{"id":342467,"date":"2024-10-01T10:11:44","date_gmt":"2024-10-01T09:11:44","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=342467"},"modified":"2024-10-02T10:08:36","modified_gmt":"2024-10-02T09:08:36","slug":"todos-fazemos-pornografia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/todos-fazemos-pornografia\/","title":{"rendered":"Todos fazemos pornografia!"},"content":{"rendered":"<p><em>Padre Miguel Neto, Diocese do Algarve<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_329388\" aria-describedby=\"caption-attachment-329388\" style=\"width: 382px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-329388\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024-382x260.jpg\" alt=\"\" width=\"382\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024-382x260.jpg 382w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024-1024x698.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024-768x523.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024-474x324.jpg 474w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/miguel-neto-mc-2024.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 382px) 100vw, 382px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-329388\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ag\u00eancia ECCLESIA\/MC<\/figcaption><\/figure>\n<p>O mundo digital trouxe in\u00fameras vantagens, ao quebrar barreiras e aproximar pessoas, mesmo fisicamente. Conseguimos acompanhar a vida dos nossos familiares e amigos instantemente, mesmo que eles estejam a v\u00e1rios quil\u00f3metros de dist\u00e2ncia. Frequentemente, vemos pessoas a mandar fotos das refei\u00e7\u00f5es e at\u00e9 a fazer diretos, para que, quem n\u00e3o est\u00e1 presente, possa sentir-se menos ausente.<\/p>\n<p>Por\u00e9m, se antes \u00edamos a um restaurante para simplesmente nos alimentarmos, agora, cada vez mais, vamos a um restaurante espec\u00edfico para ver, ser visto e dizermos que estivemos l\u00e1. \u00c9 mais importante dizer que se esteve, do que saber se a refei\u00e7\u00e3o \u00e9 boa.<\/p>\n<p>No Algarve, durante os meses de julho e agosto, podemos precisamente comprovar os v\u00e1rios n\u00edveis de abdica\u00e7\u00e3o da vida privada, para a publicita\u00e7\u00e3o uma vida inteira, que se transforma em \u201cverdade\u201d, no mundo digital. A difus\u00e3o, abdica\u00e7\u00e3o daquilo que s\u00f3 a n\u00f3s diz respeito e a defesa de toda a transpar\u00eancia da vida de qualquer um, \u00e9 um dos exemplos de falta de literacia medi\u00e1tica, de falta de compet\u00eancias medi\u00e1ticas.<\/p>\n<p>A forma como, n\u00e3o s\u00f3 renunciamos facilmente da nossa privacidade, como tamb\u00e9m n\u00e3o percebemos e aceitamos a privacidade dos outros, exigindo a quem \u00e9 mais medi\u00e1tico a absoluta priva\u00e7\u00e3o desse espa\u00e7o individual, \u00e9 sinal dessa distopia existencial. Cada vez menos sabemos lidar e respeitar o lugar do outro, porque se expusermos toda a nossa vida, tamb\u00e9m queremos e pensamos que os demais t\u00eam a obriga\u00e7\u00e3o de o fazer. Mais: nesse processo mental e real (porque o digital n\u00e3o \u00e9 virtual, aten\u00e7\u00e3o!) acontece ainda outro fen\u00f3meno: n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para o erro, para as falhas humanas, para o imperfeito. Tudo tem de ser bonito, porque s\u00f3 se d\u00e1 nota desse lado da vida, esquecendo, por completo, o restante. Somos estrelas, no sentido mais prosaico da \u201cstar\u201d hollyodesca.<\/p>\n<p>N\u00e3o havendo espa\u00e7o para a privacidade, n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para o amor, para a aceita\u00e7\u00e3o do outro como ele \u00e9 realmente, mas limitamo-nos a ser constantemente pornogr\u00e1ficos, j\u00e1 que tudo \u00e9 mostrado como sendo perfeito e o que tem valor \u00e9 a beleza instant\u00e2nea, f\u00fatil, superficial, onde unicamente conta o desempenho exterior e vis\u00edvel.<\/p>\n<p>O essencial, nesta era, \u00e9 o oposto e n\u00e3o o que est\u00e1 no interior mais profundo. H\u00e1 dois autores que explicam est\u00e1 sociedade pornogr\u00e1fica muito bem. Byung-Chul Han<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\"><strong>[1]<\/strong><\/a>, que \u00e9 quem aplica o termo pornografia em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 incapacidade de mantermos uma vida privada; e Shoshana Zuboff<a href=\"#_ftn2\" name=\"_ftnref2\"><strong>[2]<\/strong><\/a>, que desenvolveu o conceito de capitalismo da vigil\u00e2ncia.\u00a0 A &#8220;sociedade da transpar\u00eancia&#8221; \u00e9 caracterizada pela elimina\u00e7\u00e3o das fronteiras entre o p\u00fablico e o privado, onde tudo deve ser vis\u00edvel e exposto. Han critica essa obsess\u00e3o pela transpar\u00eancia, argumentando que ela leva \u00e0 perda de nuances e \u00e0 transforma\u00e7\u00e3o das pessoas em objetos de observa\u00e7\u00e3o constante, o que pode destruir aspetos fundamentais da vida social, como a confian\u00e7a e o mist\u00e9rio. Essa busca constante por visibilidade total elimina qualquer espa\u00e7o para a privacidade, o segredo ou o mist\u00e9rio, reduzindo a complexidade da vida social. As pessoas tornam-se objetos expostos, vivendo sob o escrut\u00ednio constante de outras pessoas, com claras consequ\u00eancias para a sa\u00fade mental a v\u00e1rios n\u00edveis, j\u00e1 que uma exig\u00eancia permanente pela positividade da vida, onde s\u00f3 h\u00e1 perfei\u00e7\u00e3o e bons resultados, n\u00e3o d\u00e1 resposta \u00e0 natureza humana. A negatividade, como d\u00favida, falha ou cr\u00edtica, \u00e9 suprimida. Isso cria um ambiente onde n\u00e3o h\u00e1 espa\u00e7o para reflex\u00e3o cr\u00edtica ou contempla\u00e7\u00e3o. E com o tempo, essa circunst\u00e2ncia deixa de ser somente parte do ambiente digital, para ser tamb\u00e9m parte do ambiente f\u00edsico, uma vez que ambos s\u00e3o parte integrante da vida humana. Para estes dois pensadores o excesso de visibilidade (vigil\u00e2ncia ou transpar\u00eancia) leva ao controle e \u00e0 perda de liberdade individual. Em ambos os casos, os indiv\u00edduos tornam-se objetos passivos, quer seja do controle corporativo (Zuboff), ou da press\u00e3o social pela exposi\u00e7\u00e3o (Han). H\u00e1 nitidamente uma dissolu\u00e7\u00e3o das fronteiras entre o p\u00fablico e o privado, como um sintoma de uma sociedade obcecada pela visibilidade total.<\/p>\n<p>N\u00e3o fa\u00e7amos da nossa vida uma vida \u201cpornogr\u00e1fica\u201d, onde tudo \u00e9 visto, consumido e descartado. A privacidade e o direito a uma vida \u00edntima s\u00e3o essenciais para a nossa sa\u00fade mental. Querer mostrar tudo, abdicando do que \u00e9 mais profundo no nosso \u00e2mago, n\u00e3o \u00e9 querer transpar\u00eancia na sociedade, mas uma sociedade transparente, sem pudor e sem o essencial, que ser\u00e1 sempre invis\u00edvel aos olhos, aquele essencial que Saint -Exup\u00e9ry mencionava no livro <em>O Principezinho<\/em>.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\"><strong>[1]<\/strong><\/a> Han, Byung-Chul (2014). <em>A Sociedade do Cansa\u00e7o<\/em>. Lisboa: Rel\u00f3gio D&#8217;\u00c1gua Editores.<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref2\" name=\"_ftn2\"><strong>[2]<\/strong><\/a> Zuboff, Shoshana (2019). <em>The Age of Surveillance Capitalism: The Fight for a Human Future at the New Frontier of Power<\/em>. New York: PublicAffairs.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Miguel Neto, Diocese do Algarve<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":329388,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[185],"class_list":["post-342467","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao","tag-diocese-do-algarve"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/342467","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=342467"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/342467\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/329388"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=342467"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=342467"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=342467"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}