola \u00e9 outro projecto que quer contribuir para o futuro de Timor, do Pa\u00eds e da Igreja. Os interessados podem ajudar com donativos para a conta com o NIB 0033 0000 0001 6073 2880 8.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Se se fizesse uma lista de pessoas profundamente conhecedoras da hist\u00f3ria dos \u00faltimos 30 anos deTimor-Leste, dois padres jesu\u00edtas portugueses apareceriam, com certeza, a encabe\u00e7ar essa lista. 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