{"id":340859,"date":"2024-09-17T15:27:15","date_gmt":"2024-09-17T14:27:15","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=340859"},"modified":"2024-09-17T15:27:29","modified_gmt":"2024-09-17T14:27:29","slug":"a-cruz-escondida-288","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-cruz-escondida-288\/","title":{"rendered":"A cruz escondida"},"content":{"rendered":"<p><em>Irm\u00e3 Maria Mendes recorda a luta pela independ\u00eancia de Timor-Leste<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<h4><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-340862 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Irma-Maria-Mendes-timor-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Irma-Maria-Mendes-timor-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Irma-Maria-Mendes-timor-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Irma-Maria-Mendes-timor-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Irma-Maria-Mendes-timor-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/09\/Irma-Maria-Mendes-timor.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/>\u201cColoc\u00e1mos tudo nas m\u00e3os de Deus\u201d<\/h4>\n<p><em>Quando S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II visitou Timor-Leste, em 1989, a Irm\u00e3 Maria Mendes era ainda adolescente, mas viveu muito de perto a visita do Papa. Uma visita que se revelaria fundamental para a independ\u00eancia deste territ\u00f3rio que ent\u00e3o estava sob a ocupa\u00e7\u00e3o da Indon\u00e9sia. Hoje, 35 anos depois, esta mission\u00e1ria Serva do Esp\u00edrito Santo vive em Portugal num bairro problem\u00e1tico \u00e0s portas de Lisboa e \u00e9 \u00e0 dist\u00e2ncia, mas empolgada, que acompanhou a visita de Francisco \u00e0 terra que a viu nascer. <\/em><\/p>\n<p>Nascida no seio de uma fam\u00edlia onde a f\u00e9 era sentida de forma intensa e em que todos os dias se rezava o ter\u00e7o, Maria Mendes decidiu seguir a vida religiosa sem imaginar que isso a levaria a viver, muitos anos mais tarde, no meio de um bairro problem\u00e1tico \u00e0s portas de Lisboa. Em 1995 fez os primeiros votos. Timor-Leste era ent\u00e3o um pa\u00eds ocupado pela Indon\u00e9sia. A independ\u00eancia s\u00f3 chegaria em 2002, ap\u00f3s d\u00e9cadas de luta, de resist\u00eancia, de muitas ora\u00e7\u00f5es e de mais de 100 mil mortos. A visita de S\u00e3o Jo\u00e3o Paulo II a D\u00edli, a capital timorense, a 12 de Outubro de 1989, visita que durou apenas quatro horas, revelar-se-ia fundamental para esse processo de independ\u00eancia, ajudando a colocar Timor-Leste no mapa. A Irm\u00e3 Maria era ent\u00e3o muito jovem, uma adolescente que andava na escola, no 10\u00ba ano, mas recorda-se bem dessa viagem. Agora, 35 anos depois, foi com entusiasmo, embora \u00e0 dist\u00e2ncia, que seguiu a segunda visita de um Santo Padre \u00e0 sua terra, desde a casa onde vive com mais duas irm\u00e3s no Bairro de Casal de Cambra, conhecido localmente como \u201ca B\u00f3snia\u201d. O nome diz quase tudo. Por ali, em pr\u00e9dios altos, foram \u201carrumadas\u201d centenas de pessoas que viviam em barracas na regi\u00e3o. Hoje, a degrada\u00e7\u00e3o dos pr\u00e9dios \u00e9 evidente. Os elevadores n\u00e3o funcionam, as l\u00e2mpadas est\u00e3o fundidas, as paredes sujas e em toda a zona se percebe o ambiente de um gueto, de um sub\u00farbio mal-amado, escondido dos olhares do mundo.<\/p>\n<h4>O primeiro dia na \u201cB\u00f3snia\u201d<\/h4>\n<p>A Irm\u00e3 Maria Mendes n\u00e3o se esquece da primeira vez que subiu as escadas at\u00e9 ao terceiro andar, at\u00e9 \u00e0 casa de tr\u00eas assoalhadas onde vive agora com duas outras mission\u00e1rias Servas do Esp\u00edrito Santo, uma timorense, como ela, e uma argentina. \u201cFiquei assustada. \u00c0 noite tem barulho, h\u00e1 gritos\u2026 Aqui em Portugal h\u00e1 uma lei que regula o barulho, mas aqui, no bairro, isso n\u00e3o existe. N\u00e3o conseguimos dormir. Eu fiquei muito assustada quando cheguei aqui. E dizia: \u2018mas que miss\u00e3o \u00e9 esta?\u2019 Mas depois, mais tarde, comecei a perceber que \u00e9 aqui que temos de estar, porque o nosso fundador, Arnaldo Janssen, dizia: \u2018vai para o lugar onde mais ningu\u00e9m quer ir\u2019. Isso n\u00e3o quer dizer que ningu\u00e9m queira vir para aqui, mas Deus colocou-nos aqui neste lugar e temos de viver isto, faz parte da experi\u00eancia da miss\u00e3o.\u201d O bairro \u00e9 problem\u00e1tico. \u00c9 conhecido como \u201ca B\u00f3snia\u201d. Por l\u00e1 vivem fam\u00edlias oriundas de muitos pa\u00edses, de muitos lugares. H\u00e1 pessoas de Angola, da Guin\u00e9-Bissau, de Cabo Verde, do Brasil e tamb\u00e9m de Timor-Leste. E tamb\u00e9m h\u00e1 fam\u00edlias ciganas. \u201cAqui tem drogas, prostitutas\u2026\u201d, diz a irm\u00e3, descrevendo sumariamente o bairro. \u201cO nosso trabalho \u00e9 a promo\u00e7\u00e3o humana, damos catequese, aulas de religi\u00e3o e moral, visita \u00e0s fam\u00edlias, temos grupos de conv\u00edvio, grupos de idosos, temos grupo de adora\u00e7\u00e3o ao Sant\u00edssimo e fazemos tudo isso com o nosso p\u00e1roco, o Padre Lu\u00eds Jorge, de Casal de Cambra\u201d, sintetiza. O bairro tem quatro pr\u00e9dios, cada pr\u00e9dio tem dez andares, cada andar tem quatro fam\u00edlias, cada fam\u00edlia tem muitas pessoas. No total, haver\u00e1 por ali, por esta \u201cB\u00f3snia\u201d, cerca de duas mil pessoas. Aos poucos, as irm\u00e3s v\u00e3o fazendo o seu trabalho. A aposta \u00e9 essencialmente nos jovens. Neste momento h\u00e1 70 crian\u00e7as e jovens na catequese, mas muitos n\u00e3o chegam ao fim. \u00c9 um trabalho dif\u00edcil que come\u00e7a logo no simples preenchimento das fichas de identifica\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as. \u201cN\u00f3s temos de andar atr\u00e1s [deles], a pedir, por favor, para entregarem as fichas, e n\u00f3s n\u00e3o sabemos quem \u00e9 a verdadeira m\u00e3e e quem \u00e9 o verdadeiro pai. Algumas crian\u00e7as moram com os av\u00f3s, moram com o tio, ou com a madrasta\u2026\u201d E tamb\u00e9m h\u00e1 os pais que est\u00e3o na pris\u00e3o. \u201cTudo isso \u00e9 sempre muito problem\u00e1tico. E h\u00e1 as m\u00e3es adolescentes que engravidaram e depois os filhos est\u00e3o em institui\u00e7\u00f5es\u2026 \u00c9 um grande desafio\u2026\u201d<\/p>\n<h4>A luta pela independ\u00eancia<\/h4>\n<p>Um desafio que pode parecer dif\u00edcil de ultrapassar como foi o da luta pela independ\u00eancia de Timor-Leste. Uma independ\u00eancia que, como sublinha a Irm\u00e3 Mendes, foi conquistada tamb\u00e9m gra\u00e7as \u00e0 f\u00e9 do povo Timorense. \u201cSim, foi a f\u00e9. No tempo da guerra, o povo viveu na escurid\u00e3o, viveu momentos de incerteza, mas, ao mesmo tempo, t\u00ednhamos a certeza de que, mais tarde ou mais cedo, Deus nunca falharia, que \u00edamos ter a independ\u00eancia. Eu pr\u00f3pria acompanhei isso, t\u00ednhamos grande f\u00e9. Nas noites de persegui\u00e7\u00f5es dos militares [indon\u00e9sios], em que mataram muitos jovens, cada pessoa tinha um ter\u00e7o na m\u00e3o, todos n\u00f3s rez\u00e1vamos o ter\u00e7o toda a noite. A f\u00e9 ajudou a conquistar a independ\u00eancia\u2026\u201d Tudo aconteceu h\u00e1 muitos anos, mas a mem\u00f3ria desses tempos permanece inteira e intacta. Como a recorda\u00e7\u00e3o das primeiras ora\u00e7\u00f5es que aprendeu com os pais. \u201cVenho de uma fam\u00edlia onde a f\u00e9 era vivida de forma simples. Todos os dias rez\u00e1vamos o ter\u00e7o e particip\u00e1vamos na Missa aos Domingos. O meu pai contava-nos hist\u00f3rias de mission\u00e1rios que deram a vida para ajudar outras pessoas e isso ajudava a abrir o meu cora\u00e7\u00e3o e a pensar que poderia um dia fazer o mesmo.\u201d E esse dia chegou. Em 1995 fez os primeiros votos, ainda Timor-Leste era um territ\u00f3rio ocupado pela Indon\u00e9sia. \u201cO povo passou por experi\u00eancias de muita dor, desespero, tristeza, sofrimento e escurid\u00e3o\u201d, lembra a irm\u00e3, acrescentando: \u201cgostaria de dizer que os religiosos e religiosas que trabalhavam ent\u00e3o em Timor-Leste levaram o perd\u00e3o, paz a esperan\u00e7a, o consolo e a alegria ao povo.\u201d Foram momentos muito fortes, intensos. A independ\u00eancia aconteceu em 2002. Um ano antes, a Irm\u00e3 Maria Mendes foi enviada como mission\u00e1ria para Portugal. E \u00e9 em Portugal que ainda est\u00e1. E foi desde Casal de Cambra, onde vive, que acompanhou a visita do Papa Francisco de 9 a 11 deste m\u00eas de Setembro. \u201cA consequ\u00eancia da visita de Sua Santidade \u00e9 a de criar um ambiente para melhorar o pa\u00eds em todos os aspectos. O Governo precisa de trabalhar com a Igreja e a Igreja precisa de trabalhar com o Governo, todos de m\u00e3os dadas para melhorar a situa\u00e7\u00e3o em todos os aspectos: no combate \u00e0 pobreza e \u00e0 injusti\u00e7a\u201d, diz a irm\u00e3 \u00e0 Funda\u00e7\u00e3o AIS, institui\u00e7\u00e3o da Igreja que tem um contacto regular com Timor-Leste, apoiando dezenas de projectos nas \u00faltimas d\u00e9cadas.<\/p>\n<p><em>Paulo Aido | <a href=\"www.fundacao-ais.pt\">www.fundacao-ais.pt<\/a><\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Irm\u00e3 Maria Mendes recorda a luta pela independ\u00eancia de Timor-Leste<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":187728,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[75],"tags":[],"class_list":["post-340859","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao-rubricas"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/340859","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=340859"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/340859\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/187728"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=340859"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=340859"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=340859"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}