{"id":342323,"date":"2024-10-06T09:30:50","date_gmt":"2024-10-06T08:30:50","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=342323"},"modified":"2024-09-30T12:33:04","modified_gmt":"2024-09-30T11:33:04","slug":"o-deus-dos-inuteis","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-deus-dos-inuteis\/","title":{"rendered":"O Deus dos <i>in<\/i>\u00fateis"},"content":{"rendered":"<p><em>Padre Tiago Alves, Diocese de Bragan\u00e7a-Miranda<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-342324 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/PeTiago-Alves-braganca-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/PeTiago-Alves-braganca-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/PeTiago-Alves-braganca-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/PeTiago-Alves-braganca-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/PeTiago-Alves-braganca-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/PeTiago-Alves-braganca.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/>Este \u00e9 um t\u00edtulo que sai caro se, por falta de eleva\u00e7\u00e3o de esp\u00edrito, n\u00e3o for lido com uma certa serenidade de cora\u00e7\u00e3o e \u00e0 lareira de um pensamento que n\u00e3o se deixa dobrar pelo \u201cpoliticamente correto\u201d, no qual \u201ctudo se pode dizer\u201d, mas com o mesmo n\u00e3o surpreendente resultado de \u201cpouco do que se diz se concretiza\u201d. N\u00e3o \u00e9 menos desafiante, a par do que desejamos expor, a bel\u00edssima express\u00e3o de Timothy Radcliffe: \u201cpara uns \u00e9 o medo da mudan\u00e7a e, para outros, o medo de que nada mude\u201d.<\/p>\n<p>Enquanto, n\u00e3o poucos, apregoam que estamos num <em>tempo<\/em> em que \u201cj\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 os valores que havia\u201d, creio ser melhor pensar, e, s\u00f3 depois dizer, se for \u00fatil, que estamos num tempo em que aquilo que consider\u00e1vamos ser propriedade desses \u201cvalores\u201d, que aqueciam e moldavam a partir de dentro, desde a perspetiva das rela\u00e7\u00f5es humanas, da casa, da fam\u00edlia, do trabalho, hoje foram encostados nos por\u00f5es distorcidos de uma vida de <em>pl\u00e1sticas<\/em> e substitu\u00eddos por uma modalidade de imperialismo cultural \u2013 a <em>eterna juventude \u2013<\/em>, que queima e deforma a partir de fora.<\/p>\n<p>Nesta imagem da <em>eterna juventude<\/em> que coxeia, ou, ao jeito dos escritores Edgar Cabanas e Eva Illouz, da exig\u00eancia da <em>ditadura da felicidade<\/em>, que \u00e9 vasta, desejamos neste artigo, n\u00e3o apenas manifestar a preocupa\u00e7\u00e3o de como aqueles que j\u00e1 nada produzem (em quest\u00f5es laborais), ou carregam a marca da idade que n\u00e3o lhes permite mastigar as <em>modas<\/em>, s\u00e3o tantas vezes e de tantos modos considerados <em>in<\/em>\u00fateis, e por isso, encostados em suas casas ou em uma IPSS, institui\u00e7\u00f5es estas que passaram, por quem olha de fora, a ser retratadas como \u201ccheias\u201d, partindo de um ponto de vista econ\u00f3mico (a pessoa pelo que tem), e poucas vezes \u201cpreenchidas\u201d, que manifesta dignidade humana (a pessoa pelo que \u00e9). Mas a par desses <em>primeiros<\/em>, n\u00e3o \u00e9 menos importante e imperativo considerar uns outros <em>segundos<\/em>, isto \u00e9, os tantos homens e mulheres que, esgotados pelo labirinto das suas vidas corridas, devido ao excesso de atividades e compromissos, e n\u00e3o poucas vezes da exig\u00eancia de atingir metas, se ocupam de cuidar daqueles, ou pelo menos tentar.<\/p>\n<p>Assim, importa n\u00e3o apenas vislumbrar o momento em que chegar\u00e1 o tempo da <em>in<\/em>utilidade, enquanto pessoa-(<em>des<\/em>)cuidada, <em>no seu outono<\/em>, que j\u00e1 n\u00e3o produz e que, al\u00e9m da muita medica\u00e7\u00e3o, j\u00e1 pouco consome \u00e0s refei\u00e7\u00f5es, mas tamb\u00e9m descortinar o estado da pessoa-cuidador enquanto pessoa, <em>ainda em primavera<\/em>, esgotada pelo abismo da exig\u00eancia laboral e social.<\/p>\n<p>Quem cuidar\u00e1 de n\u00f3s quando n\u00e3o formos \u00fateis?<\/p>\n<p>Lia um livro h\u00e1 pouco tempo, <em>O Burnout \u2013 entregar-se e n\u00e3o ser consumido pela exaust\u00e3o e stresse<\/em>, da coordena\u00e7\u00e3o de Miguel Amaral e F\u00e1bio Guimar\u00e3es, do qual permitam que cite alguns excertos: \u00abo Senhor est\u00e1 bem atento ao cansa\u00e7o dos seus disc\u00edpulos mission\u00e1rios! Este cansa\u00e7o pode apoderar-se n\u00e3o s\u00f3 dos padres, como dos variados servidores pastorais das nossas comunidades ou daqueles que fazem da ajuda e do cuidado dos outros a sua principal ocupa\u00e7\u00e3o de vida\u00bb. Estendo este pensamento a esses homens e mulheres, que nas aldeias cuidam dos seus pais e outros, mas tamb\u00e9m para aqueles que, em institui\u00e7\u00f5es de sa\u00fade, se ocupam de dar de si a todos quantos ali recorrem, chegando e nelas ficando.<\/p>\n<p>Hoje fala-se muito da S\u00edndrome de<em> Burnout<\/em>, que literalmente, significa, \u201cqueimar-se\u201d, sentir-se em curto-circuito, como uma esp\u00e9cie de \u201cterra queimada\u201d, esvaziada de energia e potencialidade criativa, sem mais nada para dar. Se na Igreja as causas da fadiga podem ser diversas (cf. Papa Francisco, Exorta\u00e7\u00e3o Apost\u00f3lica <em>Evangelii gaudium<\/em>, 82): \u00abuns por idealizarem projetos irrealiz\u00e1veis e n\u00e3o viverem de bom grado o que se pode razoavelmente fazer; outros, por n\u00e3o aceitarem a custosa evolu\u00e7\u00e3o dos processos e quererem que tudo caia do C\u00e9u; outros, por se agarrarem a sonhos de sucesso cultivados apenas pela sua vaidade; outros ainda, por n\u00e3o saberem esperar e quererem dominar o ritmo da vida\u00bb. No mundo das institui\u00e7\u00f5es sanit\u00e1rias e de cuidados, as situa\u00e7\u00f5es fat\u00eddicas com as quais lidam diariamente, n\u00e3o poucas vezes levam a que muitos cuidadores se afundem nesse esgotamento emocional, nessa t\u00e3o fr\u00e1gil s\u00edndrome do \u201cbom-samaritano desiludido\u201d. Quantos profissionais de sa\u00fade e cuidadores podemos ver aqui espelhados!<\/p>\n<p>Na verdade, segundo especialistas, a referida S\u00edndrome de <em>Burnout<\/em> acontece na medida em que a pessoa, que se d\u00e1 e cuida dos outros, p\u00f5e, ou exigem que ponha, o acento t\u00f3nico no sucesso e no reconhecimento, mas descuida o mais importante: o sentido, o valor e o amor da sua entrega, e dir\u00edamos do cuidado de si mesmo. Precisamos de aprender a amar-nos, sabendo que \u00abaquilo que n\u00e3o se ama, cansa de forma m\u00e1; e, com o passar do tempo, cansa de forma pior\u00bb (Papa Francisco, Homilia na Missa Crismal 2015).<\/p>\n<p>Na verdade, no mundo dos Hospitais e das IPSS, o problema das in\u00fameras atividades mal vividas, sem as motiva\u00e7\u00f5es adequadas, sem uma espiritualidade que preencha a a\u00e7\u00e3o e a torne desej\u00e1vel, faz com que essa obriga\u00e7\u00e3o profissional canse mais do que o razo\u00e1vel e fa\u00e7a adoecer (cf. <em>EG<\/em> 82).<\/p>\n<p>\u00c9 por isso que Jesus, ao acolher os seus disc\u00edpulos mission\u00e1rios n\u00e3o quer saber, em primeiro lugar, dos resultados obtidos, mas sobretudo do estado an\u00edmico e espiritual de cada um. \u00c9 a pessoa que lhe interessa e n\u00e3o o fruto ou o produto do seu trabalho. Por isso, convida os seus disc\u00edpulos mission\u00e1rios a descansar n\u2019Ele, a fixarem-Se n\u2019Ele, para n\u00e3o ficarem obcecados pelos \u00eaxitos ou fracassos. H\u00e1, na verdade, um cansa\u00e7o mau e doentio, de que \u00e9 preciso tratar-se, pedir ajuda, sem fugas nem rodeios. Mas h\u00e1 tamb\u00e9m um cansa\u00e7o bom, que \u00e9 precioso aos olhos de Jesus, que \u00e9 como o incenso que sobe silenciosamente ao C\u00e9u. Neste caso, o nosso cansa\u00e7o eleva-se diretamente ao cora\u00e7\u00e3o de Jesus, que nos acolhe e faz levantar o \u00e2nimo, reiterando o convite a cada um: \u201cVinde comigo para um lugar isolado e descansai um pouco\u201d (Mc 6,31)!<\/p>\n<p>Se estamos mortos de cansa\u00e7o, prostremo-nos ent\u00e3o em adora\u00e7\u00e3o e digamos ao Senhor: \u201cSenhor, por hoje basta!\u201d. O segredo da fecundidade do nosso servi\u00e7o e da nossa entrega \u00e9 tamb\u00e9m o modo como sabemos repousar no Senhor, passar-lhe \u201ca bata do trabalho\u201d, rendermo-nos nos nossos limites, pormo-nos nas Suas m\u00e3os e ficarmos sossegados no Seu colo. Repousemos no Senhor! A entrada \u00e9 gr\u00e1tis!\u201d (um pensamento brilhante do Sr. Pe. Gon\u00e7alo).<\/p>\n<p>Fa\u00e7amos por descansar e, ainda que por momentos nos sintamos in\u00fateis para o mundo, n\u00e3o esque\u00e7amos: temos um Deus que ama os in\u00fateis e est\u00e1 disposto a acolh\u00ea-los. Feliz daquele que na sua vida tem um Deus que o\/a olha com como\u00e7\u00e3o, isto \u00e9 que sente desde dentro, convidando a \u201cretirar-se e a descansar um pouco\u201d. \u00c9 tamb\u00e9m isto que tantas vezes nos faz falta: aprender a retirar-nos e a descansar, pois quando nos retiramos e descansamos, n\u00e3o por luxo mas porque se trata de uma exig\u00eancia de sa\u00fade, ent\u00e3o estamos a dar passos ao encontro de Deus, que aceita e abra\u00e7a a nossa <em>in<\/em>utilidade por falta de nos retirarmos do mundo e tra\u00e7armos caminhos que nos conduzam ao c\u00e9u.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Pe. Tiago Alves<\/em><\/p>\n<p><em>P\u00e1roco e Capel\u00e3o da Unidade Hospitalar de Mirandela<\/em>.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Tiago Alves, Diocese de Bragan\u00e7a-Miranda<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":342324,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-342323","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/342323","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=342323"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/342323\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/342324"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=342323"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=342323"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=342323"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}