{"id":343848,"date":"2024-10-11T09:06:19","date_gmt":"2024-10-11T08:06:19","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=343848"},"modified":"2024-10-09T09:57:32","modified_gmt":"2024-10-09T08:57:32","slug":"nulla-res-nata","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/nulla-res-nata\/","title":{"rendered":"\u201cNulla res nata\u201d"},"content":{"rendered":"<p><em>Ant\u00f3nio Salvado Morgado, Diocese da Guarda<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>O velho mil\u00e9sico Anaximandro [610-546 a.C.] ter\u00e1 escrito: \u00ab<em>A Terra navega no espa\u00e7o, apoiada no nada<\/em>.\u00bb Ser\u00e1 poeta ou fil\u00f3sofo este velho e perspicaz Anaximandro? O nada suporte da Terra no espa\u00e7o e n\u00f3s, com ela, navegantes num mar de nada?<\/p>\n<p>Se o nada \u00e9 nada, porque falamos do nada? Que h\u00e1 em \u201cnada\u201d para que o termo \u201cnada\u201d exista e seja t\u00e3o vulgar a sua utiliza\u00e7\u00e3o? Que poderei dizer eu sobre o nada? Nada, direi. E j\u00e1 disse alguma coisa sobre o nada. E mais digo quando o substantivo com o artigo definido \u201co\u201d. Se estou a substantivar o nada com um artigo definido n\u00e3o ser\u00e1 que lhe estou a atribuir alguma substantividade? Existe alguma coisa que seja o nada?<\/p>\n<p>Deixemos, por\u00e9m, perguntas ret\u00f3ricas e passemos para express\u00f5es idiom\u00e1ticas de uso corrente em que \u00abo nada\u00bb \u00e9 o protagonista da linguagem: \u00abIsso n\u00e3o \u00e9 nada\u00bb, \u00abAqui nunca se passa nada\u00bb, \u00abN\u00e3o acontece nada\u00bb, \u00abN\u00e3o percebo nada\u00bb, \u00abDar em nada\u00bb, \u00abDa\u00ed a nada\u00bb, \u00abDe nada\u00bb, \u00abUm quase nada\u00bb, \u00abAbsolutamente nada\u00bb, \u00abM\u00e3o cheia de nada\u00bb. E at\u00e9 se diz e ouve \u00abNada de nada\u00bb, como se o nada se pudesse retalhar noutros nadas, em nadas mais pequeninos. E que dizer do \u00abTudo ou nada\u00bb que ouvimos por a\u00ed a passear-se como se o \u00abtudo\u00bb e o \u00abnada\u00bb fossem duas \u00abrealidades\u00bb contrapostas?<\/p>\n<p>Vamos ao latinzinho que talvez nos possa trazer algum contributo. Especulando, seguimos por dois caminhos, \u00e0 procura de algum ponto de encontro. Especulando, repito, para o leitor n\u00e3o esquecer.<\/p>\n<p>Parece que o termo \u201cnada\u201d procede da express\u00e3o latina \u201c<em>nulla res nata<\/em>\u201d que, literalmente, significa \u201cnenhuma coisa nascida\u201d. Deixemos para os gram\u00e1ticos entendidos o processo pelo qual o \u201ct\u201d do latino \u201c<em>nata<\/em>\u201d se transformou em \u201cd\u201d do termo portugu\u00eas \u201cnada\u201d, mas n\u00e3o deixaremos de notar que, das tr\u00eas palavras latinas \u2013 \u201c<em>nulla res nata<\/em>\u201d &#8211; s\u00f3 o termo \u201c<em>nata<\/em>\u201d [forma feminina do partic\u00edpio passado do verbo \u201c<em>nasci<\/em>\u201d &#8211; \u201cnascer\u201d, de onde prov\u00e9m tamb\u00e9m \u201cna\u00e7\u00e3o\u201d, \u201cnatural\u201d e \u201cnatureza\u201d], permaneceu para se referir o significado da totalidade da express\u00e3o latina, \u201cnenhuma coisa nascida\u201d, ou seja, \u201cnada\u201d.<\/p>\n<p>Desde muito cedo, ouvimos dizer que \u00abDeus criou o mundo do nada\u00bb. At\u00e9 parece que \u00abo nada\u00bb \u00e9 a subst\u00e2ncia de que \u00e9 feito o mundo. O nada seria, ent\u00e3o, o mundo na sua substantividade inicial. Mas fui desvendando o significado da frase e comecei a descobrir a diferen\u00e7a entre o acto criador das humanas cria\u00e7\u00f5es e o acto criador de Deus. O artista humano cria a partir de uma mat\u00e9ria pr\u00e9-existente, seja de origem vegetal, seja de origem mineral ou de origem animal. Mas sempre a partir de mat\u00e9ria prima disponibilizada pela natureza. A natureza \u00e9 o para\u00edso terreal das cria\u00e7\u00f5es humanas, art\u00edsticas ou tecnol\u00f3gicas.<\/p>\n<p>O ser humano n\u00e3o cria, pois, a partir do nada, por mais simples que sejam as obras criadas. A cria\u00e7\u00e3o humana \u00e9 sempre transforma\u00e7\u00e3o. Propriamente falando, os humanos n\u00e3o criam, transformam, plasmando formas novas de formas encontradas. E, rigorosamente, essas formas novas n\u00e3o s\u00e3o de todo novas. Sempre nas formas humanas criadas pelos humanos h\u00e1 a reprodu\u00e7\u00e3o de formas havidas que eles v\u00e3o transformando a partir de outras. S\u00f3 Deus cria a partir do nada. Nada de si, ou seja, nada do seu ser substancial para al\u00e9m do seu esp\u00edrito criador, e nada do objecto, isto \u00e9, de qualquer mat\u00e9ria pr\u00e9via. Sendo assim, Deus cria a partir de \u201c<em>nulla res nata<\/em>\u201d, de \u201cnenhuma coisa nascida\u201d, de nenhuma coisa preexistente ao seu acto criador. O homem n\u00e3o cria a partir de \u201c<em>nulla res nata<\/em>\u201d, mas de coisas \u201cnatas\u201d, ou seja, \u201cnascidas\u201d, previamente dadas na \u201cnatureza\u201d. Dizemos, por isso, \u201cnatureza dada\u201d.<\/p>\n<p>O fio filol\u00f3gico latino pode abrir-nos ainda outros interessantes caminhos. \u00c9 que a palavra latina para significar \u201cnada\u201d \u00e9 o conhecido termo \u201c<em>nihil<\/em>\u201d que nos d\u00e1 a raz\u00e3o do seu significado: \u201cnenhuma coisa\u201d. E \u201cnenhuma\u201d \u00e9 \u201cnenhuma\u201d. E nem sequer ser\u00e1 uma esp\u00e9cie de espa\u00e7o vazio, virtualmente pronto a encher-se de coisas. \u201cNada\u201d \u00e9 \u201cnada\u201d.<\/p>\n<p>Mas, desvendando a raiz etimol\u00f3gica de \u201c<em>nihil<\/em>\u201d, poderemos descobrir outras realidades de interesse lingu\u00edstico. Etimologicamente o \u201c<em>nihil<\/em>\u201d latino \u00e9 uma contrac\u00e7\u00e3o de \u201c<em>nihilum<\/em>\u201d, termo latino formado pelo prefixo negativo \u201cni\u201d ou \u201cne\u201d e \u201c<em>hilum<\/em>\u201d [\u201cfio\u201d]. \u201c<em>Nihilum<\/em>\u201d, \u201c<em>nihil<\/em>\u201d significa, segundo a etimologia e literalmente, \u201csem fio\u201d. Portanto, sem nexo, sem qualquer rela\u00e7\u00e3o. Uma realidade que \u201cperdeu o fio\u201d \u00e9 uma realidade empobrecida, deca\u00edda, reduzida a uma esp\u00e9cie de nada. Realidade nadificada, digamos.<\/p>\n<p>Chegados aqui, o interesse lingu\u00edstico explode em interesse humano por via da analogia e o fio lingu\u00edstico virtualiza o \u00abfio da meada\u00bb. De tantas meadas. Tantas como os caminhos dos afazeres da vida. Ele virtualiza, em \u00faltima inst\u00e2ncia, \u00abfio da vida\u00bb e o \u00abfio da exist\u00eancia\u00bb. Quando a vida \u00abest\u00e1 por um fio\u201d encontra-se pr\u00f3xima de um \u201cnada\u201d e quando a exist\u00eancia perdeu o fio entrou naquilo que os fil\u00f3sofos chamam \u00abniilismo\u00bb. O processo niilista de que falam os pensadores da exist\u00eancia humana consistiria na perda do fio, na destrui\u00e7\u00e3o da sua rela\u00e7\u00e3o substantiva, na perda do sentido da vida e na emerg\u00eancia do absurdo da exist\u00eancia humana.<\/p>\n<p>Regressemos, ent\u00e3o, ao acto criador de Deus que cria a partir de \u201c<em>nulla res nata<\/em>\u201d. \u00c9 precisamente do acto criador que chegam a ser \u00abnascidas\u00bb essas realidades que se encontram ligadas a Deus pelo \u00abfio\u00bb da cria\u00e7\u00e3o. A religi\u00e3o ser\u00e1 o modo de o ser humano manter viva a liga\u00e7\u00e3o a esse \u00abfio\u00bb fundador.<\/p>\n<p>Quanto possa saber n\u00e3o h\u00e1 um entendimento un\u00e2nime sobre a origem da palavra \u201creligi\u00e3o\u201d. Se uns opinam que ela tem origem no verbo latino \u201c<em>relegere<\/em>\u201d [reler], outros s\u00e3o de parecer que prov\u00e9m de verbo \u201c<em>religare<\/em>\u201d [religar], termo tamb\u00e9m latino. Quer-me parecer que as duas fontes lingu\u00edsticas se encontram no \u201c<em>hilum<\/em>\u201d [\u201cfio\u201d], no acto para que apontam. Se o \u201c<em>relegere<\/em>\u201d [reler] indicia que a religi\u00e3o \u00e9 o acto de ler e reler constantemente o fio criador de Deus que mant\u00e9m na vida o ser humano, o \u201c<em>religare<\/em>\u201d [religar], indica a necessidade de o Homem se religar novamente ao fio da Transcend\u00eancia perdida e superar o niilismo, essa esp\u00e9cie de nada vital em que poder\u00e1 cair.<\/p>\n<p>E assim regressamos ao in\u00edcio. Se o nada \u00e9 nada, porque falamos do nada? Afinal o nada talvez seja o tudo de Deus em n\u00f3s. N\u00e3o sei se \u00e9 tamb\u00e9m isso o que o te\u00f3logo Tom\u00e1s Hal\u00edk [n.1948] nos pretende dizer quando escreve: \u00ab<em>As tradi\u00e7\u00f5es m\u00edsticas, em particular, sabem que Deus \u00e9 \u201cnada\u201d (nenhuma \u201ccoisa\u201d no mundo dos seres, das coisas, dos objectos) e que a palavra \u201cnada\u201d \u00e9 talvez a express\u00e3o mais apropriada ao modo de ser de Deus. A singularidade de Deus n\u00e3o deve perder-se num mundo de diferentes \u201ccoisas\u201d, pois o Deus da f\u00e9 b\u00edblica n\u00e3o habita entre \u00eddolos, nem deve Deus tornar-se parte do mundo das no\u00e7\u00f5es religiosas, desejos ou fantasias humanas<\/em>.\u00bb O niilismo tem algum sentido. Teologicamente negativo, ser\u00e1 um niilismo do excesso de Transcend\u00eancia. Situados como nos encontramos neste universo de coisas, \u00e9 sempre tentador encaixar o excesso de Deus no pequeno universo dos nossos in\u00e1beis e pobres conceitos.<\/p>\n<p>Aprecio particularmente estas palavras do te\u00f3logo checo, mas fico a lembrar que tamb\u00e9m os m\u00edsticos e poetas encontram Deus no mundo das \u00abcoisas\u00bb. Ausente-presente, nada-tudo, transcendente-imanente, Deus \u00e9 \u00ab<em>coincid\u00eancia de opostos<\/em>\u00bb, como j\u00e1 h\u00e1 muito intuiu o grande fil\u00f3sofo Nicolau de Cusa [1401-1464] que \u00e9 tamb\u00e9m mestre da \u00abDouta ignor\u00e2ncia\u00bb. S\u00f3 que n\u00f3s, ignorantes que n\u00e3o doutos, embalados pela iman\u00eancia, esquecemos a transcend\u00eancia.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f3nio Salvado Morgado, Diocese da Guarda<\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":271042,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[168],"class_list":["post-343848","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao","tag-diocese-da-guarda"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/343848","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=343848"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/343848\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/271042"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=343848"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=343848"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=343848"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}