{"id":34027,"date":"2008-09-10T11:38:50","date_gmt":"2008-09-10T11:38:50","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/09\/10\/o-ano-paulino-as-dores-de-cabeca\/"},"modified":"2008-09-10T11:38:50","modified_gmt":"2008-09-10T11:38:50","slug":"o-ano-paulino-as-dores-de-cabeca","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-ano-paulino-as-dores-de-cabeca\/","title":{"rendered":"O Ano Paulino: as dores de cabe\u00e7a"},"content":{"rendered":"<p>Texto de D. Joaquim Gon\u00e7alves sobre o Ano Paulino  <!--more--> 1- A\u00ed est\u00e1 uma realidade que todos conhecemos por experi\u00eancia pessoal, mesmo em tempo de f\u00e9rias: dores f\u00edsicas e dores morais, dores de cabe\u00e7a pelo rodopio das multid\u00f5es e dores de solid\u00e3o for\u00e7ada, dores de oper\u00e1rio e dores de empres\u00e1rio, dores de falta de dinheiro e dores de quem n\u00e3o sabe como salvar as economias permanentemente ro\u00eddas pela infla\u00e7\u00e3o, dores pela leg\u00edtima aquisi\u00e7\u00e3o das estruturas familiares e dores na sua administra\u00e7\u00e3o, dores conjugais e dores familiares, dores de fracassos da vida pol\u00edtica e dores de sonhos desfeitos. Cada um conhece bem alguns destes sectores e, frequentemente, um pouco de todos. Alguns matizes dos sofrimentos s\u00e3o mais sentidos nas f\u00e9rias: not\u00edcias de amigos que faleceram ou que vivem dramas profundos, a escuta de lamenta\u00e7\u00f5es e desabafos dolorosos, de cr\u00edticas e advert\u00eancias. Mesmo sem vestir a pele de Job ou acrescentar textos novos aos textos de Jeremias, a vida parece, para o comum dos mortais, tecida de muitas dores de cabe\u00e7a.  2- A esta lista de afli\u00e7\u00f5es comuns, gostaria de juntar neste Ano Paulino as dores que nascem da ac\u00e7\u00e3o pastoral, isto \u00e9, as dores oriundas da actividade evangelizadora. Como em Paulo de Tarso, s\u00e3o dores que parecem restritas aos disc\u00edpulos de Jesus e desconhecidas de quem n\u00e3o tem f\u00e9, a quem tudo parece correr bem, sem atritos, sem ins\u00f3nias, sem ondas nem remorsos.  Em quase todas as cartas Paulo refere muitas dessas dores e, mesmo as dores f\u00edsicas, s\u00e3o nele frequentemente efeito do trabalho evangelizador: dores de viagens longas e arriscadas por terra e por mar, naufr\u00e1gios, dias de fome e de frio, fugas humilhantes como descer uma muralha dentro de um cesto (2 Cor 11,33), incompatibilidade de feitios com Barnab\u00e9 e Jo\u00e3o Marcos, diferen\u00e7as de sensibilidade pastoral e de cultura teol\u00f3gica com outros Ap\u00f3stolos, dores oriundas das limita\u00e7\u00f5es pessoais (defeito f\u00edsico do rosto? pobreza de apresenta\u00e7\u00e3o? gaguez an\u00e1loga a Mois\u00e9s e Jeremias? a sua condi\u00e7\u00e3o de judeu a pregar aos gentios e incapaz de convencer os judeus? &#8211; 2 Cor 12, 7-9), comunidades adolescentes e inconstantes na Gal\u00e1cia do Norte, comunidades sincretistas em Colossos e dial\u00e9cticas em Atenas (Act 17,16s), celebra\u00e7\u00f5es eucar\u00edsticas invadidas pelo populismo de conv\u00edvios vaidosos em Corinto, comerciantes da religiosidade popular disfar\u00e7ados de pessoas interessadas pelo progresso econ\u00f3mico do povo (Act19,13-32), falso zelo religioso a encobrir jogadas pol\u00edticas, instrumentaliza\u00e7\u00e3o de senhoras da sociedade por grupos de press\u00e3o pol\u00edtica (Act 13,50), desaven\u00e7as entre mulheres crist\u00e3s e caprichos doutorais de outras demasiado faladoras em \u00c9feso (Cartas a Tim\u00f3teo), manobras levadas a cabo junto dos tribunais romanos para exercer vingan\u00e7as.  Tudo isso aconteceu na vida de Paulo, e v\u00e1rias vezes teve de se defender a si mesmo para salvar o seu minist\u00e9rio, o que constituiu mais uma dor de cabe\u00e7a (2 Cor 11;12). Dir-se-ia ser Paulo um homem conflituoso, um gerador de atritos e desaven\u00e7as, e mesmo uma voca\u00e7\u00e3o dif\u00edcil. 3- Vale a pena suspender aqui a informa\u00e7\u00e3o b\u00edblica sobre as tribula\u00e7\u00f5es pastorais de Paulo e dar lugar a uma revis\u00e3o de vida pessoal.  N\u00e3o h\u00e1 ningu\u00e9m verdadeiramente crist\u00e3o que n\u00e3o se sinta retratado em muitas destas cenas, sejam p\u00e1rocos, sejam mission\u00e1rios, sejam bispos, sejam religiosos, sejam pais, catequistas, educadores e professores, sejam leigos militantes na Igreja e no mundo. Perante os problemas, poder invadir-nos a terr\u00edvel pergunta: serei uma voca\u00e7\u00e3o falhada? Ser\u00e1 que ando enganado? Ser\u00e1 este o meu lugar? N\u00e3o ser\u00e1 melhor deixar andar? Ainda vale a pena a ousadia?  Consciente ou inconscientemente, todos sonhamos com uma vida pastoral e crist\u00e3 sem atritos, pelo menos no interior da Igreja. E, teoricamente, h\u00e1 conflitos que se podiam evitar, n\u00e3o sendo necess\u00e1rio soprar o vento da agita\u00e7\u00e3o para fazer andar o mundo, pois a hist\u00f3ria n\u00e3o se faz com luta de classes, mas no di\u00e1logo sincero, na paci\u00eancia e conjuga\u00e7\u00e3o de esfor\u00e7os. Todavia, a marca humana (susceptibilidades e limita\u00e7\u00f5es humanas, tanto de pessoas como de grupos, a diversidade de perspectivas), invade o trabalho mais leal. Analise o leitor o que se passa \u00e0 sua volta: De que conflitos \u00e9 acusado? \u2013 De propor aos filhos e \u00e0queles de quem se \u00e9 respons\u00e1vel o Evangelho como \u00abboa nova\u00bb, e exigir esfor\u00e7o e brio? De clamar por professores e catequistas que eduquem a cabe\u00e7a e o cora\u00e7\u00e3o dos filhos e alunos? De apelar \u00e0 seriedade na vida acad\u00e9mica e profissional, de repetir que estudar faz doer e trabalhar faz suar? De lembrar aos detentores do poder os descaminhos, convidando-os a p\u00f4r os p\u00e9s no ch\u00e3o?  Apesar de todos os conselhos que damos e recebemos, apesar de todas as cautelas que sugerimos e tomamos, apesar da experi\u00eancia dos anos, surgir\u00e3o sempre, pela fragilidade de uns, imaturidade de outros e obst\u00e1culos de terceiros, dores de cabe\u00e7a e desgaste, tanto na ac\u00e7\u00e3o como na omiss\u00e3o. N\u00e3o se \u00e9 tamb\u00e9m acusado de n\u00e3o ter falado nem agido? At\u00e9 o sil\u00eancio faz sofrer, pois evitar sistematicamente pequenas dores de cabe\u00e7a \u00e9 contribuir para a cria\u00e7\u00e3o de furac\u00f5es sociais, e invocar a paz esconde \u00e0s vezes o medo de agir e o desejo de \u00abcultivar a imagem\u00bb. H\u00e1 atitudes falsamente pac\u00edficas, filhas de um errado irenismo, e saber discernir as atitudes de falar e de calar \u00e9 outro desafio. Realmente, \u00e9 um mist\u00e9rio humano este de termos de sofrer para aprender e fazer sofrer aqueles que estimamos. Geralmente, as coisas s\u00f3 se tornam indiscut\u00edveis e claras depois de feitas, seja o bem, seja o mal, mas j\u00e1 n\u00e3o h\u00e1 volta a dar. Antes, seria preciso acreditar e obedecer a um plano e ainda que todos os intervenientes na obra a executassem fielmente, mas isso ultrapassa a vida humana.  Estamos, pois, condenados a sofrer e a fazer sofrer. H\u00e1 situa\u00e7\u00f5es conflituosas inevit\u00e1veis e inculp\u00e1veis. Resta-nos torn\u00e1-los salutares, que fa\u00e7am crescer as pessoas. O pr\u00f3prio Jesus advertiu-nos da necessidade constante de pedir perd\u00e3o, de praticar a correc\u00e7\u00e3o fraterna, e, ao mesmo tempo, da nossa condi\u00e7\u00e3o de soldados da \u00abguerra\u00bb que Ele pr\u00f3prio veio \u00abestabelecer\u00bb. \u00abO reino de Deus sofre viol\u00eancia e s\u00e3o os violentos que o arrebatam\u00bb. H\u00e1 uma paz que n\u00e3o vem de Deus, a paz podre, a paz da in\u00e9rcia, a paz da aus\u00eancia de princ\u00edpios e da falsa descontrac\u00e7\u00e3o, a paz dos que ficam parados para n\u00e3o terem a ma\u00e7ada de investir o talento recebido ou dos que n\u00e3o sabem o que querem.  Difundiu-se em vastos sectores da sociedade, nas fam\u00edlias (incluindo a din\u00e2mica do amor conjugal e da gera\u00e7\u00e3o de filhos), o sonho de um amor sem dores, sem necessidade de humildade, de pedir perd\u00e3o e de recome\u00e7ar. Sem perder a paz, h\u00e1 que assumir o sonho e o fracasso, pois o caminho evang\u00e9lico aprende-se sofrendo.  Os textos paulinos falam da \u00abpar\u00e8sia\u00bb do Ap\u00f3stolo, uma atitude que \u00e9 um misto de aud\u00e1cia e confian\u00e7a em Deus. \u00c9 essa \u00abpar\u00e8sia\u00bb que o anima a pregar nos mais variados tons, incluindo os sentimentos de pai e de m\u00e3e, a tra\u00e7ar normas e a aplicar castigos, e a aprender com o insucesso: em Corinto pregou a Cruz, depois de haver falhado com o brilharete filos\u00f3fico em Atenas. N\u00e3o h\u00e1 em Paulo quaisquer sinais de ang\u00fastia existencial acerca da sua voca\u00e7\u00e3o: \u00absei em quem acreditei\u00bb, sei que \u00abtrago comigo os estigmas da paix\u00e3o de Cristo\u00bb. E deixa que seja Deus a fazer o julgamento e a marcar a data da colheita; a si basta semear, por vezes com l\u00e1grimas.  Quem sabe se este Ano Paulino n\u00e3o far\u00e1 parte dos frutos da sementeira de h\u00e1 dois mil\u00e9nios!  * Bispo de Vila Real  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Texto de D. 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