{"id":341326,"date":"2024-09-22T09:33:58","date_gmt":"2024-09-22T08:33:58","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=341326"},"modified":"2024-09-20T15:36:58","modified_gmt":"2024-09-20T14:36:58","slug":"igreja-portugal-continuamos-com-um-sistema-prisional-que-nao-vai-ao-encontro-das-necessidades-concretas-deste-tempo-coordenador-nacional-da-pastoral-penitenciaria","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/igreja-portugal-continuamos-com-um-sistema-prisional-que-nao-vai-ao-encontro-das-necessidades-concretas-deste-tempo-coordenador-nacional-da-pastoral-penitenciaria\/","title":{"rendered":"Igreja\/Portugal: \u00abContinuamos com um sistema prisional que n\u00e3o vai ao encontro das necessidades concretas deste tempo\u00bb &#8211; coordenador nacional da Pastoral Penitenci\u00e1ria"},"content":{"rendered":"<p><em>As consecutivas avalia\u00e7\u00f5es dos diferentes organismos internacionais, e em particular do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos ao sistema prisional portugu\u00eas apontam para falhas grosseiras, e Portugal continua a ser referenciado como um pa\u00eds que ainda n\u00e3o fez o suficiente para garantir condi\u00e7\u00f5es de vida dignas nas pris\u00f5es. Duas semanas depois da fuga de cinco reclusos do Estabelecimento Prisional de Vale dos Judeus \u00e9 convidado da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia, o padre Jos\u00e9 Lu\u00eds Gon\u00e7alves Costa<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_209349\" aria-describedby=\"caption-attachment-209349\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/04.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-209349 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/04.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1280\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/04.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/04-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/04-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/04-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/04-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/04-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/04-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/04-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2021\/06\/04-480x320.jpg 480w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-209349\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR\/Joana Bougard<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (R\u00e1dio Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ag\u00eancia Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>J\u00e1 se passou o tempo suficiente e sobretudo j\u00e1 houve situa\u00e7\u00f5es que tomaram a opini\u00e3o p\u00fablica em Portugal para este caso ter passado para um segundo plano, mas a esta dist\u00e2ncia do caso de Vale dos Judeus, j\u00e1 conseguiu ter uma ideia consistente do que se passou? Foi falta de vigil\u00e2ncia, falta de seguran\u00e7a, falta de guardas prisionais?<\/em><\/p>\n<p>Isto \u00e9 um conjunto de tudo, n\u00e3o \u00e9? Estes problemas quando acontecem n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 apenas uma coisa que falha, s\u00e3o um conjunto de coisas que falham e, portanto, \u00e9 sempre muito complicado, assim, aquente definir de facto qual foi o fator de diferencia\u00e7\u00e3o que fez com que acontecesse. Mas pelo que eu ouvi e alguma coisa que tenha comentado, de uma forma mais simples, parece-me que temos uma situa\u00e7\u00e3o de car\u00e1ter muito extraordin\u00e1rio na fuga destes cinco elementos, que eu n\u00e3o tenho o prazer de conhecer, apesar de ter ouvido falar de alguns deles. Parece-me que foi uma coisa tremendamente planeada de seis minutos, \u00e9 quase militar, portanto isso a\u00ed \u00e9 muito dif\u00edcil de prever. E \u00e9 preciso perceber que o ambiente prisional \u00e9 um ambiente que n\u00e3o \u00e9 benigno no sentido de que ningu\u00e9m quer l\u00e1 estar. Apesar de ser por vezes vulgo de alguma opini\u00e3o mais imediata que \u00e9 um lugar bom, nenhum recluso e mesmo nenhum de n\u00f3s gostaria de l\u00e1 passar, se quer uma noite ou duas. Portanto, \u00e9 natural e normal que muita da expectativa, ou se quiser, da mundivid\u00eancia destes reclusos passe por procurar formas de sair da pris\u00e3o.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Mas fica surpreendido com uma fuga destas num estabelecimento de alta seguran\u00e7a?<\/em><\/p>\n<p>Alguma surpresa sim, mas \u00e9 um risco permanente nestas estruturas de alta seguran\u00e7a porque obviamente s\u00f3 est\u00e1 em alta seguran\u00e7a quem tem uma perigosidade de facto real, n\u00e3o propriamente pela gravidade do delito que tenha cometido e que tenha levado ao estabelecimento prisional, mas fundamentalmente pela intelig\u00eancia e pelo poder que eventualmente consiga exercitar quer dentro deste estabelecimento prisional, quer fora depois do estabelecimento prisional.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Padre Jos\u00e9 Lu\u00eds, no que respeito \u00e0s condi\u00e7\u00f5es dos estabelecimentos prisionais&#8230;<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 muito a fazer.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Haver\u00e1 muito a fazer, e uma das queixas recorrentes \u00e9 a da sobrelota\u00e7\u00e3o. Portugal continua sem conseguir resolver este problema, apesar da ado\u00e7\u00e3o de medidas de car\u00e1ter legislativo?<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1 sobrelota\u00e7\u00e3o pontual, mas o problema \u00e9 da pr\u00f3pria geografia das estruturas prisionais. Ou seja, n\u00f3s continuamos com estruturas prisionais que ainda t\u00eam celas coletivas, e, portanto, ainda n\u00e3o conseguimos ter uma estrutura prisional que possa privilegiar uma certa procura da pr\u00f3pria pessoa de si mesmo, uma certa privacidade necess\u00e1ria. Portanto ainda s\u00e3o espa\u00e7os bastante deficientes nesse aspeto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas, por exemplo, no final do ano passado, numa das pris\u00f5es portuguesas, estavam 115 reclusos, onde apenas deviam estar 82&#8230;<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 verdade, em situa\u00e7\u00f5es pontuais v\u00e3o acontecendo essas realidades. Neste momento h\u00e1 cerca de 12 mil reclusos, o quer dizer, estamos numa ocupa\u00e7\u00e3o de 97%. Teoricamente, h\u00e1 esta possibilidade toda de camas, mas s\u00e3o espa\u00e7os dif\u00edceis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E esta sobrelota\u00e7\u00e3o potencia a inseguran\u00e7a, n\u00e3o \u00e9?<\/em><\/p>\n<p>A pr\u00f3pria geografia de muitos dos estabelecimentos prisionais pot\u00eancia alguma dificuldade, quer de controle por parte dos guardas prisionais, quer tamb\u00e9m da pr\u00f3pria rela\u00e7\u00e3o entre os reclusos. N\u00e3o temos aquele espa\u00e7o que n\u00f3s gostar\u00edamos que fosse poss\u00edvel em todos os estabelecimentos prisionais, de cada recluso ter a sua cela pr\u00f3pria, ser respons\u00e1vel pela sua cela, ter pontos de encontro comunit\u00e1rios, tomar as suas refei\u00e7\u00f5es com o resto dos reclusos, havendo essas condi\u00e7\u00f5es, ter o seu espa\u00e7o de recreio, ter eventualmente a sua ocupa\u00e7\u00e3o mental ou laboral. Ainda temos celas de 15 e de 20 reclusos, o que n\u00e3o \u00e9 o ideal, acumular as pessoas \u00e0s vezes sem termos resposta. Na pr\u00e1tica o que acontece, \u00e9 que n\u00f3s continuamos com um sistema prisional, elaborado j\u00e1 h\u00e1 muito tempo, que n\u00e3o vai ao encontro das necessidades concretas deste tempo e da nossa realidade. Ainda estamos um bocadinho na cultura punitiva, ou seja, o homem prevarica, deve ser punido, ser punido \u00e9 ser colocado atr\u00e1s do muro alto e pronto, j\u00e1 est\u00e1. E isso \u00e9 curto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Esse \u00e9 ali\u00e1s o tema seguinte da nossa conversa, precisamente. Temos uma quest\u00e3o relacionada com o alegado excesso de pris\u00f5es preventivas e do tempo m\u00e9dio de cumprimento de penas. Eu aqui cito uns dados da OVAR, da obra Vicentina de Aux\u00edlio ao Recluso, que diz que o tempo m\u00e9dio de cumprimento de penas \u00e9 3 vezes superior ao da m\u00e9dia da Uni\u00e3o Europeia. H\u00e1 um excesso de penas, de punitivismo, como falava, em Portugal?<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1, h\u00e1, n\u00f3s temos uma cultura ainda muito punitiva, eu penso que as pessoas ainda n\u00e3o se tornaram d\u00f3ceis, enfim, ainda n\u00e3o conseguiram olhar a dimens\u00e3o prisional n\u00e3o como uma dimens\u00e3o meramente punitiva. O que acontece \u00e9 que a pr\u00f3pria sociedade, ou melhor, o sistema judicial reflete um bocadinho a expectativa da pr\u00f3pria sociedade, e na pr\u00e1tica n\u00f3s ainda n\u00e3o conseguimos, a n\u00e3o ser, eventualmente, por alguma raz\u00e3o, que em contexto de proximidade afetiva ou familiar, algu\u00e9m tenha experimentado o sistema prisional e a pena em si. N\u00f3s ainda n\u00e3o conseguimos saltar muito desta l\u00f3gica de crime-castigo.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Falta uma aposta maior na preven\u00e7\u00e3o tamb\u00e9m e sobra repress\u00e3o, de certa forma?<\/em><\/p>\n<p>Eu apostaria muito mais na preven\u00e7\u00e3o, ou seja, e acima de tudo, de tornar mais do que a cadeia um espa\u00e7o de amea\u00e7a, come\u00e7ar a ter o espa\u00e7o do estabelecimento prisional, da cadeia, da pris\u00e3o, o que quisermos chamar, um espa\u00e7o que pudesse ser de alguma forma resultado da pr\u00f3pria sociedade. Ou seja, que a pr\u00f3pria sociedade ajudasse a construir o ambiente prisional, quer dizer que isto funcionaria para as gera\u00e7\u00f5es mais novas como um espa\u00e7o de alerta, de consequ\u00eancia, de responsabiliza\u00e7\u00e3o e para a sociedade que est\u00e1 dispon\u00edvel, n\u00e3o est\u00e1 vinculada com nenhum tipo de compromisso mais direto, pudesse ser tamb\u00e9m um espa\u00e7o de reconstru\u00e7\u00e3o, onde poder\u00edamos potenciar saberes, conhecimentos, sensibilidades, para de facto a cadeia n\u00e3o estar na periferia das comunidades, mas come\u00e7ar a aproximar-se exatamente do centro da sociedade.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Acho que \u00e9 importante n\u00f3s at\u00e9 vermos o tipo de linguagem que usamos, sobretudo em momentos de grande tens\u00e3o e como\u00e7\u00e3o, e acabamos de viv\u00ea-los, agora estamos a viv\u00ea-los com a quest\u00e3o dos inc\u00eandios. E surge muitas vezes a express\u00e3o de deviam deix\u00e1-los apodrecer na cadeia. Isto est\u00e1 ligado a uma mentalidade que n\u00e3o v\u00ea na cadeia um espa\u00e7o de reinser\u00e7\u00e3o nem de recupera\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 verdade. Nem muitas vezes o pr\u00f3prio sistema consegue ver. Ou seja, mesmo na subcultura que depois a pr\u00f3pria realidade prisional gera, muitas vezes a pergunta \u00e9 particularmente com os volunt\u00e1rios e com os visitadores; a pergunta \u00e9: mas porque \u00e9 que voc\u00eas v\u00eam c\u00e1? Ou seja, temos aqui quase uma perda daquilo que \u00e9 uma das gra\u00e7as maiores que eu acho que o Cristianismo nos d\u00e1, que \u00e9 de perceber a salva\u00e7\u00e3o como um dom a todos, em que ningu\u00e9m pode ficar de fora desta proposta de dom. Mas obviamente a nossa sociedade j\u00e1 n\u00e3o est\u00e1 propriamente num contexto crist\u00e3o, a mundivid\u00eancia j\u00e1 \u00e9 bastante p\u00f3s-crist\u00e3. E, de facto vai crescendo uma sensibilidade quase pragm\u00e1tica, \u00e0s vezes eficaz, n\u00e3o sei se eficiente, mas eficaz, em que o pensamento \u00e9 mais ou menos este: bom se n\u00e3o quer estar em rela\u00e7\u00e3o com a comunidade, n\u00e3o quer estar em rela\u00e7\u00e3o com a sociedade, pois n\u00f3s tamb\u00e9m dispensamos. E esta dispensabilidade para que n\u00e3o seja agressiva, n\u00e3o provoque sangue, pois surge o acantonamento quase obrigat\u00f3rio em sistema prisional, quando de facto o pr\u00f3prio sistema prisional deveria ser uma das \u00faltimas propostas de reconcilia\u00e7\u00e3o e recupera\u00e7\u00e3o daquele que praticou o crime com a pr\u00f3pria sociedade. Ser um ponto em que se pudesse restabelecer novamente uma base de confian\u00e7a entre a sociedade e o pr\u00f3prio.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas s\u00e3o os pr\u00f3prios estabelecimentos a n\u00e3o promover essa reinser\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 dif\u00edcil, \u00e9 dif\u00edcil porque vivemos uma dicotomia quase esquizofr\u00e9nica, entre manter as coisas seguras, impedir os reclusos de sa\u00edrem. Ou seja, quando tornamos imperme\u00e1vel o estabelecimento prisional, como \u00e9 que depois se faz uma reintrodu\u00e7\u00e3o na sociedade de uma forma positiva, ou seja, criando condi\u00e7\u00f5es de confian\u00e7a de parte a parte. O recluso quando entra em um sistema de reclus\u00e3o, a primeira coisa que faz \u00e9 desconfiar de uma sociedade que o condenou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Quanto \u00e0s condi\u00e7\u00f5es de vida nas pris\u00f5es, para al\u00e9m da sobrelota\u00e7\u00e3o, que outras falhas apontaria?<\/em><\/p>\n<p>O acompanhamento dos reclusos \u00e9 dif\u00edcil, extraordinariamente dif\u00edcil por parte dos educadores. Era preciso um acompanhamento, uma tutoria, n\u00e3o digo em todos os reclusos, porque gra\u00e7as a Deus alguns j\u00e1 v\u00eam de personalidade, enfim, constitu\u00edda e com uma vontade concreta e bem clara e sabem o que querem fazer da vida e como \u00e9 que querem gerir a vida.\u00a0 Mas n\u00f3s ainda temos muitos mi\u00fados novos, o problema da toxicodepend\u00eancia \u00e9 um problema grave que leva \u00e0 cadeia e que nos coloca homens e mulheres tremendamente incapacitados para a vida social. E para al\u00e9m de algumas tentativas que s\u00e3o merit\u00f3rias, h\u00e1 logo, e \u00e0 partida uma descren\u00e7a na efic\u00e1cia dessas tentativas, dessas iniciativas. E era importante, como \u00e9 que eu lhe vou dizer isto, era importante o confiar na pessoa. Eu sei que \u00e9 dif\u00edcil dizer isto quando estamos \u00e0 frente de pessoas com historial complicado. Ainda me lembro h\u00e1 pouco tempo de algu\u00e9m que n\u00e3o conseguia ler porque n\u00e3o tinha \u00f3culos e n\u00e3o havia condi\u00e7\u00f5es de ele ter \u00f3culos, porque n\u00e3o tinha dinheiro sequer para pagar a receita da Seguran\u00e7a Social dos \u00f3culos, que foi o grupo de volunt\u00e1rios que o fez, e quando teve, come\u00e7ou a ler, mas come\u00e7ou a ler o que sabia, que era pouquinho.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Tamb\u00e9m h\u00e1 a falta de forma\u00e7\u00e3o de quem faz o acompanhamento, ent\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>H\u00e1, tamb\u00e9m h\u00e1. Eu penso que, n\u00e3o sei neste momento quais s\u00e3o os conte\u00fados formativos dos agentes quer da guarda prisional, quer dos elementos que exercitam os v\u00e1rios trabalhos que s\u00e3o necess\u00e1rios nos estabelecimentos prisionais, mas esta componente de humaniza\u00e7\u00e3o era importante. N\u00e3o sei se falta alguma introdu\u00e7\u00e3o \u00e0 filosofia, se calhar \u00e9 uma coisa muito et\u00e9rea minha, mas era importante consolidar os conceitos que temos sobre a condi\u00e7\u00e3o humana e sobre a forma como ela deve ser integrada e trabalhada.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ainda sobre esta quest\u00e3o das condi\u00e7\u00f5es dos estabelecimentos prisionais: num dos seus relat\u00f3rios, a Ordem dos Advogados garantia, em abril passado, que um em cada mil portugueses vai ser preso, o que de alguma forma comprova a ideia do excesso de penas, e dizia que se passa fome nas cadeias. Tem no\u00e7\u00e3o desta realidade?<\/em><\/p>\n<p>O fornecimento das refei\u00e7\u00f5es \u00e9 sempre uma realidade bastante complexa, porque nunca conseguimos agradar a todos quando fazemos refei\u00e7\u00f5es. Agora, de facto, n\u00e3o \u00e9 propriamente uma coisa muito generosa, enfim, n\u00e3o conseguimos comer como ir\u00edamos eventualmente em casa ou em algumas cantinas. H\u00e1 ali sempre dificuldades muito grandes, as margens com que s\u00e3o negociadas, os contratos de fornecimento de refei\u00e7\u00f5es s\u00e3o sempre muito complicados e obrigam a um rigoroso e escrupuloso controlo de qualidade da alimenta\u00e7\u00e3o, que nem sempre se consegue, por vezes h\u00e1 falhas. Depois, temos o concreto de cada um dos reclusos, h\u00e1 dificuldades de sa\u00fade, ningu\u00e9m morre \u00e0 fome na pris\u00e3o, mas n\u00e3o \u00e9 tamb\u00e9m linear que todos tenham o que necessitam, quando usufruem da refei\u00e7\u00e3o do seu estabelecimento prisional.<\/p>\n<p>Eu acho que h\u00e1 um dado que tem de ser claro, n\u00e3o podemos estar a pensar num servi\u00e7o de perfei\u00e7\u00e3o, mas poder\u00edamos caminhar um pouco mais para essa perfei\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Pouco tempo depois de ter assumido a Diocese de Set\u00fabal, por exemplo, o cardeal D. Am\u00e9rico denunciava a exist\u00eancia de condi\u00e7\u00f5es sub-humanas em cadeias. Estes alertas s\u00e3o necess\u00e1rios tamb\u00e9m por parte da hierarquia cat\u00f3lica?<\/em><\/p>\n<p>S\u00e3o necess\u00e1rios, \u00e9 necess\u00e1rio traz\u00ea-los \u00e0 preocupa\u00e7\u00e3o da comunidade, sim, s\u00e3o necess\u00e1rios. N\u00e3o tem de haver medo de ficarem escondidos. Obviamente que \u00e9 sempre aborrecido quando se verifica que nem tudo est\u00e1 a correr como deveria, particularmente para quem interv\u00e9m dentro da Igreja, por vezes \u00e9 dif\u00edcil a assun\u00e7\u00e3o do erro e a compreens\u00e3o desse mesmo erro. No entanto, obviamente n\u00e3o podemos deixar que ningu\u00e9m seja descuidado ou descurado, ou seja, \u00e9 importante que as pessoas saibam o que acontece dentro das cadeias, n\u00e3o na procura do erro, mas da condi\u00e7\u00e3o geral.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>E n\u00e3o ficarem nesse sentimento de rejeitados da sociedade\u2026<\/em><\/p>\n<p>Correto. Ali\u00e1s, o sistema prisional \u00e9 sustentado pelo bem comum, portanto, pelo dinheiro que sai do pagamento dos impostos de v\u00e1rias ordens que existem na nossa sociedade, portanto, \u00e9 o dinheiro que \u00e9 um bem comum. O sistema prisional tem de ser um bem comum, um bem comum tamb\u00e9m para o recluso, n\u00e3o propriamente apenas um castigo para o recluso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O acompanhamento espiritual dos presos tem sido assegurado? \u00c9 f\u00e1cil encontrar pessoas que queiram assumir esta miss\u00e3o, em nome da Igreja Cat\u00f3lica?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 complicado, \u00e9 complicado porque, como tem sido not\u00f3rio, sa\u00edmos de um sistema prisional que estava assente na figura do capel\u00e3o, a que agora n\u00f3s n\u00e3o conseguimos dar resposta. T\u00ednhamos cl\u00e9rigos com alguma abund\u00e2ncia nos anos 50 e 60, mas agora, de facto, com a reconstru\u00e7\u00e3o cultural que vivemos, j\u00e1 n\u00e3o temos com essa frequ\u00eancia, nem com esse n\u00famero. Portanto, habitualmente, quase todos os cl\u00e9rigos que trabalham nas cadeias est\u00e3o tamb\u00e9m ocupados com outras atividades e outras a\u00e7\u00f5es pastorais. E aqui temos um problema, um dos n\u00f3s g\u00f3rdios da pastoral prisional, que \u00e9 come\u00e7ar a preparar leigos conscientes destes problemas e torn\u00e1-los tamb\u00e9m interlocutores, n\u00e3o s\u00f3 os leigos, mas tamb\u00e9m as pr\u00f3prias comunidades locais.<\/p>\n<p>Era importante, e isso vai acontecendo, as dioceses come\u00e7am a interessar-se por aquilo que acontece nas cadeias das suas \u00e1reas, as pr\u00f3prias comunidades, n\u00e3o s\u00f3 as paroquiais, mas as vicariais. Pelo menos aqui, no contexto de Lisboa, praticamente quase todas as vigararias t\u00eam um espa\u00e7o prisional que deveriam aprender tamb\u00e9m a cuidar em termos pastorais, a preocupar-se e a fazer-se pr\u00f3ximos dos v\u00e1rios agentes, seja dos agentes prisionais, que est\u00e3o mais ligados ao sistema prisional em si, da conten\u00e7\u00e3o do recluso, mas tamb\u00e9m aos aspetos da educa\u00e7\u00e3o, do acompanhamento e da reintrodu\u00e7\u00e3o na vida da comunidade.<\/p>\n<p>H\u00e1 aqui um fator que n\u00e3o tem sido pastoralmente valorizado, ou seja, as pessoas interessam-se bastante, t\u00eam o seu que de curioso, mas isto depois \u00e9 uma pastoral de presen\u00e7a, come\u00e7a por ser uma pastoral de presen\u00e7a, um bocadinho como a pastoral da sa\u00fade, uma pastoral de presen\u00e7a diante do mist\u00e9rio do sofrimento obriga a alguma paci\u00eancia, alguma disponibilidade, tamb\u00e9m alguma inclina\u00e7\u00e3o e voca\u00e7\u00e3o, e n\u00e3o a tratar apenas como uma coisa estranha ou ex\u00f3tica, que devemos experimentar uma vez.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00e3o pode ser uma mera curiosidade, n\u00e3o \u00e9? <\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o pode, nem pode ser apenas uma experi\u00eancia. Aqui o esfor\u00e7o \u00e9, de facto, convidar os v\u00e1rios agentes pastorais a olhar isto como uma perman\u00eancia, tanto mais que muitos dos reclusos que v\u00e3o estar naquele espa\u00e7o s\u00e3o filhos das comunidades, quer dizer, eu pr\u00f3prio tenho encontrado mi\u00fados a quem eu dei catequese.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E a participa\u00e7\u00e3o dos reclusos nas celebra\u00e7\u00f5es eucar\u00edsticas, por exemplo, ainda \u00e9 vista como algo invulgar?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o \u00e9 uma maioria, acompanha, se quiser, os coeficientes da realidade externa. Os reclusos levam muitas vezes para o ambiente religioso a pergunta, a pergunta que muitas vezes n\u00e3o conseguem ter tempo para fazer ao educador, que muitas vezes n\u00e3o conseguem ter coragem de fazer \u00e0 fam\u00edlia, mas muitas vezes levam a pergunta, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 o \u201cpor que \u00e9 que estou aqui\u201d, mas \u00e9 muitas vezes a pergunta de sentido, \u201cpor que \u00e9 que isto me est\u00e1 a acontecer, por que \u00e9 que eu sou mau, por que \u00e9 que eu tenho que andar nestes contextos\u201d.<\/p>\n<p>Fala-se muito, fala a sociedade sobre as fugas e evas\u00f5es da pris\u00e3o, e eu recordo uma das evas\u00f5es mais tenebrosas que n\u00f3s temos na cadeia, que \u00e9 o suic\u00eddio, n\u00e3o \u00e9? \u00c9 a forma inversa de evas\u00e3o, n\u00e3o consegues sair, anulas-te.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Temos um exemplo que vem do topo, falando assim, o Papa Francisco tem tido v\u00e1rios gestos de acompanhamento dos reclusos, tem visitado cadeias em viagens internacionais, tem visitado cadeias na tradicional cerim\u00f3nia do lava-p\u00e9s, em Roma, na Quinta-feira Santa. \u00c9 um exemplo do caminho a seguir nas comunidades cat\u00f3licas?<\/em><\/p>\n<p>O Papa Francisco tem dado uma visualiza\u00e7\u00e3o brutal \u00e0quilo que \u00e9 a complexidade da situa\u00e7\u00e3o do homem em reclus\u00e3o, que at\u00e9 agora era quase uma realidade n\u00e3o comentada, n\u00e3o falada. Os Estados procuravam guardar do olhar p\u00fablico a realidade, enfim, estou a pensar agora em pa\u00edses onde praticamente \u00e9 quase imposs\u00edvel entrar nas cadeias.<\/p>\n<p>O Papa conseguiu esse feito, n\u00e3o s\u00f3 entrar de nas cadeias italianas, como muitas vezes tamb\u00e9m entrar nalgumas cadeias sul-americanas, e convidar ao olhar, n\u00e3o s\u00f3 da comunidade crist\u00e3, mas do mundo. Ali\u00e1s, faz parte da sua pr\u00f3pria teologia pastoral, levar a periferia para o centro, e obviamente o trabalho dele \u00e9 um trabalho inspirador, evocativo, desafiante e prof\u00e9tico para n\u00f3s, ou seja, a comunidade crist\u00e3 n\u00e3o pode apenas olhar-se a si mesma como uma comunidade fechada, que procura os caminhos de defesa daquilo que s\u00e3o eventualmente algumas agress\u00f5es de car\u00e1ter cultural, mas bem pelo contr\u00e1rio, ela devia partir com esta novidade de n\u00e3o ter medo de ir \u00e0s zonas de periferia, com que a sociedade, que a nossa sociedade p\u00f3s-crist\u00e3 lida mal, porque n\u00e3o tem respostas para elas. Eventualmente s\u00e3o sinais do seu fiasco ou do seu fracasso, enquanto comunidade, e por isso procura-se dissolv\u00ea-las numa certa realidade que apenas se foca quando h\u00e1 erros graves, e esquec\u00ea-la como uma realidade presente que \u00e9 chamada a ser transformada. Portanto, para n\u00f3s, como interpela\u00e7\u00e3o \u00e0 pastoral prisional, \u00e0 pastoral penitenci\u00e1ria, melhor dizendo, porque a ideia n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 fazer pris\u00e3o, mas \u00e9 penitenciar, penitenciar a sociedade porque falhou, penitenciar o recluso porque tem um caminho de constru\u00e7\u00e3o a fazer, \u00e9 tornar de facto uma preocupa\u00e7\u00e3o, porque estes homens e estas mulheres est\u00e3o tamb\u00e9m no cora\u00e7\u00e3o de Deus, e Deus tem para eles um projeto de salva\u00e7\u00e3o que n\u00f3s temos de saber propor, redesenhar e convidar.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>As consecutivas avalia\u00e7\u00f5es dos diferentes organismos internacionais, e em particular do Tribunal Europeu dos Direitos Humanos ao sistema prisional portugu\u00eas apontam para falhas grosseiras, e Portugal continua a ser referenciado como um pa\u00eds que ainda n\u00e3o fez o suficiente para garantir condi\u00e7\u00f5es de vida dignas nas pris\u00f5es. 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