{"id":339207,"date":"2024-09-06T17:57:13","date_gmt":"2024-09-06T16:57:13","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=339207"},"modified":"2024-09-06T17:57:13","modified_gmt":"2024-09-06T16:57:13","slug":"cultura-do-descarte","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/cultura-do-descarte\/","title":{"rendered":"Cultura do descarte"},"content":{"rendered":"<p>Padre Manuel Ribeiro, Diocese de Bragan\u00e7a-Miranda<\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-228266 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/padre-manuel-ribeiro-braganca-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/padre-manuel-ribeiro-braganca-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/padre-manuel-ribeiro-braganca-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/padre-manuel-ribeiro-braganca-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/padre-manuel-ribeiro-braganca-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/padre-manuel-ribeiro-braganca-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/padre-manuel-ribeiro-braganca-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/padre-manuel-ribeiro-braganca-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/padre-manuel-ribeiro-braganca.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/>O Papa Francisco vem reiteradamente alertando para a &#8216;cultura do descart\u00e1vel&#8217; que o processo de globaliza\u00e7\u00e3o tem implementado na sociedade actual<a href=\"applewebdata:\/\/D14E2D28-35DF-4F95-B391-79765758BB47#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>. \u201cVivemos numa \u00e9poca marcada pela pressa, pela agita\u00e7\u00e3o e pelo imediatismo. Tais caracter\u00edsticas s\u00e3o t\u00edpicas de uma sociedade na qual a <em>Globaliza\u00e7\u00e3o da Indiferen\u00e7a<\/em> est\u00e1 enraizada e como tal produz efeitos nefastos, tais como, n\u00e3o compreender no outro o meu semelhante, o meu irm\u00e3o, um prolongamento de mim mesmo. Desta forma, este funesto fen\u00f3meno, t\u00e3o presente na nossa \u00e9poca, tende a aprisionar-nos numa redoma de ego\u00edsmo e de individualismo, assim, \u00e9 preciso estar atento e combater a prolifera\u00e7\u00e3o deste v\u00edrus que se manifesta nas mais diferentes formas e n\u00edveis\u201d (<em>O Papa Francisco e o combate \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o da indiferen\u00e7a<\/em>, 2020).<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">J\u00e1 paramos para pensar que passamos grande parte da nossa vida a construir narrativas ou, pior, a acreditar nas narrativas ditas pelos outros e \u00e0 espera que estes nos validem? Julgamos que a felicidade \u00e9 um direito e que o seu alcance est\u00e1 somente na minha atitude e comprometimento com essa meta. Ouvimos como verdades absolutas esta enxurrada de ideias positivistas, autorreferenciais e obtusas. Na verdade, \u00e9 uma amalgama de tudo e, no fundo, de nada.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Apercebemo-nos que a vida, ou melhor dito, o tempo, s\u00e3o uma realidade sem retrocesso. \u00c9 imposs\u00edvel parar e\/ou voltar atr\u00e1s. A vida e o tempo continuam quer eu queira quer n\u00e3o, quer eu esteja preparado ou n\u00e3o, quer eu o viva ou n\u00e3o, quer eu o imprima de significado e de sentido ou n\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">O risco, portanto, est\u00e1 no validar das nossas op\u00e7\u00f5es, decis\u00f5es e ac\u00e7\u00f5es com base nas pseudonecessidades ou das relativas prioridades que julgamos ter, ou que nos \u00e9 dito que o s\u00e3o. H\u00e1 no ar uma certa promessa de felicidade e de bem-estar nesta cultura dominante. Mas, com o passar dos anos levamos \u2018um banho de realidade\u2019 e apercebemo-nos que fomos enganados. Pior, apercebemo-nos que nos perdemos em n\u00f3s mesmos e de n\u00f3s mesmos, que n\u00e3o fomos capazes de ser vida e luz no outro, de deixar mem\u00f3ria e saudade na vida do outro, que n\u00e3o pudemos nem soubemos viver o momento e a vida como dom e gra\u00e7a, como uma oportunidade e uma ocasi\u00e3o irrepet\u00edvel de sentido, de significado e de miss\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Muitas s\u00e3o as perguntas que se levantam: se eu pudesse viver de novo a minha vida o que mudaria? O que faria diferente? Quem seria e o que seria para algu\u00e9m? Que consci\u00eancia teria eu da minha finitude, debilidade e car\u00eancia? Quem seria eu se deixasse que Deus fosse em mim o actuante e protagonista principal? Que marca e que lembran\u00e7a deixaria no cora\u00e7\u00e3o dos outros?<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Confesso que gosto muito de ler (de re-ler) a magistral obra de Alan Alexander Milne (autor ingl\u00eas, 1882-1956), \u201cWinnie-the-Pooh\u201d. Este conto infantil \u00e9, na minha \u00f3ptica, um belo texto de filosofia. Nele encontramos como identidade e alteridade se cruzam, permitindo a diferen\u00e7a e a inclus\u00e3o, e a constru\u00e7\u00e3o de uma rede de rela\u00e7\u00f5es fraternais, genu\u00ednas e aut\u00eanticas. Aqui, a viol\u00eancia do ego (do ego\u00edsmo e do egocentrismo) n\u00e3o tem lugar. Tudo concorre numa linha de coopera\u00e7\u00e3o e de fraternidade. Na verdade, esta n\u00e3o disrup\u00e7\u00e3o entre identidade e alteridade, faz com que o livro termine, brilhantemente, com a afirma\u00e7\u00e3o prof\u00e9tica que \u201co menino e os amigos (animais) sempre jogar\u00e3o juntos\u201d. Esta frase dever-nos-ia tocar bem no fundo de n\u00f3s mesmos. As pessoas sacrificam a sua alegria, a sua divers\u00e3o, desejando-se levar por necessidades inconscientes de validar a sua exist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"font-weight: 400;\">Introduzo este conto infantil para sustentar a ideia de Byung-Chul Han de que a <em>expuls\u00e3o do outro<\/em> e a implementa\u00e7\u00e3o da <em>positividade do igual<\/em> trazem consigo graves problemas na unidade relacional entre identidade e alteridade. E, com isso, levantam na sociedade e no pensamento actual um conjunto de problemas e quest\u00f5es: de sentido e de significado, de prop\u00f3sito e de miss\u00e3o, de perten\u00e7a e de comunh\u00e3o<a href=\"applewebdata:\/\/D14E2D28-35DF-4F95-B391-79765758BB47#_ftn2\" name=\"_ftnref2\">[2]<\/a>.<\/p>\n<p><a href=\"applewebdata:\/\/D14E2D28-35DF-4F95-B391-79765758BB47#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Interessante o que F\u00e1bio Pereira Feitosa escreveu sobre este alerta. Diz ele: &#8220;percebemos na fala do Papa Francisco, contundentes den\u00fancias ao actual sistema que exclui aqueles que n\u00e3o podem pagar pelos benef\u00edcios da globaliza\u00e7\u00e3o e, como tal, entram numa nova categoria social, os sobrantes. Infelizmente, o n\u00famero destes homens e mulheres s\u00f3 tem aumentado com o passar do tempo, o que evidencia uma total desproporcionalidade entre o desenvolvimento econ\u00f3mico\/tecnol\u00f3gico e o desenvolvimento social\/humano&#8221; (O Papa Francisco e o combate \u00e0 globaliza\u00e7\u00e3o da indiferen\u00e7a, 2020).<\/p>\n<p><a href=\"applewebdata:\/\/D14E2D28-35DF-4F95-B391-79765758BB47#_ftnref2\" name=\"_ftn2\">[2]<\/a> Em \u201cSociedade paliativa: a dor de hoje\u201d, Han \u201caborda quest\u00f5es relativas \u00e0 busca por positividade e a rejei\u00e7\u00e3o da dor pelo ser humano. Na sociedade paliativa, a \u00fanica busca \u00e9 pela sobreviv\u00eancia, preservando o corpo daquilo que a ele \u00e9 externo e que a ele pode afetar: a dor e o outro. O autor afirma que a dor \u00e9 um elemento humano e que a luta por sobreviv\u00eancia, aliada \u00e0 supress\u00e3o da negatividade, corre o risco de tirar das pessoas tudo aquilo que \u00e9 humano, negativo, e que diz respeito \u00e0 exist\u00eancia perante os outros. A contradi\u00e7\u00e3o seria a necessidade de, em tempos de pandemia, lutar pela pr\u00f3pria sa\u00fade para que se consiga fazer tamb\u00e9m com que os outros sobrevivam. \u00c9 um afastamento da dor do outro em nome de sua supress\u00e3o e da sobreviv\u00eancia m\u00fatua entre a positividade de n\u00e3o sofrer e a negatividade da empatia\u201d (\u00abByung-Chul Han\u00bb, 2023).<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Manuel Ribeiro, Diocese de Bragan\u00e7a-Miranda<\/p>\n","protected":false},"author":5,"featured_media":228266,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[173],"class_list":["post-339207","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao","tag-diocese-de-braganca-miranda"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/339207","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/5"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=339207"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/339207\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/228266"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=339207"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=339207"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=339207"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}