{"id":34325,"date":"2008-09-27T15:25:10","date_gmt":"2008-09-27T15:25:10","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/09\/27\/nota-de-d-joaquim-goncalves-sobre-o-ano-paulino\/"},"modified":"2008-09-27T15:25:10","modified_gmt":"2008-09-27T15:25:10","slug":"nota-de-d-joaquim-goncalves-sobre-o-ano-paulino","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/nota-de-d-joaquim-goncalves-sobre-o-ano-paulino\/","title":{"rendered":"Nota de D. Joaquim Gon\u00e7alves sobre o Ano paulino"},"content":{"rendered":"<p>\u00abO Ano Paulino: a for\u00e7a do aut\u00f3grafo\u00bb <!--more--> 1 \u2013 Quase todas as semanas somos informados da apresenta\u00e7\u00e3o de livros ou de pinturas de artistas desta regi\u00e3o de Tr\u00e1s-os-Montes e Alto Douro aos amigos dos autores e \u00e0 sociedade em geral.  Haver\u00e1 nesse gesto a leg\u00edtima promo\u00e7\u00e3o das obras apresentadas, mas h\u00e1 tamb\u00e9m o sentimento de \u00abdar um rosto\u00bb \u00e0 obra apresentada. A presen\u00e7a f\u00edsica do autor e o aut\u00f3grafo gravado a quente em cada obra humanizam a obra, d\u00e3o-lhe calor, ajudam o p\u00fablico a senti-la por dentro, retirando-a do anonimato da prateleira ou da frieza de uma exposi\u00e7\u00e3o. A obra art\u00edstica perde o tom frio de um objecto comercial igual a tantos outros e passa a ser um ser vivo, sa\u00eddo do \u00abcora\u00e7\u00e3o\u00bb do autor ali presente. 2 \u2013 Isto pode ajudar-nos a perceber a originalidade e o mist\u00e9rio da B\u00edblia. O seu autor est\u00e1 sempre presente junto do leitor. De uma edi\u00e7\u00e3o da B\u00edblia pode algu\u00e9m fazer a sua apresenta\u00e7\u00e3o por causa da sua antiguidade, do luxo da encaderna\u00e7\u00e3o ou das iluminuras do texto, mas n\u00e3o da mensagem nela contida. O melhor da B\u00edblia n\u00e3o \u00e9 a express\u00e3o art\u00edstica, mas a mensagem de Deus que nos fala atrav\u00e9s dos textos e dos recursos art\u00edsticos. \u00c9 o que se quer dizer ao chamar-lhe \u00ablivro inspirado\u00bb: o autor da B\u00edblia \u00e9 o pr\u00f3prio Deus e s\u00f3 Ele pode \u00abdar aut\u00f3grafos\u00bb, imprimir \u00abdedadas\u00bb no cora\u00e7\u00e3o do leitor. Isto n\u00e3o quer dizer que o texto da B\u00edblia haja sido ditado letra a letra ou frase a frase pelo pr\u00f3prio Deus, como dela pensavam os antigos rabinos e pensam os mu\u00e7ulmanos acerca do seu livro \u00abO Cor\u00e3o\u00bb. O texto b\u00edblico foi redigido por homens que lhe imprimiram o seu cunho pessoal, utilizando os elementos hist\u00f3ricos e liter\u00e1rios de que eram possuidores, podendo chamar-se por isso verdadeiros \u00abautores\u00bb dos textos. \u00c9 poss\u00edvel aproveitar os muitos e belos recursos art\u00edsticos presentes na B\u00edblia, como fez Cam\u00f5es nos \u00abLus\u00edadas\u00bb para evocar a batalha de Aljubarrota, mas ficar a\u00ed seria um empobrecimento do texto b\u00edblico, uma esp\u00e9cie de laicismo.  Outro dos elementos usados pelos escritores para a revela\u00e7\u00e3o da mensagem de Deus \u00e9 a hist\u00f3ria dos antigos Hebreus. Trata-se dos antigos Hebreus enquanto \u00abPovo de Deus\u00bb. N\u00e3o se faz, contudo, um tratado rigoroso da hist\u00f3ria hebraica, pois n\u00e3o \u00e9 essa a finalidade da B\u00edblia, mas somente na medida em que isso interessa \u00e0 finalidade reveladora. Por esse motivo, falar de \u00abinspira\u00e7\u00e3o\u00bb da B\u00edblia \u00e9 diferente de falar de \u00abinerr\u00e2ncia\u00bb hist\u00f3rica da B\u00edblia ou aus\u00eancia de erro: a B\u00edblia n\u00e3o tem erros acerca da mensagem religiosa a transmitir, mas pode conter inexactid\u00f5es hist\u00f3ricas, geogr\u00e1ficas, de astronomia ou de ci\u00eancias naturais. Os textos do Antigo Testamento foram escritos durante os \u00faltimos nove s\u00e9culos da vida desse povo, antes de Jesus. Ap\u00f3s a vinda de Jesus, o Messias prometido a esse Povo, a hist\u00f3ria posterior de Israel deixa de ser considerada como portadora de qualquer mensagem especial, sem que isso justifique sentimentos de anti-semitismo. Da comunidade nascida dos seguidores de Jesus, a que Paulo chama o novo Israel, nascer\u00e3o outros textos portadores de mensagem de Deus e que formam a segunda parte da B\u00edblia ou Novo Testamento, a acrescentar aos que j\u00e1 vinham dos antigos Hebreus.  3 \u2013 Ao ler a B\u00edblia \u00e9, portanto, indispens\u00e1vel ter consci\u00eancia de que Deus quer falar ao leitor por meio daquele texto: pela hist\u00f3ria e por par\u00e1bolas, por exemplos edificantes e pelo fracasso, por linguagem comum e por n\u00fameros.  A B\u00edblia dirige-se \u00e0 intelig\u00eancia e ao cora\u00e7\u00e3o do homem religioso, ensina e faz sentir. Escreveu o c\u00e9lebre jesu\u00edta Lu\u00eds Alonso Schokel, professor do Instituto B\u00edblico de Roma, que \u00aba B\u00edblia cont\u00e9m doutrina e cont\u00e9m for\u00e7a; no contexto do Logos ensina, no contexto do Esp\u00edrito d\u00e1 for\u00e7a\u00bb. H\u00e1 obras cl\u00e1ssicas justamente c\u00e9lebres pela sua mensagem e beleza, como a Odisseia e a Il\u00edada de Homero, a Eneida de Virg\u00edlio, o Hamlet de Shakespeare, os Lus\u00edadas de Cam\u00f5es ou o D. Quixote de Cervantes. Essas obras podem ser exemplares de comportamentos humanos e \u00e9ticos, e de beleza art\u00edstica, mas n\u00e3o s\u00e3o portadoras oficiais da mensagem de Deus. A B\u00edblia \u00e9 o \u00fanico caso hist\u00f3rico em que isso acontece. \u00c9, pois, muito delicado falar dos textos b\u00edblicos como \u00abas mais maravilhosas hist\u00f3rias do mundo\u00bb ou da \u00abmagia das hist\u00f3rias da B\u00edblia\u00bb, como se ouve dizer na promo\u00e7\u00e3o de edi\u00e7\u00f5es e de filmes, colocando a B\u00edblia ao n\u00edvel dos contos exemplares da literatura mundial. Compreende-se a boa inten\u00e7\u00e3o, mas alerta-se para a ambiguidade da express\u00e3o.  4 \u2013 Na fidelidade \u00e0 proposta do Papa, fa\u00e7a o leitor a revis\u00e3o da sua vida pessoal e do seu grupo. Os livros lit\u00fargicos usados na Missa (Leccion\u00e1rios e Evangeli\u00e1rios) cont\u00eam os extractos mais significativos da B\u00edblia, dispostos de maneira a fazer compreender o seu dinamismo interno e a mensagem nela revelada. A leitura desses textos pode constituir mesmo uma inicia\u00e7\u00e3o \u00e0 leitura da B\u00edblia.  Compreende o leitor por que motivo se organizam as leituras lit\u00fargicas de modo que a primeira, extra\u00edda do Antigo Testamento, seja o an\u00fancio do que depois se realiz ou em plenitude no Evangelho, a terceira leitura? O Antigo Testamento \u00e9 como que a semente, a raiz da \u00e1rvore que desabrocha no Novo. Compreende por que raz\u00e3o se leva em cortejo o livro dos Evangelhos, e, na altura pr\u00f3pria, todos se colocam de p\u00e9, incluindo o Bispo e o Papa, e se incensa e beija o livro dos Evangelhos? A palavra proclamada \u00e9 insepar\u00e1vel de Jesus Ressuscitado, presente pelo Esp\u00edrito Santo. Acha \u00abexcessivo e cerimonioso\u00bb o tempo dedicado \u00e0 liturgia da Palavra na Missa (leituras, c\u00e2ntico do salmo, reflex\u00e3o, sil\u00eancio)? \u00c9 que n\u00e3o se trata de dar uma breve informa\u00e7\u00e3o jornal\u00edstica, satisfazer uma curiosidade, mas de interiorizar a mensagem religiosa e essa entra pelos olhos, pelos ouvidos, pelo ritmo, pelo olfacto. Nas celebra\u00e7\u00f5es, quando \u00e9 chamado a fazer as leituras, coloca o leitor brio e sensibilidade afectiva na dic\u00e7\u00e3o, na divis\u00e3o e paragem das frases? Sente que essa arte da proclama\u00e7\u00e3o ajuda o ouvinte, prolongando o trabalho dos escritores que escolheram linguagem apropriada para transmitir o mist\u00e9rio de Deus?  <i>D. Joaquim Gon\u00e7alves, Bispo de Vila Real  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u00abO Ano Paulino: a for\u00e7a do aut\u00f3grafo\u00bb<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[113,183,246],"class_list":["post-34325","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-ano-paulino","tag-diocese-de-vila-real","tag-liturgia"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34325","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=34325"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34325\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=34325"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=34325"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=34325"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}