{"id":34252,"date":"2008-09-23T12:19:56","date_gmt":"2008-09-23T12:19:56","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/09\/23\/o-bispo-que-dispensava-a-farda\/"},"modified":"2008-09-23T12:19:56","modified_gmt":"2008-09-23T12:19:56","slug":"o-bispo-que-dispensava-a-farda","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-bispo-que-dispensava-a-farda\/","title":{"rendered":"O Bispo que dispensava a farda"},"content":{"rendered":"<p>Cultiva a proximidade com as pessoas, tamb\u00e9m como Bispo. Um ano ap\u00f3s a sua ordena\u00e7\u00e3o episcopal, D. Ant\u00f3nio Couto revela o que o deslumbra e o gosto por \u00abdevorar livros\u00bb <!--more--> <i> AE- Quando soube da sua nomea\u00e7\u00e3o, h\u00e1 um ano atr\u00e1s, estava num retiro. Foi inesperado? Como reagiu a esta not\u00edcia? AC &#8211; <\/i>Quando o N\u00fancio Apost\u00f3lico chegou, eu pensava que seria uma conversa como muitas outras que habitualmente t\u00ednhamos sobre assuntos da Sociedade da Boa Nova. Mas disse-me que eu tinha sido nomeado para titular da diocese de Azura e auxiliar da diocese de Braga. \u00abAceita?\u00bb Eu ouvi isto, ele calou-se e estivemos em sil\u00eancio uns bons cinco minutos a olhar um para o outro.   <i>AE &#8211; Estiveram cinco minutos em sil\u00eancio? AC &#8211; <\/i>Sim. Ele n\u00e3o disse nada e eu nada disse. Durante cinco minutos fiquei calado.   <i>AE &#8211; O que se passava na sua cabe\u00e7a nesse tempo? AC &#8211; <\/i>Eu estava a perguntar-me porque n\u00e3o consegui dizer nada. N\u00e3o se tratava de pensar o que ia responder sobre aquela mat\u00e9ria. Fiquei paralisado. E foi ele que interrompeu o sil\u00eancio, dizendo que este era um sinal exterior, n\u00e3o meu, que vinha de outro lado. Nessa altura eu disse \u00abse vem de Deus, ent\u00e3o n\u00e3o posso dizer que n\u00e3o\u00bb.  <i>AE &#8211; Aceitou na hora? AC &#8211; <\/i>Ele tamb\u00e9m n\u00e3o me perguntou se eu precisa de tempo para pensar. Deve ter visto a minha atitude naquele sil\u00eancio gritante e, deve ter presumido que n\u00e3o era assunto para me dar tempo. Quando ele me disse que vinha de Deus eu respondi que \u00abnunca tinha dito n\u00e3o a Deus\u00bb, que me lembre. E disse \u00abseja o que Deus quiser\u00bb.  <i>AE &#8211; \u00c9 sempre pronto nas respostas? AC &#8211; <\/i>Nesta n\u00e3o fui muito pronto. Demorei cinco minutos.   <i>AE &#8211; Foram cinco minutos para decidir uma vida&#8230;. AC &#8211; <\/i>Lembrei algumas passagens da B\u00edblia, em que Mois\u00e9s ou Jeremias s\u00e3o chamados e dizem \u00abmas eu n\u00e3o sei falar\u00bb. Foi isto que eu senti. N\u00e3o se trata de ficar a pensar no assunto, mas a incapacidade de dizer fosse o que fosse.  Penso que \u00e9 esta a atitude b\u00edblica. Com coisas desta natureza, quando Deus entra \u00abao barulho\u00bb e temos que assumir coisas directas entre n\u00f3s e Deus, a atitude \u00e9 ficar em sil\u00eancio e, depois, num segundo momento, acabamos por dizer que sim. E neste sentido, se \u00e9 de Deus, ent\u00e3o que seja o que Deus quiser.  <i>AE &#8211; Quais foram as palavras que D. Jorge Ortiga lhe dirigiu ap\u00f3s ter aceite a nomea\u00e7\u00e3o? AC &#8211; <\/i>Foram coisas muito pr\u00e1ticas. J\u00e1 t\u00ednhamos falado pelo telefone, onde D. Jorge manifestou o seu contentamento, dizendo que esperava que eu ajudasse a dar um novo ritmo \u00e0 diocese. Mas quando nos encontr\u00e1mos no retiro, foi para tratar da data da ordena\u00e7\u00e3o episcopal. Ele queria que fosse o quanto antes.   <b>Batalhas perdidas<\/b> <i>AE &#8211; Disse na sua ordena\u00e7\u00e3o episcopal que as batalhas que travava com Deus t\u00eam sido ganhas por Deus de mil a zero. Continua a ser assim? AC &#8211; <\/i>(risos) \u00c9 verdade. Sinto isso e espero que continue a ser assim. Desde que me conhe\u00e7o a minha vida sempre foi assim. Desde que comecei a querer ir para o Semin\u00e1rio, tinha nove anos&#8230;  <i>AE &#8211; Como \u00e9 que surgiu a voca\u00e7\u00e3o aos nove anos? AC &#8211; <\/i>Eu sempre gostei muito da igreja da minha par\u00f3quia. \u00c9 uma igreja antiga, rom\u00e2nica de origem, e muito bonita ao ponto de ficarmos esmagados pelo seu esplendor. E para uma crian\u00e7a que andava no mundo dos adultos, isso fascinava-me. Lembro-me de entrar na igreja e sentir que aquilo era outra coisa. Em minha casa, era preciso uma candeia acesa para se ver alguma coisa. Na igreja tudo era grandioso. Os mosaicos, os dourados das talhas, um mundo fabuloso para uma crian\u00e7a. Muitas vezes, durante a semana, eu ia \u00e0 missa porque gostava de estar no meio daquela sublimidade. Isso \u00e9 que me levava a aproximar daquele lugar sagrado. E gostava de ser ac\u00f3lito. O nosso padre era muito idoso, estava na par\u00f3quia h\u00e1 mais de 50 anos e dizia, para estimular os rapazes, que quem chegasse primeiro ajudava no altar como ac\u00f3lito. E era quase sempre eu. A missa era \u00e0s 6h30 mas eu ia mais cedo para chegar em primeiro lugar.   <i>AE &#8211; Foi influ\u00eanciado pelo seu p\u00e1roco? AC &#8211; <\/i>Esse padre teve alguma influ\u00eancia em mim. Era idoso, mas um homem muito piedoso, uma pessoa muito dedicada, fazia o servi\u00e7o com muita honestidade, mas algo r\u00edspido e austero. Mas a vida dele era a Igreja e o povo.  Eu admirava-o, ainda que fosse dif\u00edcil lidar com ele. Quase t\u00ednhamos medo de falar com ele, pela dist\u00e2ncia e pelo respeito. Mas para lidar com as crian\u00e7as ele tinha um certo carinho. E come\u00e7ou ai. Ele, pessoalmente, nunca me disse que eu podia ir para o semin\u00e1rio, nem eu tinha pensado nisso.   <i>AE &#8211; O fasc\u00ednio era no sagrado&#8230; AC &#8211; <\/i>Sim, fascinava-me o sagrado e a igreja, aquele mundo, mas n\u00e3o tinha colocado a hip\u00f3tese do sacerd\u00f3cio. Entretanto passou um padre pela minha escola, como era habitual naquela altura e perguntou quem gostaria de ser padre. Houve uns tr\u00eas ou quatro que levantaram a m\u00e3o. E eu fui um deles. Aquele padre era claretiano dos Carvalhos e como eu dei o nome, ele passou a enviar-me livros, santinhos, bibliografia e, inclusivamente, passou por minha casa. E foi ai que comecei a pensar no assunto sozinho. Em termos claros, nunca disse nada.  O meu pai apercebia-se porque o padre envia-me coisas e de vez em quando passava l\u00e1 em casa. Mas, naquele tempo, havia muita gente no semin\u00e1rio. Pouca gente estudava. Na minha turma da prim\u00e1ria deviam ser uns 30 e apenas sa\u00edram tr\u00eas para estudar em diferentes semin\u00e1rios.  Mas n\u00e3o foi o padre dos Carvalhos que me puxou para a congrega\u00e7\u00e3o. Foram outros colegas das freguesia que andavam em Tomar, no Semin\u00e1rio das Miss\u00f5es. E nessa altura, quando \u00e9 para decidir, o que me puxou foi haver nove ou dez da minha freguesia em Tomar. Quando decidi, fui para onde andavam os outros.  <i>AE &#8211; Como reagiram quando disse que queria ir para o Semin\u00e1rio? AC &#8211; <\/i>Em minha casa ningu\u00e9m gostou. Houve um sil\u00eancio sepulcral. Tanto que fui sozinho de autocarro at\u00e9 Marco de Canaveses e depois de comboio para Tomar. E era longe. Foi um dia e uma noite a viajar de comboio, uma coisa impressionante para um mi\u00fado de 10 anos&#8230;  <i>AE &#8211; Nessa idade j\u00e1 tinha uma ideia cheia de certeza&#8230; AC &#8211; <\/i>\u00c9 curioso que sim. Decidi sozinho. Passava horas a pensar no assunto, mesmo de noite eu pensava. E decidi de facto que ia, porque percebi uma presen\u00e7a de Deus muito perto de mim. E pensei que tinha de responder a este Deus de uma maneira concreta.  Tinha dito em casa e percebi que n\u00e3o tinha receptividade, que a ideia dos meu pais era que n\u00e3o fosse.  <i>AE &#8211; Apesar de ser de uma fam\u00edlia muito religiosa&#8230; AC &#8211; <\/i>Sim. Eu vivia com a minha av\u00f3 e a minha m\u00e3e e, essencialmente elas, eram pessoas muito religiosas. Sempre me puxaram para ir para a igreja. A minha av\u00f3 era muito religiosa&#8230;  <i>AE &#8211; Foi um marco para si? AC &#8211; <\/i>Isso sim, foi importante. A forma como a minha av\u00f3 e a minha m\u00e3e viam o mundo e a vida. Qualquer coisa que acontecia para elas era Deus que estava por tr\u00e1s, e todos os filhos notavam isso. Rezava-se sempre antes das refei\u00e7\u00f5es, \u00e0 noite rezava-se o ter\u00e7o, uma trovoada para elas eram um sinal e l\u00e1 acendiam todas as velas da casa. Era ali\u00e1s a \u00fanica vez em que se acendiam as velas que havia em casa.  Era uma religiosidade que para as crian\u00e7as era importante e despertadora de algo mais. Mas n\u00e3o interferiam em nada, porque tudo foi comigo.   <i>AE &#8211; A falta de acolhimento p\u00f4s em causa a sua decis\u00e3o? AC &#8211; <\/i>N\u00e3o. O curioso \u00e9 que quando eu disse pela primeira vez, percebi que ningu\u00e9m estava para a\u00ed virado. Muito pelo contr\u00e1rio, nem me pagavam os estudos. Foi gente da par\u00f3quia que quando se apercebeu que eu queria ir para o semin\u00e1rio, se disponibilizou para pagar. Disse que ia para Tomar fazer o est\u00e1gio, que eram oito dias e, informei a dizer que ia no tal dia. Fui sozinho para o autocarro e para o comboio. Fui e vim sozinho, numa viagem que fiz pela primeira vez de comboio.   <i>AE &#8211; E quando regressou vinha com mais certezas? AC &#8211; <\/i>Sim. Quando regressei tinha a ideia que era mesmo para come\u00e7ar o curso quando chegasse Outubro. Perguntaram-me se eu ia mesmo para o semin\u00e1rio e eu disse que sim.  Sempre houve um grande sil\u00eancio quando raramente se falava nisso. Esta luta foi comigo. Foi entre mim e Deus. Eles puseram-se de lado, n\u00e3o interferiram, n\u00e3o se pronunciavam. Percebia bem que da parte da minha m\u00e3e e da minha av\u00f3 elas queriam que eu fosse para o semin\u00e1rio, mas n\u00e3o queriam que eu fosse para longe nem que sa\u00edsse de casa. Esse era o maior problema. Mas eu fui e esse foi o primeiro combate a s\u00f3s.  <i>AE &#8211; Em que Deus ganhou?   AC &#8211; <\/i>Em que Ele ganhou e em que eu senti, muito concretamente e por isso falo muitas vezes nisto, que Deus n\u00e3o era um Deus fechado, nas paredes douradas da sua eternidade, mas \u00e9 um Deus que est\u00e1 aqui no meio de n\u00f3s nas horas certas e, quando \u00e9 importante n\u00f3s sentirmos a sua presen\u00e7a, Ele est\u00e1 l\u00e1.  <i>AE &#8211; T\u00e3o cedo percebeu isso? AC &#8211; <\/i>Com 10 anos percebi isso e essa continua a ser a ideia mais firme da minha vida que nunca passou. Tudo o resto n\u00f3s compomos, pois \u00e9 uma quest\u00e3o de interpreta\u00e7\u00e3o. Esta ideia, aos 10 anos, era clara em mim e clara permaneceu at\u00e9 hoje em mim. Nem eu sei explicar muito bem, sei que foi assim.   <i>AE &#8211; As batalhas foram sendo ganhas por Deus&#8230; AC &#8211; <\/i>Foram. Claro que depois temos mesmo que decidir. Para o semin\u00e1rio qualquer um vai, muitos n\u00e3o sabem o que v\u00e3o fazer, mas eu sabia. Quando fui para o semin\u00e1rio, a minha ideia era situar-me naquele mundo, que para mim n\u00e3o era s\u00f3 de um imagin\u00e1rio, mas de teor deslumbrante que via na minha igreja. As coisas em latim que dizia o velho abade e eu ficava espantado, era isso que me fascinava. N\u00e3o fui por qualquer coisa. Quando fui a minha ideia era ser padre, j\u00e1 nessa altura. E essa ideia nunca a tirei. Quando chegou a altura de tomar a decis\u00e3o, nunca precisei de pensar, nem precisei de cinco minutos. (risos) Para mim era \u00f3bvio que era esse o caminho. Da\u00ed at\u00e9 ser padre n\u00e3o houve qualquer atropelo na vida.  Est\u00e1vamos na altura da revolu\u00e7\u00e3o de 1974. Eu era estudante, mas isso n\u00e3o me afectou em nada. Comecei a pegar muito na B\u00edblia e a l\u00ea-la porque percebi que ali andava o mundo de Deus que eu gostaria de espremer e perceber melhor.   <b>O fasc\u00ednio dos livros<\/b> <i>AE &#8211; Foi claro desde o in\u00edcio do caminho, a inclina\u00e7\u00e3o para o estudo sobre a Palavra de Deus? AC &#8211; <\/i>Logo no princ\u00edpio n\u00e3o. Mas desde cedo me dediquei a ler com rigor a B\u00edblia, com muita aten\u00e7\u00e3o. Houve um ou outro texto que come\u00e7ou a vacinar-me, um ou outro que eu ouvi na liturgia, alguns cantados em latim que mais ou menos conseguia traduzir e o estudo do latim para o portugu\u00eas come\u00e7ou a mexer comigo. Primeiro o latim, depois o hebraico. Come\u00e7ou ai o gosto. Ouvia o texto em latim, ia tentar perceber como se dizia em portugu\u00eas e comecei a entrar dentro desse mundo, que era de Deus, que quanto mais entrava, mais fascinado ficava. Nunca mais consegui deixar a Escritura.   <i>AE &#8211; E chegou a Roma para aprofundar os seus estudos&#8230; AC &#8211; <\/i>Quando cheguei a Roma um dos primeiros cursos que fiz foi sobre o livro de Job. Eu ia \u00e0s aulas mas nunca fiz nenhuma pergunta ao professor. Lembro-me que quando cheguei ao dia do exame oral, a primeira pergunta que o professor me fez foi perguntar \u00abo senhor o que veio aqui fazer?\u00bb. E eu disse que queria saber melhor a l\u00ednguas originais em que a B\u00edblia est\u00e1 escrita. Porque ele tamb\u00e9m tinha percebido que o resto eu j\u00e1 sabia. E ele de facto fez a pergunta certa, porque eu n\u00e3o ia l\u00e1 fazer nada. Eu j\u00e1 tinha lido, seguramente, uma centena de livros sobre Job.  E sempre fui assim. Quando ia fazer um exame qualquer nas \u00e1reas de teologia, mesmo antes de chegar a Roma, eu n\u00e3o lia nada do que o professor recomendava, n\u00e3o lia as sebentas. Mas metia-me na biblioteca e o que havia sobre a mat\u00e9ria, eu lia tudo.   <i>AE &#8211; Mais do que um estudante aplicado era interessado&#8230; AC &#8211; <\/i>Eu lia tudo a monte. Quando ia fazer um exame sobre determinado assunto tinha a convic\u00e7\u00e3o que sabia mais do que o professor. Eu pensava \u00abpode perguntar \u00e0 vontade que comigo n\u00e3o h\u00e1 problema\u00bb.  Sempre gostei muito das escrituras. Cedo entrei nelas e comecei a perceber melhor como se moviam as personagens, como Deus lidava com elas e comigo, e desse \u201cv\u00edcio\u201d nunca mais me vi livre. Que equivale a dizer que nunca mais me consegui ver livre do v\u00edcio de Deus. Em todas as horas eu sei, sinto e afirmo, sem problemas, que n\u00e3o estou s\u00f3 e que Deus est\u00e1 comigo.  <b>Os sinais de Deus<\/b> <i>AE &#8211; O seu lema episcopal \u00e9 \u00abVejo um ramo de amendoeira\u00bb, e na sua ordena\u00e7\u00e3o episcopal afirmou que enquanto bispos queria mostrar sinais positivos. Porqu\u00ea que o escolheu? AC &#8211; <\/i>Esse texto, numa \u00e9poca tr\u00e1gica de sangue, de guerra, de mis\u00e9ria no meio de uma cidade destro\u00e7ada \u00e9 um grito de uma imensa esperan\u00e7a de Jeremias. A amendoeira \u00e9, na Palestina tal como aqui, uma das poucas \u00e1rvores que cresce em pleno Inverno. \u00c9 uma imagem muito forte. E essa vis\u00e3o forte impressionou-me desde muito cedo.  O ramo de amendoeira \u00e9 o marcador do livro de Jeremias, que tem os olhos cravados na esperan\u00e7a e por isso, o resto passa \u00e0 margem. Ele n\u00e3o se prende com os buracos, vai ao essencial. Desde cedo que essa express\u00e3o me cativou fortemente e ficou gravada em mim. Normalmente \u00e9 escolhida uma passagem do Novo Testamento, dos Evangelhos, mas quando comecei a pensar, essa imagem era irresist\u00edvel. Por for\u00e7a tinha de colocar isso no meu lema, n\u00e3o havia alternativa.  <i>AE &#8211; E tem indicado muitos ramos de amendoeira ao longo deste ano? AC &#8211; <\/i>Sim. Tenho procurado indicar a pessoas, muitas vezes em condi\u00e7\u00f5es dif\u00edceis na vida, outras n\u00e3o, com vidas habituais.  \u00c9 engra\u00e7ado que esse lema ficou marcado. Todos me falam nisso e se lembram. Quando encontro pessoas em estado deplor\u00e1vel em que muitas vezes respondemos \u00abbom, paci\u00eancia\u00bb no discurso habitual, digo sempre \u00e0 pessoa que veja as coisas pelo lado grande, da esperan\u00e7a. E seja qual for a situa\u00e7\u00e3o, nada \u00e9 t\u00e3o dram\u00e1tico e inultrapass\u00e1vel, porque Deus \u00e9 que comanda esta vida.  A flor que desponta mesmo no meio da morte, anuncia a ressurrei\u00e7\u00e3o dos mortos. Conseguimos encher a morte com uma palavra de esperan\u00e7a. Esta \u00e9 uma mensagem forte e muito atraente que as pessoas procuram. As pessoas t\u00eam esperan\u00e7a mas \u00e9 calculada. A esperan\u00e7a b\u00edblica \u00e9 um fio esticado em duas m\u00e3os. Na m\u00e3o de Deus em primeiro lugar e depois na nossa m\u00e3o. Se estiver seguro na m\u00e3o de Deus basta ent\u00e3o que eu me agarre que tamb\u00e9m fico seguro. Essa \u00e9 a imagem que me tem conduzido pela vida fora. Foi da\u00ed que veio esse lema.   <b>Cultivar a proximidade<\/b> <i>AE &#8211; Enquanto bispo ganhou diferentes responsabilidades das que tinha enquanto superior geral. Sentia-se preparado para esta miss\u00e3o? AC &#8211; <\/i>Nunca pus essa quest\u00e3o. Sempre me pareceu que fiz isto. \u00c9 estranho mas \u00e9 o que sinto. Nem estranhei a primeira vez que tive de fazer um Crisma. Entre ser padre e ser bispo n\u00e3o notei nada de especial. J\u00e1 antes ia para o meio das pessoas falar do Evangelho e continuo a faz\u00ea-lo. Continuo a dedicar o tempo que posso ao estudo da Palavra de Deus, continuo \u00e0 procura da melhor maneira de o dizer \u00e0s pessoas. Procuro fazer chegar \u00e0s pessoas esta imagem de Deus pr\u00f3ximo, cheio de carinho, que as estima, as ama e que as chama.   <i>AE &#8211; Agora com menos tempo e mais solicita\u00e7\u00f5es? AC &#8211; <\/i>Sim. Com mais solicita\u00e7\u00f5es. J\u00e1 antes tinha muitas, dentro e fora de Portugal. Cursos, palestras, retiros e visitas \u00e0s comunidades. Hoje tenho mais. Essas responsabilidades continuam e acrescentaram-se outras.  Mas a minha atitude de fundo acho que \u00e9 igual. N\u00e3o deixei de me aproximar das pessoas pelo facto de ser bispo. Continuo a faz\u00ea-lo com a mesma naturalidade com que fazia antes, e continuo a tentar que, atrav\u00e9s do que digo e da minha postura na vida, passe esta imagem de Deus. N\u00e3o a imagem de um Deus que as pessoas t\u00eam medo, um Deus perigoso, que castiga, mas este Deus que \u00e9 bondoso, que chama, que ama e acaricia as pessoas.  Pessoalmente n\u00e3o notei diferen\u00e7a. A \u00fanica diferen\u00e7a \u00e9 que agora uso muitas vezes a batina. Agora uso o cabe\u00e7\u00e3o que antes n\u00e3o usava. Mas s\u00e3o sinais exteriores. Sempre gostei de andar \u00e0 vontade, agora uso. O que mais me custou foi habituar \u00e0 farda (risos).  <i>AE &#8211; Gostava de estar mais \u00e0 vontade no vestir? AC &#8211; <\/i>Gostava de estar completamente \u00e0 vontade. Sou dos que pensam que a farda pode indicar \u00e0 pessoas que eu sou bispo, mas tamb\u00e9m pode criar dist\u00e2ncias. S\u00e3o problemas que a mim se colocam. N\u00e3o tinha problema de estar no meio das pessoas completamente \u00e0 vontade, como as pessoas andam. E acho que isso evitaria dist\u00e2ncias. Porque as pessoas v\u00eaem o bispo e ficam logo muito reservadas.  <i>AE &#8211; Mas percebe essa dist\u00e2ncia das pessoas consigo? AC &#8211; <\/i>N\u00e3o percebo, porque tamb\u00e9m n\u00e3o as alimento. Se vejo algu\u00e9m que vem com muita rever\u00eancia a aproximar-se de mim, corto logo essa atitude.  <i>AE &#8211; No in\u00edcio do seu episcopado manifestou vontade de continuar a manter a sua contribui\u00e7\u00e3o no sitio da Boa Nova. Tem conseguido fazer isso? AC &#8211; <\/i>N\u00e3o tenho conseguido contribuir com a regularidade que era habitual. O s\u00edtio da Boa Nova esteve parado e entretanto criei um outro para poder ser regular que \u00e9 mesadepalavras.blogspot.com   <i>AE &#8211; Foi iniciado com o episcopado? AC &#8211; <\/i>Um pouco depois. Quando percebi que o outro podia encerrar por motivos diversos e porque queria continuar nesse mundo, criei este. Vou estar nos dois, mas este fica assegurado e, em primeiro lugar.  <b>Descobrir as pessoas<\/b> <i>AE &#8211; Sente falta das miss\u00f5es? AC &#8211; <\/i>O que me fascinava nas miss\u00f5es era o encontro com o diferente, com o diferente mais diferente. Aqui tamb\u00e9m se vai ao encontro das pessoas, mas fascina-me o diferente que vive num mundo diferente, neste caso no mundo africano, Mo\u00e7ambique ou Angola.  No meio da pobreza e da mis\u00e9ria, encontrava uma pessoa feliz, um rosto feliz, as crian\u00e7as que se riem, embora n\u00e3o tenham nada. Isto sempre me fascinou. Quando vejo algo assim sou capaz de estar horas, como uma crian\u00e7a, a olhar para aquilo. A ver como funciona. Gosto de ver o mundo que n\u00e3o estou habituado.   <i>AE &#8211; O que recorda das miss\u00f5es? AC &#8211; <\/i>Perceber como uma fam\u00edlia com 10 filhos, que tem uma barraquinha de zinco, apenas com uma divis\u00e3o que serve de cozinha, de sala e de quarto. Tem apenas uma porta de entrada, as janelas s\u00e3o desenhadas a giz por fora pelas crian\u00e7as, isso sempre me fascinou.  Tive tamb\u00e9m o privil\u00e9gio de andar pelo M\u00e9dio Oriente, nos bairros palestinianos, onde ainda hoje ningu\u00e9m pode entrar. O meu fasc\u00ednio era andar l\u00e1, conhecer pessoas, falar com elas, ver como funcionava aquele mundo. Fui percebendo que se pode viver l\u00e1 t\u00e3o bem quanto se pode viver aqui. Ainda que a cultura, os h\u00e1bitos e as regras sejam completamente diferentes.  Sempre admirei estas pessoas que vivem sem nada. Uma pessoa entra hoje na Faixa de Gaza, a zona mais pobre e insegura do mundo, onde n\u00e3o h\u00e1 luz, \u00e1gua e s\u00f3 existe viol\u00eancia, mas as pessoas s\u00e3o felizes, as pessoas t\u00eam sonhos, as crian\u00e7as fazem bonecos e brincam. Como \u00e9 que no meio deste mundo os jovens casam e t\u00eam filhos, e n\u00e3o apenas um, t\u00eam sete ou oito filhos. N\u00e3o t\u00eam nada, mas t\u00eam filhos que s\u00e3o felizes, que vivem com a sua alegria.   <i>AE &#8211; Quem se sente bem em bibliotecas e mergulha nos livros, lida menos bem com as pessoas. D. Ant\u00f3nio Couto gosta de viver nos dois mundos? AC &#8211; <\/i>Como sou capaz de entrar numa biblioteca, fechar a porta e estar l\u00e1 dois ou tr\u00eas meses se me deram alguma coisa por baixo da porta para comer (risos), porque quero vasculhar tudo e \u00e9 um deslumbramento para mim, sinto o mesmo ao entrar num mundo desconhecido e passar meses e anos a ver. No meio disto criam-se rela\u00e7\u00f5es, passam imagens, passa Deus. E aprende-se muito mais do que se ensina. Vamos para l\u00e1 com ideias sobre o que falar, mas depois n\u00e3o consigo dizer nada porque o mundo deles antecipa-se ao meu e eu \u00e9 que sou levado a ouvir o que t\u00eam para me dizer.   Para mim a vida conta enquanto descoberta. Quando entro numa biblioteca sou capaz de ler tudo a eito. (risos) Quando comecei a estudar a s\u00e9rio, pegava numa estante de biblioteca e lia tudo. Matem\u00e1tica, f\u00edsica, o que estivesse de seguida era o que ia ler. N\u00e3o escolhia. A minha ideia era a novidade. Ver coisas novas, aprender. Isso tamb\u00e9m me acontece quando entro em mundos novos. Encontram-se sempre surpresas.   <i>AE &#8211; N\u00e3o sente falta de tudo o que descreve e do que descobriu? AC &#8211; <\/i>Sinto falta. Os livros continuo a ter, pessoas continuo a ter tamb\u00e9m. Mas pessoas diferentes tenho menos possibilidade de as encontrar. Tenho v\u00e1rios convites em carteira mas tenho-os adiado porque n\u00e3o tem sido poss\u00edvel. E isso sim, faz-me falta ver esses mundos.   <i>AE &#8211; E sobre o ano episcopal? Como o recorda? AC &#8211; <\/i>Desde que assumi esta miss\u00e3o de ser bispo aproximo-me das pessoas nas visitas pastorais e estas s\u00e3o sempre oportunidades de deslumbramento.  Durante as visitas eu paro muitas vezes onde ningu\u00e9m p\u00e1ra. Quando saio \u00e9 um perigo porque posso parar e descoordenar tudo o que estava programado. Querem conduzir-me e apetece-me ficar a ver coisas que me chamam a aten\u00e7\u00e3o. Quando vejo crian\u00e7as a brincar, ou um cata-vento, ou simplesmente onde n\u00e3o se v\u00ea nada, eu descubro qualquer coisa para ver que me deslumbra. Sou uma crian\u00e7a deslumbrada.  A primeira marca \u00e9 de facto as pessoas. Estar no meio delas e descobrir a sua vida, traduzindo a ternura de Deus por elas. Continuo com muita actividade no campo de forma\u00e7\u00e3o. Continuo com as aulas na universidade. De certo modo para n\u00e3o perder o contacto, mas tamb\u00e9m porque \u00e9 necess\u00e1rio. Quando fui nomeado o ano estava j\u00e1 programado e n\u00e3o era poss\u00edvel deixar. Mas dar aulas para mim \u00e9 tamb\u00e9m um deslumbramento.   <i>AE &#8211; Gosta do contacto com os alunos? AC &#8211; <\/i>Muito. Gosto de ser estimulado para aprender. Aprendemos quando falamos e quando ouvimos os alunos. Sou deslumbrado e gosto de deslumbrar os outros. Mas n\u00e3o \u00e9 de prop\u00f3sito. Isso est\u00e1 em mim e sai de mim.   <i>AE &#8211; Passou apenas um ano de episcopado. Muito feito, mas ainda com muito tamb\u00e9m para fazer. Tens ideias a concretizar? AC &#8211; <\/i>Muitas com certeza. Muitas est\u00e3o j\u00e1 programadas, as visitas pastorais, as aulas, as sess\u00f5es de forma\u00e7\u00e3o que vou ter muitas (sobre S\u00e3o Paulo vou ter seguramente umas 80), muitas forma\u00e7\u00f5es com o clero de v\u00e1rias dioceses e tamb\u00e9m com leigos.  Quero ir tamb\u00e9m a Mo\u00e7ambique, talvez em Abril, e isso seguramente vai ser surpreendente. \u00c9 o vento e eu vivo disso.  E a investiga\u00e7\u00e3o. Eu fa\u00e7o tudo isto mas sou incapaz de deixar passar o dia sem ler pelo menos umas duas ou tr\u00eas horas. Muitas vezes pego num livro que me interessa e n\u00e3o largo enquanto n\u00e3o terminar.  E tamb\u00e9m escrevo bastante. A investiga\u00e7\u00e3o e a escrita s\u00e3o investimentos meus. A minha vida est\u00e1 sempre ocupada, mesmo que n\u00e3o haja nada programado para fazer, eu tenho sempre muita coisa para fazer.  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cultiva a proximidade com as pessoas, tamb\u00e9m como Bispo. Um ano ap\u00f3s a sua ordena\u00e7\u00e3o episcopal, D. 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