{"id":343520,"date":"2024-10-06T09:30:01","date_gmt":"2024-10-06T08:30:01","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=343520"},"modified":"2024-10-06T01:32:30","modified_gmt":"2024-10-06T00:32:30","slug":"entrevista-situacao-social-em-cabo-delgado-tende-a-ir-de-mal-a-pior-afirma-diretor-da-caritas-local","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/entrevista-situacao-social-em-cabo-delgado-tende-a-ir-de-mal-a-pior-afirma-diretor-da-caritas-local\/","title":{"rendered":"Entrevista: Situa\u00e7\u00e3o social em Cabo Delgado \u00abtende a ir de mal a pior\u00bb, afirma diretor da C\u00e1ritas local"},"content":{"rendered":"<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Manuel Nota \u00e9 o convidado da entrevista conjunta Ecclesia\/Renascen\u00e7a e afirma que h\u00e1 \u00abalta de fundos\u00bb para projetos de desenvolvimento, refere-se \u00e0s elei\u00e7\u00f5es em Mo\u00e7ambique e lamenta que os conflitos que duram h\u00e1 7 anos come\u00e7am a ser \u00abalgo com que se convive\u00bb<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_207312\" aria-describedby=\"caption-attachment-207312\" style=\"width: 1200px\" class=\"wp-caption alignnone\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-207312 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/caritas-criancas-cabo-delgado3.jpg\" alt=\"\" width=\"1200\" height=\"800\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/caritas-criancas-cabo-delgado3.jpg 1200w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/caritas-criancas-cabo-delgado3-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/caritas-criancas-cabo-delgado3-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/caritas-criancas-cabo-delgado3-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/caritas-criancas-cabo-delgado3-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/caritas-criancas-cabo-delgado3-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/05\/caritas-criancas-cabo-delgado3-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1200px) 100vw, 1200px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-207312\" class=\"wp-caption-text\">Foto: C\u00e1ritas<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Paulo Rocha (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Como caracteriza a situa\u00e7\u00e3o na regi\u00e3o de Cabo Delgado, atualmente?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Atualmente, as coisas parecem estar calmas, mas ainda continuam algumas incurs\u00f5es que, infelizmente, n\u00e3o t\u00eam sido relatadas como eram no passado. Aparentemente, a situa\u00e7\u00e3o est\u00e1 controlada.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>N\u00e3o h\u00e1 o sentimento de inseguran\u00e7a entre a popula\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Existe alguma inseguran\u00e7a&#8230; Depois de tantos anos, as pessoas que viviam em centros de reassentamento decidiram regressar para as suas terras de origem. Algumas tiveram sucesso, chegaram e reiniciaram a vida sem problemas, outras fam\u00edlias, ao chegar \u00e0 zona, voltaram a ser atacadas e tiveram que, novamente, sair dos seus locais habituais para procurar outros considerados seguros, mais pr\u00f3ximos das suas zonas de origem.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Um relat\u00f3rio recente da Organiza\u00e7\u00e3o das Na\u00e7\u00f5es Unidas revela que os terroristas apoiados pelo Grupo do Estado Isl\u00e2mico est\u00e3o mais ativos e a implementar medidas de ataques mais sofisticados, mais cir\u00fargicos na prov\u00edncia de Cabo Delgado, incluindo em algumas \u00e1reas pr\u00f3ximas do local onde est\u00e1 instalado o maior projeto de g\u00e1s em \u00c1frica. Notam no terreno esta instabilidade?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Pessoalmente, n\u00e3o consigo notar, porque nas zonas onde h\u00e1 explora\u00e7\u00e3o de g\u00e1s temos l\u00e1 a prote\u00e7\u00e3o da for\u00e7a ruandesa, que tem vindo a garantir a seguran\u00e7a da zona. Trabalham em parceria com a nossa For\u00e7a de Seguran\u00e7a. Nos s\u00edtios mesmo de explora\u00e7\u00e3o de g\u00e1s n\u00e3o se fala nada de ataques. Onde se fala de ataques \u00e9 nas zonas circunvizinhas ou mais pr\u00f3ximas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>E o que \u00e9 que isso querer\u00e1 dizer? O que \u00e9 que se pode indicar? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A minha perce\u00e7\u00e3o \u00e9 que, querendo-se explorar, sem problema, h\u00e1 uma seguran\u00e7a forte, mas nas zonas que n\u00e3o s\u00e3o de maior interesse dos exploradores de g\u00e1s, a popula\u00e7\u00e3o fica \u00e0 deriva. S\u00f3 Deus est\u00e1 l\u00e1 para proteger. E uma vez ou outra faz-se sentir a presen\u00e7a da for\u00e7a.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Existe uma linha de pensamento que associa os ataques essencialmente aos interesses econ\u00f3micos da regi\u00e3o. Nesta altura, h\u00e1 infraestruturas em risco?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Infraestruturas em risco, como tal, acho que n\u00e3o, porque o grande interesse, na minha maneira de perceber, \u00e9 procurar inviabilizar essa quest\u00e3o de explora\u00e7\u00e3o de g\u00e1s. Por isso, andam ali a atacar um s\u00edtio, atacar o outro para desencorajar aqueles que t\u00eam inten\u00e7\u00e3o de poder dar continuidade ao esse processo de explora\u00e7\u00e3o de g\u00e1s. Se existem infraestruturas em risco, n\u00e3o se consegue.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Como \u00e9 que est\u00e1 a conviv\u00eancia entre as for\u00e7as militares no terreno e as popula\u00e7\u00f5es? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">A \u00faltima vez que eu visitei um Moc\u00edmboa da Praia vi que existe uma boa rela\u00e7\u00e3o entre a for\u00e7a de prote\u00e7\u00e3o e a popula\u00e7\u00e3o. Quando cheg\u00e1mos, fomos aconselhados a apresentarmo-nos \u00e0 pol\u00edcia, para n\u00e3o parecermos pessoas estranhas naquele local. O que conseguimos ver \u00e9 que as pessoas conhecem-se entre elas. Os militares conhecem a popula\u00e7\u00e3o e a popula\u00e7\u00e3o conhece tamb\u00e9m os militares, porque eles est\u00e3o todo o tempo juntos. Acho que \u00e9 uma boa rela\u00e7\u00e3o. N\u00e3o conseguimos ver desentendimentos, havia muita aproxima\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Os militares de Angola e da Nam\u00edbia, que integravam a for\u00e7a militar dos pa\u00edses da \u00c1frica Austral em Cabo Delgado, sa\u00edram do terreno em maio. E, em final de mar\u00e7o, a miss\u00e3o militar da Comunidade de Desenvolvimento da \u00c1frica Austral tamb\u00e9m j\u00e1 tinha sa\u00eddo do territ\u00f3rio. Ali\u00e1s, o Bispo de Pemba mostrou-se preocupado com esta situa\u00e7\u00e3o. Isso influenciou as formas de a\u00e7\u00e3o terrorista no terreno?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o percebo nada de a\u00e7\u00e3o militar, mas aquilo que eu vejo \u00e9 que, de alguma forma, criou for\u00e7a para os terroristas porque, ao saber que a zona estava desprotegida, tinham mais for\u00e7a de poder ir e fazer, desfazer. Enquanto estiveram l\u00e1 os militares da SADC [Southern African Development Community], se pensassem em fazer algo, tinham de pensar duas vezes, porque \u00e9 uma for\u00e7a com uma t\u00e1tica militar um pouco mais forte, mais sofisticada. Agora que sa\u00edram, conseguimos ver que houve aquele ataque em Macomia, em Maio, porque j\u00e1 havia informa\u00e7\u00f5es de que os da SADC estavam para sair, e os insurgentes acharam que poderiam entrar. Agora que voltou-se a ter a for\u00e7a ruandesa, pouco se fala de ataques na zona de Macomia<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>\u00c9 poss\u00edvel fazer um c\u00e1lculo do n\u00famero de pessoas deslocadas?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">J\u00e1 chegamos a ter perto de um milh\u00e3o de pessoas deslocadas. Agora, o \u00faltimo relat\u00f3rio que eu vi falava de perto de 583 mil pessoas j\u00e1 regressadas ou retornadas, mas continuamos com deslocados porque, quando as pessoas regressaram, chegaram e encontraram seus s\u00edtios n\u00e3o seguros e voltaram a sair para outros s\u00edtios. Ent\u00e3o, ainda est\u00e3o a viver o ambiente de deslocados, n\u00e3o nos mesmos s\u00edtios onde estiveram durante muito tempo, mas noutros s\u00edtios. O movimento de pessoas continua a acontecer.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>E as crian\u00e7as continuam a ser as principais v\u00edtimas de toda esta situa\u00e7\u00e3o? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Claro, a crian\u00e7a \u00e9 quem sofre mais com esses deslocamentos. Os pais facilmente se fixam, conseguem adaptar-se, mas as crian\u00e7as s\u00e3o aquelas que t\u00eam que estar sempre a procurar novas adapta\u00e7\u00f5es e, como consequ\u00eancia, passam por muitas necessidades.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>E as not\u00edcias de raptos de crian\u00e7as, das quais se ouviu falar durante muito tempo, prosseguem ou nos \u00faltimos tempos abrandou essa situa\u00e7\u00e3o? <\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">J\u00e1 n\u00e3o se fala tanto de rapto de crian\u00e7as. H\u00e1 semanas atr\u00e1s ouvi dizer que algumas mulheres tinham sido raptadas, mas logo depois foram libertadas. J\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 muito rapto de crian\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>A Igreja Mo\u00e7ambicana, atrav\u00e9s da Confer\u00eancia Episcopal, em diversos momentos denunciou as viola\u00e7\u00f5es dos direitos humanos e apelou \u00e0 paz na regi\u00e3o. Em algumas igrejas locais, v\u00eam-se realizando vig\u00edlias de ora\u00e7\u00e3o pela paz. Sentem o apoio solid\u00e1rio da Confer\u00eancia Episcopal Mo\u00e7ambicana?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Claro, a Igreja est\u00e1 sempre presente, s\u00f3 que a popula\u00e7\u00e3o de Cabo Delgado, e n\u00e3o sei se tem a ver com quest\u00f5es culturais, pouco v\u00ea isso, porque para eles a ajuda seria algo material. Ent\u00e3o, a quest\u00e3o moral, a quest\u00e3o de consciencializa\u00e7\u00e3o, para eles \u00e9 uma ajuda, sim, mas n\u00e3o consideram uma ajuda direta. Para eles, para sentirem que h\u00e1 envolvimento da Igreja, gostariam de estar a receber produtos, produtos materiais.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em><br \/>\nMas esse envolvimento tamb\u00e9m \u00e9 fundamental por parte da Confer\u00eancia Episcopal como inst\u00e2ncia de di\u00e1logo para o fim do conflito, n\u00e3o \u00e9?\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Claro, \u00e9 muito importante. Mas a Confer\u00eancia Episcopal tem-se feito sentir a partir de n\u00f3s, C\u00e1ritas. Mas o que nos trava ultimamente \u00e9 a quest\u00e3o de falta de projetos que financiem o que tem sido as nossas a\u00e7\u00f5es. A nossa presen\u00e7a em locais de reassentamento tem sido muito reduzida agora. Deparamo-nos com falta de fundos para podermos atender aquelas pessoas necessitadas. Mas sempre que for poss\u00edvel, n\u00f3s fazemos o esfor\u00e7o e vamos l\u00e1 dar uma m\u00e3o. E dizemos que estamos a atuar em nome da Igreja Cat\u00f3lica.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Em mar\u00e7o, Manuel Nota alertava precisamente para esses problemas financeiros da C\u00e1ritas de Pemba. Pelo que nos diz, ent\u00e3o, a situa\u00e7\u00e3o n\u00e3o est\u00e1 ultrapassada?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o, tende a agravar-se, tende a ir de mal a pior. Porque os projetos que est\u00e1vamos a implementar est\u00e3o a terminar e n\u00e3o h\u00e1 esperan\u00e7a de podermos contar com novos financiamentos. Temos vindo a bater a portas em muitos s\u00edtios, mas, infelizmente, n\u00e3o temos tido respostas positivas. E o motivo \u00e9 mesmo que se est\u00e1 em crise financeira e o pouco que existe em termos de recursos, se calhar, agora d\u00e1-se por amizades e por a\u00ed fora. N\u00f3s, porque n\u00e3o temos muitos amigos que estejam ligados a grupos de financiadores, temos vindo a passar grandes necessidades mesmo.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>O Manuel Nota referia precisamente em mar\u00e7o a import\u00e2ncia da ajuda solid\u00e1ria de Portugal.\u00a0Admite o recurso, nomeadamente a outras C\u00e1ritas, para tentar, de alguma forma, atenuar essa quest\u00e3o financeira?\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">As outras C\u00e1ritas tamb\u00e9m est\u00e3o a passar por momentos n\u00e3o muito bons, financeiramente. Em Mo\u00e7ambique e tamb\u00e9m al\u00e9m-fronteiras. Aquelas que t\u00eam sido C\u00e1ritas irm\u00e3s e que por muito tempo trabalharam connosco, tamb\u00e9m t\u00eam vindo a dizer que est\u00e3o impossibilitadas de nos dar uma m\u00e3o, porque tamb\u00e9m est\u00e3o a passar por dificuldades financeiras. Ganhamos agora um projeto que \u00e9 fruto do apelo de emerg\u00eancia que foi lan\u00e7ado pela C\u00e1ritas Mo\u00e7ambicana, em que a C\u00e1ritas Portuguesa e o Instituto Cam\u00f5es decidiram subscrever um projeto para apoiar 350 fam\u00edlias no Distrito de Mecufi , com alimentos e alguns produtos de higiene individual e coletiva. Agora, estamos s\u00f3 \u00e0 espera de passar a quest\u00e3o do per\u00edodo de elei\u00e7\u00f5es que Mo\u00e7ambique est\u00e1 a viver, para depois entrarmos no terreno e podermos fazer a assist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Quer aproveitar este momento para, aos microfones da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia, lan\u00e7ar este apelo \u00e0 ajuda?\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Claro, n\u00f3s precisamos de apoio, porque, por vezes, n\u00f3s s\u00f3 vemos gente a sofrer, mas n\u00e3o podemos fazer nada, porque n\u00e3o temos como ajudar, e se houver C\u00e1ritas irm\u00e3s ou outros parceiros interessados em ajudar aqueles que sofrem, poderiam trabalhar connosco, que n\u00f3s fazemos chegar aquilo que s\u00e3o os recursos que gostariam que fossem aplicados para apoiar os mais necessitados. N\u00f3s somos uma organiza\u00e7\u00e3o religiosa, como sabe, e estamos comprometidos com o bem-estar do pr\u00f3ximo.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Sete anos depois dos conflitos, sente que Pemba e Cabo Delgado est\u00e3o cada vez mais esquecidos?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Eu acho que o ambiente de emerg\u00eancia agora j\u00e1 n\u00e3o se faz sentir tanto. Aqueles que sempre doaram entendem a emerg\u00eancia como algo que se desenvolve em pouco tempo.\u00a0 Ent\u00e3o agora o que se est\u00e1 a falar \u00e9 que n\u00f3s temos de implementar projetos de emerg\u00eancia, mas com uma componente de desenvolvimento, porque se a pessoa j\u00e1 ficou sete anos num ponto, acha-se que j\u00e1 \u00e9 tempo suficiente para a pessoa procurar meios de poder avan\u00e7ar com a sua vida, e n\u00e3o pensar em regressar para um s\u00edtio que abandonou h\u00e1 sete anos. Ent\u00e3o, os projetos que temos vindo a subscrever t\u00eam mesmo a ver com a quest\u00e3o de emerg\u00eancia versus desenvolvimento. Temos colocado a componente de desenvolvimento, sobretudo quando se fala de meios de vida, para que as pessoas comecem a viver por elas mesmas e n\u00e3o s\u00f3 a depender de apoios externos.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">N\u00e3o digo que Cabo Delegado esteja esquecido; n\u00e3o est\u00e1. Mas a falta de fundos d\u00e1 essa ideia de que parece estar esquecida.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Mas continua a haver raz\u00f5es de queixa da atua\u00e7\u00e3o nomeadamente da comunidade internacional?\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Algo de estranho que tem acontecido ultimamente: temos algumas ag\u00eancias que na altura n\u00e3o tinham mandato para executar ou implementar projetos, e que agora, nomeadamente algumas ag\u00eancias internacionais que ,no lugar de nos confiar, que somos organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o-governamentais locais a implementar, eles mesmos fazem o papel de implementadores e isso deixa-nos muito vulner\u00e1veis em termos de financiamento e as poucas organiza\u00e7\u00f5es que existem passam a vida a murmurar que est\u00e3o sendo exclu\u00eddas na quest\u00e3o de financiamento. Os financiamentos n\u00e3o est\u00e3o a ser transparentes!<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>E o Programa Alimentar Mundial?<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O Programa Alimentar tamb\u00e9m est\u00e1 a passar por momentos financeiros n\u00e3o muito bons. Como falamos a \u00faltima vez, o Programa Mundial de Alimenta\u00e7\u00e3o tinha anunciado que estava com problemas s\u00e9rios de dinheiro e que ia suspender algumas a\u00e7\u00f5es, mas depois conseguiram algum fundo que t\u00eam vindo a trabalhar de forma intermitente.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">H\u00e1 vezes que d\u00e3o, outras n\u00e3o d\u00e3o, em alguns s\u00edtios d\u00e3o um m\u00eas, outro m\u00eas n\u00e3o d\u00e3o. Os outros que t\u00eam sorte recebem todos os meses e assim a vida est\u00e1 andando. S\u00e3o mesmo as quest\u00f5es financeiras que est\u00e3o a fazer com que possa parecer que as organiza\u00e7\u00f5es n\u00e3o t\u00eam vontade de atender \u00e0queles que s\u00e3o os necessitados.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Isso poder\u00e1 ter a ver com outros conflitos em outras \u00e1reas do globo?<br \/>\n<\/em>Pode ser sim, porque a \u00faltima vez que contactamos os outros nossos financiadores da Europa disseram-nos que o foco deles agora \u00e9 olhar para as outras \u00e1reas que tamb\u00e9m est\u00e3o a sofrer por conflitos armados.\u00a0Ent\u00e3o, para Mo\u00e7ambique tem pouco a fazer; a grande aten\u00e7\u00e3o est\u00e1 virada para os outros pa\u00edses.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Manuel Nota, n\u00f3s falamos no primeiro dia da semana em que os eleitores mo\u00e7ambicanos escolhem o seu novo governo, as elei\u00e7\u00f5es s\u00e3o dia 9. Que expectativas t\u00eam?\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Vamos esperar para ver! Aquilo que eu acho \u00e9 que a popula\u00e7\u00e3o de Mo\u00e7ambique ir\u00e1 afluir em massa \u00e0s urnas, porque precisamos que as coisas mudem um pouco. Mas, porque o voto \u00e9 secreto, eu n\u00e3o gosto muito de avan\u00e7ar assim com tend\u00eancias&#8230; \u00a0Temos visto enchentes nas campanhas eleitorais, porque a nossa televis\u00e3o tem mostrado. At\u00e9 agora est\u00e1 quase equilibrado, vamos esperar para ver. Mas que estamos cansados, n\u00f3s estamos, com algumas maneiras de fazer as coisas.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>E durante a campanha eleitoral, sentiu preocupa\u00e7\u00e3o dos partidos em rela\u00e7\u00e3o a Cabo Delgado ou o tema foi ignorado?\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Bem, o conflito de Cabo Delgado j\u00e1 parece algo com que se convive. Parece que j\u00e1 nos habituamos a viver com ele.\u00a0 Um ou outro preocupa-se, fala e pronuncia-se um pouco sobre a quest\u00e3o da prov\u00edncia de Cabo Delgado e dos conflitos. Mas, para os outros, \u00e9 como se nada estivesse a acontecer; \u00e9 algo que praticamente j\u00e1 estamos a viver com ele. Ent\u00e3o, n\u00e3o h\u00e1 tanta preocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Ou seja, o conflito passa um pouco \u00e0 margem do resto do territ\u00f3rio?\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Bem, o conflito faz-se sentir muito em alguns distritos, n\u00e3o em toda a prov\u00edncia. Talvez seja este o motivo que em algum momento n\u00e3o se cria muita preocupa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>E por \u00faltimo perguntamos-lhe sobre o papel do Vaticano e em particular do Papa Francisco neste conflito. Por exemplo, em fevereiro disse no \u00e2ngelus que a viol\u00eancia contra popula\u00e7\u00f5es indefesas, a destrui\u00e7\u00e3o de infraestruturas e a inseguran\u00e7a est\u00e3o novamente desenfreadas na prov\u00edncia de Cabo Delgado. Como ouvem, como acolhem estas palavras do Papa Francisco e que fator de transforma\u00e7\u00e3o, de mudan\u00e7a encontram nesses pronunciamentos do Papa?\u00a0<\/em><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Eu acho que as palavras do Santo Padre criaram a mudan\u00e7a de estrat\u00e9gia dos insurgentes. Tenho acompanhado aqui a situa\u00e7\u00e3o e noto que agora eles j\u00e1 n\u00e3o t\u00eam sido cru\u00e9is como eram no princ\u00edpio. Em algum momento eles chegam a aldeias e dizem \u00e0 popula\u00e7\u00e3o para n\u00e3o fugir, que eles n\u00e3o est\u00e3o preocupados em matar a popula\u00e7\u00e3o. Ent\u00e3o isso mostra que as palavras do Papa Francisco foram ouvidas! Porque foram atacando pessoas indefesas e foram destruindo infraestruturas de uso p\u00fablico que, no final de contas, a popula\u00e7\u00e3o depois \u00e9 que sofre porque o seu hospital foi destru\u00eddo, porque a sua escola foi destru\u00edda, e agora acho que valeu um pouquinho porque mudaram de estrat\u00e9gia de atua\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><em>Portanto sentem nas palavras do Papa conforto e proximidade?<\/em><br \/>\nClaro, claro, n\u00f3s sentimos isso.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Manuel Nota \u00e9 o convidado da entrevista conjunta Ecclesia\/Renascen\u00e7a e afirma que h\u00e1 \u00abalta de fundos\u00bb para projetos de desenvolvimento, refere-se \u00e0s elei\u00e7\u00f5es em Mo\u00e7ambique e lamenta que os conflitos que duram h\u00e1 7 anos come\u00e7am a ser \u00abalgo com que se 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