{"id":341240,"date":"2024-09-20T10:35:50","date_gmt":"2024-09-20T09:35:50","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=341240"},"modified":"2024-09-20T10:35:50","modified_gmt":"2024-09-20T09:35:50","slug":"as-exigencias-da-fe-crista-perante-os-incendios","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/as-exigencias-da-fe-crista-perante-os-incendios\/","title":{"rendered":"As exig\u00eancias da f\u00e9 crist\u00e3 perante os inc\u00eandios"},"content":{"rendered":"<p><em>Padre Vitor Pereira, Diocese de Vila Real\u00a0<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_268285\" aria-describedby=\"caption-attachment-268285\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignright\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-268285\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><figcaption id=\"caption-attachment-268285\" class=\"wp-caption-text\">Padre Vitor Pereira, Diocese de Vila Real<\/figcaption><\/figure>\n<p>Nos in\u00edcios deste ver\u00e3o, encontrei alguns bombeiros a dissertar sobre a acalmia que reinava nos montes da regi\u00e3o. Um dos mais experientes profetizou imediatamente: \u201cDeixai vir o setembro\u201d. Quem tem acompanhado os inc\u00eandios dos \u00faltimos anos, n\u00e3o teria dificuldade em proferir esta profecia, que infelizmente se concretizou. Apesar do lamento nacional, dos muitos estudos e promessas governativas, o flagelo continua e vai continuar. T\u00eam ocorrido em regi\u00f5es com pouco peso pol\u00edtico, n\u00e3o \u00e9 um tema que d\u00ea para ganhar elei\u00e7\u00f5es, n\u00e3o promete melhores sal\u00e1rios nem melhores pens\u00f5es, por isso vai continuar a viver de solenes inten\u00e7\u00f5es e proclama\u00e7\u00f5es, que ser\u00e3o muito bem arrumadas nas gavetas do esquecimento. V\u00e3o ver como \u00e9 que est\u00e1 Pedr\u00f3g\u00e3o Grande neste momento.<\/p>\n<p>Quem se d\u00e1 ao trabalho de percorrer as nossas montanhas e florestas, quer pela ca\u00e7a, quer por desporto, v\u00ea que est\u00e1 l\u00e1 tudo que favorece os inc\u00eandios, quer pelo calor, quer pelo combust\u00edvel natural. Este ano foi um ano vi\u00e7oso, que ajudou a rebentar mat\u00e9ria inflam\u00e1vel por todo o lado. Sabemos que j\u00e1 n\u00e3o temos as pessoas de outros tempos, que cortavam o mato, limpavam os caminhos, deixavam os lameiros barbeados e as tou\u00e7as asseadas. Da\u00ed que seja preciso agir com mais proatividade, cuidado e responsabilidade. Com tanta caminhada que vejo fazer hoje em dia, agora por tudo e por nada, \u00e9 uma das modas atuais, n\u00e3o sei por que \u00e9 que n\u00e3o se marcam dias ou jornadas para se dar mais aten\u00e7\u00e3o \u00e0 floresta, se limpar caminhos e zonas em volta das casas, entre outras coisas, de grande significado c\u00edvico e de grande interesse para a comunidade. Muitos inc\u00eandios florestais devem-se \u00e0 neglig\u00eancia e ao erro humano. No entanto, tamb\u00e9m um bom n\u00famero \u00e9 causado \u200b\u200bpela criminosa m\u00e3o humana. E isto jamais deveria acontecer, e se s\u00e3o pessoas ditas crist\u00e3s e que se assumem como tal, \u00e9 uma grave e inaceit\u00e1vel falha para com a moral crist\u00e3. Jamais um crist\u00e3o pode praticar um ato que lesa profundamente a beleza e a cria\u00e7\u00e3o de Deus e que destr\u00f3i indelevelmente o patrim\u00f3nio natural que \u00e9 de todos. Para manifestar esta gravidade, aqui h\u00e1 uns anos s\u00f3 o bispo podia perdoar a um incendi\u00e1rio.<\/p>\n<p>Contudo, antes que aconte\u00e7a o tr\u00e1gico inc\u00eandio, h\u00e1 muita coisa que os crist\u00e3os, enquanto jardineiros, administradores e cuidadores respons\u00e1veis da cria\u00e7\u00e3o de Deus, podem fazer. V\u00ea-se muita erva seca e muita vegeta\u00e7\u00e3o selvagem em volta de casas e armaz\u00e9ns que n\u00e3o merecem a m\u00ednima aten\u00e7\u00e3o das pessoas. Muitas pessoas t\u00eam propriedades completamente abandonadas, onde n\u00e3o se faz qualquer tipo de barrela h\u00e1 anos. \u00c9 pasto da bicharada selvagem. E nem sempre \u00e9 por falta de dinheiro. Nesta hora, mais do que o lamento, a ora\u00e7\u00e3o e a solidariedade, enquanto zeladores da terra, que todos devemos ser, os crist\u00e3os t\u00eam de se perguntar: o que podemos fazer para evitar ou reduzir os inc\u00eandios? J\u00e1 ouvimos muitas vezes, e tem muito sentido, que os fogos do ver\u00e3o se apagam no inverno. \u00c9 essencial fazer uma atenciosa e cuidada gest\u00e3o do territ\u00f3rio. E entre n\u00f3s muito mais. Um territ\u00f3rio cada vez mais despovoado e envelhecido, sem a m\u00e3o agr\u00edcola de outros tempos, abandonado \u00e0s for\u00e7as da natureza, sem a\u00e7\u00e3o humana que explore as massas florestais e elimine os matagais selvagens, que crie linhas eficazes de conten\u00e7\u00e3o de inc\u00eandios, \u00e9 um territ\u00f3rio condenado \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o. O que \u00e9 que cada um faz pela gest\u00e3o dos pr\u00e9dios de que \u00e9 propriet\u00e1rio? Que a\u00e7\u00f5es comunit\u00e1rias se fazem hoje para se zelar pela natureza e o ambiente? N\u00e3o se poder\u00e1 resolver tudo, mas alguma coisa se poder\u00e1 fazer. Onde anda a comunidade?<\/p>\n<p>Atualmente convencion\u00e1mos que a boa gest\u00e3o do territ\u00f3rio deve ser exclusiva de alguns grupos supostamente especializados e competentes, mas n\u00e3o deve ser assim. Poder\u00e3o e dever\u00e3o ser eles a liderar, sem d\u00favida, mas fazer uma boa gest\u00e3o do territ\u00f3rio que ocupamos \u00e9 um dever de todos, faz parte dos valores de uma cidadania respons\u00e1vel e consciente e da mais elementar moral crist\u00e3, e hoje muito mais, sabendo-se que o planeta atravessa uma verdadeira crise, est\u00e1 a acontecer uma mudan\u00e7a radical que tem levado \u00e0 destrui\u00e7\u00e3o de paisagens, flora e fauna de que temos desfrutado, e que podemos perder irremediavelmente se n\u00e3o agirmos a tempo. \u00c9 tempo desta sociedade que privilegia o bem-estar, de profundo cariz individualista e hedonista, em que se busca uma vida c\u00f3moda e f\u00e1cil, que se quer tudo sem grande esfor\u00e7o, que s\u00f3 vive \u00e0 sombra do Estado na resolu\u00e7\u00e3o dos problemas comunit\u00e1rios, recupere com determina\u00e7\u00e3o a sua rela\u00e7\u00e3o com a natureza e os perigos e exig\u00eancias que ela acarreta, e a rela\u00e7\u00e3o com os outros.<\/p>\n<p>\u00c9 preciso que os crist\u00e3os, neste campo, tamb\u00e9m fa\u00e7am a diferen\u00e7a e liderem a\u00e7\u00f5es sensatas e construtivas no cuidado e no zelo da natureza e do ambiente, sem nos pormos sempre \u00e0 sombra da bananeira, deixando tudo para o Estado e suas institui\u00e7\u00f5es, como j\u00e1 referi, ou esperando que boas almas tudo resolvam. Nas nossas m\u00e3os est\u00e1 o rem\u00e9dio e a a\u00e7\u00e3o preventiva, paliativa e reparadora da nossa regi\u00e3o, que \u00e9 a nossa casa, onde nos sentimos povo e at\u00e9 fam\u00edlia. Por isso, a partir da f\u00e9, h\u00e1 que promover atitudes de compromisso e de dedica\u00e7\u00e3o \u00e0 natureza, de saber conviver com ela e sermos administradores s\u00e1bios e prudentes, para n\u00e3o termos de nos envergonhar de ter desperdi\u00e7ado o que um dia nos foi colocado nas m\u00e3os, mas, pelo contr\u00e1rio, sentirmos a alegria de ter feito o que nos era pedido e exigido como cocriadores com Deus, e de termos velado e multiplicado a riqueza, o bem-estar e o futuro do nosso povo e da nossa regi\u00e3o.<\/p>\n<p>O nosso pa\u00eds tem a agravante pela aten\u00e7\u00e3o que tem sido dada ao interior. Vivo no interior, onde se juntaram os ingredientes explosivos: despovoamento, abandono e envelhecimento. Como p\u00e1roco, estou a sepultar as \u00faltimas gera\u00e7\u00f5es que est\u00e3o ligadas \u00e0 terra, que amam a terra, e que sabem trabalhar a terra. Depois delas, muitas aldeias v\u00e3o ficar completamente vazias, a n\u00e3o ser que a hist\u00f3ria nos surpreenda com in\u00e9ditas transforma\u00e7\u00f5es e nos reserve insuspeitas surpresas. O interior nunca foi digno de um verdadeiro projeto de desenvolvimento, pensado com tempo e implementado com intelig\u00eancia e planifica\u00e7\u00e3o. Com os subs\u00eddios, foi-se e vai-se remediando, at\u00e9 que o colapso vai ser inevit\u00e1vel. Desenvolvemos os grandes centros urbanos e o litoral, onde concentr\u00e1mos os servi\u00e7os, os com\u00e9rcios, a ind\u00fastria e os empregos, e para onde arrast\u00e1mos a juventude e a for\u00e7a laboral do pa\u00eds. N\u00e3o \u00e9 surpresa os muitos inc\u00eandios que est\u00e3o a acontecer. O interior n\u00e3o tem gente, est\u00e1 despido de m\u00e3o de obra, crescem os terrenos abandonados, os rebanhos s\u00e3o cada vez menos (descobriu-se agora a import\u00e2ncia das cabras sapadoras!), a floresta, salvo raras exce\u00e7\u00f5es, est\u00e1 abandonada e descuidada, quando, em avoengos tempos, o povo tudo limpava e n\u00e3o deixava que a lenha se acumulasse no monte, os caminhos e terras est\u00e3o invadidos por giestas, silvados e ervas daninhas de toda a esp\u00e9cie, que, noutros tempos, o abundante povo n\u00e3o permitia. Enfim, a falta de vis\u00e3o e de pensamento estrat\u00e9gico, o desinteresse e abandono a que o interior foi votado, transformou-o num admir\u00e1vel paiol pronto a arder todos os anos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Vitor Pereira, Diocese de Vila Real\u00a0<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":268285,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-341240","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/341240","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=341240"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/341240\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/268285"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=341240"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=341240"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=341240"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}