{"id":342139,"date":"2024-09-29T09:31:23","date_gmt":"2024-09-29T08:31:23","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=342139"},"modified":"2024-09-28T17:41:36","modified_gmt":"2024-09-28T16:41:36","slug":"sinodo-2024-e-preciso-encontrar-caminhos-comuns-o-mais-possivel-d-jose-ornelas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/sinodo-2024-e-preciso-encontrar-caminhos-comuns-o-mais-possivel-d-jose-ornelas\/","title":{"rendered":"S\u00ednodo 2024: \u00ab\u00c9 preciso encontrar caminhos comuns, o mais poss\u00edvel\u00bb &#8211; D. Jos\u00e9 Ornelas"},"content":{"rendered":"<p><em>O Vaticano acolhe, a partir de quarta-feira, a segunda sess\u00e3o da 16\u00aa Assembleia Geral do S\u00ednodo dos Bispos, que desde 2021 tem vindo a mobilizar comunidades cat\u00f3licas de todo o mundo. Um dos participantes \u00e9 D. Jos\u00e9 Ornelas, presidente da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa, o convidado desta semana da entrevista conjunta Ecclesia\/Renascen\u00e7a<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_302218\" aria-describedby=\"caption-attachment-302218\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/20231028_sinodo_bispos_2449.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-302218 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/20231028_sinodo_bispos_2449.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1282\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/20231028_sinodo_bispos_2449.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/20231028_sinodo_bispos_2449-389x260.jpg 389w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/20231028_sinodo_bispos_2449-1024x684.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/20231028_sinodo_bispos_2449-768x513.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/20231028_sinodo_bispos_2449-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/10\/20231028_sinodo_bispos_2449-1536x1026.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-302218\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Ricardo Perna<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>Est\u00e1 de partida para Roma para participar nesta sess\u00e3o, onde j\u00e1 teve a oportunidade tamb\u00e9m de trabalhar em 2023. Vamos viver um momento hist\u00f3rico?\u00a0 <\/em><\/p>\n<p>J\u00e1 \u00e9 hist\u00f3rico aquilo que vimos fazendo desde 2021, porque este S\u00ednodo tem muito de novo, seja na forma de organizar, seja at\u00e9 pela novidade de um S\u00ednodo sobre sinodalidade, que parece uma tautologia, mas n\u00e3o \u00e9. \u00c9 refletir sobre a identidade pr\u00f3pria da Igreja, o seu modo fundamental de estar \u00e0 escuta de Deus, \u00e0 escuta uns dos outros, programar, pensar e discernir em comum. Isto, numa \u00e9poca t\u00e3o desafiadora como esta que n\u00f3s vivemos, sem d\u00favida que \u00e9 um caminho \u00fatil. A hist\u00f3ria faz-se depois. \u00c9 \u00fatil para o presente e \u00e9 fundamental.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>O relat\u00f3rio da CEP sobre a segunda fase da consulta sinodal, lan\u00e7ada pelo Papa, apelava a um maior discernimento sobre as quest\u00f5es fraturantes e o papel das mulheres na Igreja. Espera que isso seja feito?<\/em><\/p>\n<p>O documento fundamental que vai guiar os trabalhos do s\u00ednodo, o <em>instrumentum laboris<\/em>, esse documento de trabalho, j\u00e1 est\u00e1 a\u00ed. O tema n\u00e3o est\u00e1 ausente, mas tamb\u00e9m n\u00e3o \u00e9 um dos temas, isso sempre foi dito, fundamentais do S\u00ednodo. O S\u00ednodo n\u00e3o foi convocado para tratar especificamente este problema. Agora, tratando-se de sinodalidade, o papel da mulher est\u00e1 l\u00e1 e certamente que vai ser objeto de reflex\u00e3o. Certamente com pontos que s\u00e3o mais partilhados a n\u00edvel geral e outros que podem ter um car\u00e1cter fraturante, mas isso n\u00e3o \u00e9 um caminho que assuste ningu\u00e9m. \u00c9 importante que este S\u00ednodo, sobretudo, crie um ambiente e uma metodologia de trabalho que nos permita enfrentar tamb\u00e9m esses problemas de um modo novo, de um modo que interpela o povo de Deus e que lhe d\u00ea possibilidade tamb\u00e9m de se manifestar e tamb\u00e9m \u00e0 Igreja, na diversidade das suas culturas. Porque muitos destes temas fraturantes t\u00eam a ver muito com culturas e, portanto, n\u00e3o se pode encontrar simplesmente uma solu\u00e7\u00e3o para uma parte daqueles que constituem a Igreja, mas \u00e9 preciso encontrar caminhos o mais poss\u00edvel comuns. Ao mesmo tempo, reconhecendo a diversidade das culturas onde se exprime o Evangelho e que podem ter tamb\u00e9m carateres diferentes.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Entre a primeira sess\u00e3o e a segunda, o Papa Francisco criou um conjunto de grupos de trabalho em que alguns destes temas, mais fraturantes, mais pol\u00e9micos, foram remetidos para um estudo entre especialistas de todo mundo e respons\u00e1veis dos dicast\u00e9rios da C\u00faria Romana. Isto pode ser visto como uma esp\u00e9cie de um passo atr\u00e1s?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o, acho que \u00e9 um passo de olhar para a frente. Este S\u00ednodo n\u00e3o \u00e9 um Conc\u00edlio que toma decis\u00f5es autonomamente, tem um outro enquadramento tamb\u00e9m can\u00f3nico e jur\u00eddico. Eu fa\u00e7o parte de um grupo desses, que tem a ver com a Vida Religiosa e a rela\u00e7\u00e3o Igreja-religiosos no contexto de uma Igreja sinodal e mission\u00e1ria, e foi-nos dado at\u00e9 junho de 2025 para uma resposta. Isto significa que estes temas, muito provavelmente, podem n\u00e3o ter uma solu\u00e7\u00e3o imediata agora, em termos de uma proposta concreta, mas n\u00e3o ficam esquecidos, e isso \u00e9 que \u00e9 importante. O que o Papa diz \u00e9 que a igreja deve estar numa atitude sinodal, isto n\u00e3o \u00e9 um evento, um acontecimento que tem um princ\u00edpio e um fim.\u00a0A ideia deste S\u00ednodo sobre sinodalidade \u00e9 criar uma Igreja que seja sinodal na sua maneira de pensar, de discernir, mas tamb\u00e9m de agir.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Vai integrar uma Assembleia que tem 368 membros com direito a voto, s\u00e3o 272 bispos. Pensa que ser\u00e1 poss\u00edvel aprovar conclus\u00f5es que promovam mudan\u00e7as ou iremos ficar por declara\u00e7\u00f5es de inten\u00e7\u00f5es. O que \u00e9 que realmente podemos esperar? <\/em><\/p>\n<p>Isto n\u00e3o \u00e9 bem comparar coisas que n\u00e3o t\u00eam o mesmo valor, mas resultados s\u00f3 no fim do jogo. O que me interessa \u00e9 que n\u00f3s estejamos realmente na situa\u00e7\u00e3o e no clima que esteve bem presente na primeira sess\u00e3o da Assembleia Sinodal, mas que agora precisa de dar passos mais concretos. Penso que nalguns setores pode haver solu\u00e7\u00f5es mais concretas, mas que exigem depois mais tempo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Esta sess\u00e3o sinodal come\u00e7a simbolicamente com uma vig\u00edlia penitencial, o dia 1 de outubro, evocando os sofrimentos da humanidade e tamb\u00e9m pedindo perd\u00e3o pelos abusos da Igreja, abusos de poder, abusos sexuais. Como \u00e9 que v\u00ea esta proposta, que simbolismo \u00e9 que ela tem?<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s come\u00e7amos sempre, e num dos atos fundamentais da Igreja, que \u00e9 a Eucaristia, n\u00f3s come\u00e7amos sempre com uma celebra\u00e7\u00e3o penitencial. Penitencial, isto n\u00e3o \u00e9 acentuar sentimentos, ou complexos de culpa. \u00c9 reconhecer que somos uma Igreja em caminho, que temos, se n\u00e3o olharmos para n\u00f3s pr\u00f3prios com esp\u00edrito cr\u00edtico, n\u00e3o avan\u00e7amos. Isso significa que temos tamb\u00e9m de reconhecer que a Igreja \u00e9 peregrina e quer superar dificuldades. Tendo presente esta realidade, que \u00e9 pessoal, \u00e9 de cada comunidade e \u00e9 da Igreja no seu conjunto, isto acho que \u00e9 um ato n\u00e3o s\u00f3 simb\u00f3lico, \u00e9 real, de assumir-se como Igreja em caminho. E isso \u00e9 importante, porque isso cria tamb\u00e9m esp\u00edrito para nos despirmos de preconceitos e de autocentraliza\u00e7\u00f5es que nos impedem de ver e de escutar aquilo que Deus vai dizendo, e vai dizendo tamb\u00e9m atrav\u00e9s da Igreja. E um dos males da Igreja tantas vezes tem sido esse de n\u00e3o escutar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Levando na bagagem a experi\u00eancia do que foram os \u00faltimos anos em Portugal, relativamente \u00e0 crise dos abusos sexuais especificamente, como \u00e9 que olha para o caminho que foi percorrido nos \u00faltimos meses, em especial depois deste trabalho que tem sido feito para a quest\u00e3o das indeminiza\u00e7\u00f5es? <\/em><\/p>\n<p>Esse \u00e9 um caso concreto e dram\u00e1tico, com as consequ\u00eancias que conhecemos na Igreja, mas as consequ\u00eancias da Igreja s\u00e3o sobretudo consequ\u00eancias que s\u00e3o dram\u00e1ticas pelo dramatismo que t\u00eam na vida das pessoas. Este \u00e9 um caminho que estamos a fazer humildemente e que n\u00e3o \u00e9 perfeito. Neste percurso h\u00e1 certamente pontos a melhorar, mas aquilo que pretendemos s\u00e3o, no essencial, duas coisas: nestas repara\u00e7\u00f5es, mais do que simplesmente uma quest\u00e3o de dinheiro, \u00e9 uma quest\u00e3o sobretudo de reconhecer o mal que foi feito \u00e0s pessoas &#8211; o tal ato penitencial de reconhecer. Houve coisas muito m\u00e1s, por parte de pessoas, mas tamb\u00e9m tantas vezes institui\u00e7\u00f5es que n\u00e3o tiveram a atitude que deviam ter.<\/p>\n<p>Em segundo lugar, criar tamb\u00e9m possibilidade de fornecer a estas pessoas elementos, para j\u00e1, de reconhecimento, mas depois tamb\u00e9m de ajuda.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Mas h\u00e1 pessoas, h\u00e1 v\u00edtimas que j\u00e1 admitem desistir do processo de indemniza\u00e7\u00f5es, de repara\u00e7\u00e3o, por causa de terem novamente de passar por aquilo que chamam o calv\u00e1rio de recordar tudo o que aconteceu. Houve aqui algum momento em que algo n\u00e3o foi bem feito para chegarmos a este ponto?\u00a0 <\/em><\/p>\n<p>\u00c9 lament\u00e1vel sempre o ter de repetir coisas, e sabemos tudo o que isso significa para uma pessoa que foi v\u00edtima de abusos. Agora, temos tamb\u00e9m de ter em conta que isso se refere, sobretudo, \u00e0s pessoas que deram o seu testemunho \u00e0 Comiss\u00e3o Independente e que depois n\u00e3o t\u00eam os seus dados registados. N\u00e3o \u00e9 que a Comiss\u00e3o Independente procedeu mal ou n\u00e3o teve m\u00e9todos adequados. Teve m\u00e9todos adequados \u00e0 sua finalidade, e a sua finalidade tinha de ser, para publicar um relat\u00f3rio, for\u00e7osamente an\u00f3nima, n\u00e3o s\u00f3 pela anonimidade das pessoas que nessa condi\u00e7\u00e3o responderam, mas tamb\u00e9m aquelas que se declararam com nomes, etc.<\/p>\n<p>N\u00e3o se pode dar esses dados, n\u00e3o podem ser passados a outra entidade. Alguns foram com autoriza\u00e7\u00e3o das pr\u00f3prias pessoas em causa e isso foi passado, outras n\u00e3o foram. Nenhum material foi destru\u00eddo, mas foi destitu\u00eddo de tudo aquilo que pudesse levar \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o de pessoas.<\/p>\n<p>Com o Grupo Vita, n\u00e3o se trata de c\u00f3digos referenciais, trata-se de pessoas. Fez-se tudo o poss\u00edvel, at\u00e9 pondo as pessoas que contactaram com as comiss\u00f5es diocesanas, que esteja l\u00e1 sempre algu\u00e9m nessa comiss\u00e3o diocesana, para n\u00e3o repetir, para evitar a revitimiza\u00e7\u00e3o, mas pelo menos oferecer uma descri\u00e7\u00e3o geral das coisas. Tem-se insistido para que as pessoas sejam o mais poss\u00edvel respeitadas, que n\u00e3o se v\u00e1 al\u00e9m daquilo que \u00e9 minimamente necess\u00e1rio para enquadrar as coisas. O que queria dizer a todas as pessoas \u00e9 que isto vai ser feito o mais poss\u00edvel dentro da proximidade que \u00e9 necess\u00e1ria para todos estes casos.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Projetando os trabalhos propriamente ditos, como \u00e9 que v\u00ea a presen\u00e7a refor\u00e7ada de Portugal nesta Assembleia Sinodal?<\/em><\/p>\n<p>Sim, eu n\u00e3o gosto de ver isto em termos nacionais, porque depois um outro pa\u00eds que pode ter mais significado do que o nosso, em termos num\u00e9ricos, de crist\u00e3os, etc\u2026 eu n\u00e3o gosto de ver nestes termos. H\u00e1 uma necess\u00e1ria representatividade, e isso foi garantido, mas depois h\u00e1 outros fatores. \u00c9 natural que a C\u00faria Romana e o papel, por exemplo, do cardeal Tolentino seja determinante para este S\u00ednodo. O papel que o cardeal D. Am\u00e9rico teve nas Jornadas Mundiais da Juventude, para mim \u00e9 bem compreens\u00edvel que o Papa o tenha chamado, precisamente neste contexto.<\/p>\n<p>OPapa tem dito, cuidado que isto n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de representatividade num\u00e9rica das Igrejas, \u00e9 uma quest\u00e3o de toda a gente ter a ocasi\u00e3o de apresentar e de dar o seu contributo para um bom discernimento. E \u00e9 isso, s\u00e3o escolhas que se fazem, o Papa e os seus conselheiros, e acho que eu n\u00e3o tenho nada, n\u00e3o s\u00f3 n\u00e3o tenho contra, gosto muito tamb\u00e9m, evidente, de sentir-me mais acompanhado neste grupo portugu\u00eas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O inqu\u00e9rito lan\u00e7ado em 2021 gerou um grande interesse e uma grande participa\u00e7\u00e3o, que est\u00e1 documentada. Como \u00e9 que avalia a participa\u00e7\u00e3o neste espa\u00e7o entre as sess\u00f5es? Ficou a ideia de que houve um abrandamento do entusiasmo\u2026<\/em><\/p>\n<p>Houve, \u00e9 natural. O que se fez no primeiro n\u00e3o era poss\u00edvel repetir agora, nos mesmos termos, porque isso leva muito tempo e isso seria repetir todas as coisas. Agora, o que se fez, tamb\u00e9m aqui em Portugal, foi com um grupo. Noutros continentes houve uma metodologia mais, digamos, a n\u00edvel continental, sobretudo, houve continentes que se reuniram duas e tr\u00eas vezes, representantes, mas n\u00e3o ao mesmo n\u00edvel de antes e com a representatividade de quem j\u00e1 consultou as bases, mas de um grupo que se julgou adequado.<\/p>\n<p>Em causa estavam duas coisas: uma era ter um eco, de novo, das Igrejas locais sobre o trabalho da primeira parte do S\u00ednodo e isto para complet\u00e1-lo tamb\u00e9m com um parecer de pessoas de v\u00e1rias \u00e1reas, n\u00e3o para fazer um outro documento, mas uma rea\u00e7\u00e3o a esta primeira parte que ajudasse aos trabalhos. Estamos numa fase de transi\u00e7\u00e3o e esse tempo tamb\u00e9m entre as duas partes da Assembleia Sinodal foi discutido, precisamente para encontrar caminhos; a primeira parte deu indica\u00e7\u00f5es de que era bom estudar certos temas e o pr\u00f3prio Papa j\u00e1 o foi fazendo, tamb\u00e9m enumerando quest\u00f5es para fazer avan\u00e7ar agora o discernimento desta segunda parte. E esses contributos que chegaram agora e continuam a chegar at\u00e9 h\u00e1 pouco tempo, tamb\u00e9m a n\u00edvel continental, evidentemente estar\u00e3o \u00e0 disposi\u00e7\u00e3o dos padres sinodais para a discuss\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Os trabalhos dos \u00faltimos anos t\u00eam sublinhado a necessidade dessa cultura de discernimento, de que ainda h\u00e1 instantes falava, acompanhada por uma reflex\u00e3o sobre a articula\u00e7\u00e3o dos processos de decis\u00e3o. Por onde pensa que se deve caminhar nesse sentido? <\/em><em>H\u00e1 medo de partilhar o poder, digamos assim?<\/em><\/p>\n<p>A quest\u00e3o da autoridade e do poder \u00e9 fundamental. Eu estudei especificamente o Evangelho de Marcos e h\u00e1 um livro muito curioso que apresenta o texto de Marcos como uma reestrutura\u00e7\u00e3o do poder, e \u00e9 realmente o Evangelho que reestrutura o papel do poder. O facto de Jesus p\u00f4r uma crian\u00e7a no meio do grupo e dizer que este tem de ser o vosso centro de aten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 para p\u00f4r a crian\u00e7a a mandar, porque o problema n\u00e3o \u00e9 mandar, o problema \u00e9 acudir, \u00e9 cuidar, \u00e9 servir. Portanto, esta crian\u00e7a n\u00e3o tem poder em si, mas quando uma crian\u00e7a nasce numa fam\u00edlia, desarranja tudo aquilo que est\u00e1 estabelecido. Portanto, se a Igreja se preocupar com a miss\u00e3o, e a sua miss\u00e3o \u00e9, antes de mais, ir ao encontro dos que mais sofrem, dos mais pequenos, dos mais fr\u00e1geis, isso muda a fei\u00e7\u00e3o da Igreja. E \u00e9 isso que \u00e9 importante que se gere desde a C\u00faria Romana at\u00e9 \u00c0 \u00faltima das comunidades e das c\u00e9lulas da Igreja. Isto \u00e9 muito importante. H\u00e1 alguma coisa que j\u00e1 est\u00e1 a acontecer, e penso que na pr\u00f3pria reflex\u00e3o dos programas pastorais que est\u00e3o a fazer na Igreja, e agora n\u00f3s aqui na Diocese de Leiria-F\u00e1tima, por exemplo, estamos num processo de reconvers\u00e3o pastoral. Nem sequer entrava na equa\u00e7\u00e3o dedicar horas e horas e horas de reuni\u00e3o com as comunidades paroquiais, vicariais, etc., antes de tomar decis\u00f5es. E isto tem de ser um processo, um processo em que as pessoas sintam aquela alegria que muitos exprimiram, ao dizer \u201cfoi a primeira vez que me pediram opini\u00e3o sobre isto\u201d, deve ser um <em>continuum<\/em>. Por outro lado, isto n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de contar votos, \u00e9 uma quest\u00e3o de discernir, atrav\u00e9s deste processo, o que \u00e9 que Deus est\u00e1 a dizer \u00e0 Igreja.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O documento de trabalho que o processo de escuta de todos, que foi promovido pela Igreja Cat\u00f3lica, \u00e9 um exemplo para contrariar modelos de concentra\u00e7\u00e3o de poder e dinheiro. Isto \u00e9 tamb\u00e9m uma provoca\u00e7\u00e3o para o resto da sociedade?<\/em><\/p>\n<p>Evidentemente, deve ser para todos. Toda a gente entende a necessidade de tudo isto. Agora, quando n\u00f3s pomos a comunidade, as comunidades a discutirem verdadeiramente isto, n\u00f3s encontramos caminhos novos. Por exemplo, mesmo para a Igreja, o grande desafio \u00e9 o poder\u2026 j\u00e1 agora, a talho de foice, quando fui fazer uma visita a uma comunidade virada para os jovens, em Set\u00fabal, cheguei \u00e0 sede do munic\u00edpio e tinha-me chamado a aten\u00e7\u00e3o uma assembleia municipal de jovens, um conselho de jovens, e a ideia era precisamente p\u00f4r os jovens a terem um conselho em cada comunidade. N\u00e3o para dizer que agora invertemos uma pir\u00e2mide, porque o problema \u00e9 n\u00e3o ter pir\u00e2mide, mas ter uma outra maneira de dialogar e de tomar decis\u00f5es. Mas era importante tamb\u00e9m que grupos, e concretamente os jovens, fossem ouvidos em cada comunidade. E quem diz os jovens, o Papa diz para consultar os mais pobres, que n\u00e3o sejam simplesmente objeto da nossa generosidade e solidariedade, mas que sejam tamb\u00e9m pessoas que s\u00e3o chamadas a intervir diretamente naquilo que lhes diz respeito. Isto \u00e9 muito interessante, mas tem de entrar na sociedade, de uma forma que seja efetiva e que d\u00ea resultado, n\u00e3o um \u201cfaz de conta\u201d, de fazer um parlamento de crian\u00e7as e um parlamento de jovens &#8211; at\u00e9 pode ser pedagogicamente necess\u00e1rio e \u00fatil, mas o que \u00e9 preciso \u00e9 que verdadeiramente todas estas dimens\u00f5es sejam integradas no processo de decis\u00e3o.<\/p>\n<p>A concentra\u00e7\u00e3o do poder \u00e9 constante e na Igreja n\u00f3s fomos concentrando demasiado sobre a figura do presb\u00edtero e do bispo quest\u00f5es que n\u00e3o t\u00eam a ver com o seu minist\u00e9rio, t\u00eam a ver com a administra\u00e7\u00e3o. Quando se fala de uma Igreja ministerial que est\u00e1 ligada \u00e0 sinodalidade, \u00e9 precisamente para isso, sinodalidade e minist\u00e9rios s\u00e3o iguais, mas o minist\u00e9rio \u00e9 um servi\u00e7o, correspons\u00e1vel &#8211; e correspons\u00e1vel n\u00e3o significa simplesmente que algu\u00e9m toma uma decis\u00e3o para os outros executarem, mas significa que este processo de decis\u00e3o se incorpora \u00e0 pr\u00f3pria execu\u00e7\u00e3o e \u00e0 natureza do pr\u00f3prio servi\u00e7o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Admite que algumas pessoas se sintam de alguma forma desiludidas face \u00e0s expectativas da consulta de 2021 e que, eventualmente, seja agora mais dif\u00edcil de superar esse afastamento?<\/em><\/p>\n<p>Toda a gente tem o seu percurso e tamb\u00e9m admito que haja vis\u00f5es diferentes segundo a pr\u00f3pria maneira de ser de cada pessoa, a sua experi\u00eancia eclesial e humana, de grupos e culturas, e a Igreja tem de sempre fazer contas, n\u00e3o \u00e9 balan\u00e7ar para n\u00e3o chegar a decis\u00f5es e querer agradar a todos, mas \u00e9 encontrar solu\u00e7\u00f5es novas. Eu penso que em grande parte desta forma organizativa da Igreja se pode chegar tamb\u00e9m a quest\u00f5es diferentes, mesmo em quest\u00f5es de import\u00e2ncia. Dou s\u00f3 um exemplo, a Igreja Greco-Cat\u00f3lica tem padres casados, alguns tamb\u00e9m aqui em Portugal, e um padre sinodal l\u00e1 ao meu lado dizia \u201cn\u00e3o percebo porque a Igreja latina faz tanto problema com a quest\u00e3o dos padres casados. No entanto, n\u00e3o pensem que isto \u00e9 a solu\u00e7\u00e3o para tudo, e a nossa experi\u00eancia di-lo muito claramente\u201d. Mas dizem que n\u00e3o entendem. E s\u00e3o cat\u00f3licos como n\u00f3s, em comunh\u00e3o connosco, com o Papa, etc. Portanto, em muitas quest\u00f5es destas, \u00e9 poss\u00edvel: n\u00e3o \u00e9 preciso criar ritos novos, mas dizer que em diversas perspetivas, em diversos contextos culturais e sociais, h\u00e3o de surgir formas novas de realizar a mesma miss\u00e3o, isso significa a l\u00f3gica do Pentecostes, para que cada um possa ouvir o Evangelho e viv\u00ea-lo na sua pr\u00f3pria l\u00edngua.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>O Vaticano acolhe, a partir de quarta-feira, a segunda sess\u00e3o da 16\u00aa Assembleia Geral do S\u00ednodo dos Bispos, que desde 2021 tem vindo a mobilizar comunidades cat\u00f3licas de todo o mundo. Um dos participantes \u00e9 D. Jos\u00e9 Ornelas, presidente da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa, o convidado desta semana da entrevista conjunta Ecclesia\/Renascen\u00e7a<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":302218,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[147,906],"class_list":["post-342139","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-conferencia-episcopal-portuguesa","tag-sinodo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/342139","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=342139"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/342139\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/302218"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=342139"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=342139"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=342139"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}