{"id":34320,"date":"2008-09-27T14:43:52","date_gmt":"2008-09-27T14:43:52","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/09\/27\/discurso-de-d-jorge-ortiga-no-viii-encontro-das-igrejas-lusofonas\/"},"modified":"2008-09-27T14:43:52","modified_gmt":"2008-09-27T14:43:52","slug":"discurso-de-d-jorge-ortiga-no-viii-encontro-das-igrejas-lusofonas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/discurso-de-d-jorge-ortiga-no-viii-encontro-das-igrejas-lusofonas\/","title":{"rendered":"Discurso de D. Jorge Ortiga no VIII Encontro das Igrejas Lus\u00f3fonas"},"content":{"rendered":"<p>Diocese de Macau como refer\u00eancia social e eclesial <!--more--> Sinto-me lisonjeado por poder pronunciar algumas palavras neste momento em que o Instituto Internacional de Macau atribui o \u201cPr\u00e9mio Identidade\u201d \u00e0 Diocese de Macau. Lamento n\u00e3o me sentir com a capacidade intelectual que o evento merece. Desculpem-me pelo humilde contributo e olhem para al\u00e9m das pobres afirma\u00e7\u00f5es.  Num per\u00edodo de globaliza\u00e7\u00e3o assistimos a um crescente individualismo e liberalismo que, mal entendidos, degeneram o conceito do \u201corgulho de ser na fidelidade ao paradigma que determinou a origem e acompanha o quotidiano da vida das pessoas e das institui\u00e7\u00f5es. Parece ter valor o caduco e passageiro que se aproveita conforme raz\u00f5es emotivas, passageiras e moment\u00e2neas.  Neste proliferar de interpreta\u00e7\u00f5es a \u201cfidelidade\u201d vai-se perdendo e o medo por ser o que se deve ser atenua-se por medo \u00e0 diferen\u00e7a. Como exemplo deste unimorfismo conservador os arautos da modernidade colocam a Igreja. Acontece, por\u00e9m, que esta reconhece a sua origem noutros horizontes e sabe que deve caminhar norteada pelos valores transcendentes que vencem as barafundas da confus\u00e3o intelectual, moral e social.  A Diocese, como presen\u00e7a vis\u00edvel da Igreja, ter\u00e1 de sublinhar uma identidade inquestion\u00e1vel ainda que pare\u00e7a que os ventos soprem doutros lados. N\u00e3o \u00e9 insens\u00edvel aos sinais do tempo pois caminha com o ser humano na resposta aos seus enigmas e sabe ser sens\u00edvel sem trair o seu ide\u00e1rio.  A Diocese de Macau \u00e9 paradigma desta identidade, no passado e no presente. Foi no passado uma vez que a hist\u00f3ria de Macau se torna incompreens\u00edvel sem a sua presen\u00e7a e interven\u00e7\u00e3o. Fiel \u00e0 sua maneira de viver abre-se \u00e0 multiculturalidade, entre outros aspectos, suscitando prosperidade para o povo atrav\u00e9s de liga\u00e7\u00f5es comerciais com o Jap\u00e3o que as leis imperiais chinesas impediam. A livre iniciativa dos mercadores procurava vantagens econ\u00f3micas em variad\u00edssimos lugares mas a marca duma cultura pr\u00f3pria continuava sempre presente. O P.e Silva Rego dizia que, no passado e num cen\u00e1rio onde a Diocese dava orienta\u00e7\u00f5es, os portugueses se portavam como o bambu. \u201cQuando o tuf\u00e3o soprava forte vergavam, quase at\u00e9 quebrar, para logo de seguida se erguerem, prontos a recome\u00e7ar\u201d. Esta imagem \u00e9 feliz e acompanhou a Diocese desde a sua cria\u00e7\u00e3o, em 23 de Janeiro de 1576, pelo Papa Greg\u00f3rio XIII, pela Bula Super Specula Militantis Ecclesiae, com jurisdi\u00e7\u00e3o \u201cem toda a China, Jap\u00e3o, Coreia e ilhas adjacentes. \u201cDaqui surgiram cerca de 600 dioceses e Macau marca e preserva a sua identidade como ponto de chegada, de partida, de forma\u00e7\u00e3o de mission\u00e1rios que chegaram a exercer influ\u00eancias at\u00e9 na Corte de Pequim.  Poder\u00e1 parecer inoportuna esta sumar\u00edssima refer\u00eancia a Macau. S\u00f3 que aqui encontramos uma marca indel\u00e9vel do trabalho que a Diocese realizou ao longo dos tempos. A uni\u00e3o estreita entre a esfera civil e religiosa permite afirmar que a vida daquela col\u00f3nia portuguesa era, em grande parte, conduzida pela Igreja, ou seja, Diocese. Isto, dentro do esp\u00edrito imperialista portugu\u00eas mas, dum modo especial\u00edssimo, da catolicidade da Diocese, alargou horizontes, provocou encontro com culturas e harmonizou o que parecia irreconcili\u00e1vel. O que Macau realizou de rela\u00e7\u00e3o com o oriente, em grande medida, deve-se a esta caracter\u00edstica da \u201cidentidade\u201d cat\u00f3lica da sua Igreja.  Na actualidade, a Diocese de Macau prossegue o seu caminho numa identidade caracter\u00edstica que a demarca doutras realidades e se expressa em iniciativas com um cunho de valor incalcul\u00e1vel. N\u00e3o me refiro \u00e0 import\u00e2ncia de forma\u00e7\u00e3o de consci\u00eancias que a liturgia e a catequese desempenham. Olho, particularmente, para duas \u00e1reas que, na minha ignor\u00e2ncia mas por contacto pessoal numa breve visita efectuada h\u00e1 poucos anos, continuam a esbo\u00e7ar uma identidade peculiar na aten\u00e7\u00e3o aos valores locais mas acrescentando um pormenor distintivo e caracter\u00edstico.  A ac\u00e7\u00e3o social promovida pela Diocese de Macau \u00e9 um refer\u00eancia geradora de solidariedade e manifesta\u00e7\u00e3o duma verdadeira op\u00e7\u00e3o pelos pobres. S\u00e3o cinco s\u00e9culos repletos dum amor vivido no relacionamento m\u00fatuo e no compromisso assumido por variad\u00edssimas institui\u00e7\u00f5es. \u00c9 um longo caminho com os mais necessitados onde n\u00e3o se fecha os olhos para n\u00e3o ver. O presente parece atenuar esta necessidade de solicitude. S\u00f3 que a Igreja e a Diocese dever\u00e1, sempre, considerar constitutiva da sua identidade os problemas escondidos ou mal resolvidos. Ouso recordar quanto o Papa Bento XVI nos recorda: \u201c\u00c9 muito importante que a actividade caritativa da Igreja mantenha todo o seu esplendor e n\u00e3o se dissolva na organiza\u00e7\u00e3o assistencial comum, tornando-se uma simples variante da mesma \u2026 \u201cTodos os que trabalham nas institui\u00e7\u00f5es caritativas da Igreja devem distinguir-se por isto: n\u00e3o se limitam a executar habilidosamente a ac\u00e7\u00e3o conveniente naquele momento, mas dedicam-se ao outro com as aten\u00e7\u00f5es sugeridas pelo cora\u00e7\u00e3o, de modo que ele sinta a sua riqueza de humanidade. Por isso, para tais agentes, al\u00e9m da prepara\u00e7\u00e3o profissional, requer-se tamb\u00e9m, e sobretudo, a \u00abforma\u00e7\u00e3o do cora\u00e7\u00e3o\u00bb: \u00e9 preciso lev\u00e1-los \u00e0quele encontro com Deus em Cristo que suscite neles o amor e abra o seu \u00edntimo ao outro de tal modo que, para eles, o amor do pr\u00f3ximo j\u00e1 n\u00e3o seja um mandamento, por assim dizer, imposto de fora, mas uma consequ\u00eancia resultante da sua f\u00e9, que se torna operativa pelo amor\u201d.  Acredito que a Diocese de Macau testemunhou esta identidade e nunca fugir\u00e1 deste cunho original e caracter\u00edstico de aten\u00e7\u00e3o aos mais pobres.  Outra dimens\u00e3o onde a identidade da Diocese de Macau emerge e continuar\u00e1 a responder aos desafios, \u00e9 o campo da educa\u00e7\u00e3o. Vejo a educa\u00e7\u00e3o como a capacidade de \u201caprender a ser\u201d homens e mulheres capazes de realizar um mundo mais equitativo e irm\u00e3o. Cito Edgar Faure: \u201c\u2026 a educa\u00e7\u00e3o para formar este homem completo, cujo advento se torna mais necess\u00e1rio \u00e0 medida que coac\u00e7\u00f5es sempre mais duras separam e atomizam cada ser, ter\u00e1 de ser global e permanente. Trata-se de n\u00e3o mais adquirir, de maneira exacta, conhecimentos definitivos, mas de se preparar para elaborar, ao longo de toda a vida, um saber em constante evolu\u00e7\u00e3o e de \u201caprender a ser\u201d (Edgar Faure, Aprender a Ser \u2013 Relat\u00f3rio da Comiss\u00e3o Internacional para o Desenvolvimento da Educa\u00e7\u00e3o, Unesco, Lisboa, 1977).  Creio que a identidade da Diocese de Macau na actividade formativa est\u00e1 nesta educa\u00e7\u00e3o integral onde o humano se torna alicerce duma abertura ao transcendente como verdadeira explica\u00e7\u00e3o da identidade humana. A Igreja empenhando-se na educa\u00e7\u00e3o n\u00e3o pretende s\u00f3 transmitir conhecimentos. Importa que seja capaz de gerar o que anuncia por palavras. Isto pode parecer invis\u00edvel aos olhos, mas \u00e9 o trabalho da Igreja. Nem sempre se mede mas tem valor. Alguns reconhecem, outros desprezam e ridicularizam. A identidade est\u00e1 aqui nesta fidelidade que \u00e9 fonte de esperan\u00e7a para um mundo novo.  \u201cA mensagem crist\u00e3 n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 \u201cinformativa\u201d, mas \u201cperfomativa\u201d. Significa isto que o Evangelho n\u00e3o \u00e9 apenas uma comunica\u00e7\u00e3o de realidades que se podem saber, mas uma comunica\u00e7\u00e3o que gera factos e muda a vida. A porta tenebrosa do tempo, do futuro, foi aberta de par em par. Quem tem esperan\u00e7a, vive diversamente; foi-lhe dada uma vida nova\u201d (Bento XVI, Spe Salvi, 2).  Atribuir \u00e0 Diocese de Macau o Pr\u00e9mio Identidade, para mim, \u00e9 reconhecimento dum caminho percorrido mas, simultaneamente, prece para que continue a manifestar o seu ser Igreja, porventura na diferen\u00e7a e sempre na fidelidade aos valores eternos, para que, na sua pequenez territorial seja esperan\u00e7a para o mundo que a rodeia.  Termino com nova cita\u00e7\u00e3o do Papa Bento XVI: \u201cA vida humana \u00e9 um caminho. Rumo a qual meta? Como achamos o itiner\u00e1rio a seguir? A vida \u00e9 como uma viagem no mar da Hist\u00f3ria, com frequ\u00eancia enevoada e tempestuosa, uma viagem na qual perscrutamos os astros que nos indicam a rota. As verdadeiras estrelas da nossa vida s\u00e3o as pessoas que souberam viver com rectid\u00e3o. Elas s\u00e3o luzes de esperan\u00e7a. Certamente, Jesus Cristo \u00e9 a luz por antonom\u00e1sia, o sol erguido sobre todas as trevas da hist\u00f3ria. Mas, para chegar at\u00e9 Ele precisamos tamb\u00e9m de luzes vizinhas, de pessoas que d\u00e3o luz recebida da luz dele e oferecem, assim, orienta\u00e7\u00e3o para a nossa travessia. E quem mais do que Maria poderia ser para n\u00f3s estrela de esperan\u00e7a? Ela que, pelo seu \u201csim\u201d, abriu ao pr\u00f3prio Deus a porta do nosso mundo; Ela que se tornou a Arca da Alian\u00e7a viva, onde Deus Se fez carne, tornou-se um de n\u00f3s e estabeleceu a sua tenda no meio de n\u00f3s (cf. Jo. 1, 14).  <i>\u2020 D. Jorge Ortiga, A. P.    <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Diocese de Macau como refer\u00eancia social e eclesial<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[100,120,127,193,230,246,314],"class_list":["post-34320","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-advento","tag-bento-xvi","tag-catequese","tag-educacao","tag-igrejas-lusofonas","tag-liturgia","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34320","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=34320"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/34320\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=34320"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=34320"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=34320"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}