{"id":336570,"date":"2024-08-11T09:01:39","date_gmt":"2024-08-11T08:01:39","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=336570"},"modified":"2024-08-07T16:58:55","modified_gmt":"2024-08-07T15:58:55","slug":"brincar-na-areia","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/brincar-na-areia\/","title":{"rendered":"Brincar na Areia"},"content":{"rendered":"<p><em>Ant\u00f3nio Salvado Morgado, Diocese da Guarda<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-271042 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-1280x853.jpg 1280w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/02\/Antonio-Morgado-guarda.jpg 1500w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/>Contrastando com outros concorrentes, que optaram por castelos, carros e objectos de campanhas publicit\u00e1rias de ocasi\u00e3o, aquele menino havia constru\u00eddo uma escultura de homenagem ao futebolista que mais admirava na equipa da sua predilec\u00e7\u00e3o. Com a bola colada \u00e0 chuteira e naquela posi\u00e7\u00e3o, o jogador encontrava-se na melhor situa\u00e7\u00e3o que o menino considerava ideal para a marca\u00e7\u00e3o de mais um golo. Aquele jogador era o goleador da equipa e ele, o escultor de ocasi\u00e3o, pretendia homenagear o seu \u00eddolo da bola naquele concurso de constru\u00e7\u00f5es de areia que o Munic\u00edpio local havia promovido. E era indescrit\u00edvel o entusiasmo daquela crian\u00e7a em quem o professor encontrava sensibilidade e talento de artista.<\/p>\n<p>Tudo parecia estar perfeito e aproximava-se a hora da visita do j\u00fari. Nem o t\u00edtulo faltava. Numa pequena pedra que as ondas do mar haviam polido, aquela crian\u00e7a, com letras desenhadas com perfei\u00e7\u00e3o, havia escrito: \u00abO Goleador\u00bb. Nada mais. Toda a gente sabia quem era o goleador. N\u00e3o seria necess\u00e1rio indicar qualquer nome, pensava.<\/p>\n<p>Mas, num instante, uma inesperada onda trai\u00e7oeira tudo desfez. S\u00f3 a pedra de \u00abO Goleador\u00bb resistiu e, mesmo essa, deslocou-se um pouco mais para al\u00e9m.<\/p>\n<p>O tempo urgia. Era necess\u00e1rio superar a inesperada situa\u00e7\u00e3o. O j\u00fari j\u00e1 come\u00e7ava a observar as obras de outros concorrentes e em breve chegou ao seu espa\u00e7o.<\/p>\n<p>&#8211; Onde est\u00e1 \u00abO Goleador\u00bb? \u2013 Perguntou o presidente do j\u00fari ao olhar para aquela pedra colocada em lugar de honra naquele metro de praia onde parecia n\u00e3o haver mais nada para observar.<\/p>\n<p>&#8211; Est\u00e1 ali dentro a festejar a vit\u00f3ria com o golo que ele meteu. \u2013 respondeu aquele menino enquanto, com tristeza, apontava para uma cova feita naquele espa\u00e7o varrido pelo mar e que dava acesso a uma gruta cavada \u00e0 pressa na areia molhada.<\/p>\n<p>Consta que este menino ganhou o primeiro pr\u00e9mio do concurso.<\/p>\n<p>H\u00e1 dias comemorativos de tudo. Raros ser\u00e3o os dias do ano que n\u00e3o s\u00e3o comemorativos de qualquer coisa. Dias h\u00e1 que s\u00e3o m\u00faltiplos: neles cabem v\u00e1rias comemora\u00e7\u00f5es. Se uns s\u00e3o profusamente badalados, outros ser\u00e3o esquecidos e ignorados; uns mais necess\u00e1rios e outros mais sup\u00e9rfluos. Alguns ser\u00e3o at\u00e9 ris\u00edveis, pelo menos quando nos encontramos menos informadas. Tantos s\u00e3o que mesmo aqueles que foram criados para proporcionarem alguma disrup\u00e7\u00e3o na nossa vida acabam por nos deixar insens\u00edveis. Outros h\u00e1 que foram de tal modo a\u00e7ambarcados pela sociedade de consumo que o seu significado profundo fica de todo ensombrado pelo af\u00e3 do com\u00e9rcio. Por essa e outras raz\u00f5es, encaro sempre estes dias com algum esp\u00edrito cr\u00edtico.<\/p>\n<p>Haver\u00e1 muita gente que nunca ter\u00e1 ouvido falar no \u00ab<em>Dia de Brincar na Areia<\/em>\u00bb. Eu, que tanto brinquei na areia com filhos, netos e sobrinhos, estava nesse grupo at\u00e9 h\u00e1 dias. Sim, foi h\u00e1 dias que soube que havia um \u00ab<em>Dia de Brincar na Areia<\/em>\u00bb. Uma originalidade proveniente, como outras originalidades estranhas, dos Estados Unidos da Am\u00e9rica e que rapidamente se ter\u00e1 espalhado por muitos pa\u00edses. Soube-o casualmente quando me achava a pensar na data do Encerramento dos Jogos Ol\u00edmpicos de Paris 2024, dia 11 de Agosto. Numa daquelas maravilhas em que o Google \u00e9 mestre, os jogos de Paris levaram-me, num instante, para um mar imenso de areia. O dia 11 de Agosto \u2013 fiquei ent\u00e3o a saber \u2013 \u00e9 tamb\u00e9m o \u00ab<em>Dia de Brincar na Areia<\/em>\u00bb. Achei curiosa esta coincid\u00eancia, enriquecida ainda mais porque esse \u00e9 tamb\u00e9m o \u00ab<em>Dia de Santa Clara<\/em>\u00bb, a santa de Assis que, deslumbrada com a pobreza evang\u00e9lica de S\u00e3o Francisco, vai ter com este santo \u00e0 Porci\u00fancula e acaba por fundar a sec\u00e7\u00e3o feminina da Ordem Franciscana.<\/p>\n<p>Brincar na areia foi sempre comum nas praias de Portugal que as ondas foram colocando na nossa costa ao longo dos tempos. Nossa, do extremo da Europa, e de outras praias do mundo, como aquela do Norte de \u00c1frica, passeada por Santo Agostinho [354-430: 28 de Agosto] para desvendar os mist\u00e9rios divinos ao som e movimento das ondas no vaiv\u00e9m intermin\u00e1vel. J\u00e1 nessa altura a praia seria o lugar de descanso, jogos v\u00e1rios e de brincadeiras de crian\u00e7as na areia, mas tamb\u00e9m de desafios, po\u00e9ticos e especulativos, que a imensid\u00e3o das \u00e1guas coloca ao esp\u00edrito humano.<\/p>\n<p>A lenda \u00e9 bem conhecida e divulgada. Ela aparece at\u00e9 em v\u00e1rias vers\u00f5es e, como que a \u00abbrincar na areia\u00bb, valer\u00e1 a pena revisit\u00e1-la.<\/p>\n<p>Naquela praia de Hipona, passeava-se Agostinho nas suas cogita\u00e7\u00f5es sobre o mist\u00e9rio da Trindade. O seu pensamento seguiria, certamente, o ritmo das ondas naquele cont\u00ednuo vai e vem para tentar encontrar uma solu\u00e7\u00e3o racional para aquele grande mist\u00e9rio de Deus Trindade. Entretanto uma crian\u00e7a havia feito uma cova na areia e, num movimento cont\u00ednuo ao ritmo das ondas, com um pequeno recipiente vai trazendo \u00e1gua do mar para aquela cova. Agostinho p\u00e1ra, interrompe a especula\u00e7\u00e3o, observa por momentos a cena e atreve-se a dirigir-se ao menino entretido com aquele jogo aqu\u00e1tico de deixar na sombra qualquer jogo da cidade de Olimpo.<\/p>\n<p>&#8211; Ol\u00e1! O que est\u00e1s a fazer, meu menino?<\/p>\n<p>&#8211; Ol\u00e1! Estou a trazer toda a \u00e1gua do mar para esta po\u00e7a. \u2013 respondeu, de imediato, a crian\u00e7a.<\/p>\n<p>Tocado por aquele jogo de menino inocente, o Bispo de Hipona comenta:<\/p>\n<p>&#8211; Oh, meu menino. Mas tu n\u00e3o v\u00eas que o mar \u00e9 imenso e a tua cova \u00e9 muito pequenina para poder conter toda aquela \u00e1gua? V\u00ea que \u00e9 imposs\u00edvel trazer o mar para a tua cova.<\/p>\n<p>Aquele menino poderia ter dito que era uma brincadeira, que era a fingir. Seria a resposta mais natural. Mas foi outra e bem misteriosa a observa\u00e7\u00e3o daquele menino que parecia brincar na areia como tantos meninos da sua idade.<\/p>\n<p>&#8211; Pois fica a saber que \u00e9 mais f\u00e1cil para mim transportar toda a \u00e1gua do mar para esta pequena cova do que tu, s\u00f3 com o poder da tua raz\u00e3o, compreenderes as profundezas do mist\u00e9rio da Trindade.<\/p>\n<p>Sem mais dizer, aquele misterioso menino desapareceu deixando bem vis\u00edvel a cova feita na areia da praia. E, por longo tempo, Agostinho, sem poder esquecer as palavras que acabara de ouvir, ali ficou, contemplativo, a olhar para aquela pequena cova.<\/p>\n<p>Fosse quem fosse aquele menino brincalh\u00e3o, o Menino Jesus ou um Anjo de Deus, o certo \u00e9 que, como nos grandes mitos, esta lenda, n\u00e3o sendo verdadeira naquilo que narra, \u00e9 verdadeira no que significa. Deus brinca suavemente com o Homem na imensidade da sua cria\u00e7\u00e3o e o Homem brinca com Deus na pobreza e pequenez dos seus conceitos racionais.<\/p>\n<p>Numa qualquer praia de brincadeira de meninos, h\u00e1 sempre uma cova fr\u00e1gil feita na areia a esconder a imensid\u00e3o do Mist\u00e9rio Divino. Nessa praia qualquer, todos os dias podem ser dias de brincar na areia, mesmo quando a pobreza humana \u00e9 t\u00e3o grande como a de Clara quando se apresentou ao pobre Francisco de Assis.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ant\u00f3nio Salvado Morgado, Diocese da Guarda<\/p>\n","protected":false},"author":17,"featured_media":271042,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[168],"class_list":["post-336570","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao","tag-diocese-da-guarda"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/336570","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/17"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=336570"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/336570\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/271042"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=336570"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=336570"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=336570"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}