{"id":338761,"date":"2024-09-03T09:08:54","date_gmt":"2024-09-03T08:08:54","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=338761"},"modified":"2024-09-03T09:08:54","modified_gmt":"2024-09-03T08:08:54","slug":"o-assunto-de-que-nao-se-pode-falar","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-assunto-de-que-nao-se-pode-falar\/","title":{"rendered":"O assunto de que n\u00e3o se pode falar"},"content":{"rendered":"<p><em>Jorge Pires Ferreira, Diocese de Aveiro<\/em><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jorge-Pires-Ferreira.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-270080 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jorge-Pires-Ferreira-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jorge-Pires-Ferreira-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jorge-Pires-Ferreira-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jorge-Pires-Ferreira-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jorge-Pires-Ferreira-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Jorge-Pires-Ferreira.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>Uma m\u00e3e de fam\u00edlia, um te\u00f3logo e uma freira entram numa sala para falar a um grupo de cardeais. Parece o in\u00edcio de uma anedota. Mas \u00e9 antes a continua\u00e7\u00e3o de uma grande conversa sobre as mulheres na Igreja. No entanto, a conversa est\u00e1 condicionada \u00e0 partida. H\u00e1 um assunto de que n\u00e3o podem falar. Mas \u00e9 precisamente esse o \u00fanico assunto que \u00e9 preciso discutir, refletir ou conversar.<\/p>\n<p>A m\u00e3e de fam\u00edlia, o te\u00f3logo, que \u00e9 padre, e a freira s\u00e3o, respetivamente, Lucia Vantini (Verona, 1972), Luca Castiglioni (Legnano, 1981) e Linda Pocher (Udine, 1980). E a conversa que tiveram com o grupo de cardeais que auxilia o Papa na reforma da Igreja aconteceu no dia 4 de dezembro de 2023 e foi publicada em portugu\u00eas (a parte das comunica\u00e7\u00f5es destes tr\u00eas) pelas edi\u00e7\u00f5es Paulinas sob o t\u00edtulo \u201cDesmasculinizar a Igreja. An\u00e1lise cr\u00edtica dos \u00abprinc\u00edpios\u00bb de Hans Urs von Balthasar\u201d.<\/p>\n<p>A conversa \u2013 chamemos assim \u00e0s comunica\u00e7\u00f5es dos tr\u00eas \u2013 \u00e9 audaz. Desmonta os princ\u00edpios de von Balthasar, ou o uso que deles se faz, como \u201csimplifica\u00e7\u00f5es banais\u201d, como algo que causa \u201cmal-estar\u201d e \u201cintoler\u00e2ncia\u201d entre as mulheres, como \u201cf\u00f3rmula vazia com tristes e injustos efeitos colaterais\u201d. E a aud\u00e1cia \u00e9 t\u00e3o grande quanto o uso que os papas desde Paulo VI t\u00eam feito dos princ\u00edpios petrino e mariano para falar do homem e da mulher na Igreja.<\/p>\n<p>Numa vers\u00e3o simplificada das ideias do te\u00f3logo su\u00ed\u00e7o, o princ\u00edpio petrino refere-se \u00e0 \u201cdimens\u00e3o objetiva e institucional da Igreja\u201d \u2013 o poder, que \u00e9 exercido por homens. O princ\u00edpio mariano refere-se ao \u00ab\u201csim\u201d [de Maria] sem condi\u00e7\u00f5es\u201d \u2013 o carisma do amor e do cuidado, exercido por mulheres. As comunica\u00e7\u00f5es aos cardeais deixam bem claro que n\u00e3o s\u00f3 as mulheres (e os homens) n\u00e3o se reveem nestes princ\u00edpios, como von Balthasar referiu outros que se omitem: o paulino, da profecia; o joanino, da m\u00edstica e da contempla\u00e7\u00e3o; o tiaguino, do sentido hist\u00f3rico da salva\u00e7\u00e3o. Lucia Vantini conclui que \u00e9 preciso \u201csair da idealiza\u00e7\u00e3o m\u00edstica do feminino e redescobrir as mulheres reais, interrogar a consci\u00eancia masculina nos seus aspetos subjetivos mais afetivo e vulner\u00e1veis, dar vida a uma cultura do n\u00f3s, da complexidade, da interconex\u00e3o, da liberdade da diferen\u00e7a e na diferen\u00e7a\u201d (p\u00e1g. 32).<\/p>\n<p>A conversa \u00e9 audaz, mas, na minha opini\u00e3o, inconsequente. A conversa tem como finalidade, a pedido do Papa Francisco, \u201cdesmasculinizar a Igreja\u201d. A express\u00e3o \u00e9 dele. N\u00e3o imagino como se pode ter a d\u00favida, se algu\u00e9m a tem, de que se a Igreja est\u00e1 masculinizada \u00e9 apenas e totalmente por admitir somente homens na ordena\u00e7\u00e3o. Nunca ser\u00e1 poss\u00edvel \u201cdesmasculinizar a Igreja\u201d enquanto as mulheres n\u00e3o puderem presidir \u00e0 Eucaristia. Mas disso n\u00e3o se pode falar abertamente. \u00c9 a \u00fanica quest\u00e3o que interessa. Mas, sil\u00eancio. Toda a gente pressente isso, mas \u201cn\u00e3o est\u00e1 em discuss\u00e3o\u201d. Quest\u00e3o intoc\u00e1vel. \u201cA quest\u00e3o dos minist\u00e9rios n\u00e3o est\u00e1, por agora, na agenda, mas anda no ar, sentido-se j\u00e1 a sua press\u00e3o: como um fantasma, paira nas nossas salas, perturba o racioc\u00ednio e inibe a franqueza entre n\u00f3s\u201d, desabafa Vantini no in\u00edcio da sua comunica\u00e7\u00e3o (p\u00e1g. 16), para n\u00e3o mais voltar ao assunto de forma direta.<\/p>\n<p>N\u00e3o entendo como se demora tanto tempo a abordar de caras o assunto. Como a Miss\u00e3o-Igreja prescinde de metade de humanidade para algo t\u00e3o fundamental como tornar Cristo presente na Eucaristia. N\u00e3o entendo como se continua a argumentar que Jesus s\u00f3 escolheu homens para ap\u00f3stolos, esquecendo (ou omitindo \u2013 \u00e9 irreal falar de ignor\u00e2ncia) que a simbologia dos ap\u00f3stolos n\u00e3o reside apenas na masculinidade, mas tamb\u00e9m no n\u00famero (12 tribos) e na nacionalidade-etnia (judeus), elementos de que Igreja prescindiu para escolher os seus ministros, que, enquanto presb\u00edteros, n\u00e3o s\u00e3o necessariamente \u201csucessores dos ap\u00f3stolos\u201d.<\/p>\n<p>O assunto \u00e9 falado, sim, nos pequenos grupos, mas a conclus\u00e3o \u00e9 a mesma que nos grandes. Algo como: \u201cH\u00e1 muito a fazer, h\u00e1 um longo caminho a percorrer at\u00e9 \u00e0 ordena\u00e7\u00e3o de mulheres, que por agora n\u00e3o \u00e9 discut\u00edvel\u201d.\u00a0 E outro argumento surge, aproximando Francisco de Joseph Ratzinger, que ordenar mulheres \u00e9 \u201cclericalizar mulheres\u201d. Joseph Ratzinger, numa estranha alian\u00e7a com as feministas, chegou a afirmar que \u00e9 bom que as mulheres n\u00e3o sejam ordenadas porque, como algumas te\u00f3logas feministas afirmam, \u201ca ordena\u00e7\u00e3o \u00e9 submiss\u00e3o\u201d (no livro-entrevista \u201cV\u00f3s sois o sal da terra e a luz do mundo\u201d).<\/p>\n<p>Cada dia que passa sem avan\u00e7os nesta quest\u00e3o \u00e9 um dia em que a Igreja se atrasa na sua miss\u00e3o de testemunha do Reino.<\/p>\n<p>Para muitas mulheres, o atraso parece ser irrecuper\u00e1vel. Nada do que a Igreja \u201cmasculinizada\u201d possa dizer ou fazer \u00e9 ouvido. H\u00e1 muitas mais quest\u00f5es femininas (no sentido em que a \u201cIgreja masculinizada\u201d n\u00e3o consegue compreender, como s\u00e3o as quest\u00f5es do corpo e da sexualidade) para al\u00e9m da ordena\u00e7\u00e3o de mulheres, mas \u00e9 esta a que mais pode mudar positivamente o rosto da Igreja. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 a mais urgente. \u00c9 a mais importante.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jorge Pires Ferreira, Diocese de Aveiro<\/p>\n","protected":false},"author":3,"featured_media":270080,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[170,340],"class_list":["post-338761","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao","tag-diocese-de-aveiro","tag-mulher"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/338761","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/3"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=338761"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/338761\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/270080"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=338761"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=338761"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=338761"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}