{"id":33527,"date":"2008-08-06T16:31:08","date_gmt":"2008-08-06T16:31:08","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/08\/06\/26-anos-de-memorias-com-d-manuel-de-almeida-trindade\/"},"modified":"2008-08-06T16:31:08","modified_gmt":"2008-08-06T16:31:08","slug":"26-anos-de-memorias-com-d-manuel-de-almeida-trindade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/26-anos-de-memorias-com-d-manuel-de-almeida-trindade\/","title":{"rendered":"26 anos de mem\u00f3rias com D. Manuel de Almeida Trindade"},"content":{"rendered":"<p>Pe. Jo\u00e3o Gaspar, secret\u00e1rio pessoal recorda ang\u00fastias e muitas alegrias ao lado do Bispo Em\u00e9rito de Aveiro <!--more--> Durante 26 anos, o Pe. Jo\u00e3o Gon\u00e7alves Gaspar, actual Vig\u00e1rio-geral da diocese de Aveiro foi ao longo de v\u00e1rias d\u00e9cadas secret\u00e1rio pessoal de D. Manuel de Almeida Trindade. Dezembro de 1962 marcava o in\u00edcio de uma rela\u00e7\u00e3o que, terminou profissionalmente em Janeiro de 1988 \u2013 data da resigna\u00e7\u00e3o de D. Manuel \u2013 mas que continuou at\u00e9 aos dias de hoje.  \u201cConheci-o profundamente. Admirei-o e continuo a admirar. \u00c9 uma refer\u00eancia \u00fanica na minha vida pessoal\u201d, afirma \u00e0 Ag\u00eancia ECCLESIA o Pe. Jo\u00e3o Gon\u00e7alves Gaspar.  A primeira vez que se cruzou com D. Manuel de Almeida Trindade, quando este era ainda Reitor do Semin\u00e1rio de Coimbra, Jo\u00e3o Gon\u00e7alves Gaspar era um jovem com 15 anos. Mas n\u00e3o esquece as palavras vivas que \u201cdirigiu durante uma catequese na minha terra\u201d.   <b>Bispo conciliar<\/b> D. Manuel de Almeida Trindade foi um bispo que esteve presente desde o primeiro momento no II Conc\u00edlio do Vaticano, com diversas interven\u00e7\u00f5es (registadas nas actas do Conc\u00edlio). \u201cQuando chegava \u00e0 Aveiro, vindo de uma sess\u00e3o do Conc\u00edlio, vinha cheio de alegria\u201d. Desta reuni\u00e3o magna partilhava \u201cinterroga\u00e7\u00f5es e indefini\u00e7\u00f5es, mas dizia que no fim, tudo ficava bem, pois acreditava que o Esp\u00edrito Santo estava presente\u201d. Entre turbul\u00eancias e diferentes opini\u00f5es, \u201cno final da discuss\u00e3o de um documento, tudo se resolvia\u201d.   Em ser\u00f5es sucessivos em Aveiro, D. Manuel partilhou entre padres, as suas interven\u00e7\u00f5es no Conc\u00edlio sobre a liturgia e \u201cmais profundamente\u201d sobre o documento acerca da Igreja, \u00abDei Verbum\u00bb. \u201cEram interven\u00e7\u00f5es extraordin\u00e1rias\u201d, recorda o secret\u00e1rio.   D. Manuel de Almeida Trindade tinha uma \u201cgrande admira\u00e7\u00e3o pelo Papa Paulo VI, sofreu muito com ele\u201d. Tiveram \u201calguns encontros sobre quest\u00f5es da Igreja em Portugal\u201d, recorda o secret\u00e1rio.   As marcas e a implementa\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio s\u00e3o \u201cinesquec\u00edveis na pastoral de Aveiro e no panorama nacional\u201d. D. Manuel de Almeida Trindade foi durante cerca de 17 anos, Presidente e Vice presidente da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa, sempre com um esp\u00edrito de \u201cprud\u00eancia, um pacificador e congregador\u201d.  <b>Ver\u00e3o Quente<\/b> No Ver\u00e3o quente de 1975, D. Manuel \u201cavan\u00e7ou para uma manifesta\u00e7\u00e3o dos crist\u00e3os pela liberdade e pelos direitos humanos\u201d. Era o dia 13 de Julho de 1975. \u201cOuvindo pessoas simples da diocese, que n\u00e3o podiam ficar de bra\u00e7os cruzados perante a falta de liberdade da comunica\u00e7\u00e3o social, preocupado com a censura quer nos jornais da Igreja, como noutros, correndo o risco de ver cair o pa\u00eds noutra ditadura\u201d, conduziu os crist\u00e3os para uma manifesta\u00e7\u00e3o.   O que em Julho aconteceu em Aveiro, deu depois \u201cluz verde para Coimbra, Lamego, Leiria e Braga\u201d.   Nessa noite temeu-se a sua deten\u00e7\u00e3o, \u201cmas cont\u00e1mos com a defesa popular. Alguns homens de um grupo de Anadia, dias depois da manifesta\u00e7\u00e3o, estiveram sentados \u00e0 frente da casa, para prevenir\u201d, explica o secret\u00e1rio, acrescentando que \u201cchegamos a tirar de casa alguns documentos importantes\u201d. Na noite da manifesta\u00e7\u00e3o \u201calguns intervenientes foram presos, logo libertos, mas ele receou que algo lhe pudesse acontecer tamb\u00e9m\u201d.  D. Manuel de Almeida Trindade \u201cdizia-me que nunca perdia o sono\u201d, recorda o seu secret\u00e1rio. \u201cApesar de atormentado, vivia tranquilo, porque considerava que tudo era projecto de Deus\u201d. O Pe. Jo\u00e3o Gon\u00e7alves recorda-o como um homem \u201cde ora\u00e7\u00e3o e de Deus\u201d.   A aus\u00eancia de D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes foi outro momento dif\u00edcil para o ent\u00e3o Bispo de Aveiro. \u201cFicou muito feliz quando D. Ant\u00f3nio regressou depois \u00e0 diocese do Porto\u201d.   D. Domingos da Apresenta\u00e7\u00e3o Fernandes, antecessor em Aveiro de D. Manuel de Almeida Trindade, escreveu um cart\u00e3o elogiando a atitude do ent\u00e3o bispo do Porto, quando a 13 de Julho dirigiu uma carta a Salazar, o \u00abPro Mem\u00f3ria\u00bb.   O Pe. Jo\u00e3o Gon\u00e7alves recorda que esta atitude fez com que passassem, \u201cem casa a ser vigiados pela pol\u00edcia, chegando mesmo a temer a pris\u00e3o de D. Manuel\u201d.   D. Manuel de Almeida Trindade ficou amargurado por sentir \u201cpor um lado a aus\u00eancia de D. Ant\u00f3nio Ferreira Gomes da sua diocese e, por outro, o sofrimento grande de D. Florentino Andrade e Silva, administrador apost\u00f3lico do Porto, pois encontrava uma diocese dividida\u201d.   D. Manuel de Almeida Trindade nunca se encontrou pessoalmente com Salazar nem com Marcelo Caetano. Depois do 25 de Abril, enquanto Presidente da CEP, e acompanhado pelo Vice Presidente, o Cardeal D. Ant\u00f3nio Ribeiro, esteve com o Primeiro Ministro Vasco Gon\u00e7alves, num encontro \u201cmuito curioso, inicialmente previsto para durar 15 minutos, mas que se estendeu por uma hora e um quarto\u201d. Nesta hora, trocaram impress\u00f5es sobre a \u201cR\u00e1dio Renascen\u00e7a e a liberdade dos meios de comunica\u00e7\u00e3o\u201d. Os col\u00e9gios particulares e os col\u00e9gios da Igreja tamb\u00e9m foram tema de conversa.   O secret\u00e1rio pessoal reconhece que D. Manuel de Almeida Trindade n\u00e3o tinha grande \u00e0 vontade para falar com os jornalistas. \u201cPreferiu sempre escrever. Quando lhe pediam uma entrevista, ele solicitava as perguntas e respondia\u201d. Ainda sem computadores, \u201cgeralmente optava por escrever \u00e0 m\u00e1quina\u201d.   \u201cComo homem de responsabilidade que era tinha um certo receio de dizer mais do que devia ou falar menos do que queria. Assim, o punho era mais certo\u201d.   <b>Marca em Aveiro<\/b> Quando chega \u00e0 diocese de Aveiro, D. Manuel deixa transparecer a sua maneira de ser. \u201cAs semanas de Inverno foram passadas em visitas pastorais, pelas par\u00f3quias\u201d, um facto in\u00e9dito na altura. Visitava os pobres, as choupanas, as escolas e os doentes. \u201cEra um homem virado para uma pastoral social\u201d.   D. Manuel recebeu da autarquia de Aveiro a medalha de ouro da cidade. O Presidente da Rep\u00fablica M\u00e1rio Soares concedeu-lhe a Gr\u00e3 Cruz Ordem de M\u00e9rito. \u201cS\u00edmbolos da mem\u00f3ria e da amizade das pessoas\u201d. O Pe. Jo\u00e3o Gon\u00e7alves recorda a eleva\u00e7\u00e3o com que falava \u201ctanto a professores catedr\u00e1ticos como a homens do campo\u201d. Na sua sauda\u00e7\u00e3o inicial quando entrou em Aveiro, em Dezembro de 1962, \u201cdisse logo ser um homem do povo e queria continuar a s\u00ea-lo. E foi\u201d.  Tanto em casa como no gabinete, \u201co trato era familiar\u201d, recorda o secret\u00e1rio. \u201cEra um ambiente familiar, entre D. Manuel, eu, um colega e as Cooperadoras da Fam\u00edlia c\u00e1 de casa\u201d. As refei\u00e7\u00f5es em comum, \u201cfoi um h\u00e1bito que ele introduziu\u201d, assim como as conversas \u201centre todos\u201d. \u201cCriou-se um ambiente bom entre todos, que nos ajudou depois na nossa ac\u00e7\u00e3o pastoral\u201d.  D. Manuel era um l\u00edder que \u201csabia delegar fun\u00e7\u00f5es. N\u00e3o era absorvente, mas repartia responsabilidades\u201d.   Como referia a carta pontif\u00edcia da nomea\u00e7\u00e3o de D. Manuel, escrita por Jo\u00e3o XXIII, \u201crico em experi\u00eancia e em rela\u00e7\u00f5es humanas\u201d. O Pe. Jo\u00e3o Gon\u00e7alves recorda \u201cum homem que nunca foi distante das pessoas, sempre pr\u00f3ximo e atento\u201d. Em visitas aos doentes, o secret\u00e1rio recorda \u201co carinho\u201d.   <b>A resigna\u00e7\u00e3o<\/b> A resigna\u00e7\u00e3o foi pedida ao 70 anos porque \u201cele mesmo se sentia muito cansado. N\u00e3o tanto com o trabalho pastoral em Aveiro, mas sobretudo com a responsabilidade da CEP\u201d. O Secret\u00e1rio assume que D. Manuel soube sair de Aveiro, apesar da muita pena que teve\u201d.  Nos \u00faltimos tempos dele em casa, \u201cj\u00e1 sent\u00edamos que se repetia muito, sintoma de cansa\u00e7o\u201d. O seu secret\u00e1rio reconhece que \u201csoube sair a tempo\u201d. Mas \u201csofreu com a sa\u00edda de Aveiro. Saiu triste\u201d. O secret\u00e1rio explica que a tristeza advinha do \u201cmuito que ele ainda queria fazer, mas j\u00e1 n\u00e3o tinha sa\u00fade para tanto\u201d.   Embora tenha sido um homem \u201ctamb\u00e9m de Coimbra, manteve-se sempre ligado a Aveiro\u201d. Quando regressava a Aveiro \u201cera uma alegria. Andava a p\u00e9 pelas ruas da cidade e ficava \u00e0 conversa com as pessoas\u201d.   O Pe. Jo\u00e3o Gon\u00e7alves afirma que D. Manuel \u201ccontinuou sempre a ser muito meu amigo. Foi conselheiro e n\u00e3o esque\u00e7o alguns momentos da minha vida, onde ele foi um verdadeiro irm\u00e3o e amigo, mesmo sendo bispo\u201d. Sem querer especificar, recorda orienta\u00e7\u00f5es, \u201cmesmo em conversas de amigo para amigo\u201d. Noutras alturas, o secret\u00e1rio sentia-se \u201ccom liberdade, de dar a minha opini\u00e3o. Ele, uma ou outra vez, tomou em aten\u00e7\u00e3o\u201d.  Nos \u00faltimos encontros \u201cvi-o muito dependente e deca\u00eddo. Num encontro, fiquei com d\u00favida se ele me teria reconhecido\u201d, recorda.   Ontem, dia 5, o Pe. Jo\u00e3o Gon\u00e7alves Gaspar acompanhou D. Ant\u00f3nio Francisco dos Santos para \u201cmais uma visita, mas quando cheg\u00e1mos tinha acabado de falecer\u201d.   Como disposi\u00e7\u00f5es, D. Manuel pediu que o seu corpo passasse pela capela do Semin\u00e1rio de Coimbra, que a celebra\u00e7\u00e3o das ex\u00e9quias fosse na S\u00e9 nova e que depois fosse transladado para Aveiro. \u201cD. Manuel ficar\u00e1 no jazigo dos Bispos da diocese, dando cumprimento ao seu desejo\u201d.  Na sua entrada em Aveiro, D. Manuel disse que \u201cveio para ficar\u201d. Quando pediu a  resigna\u00e7\u00e3o \u201cnuma conversa que mantive com ele, disse-me que ia para Coimbra mas queria regressar na hora da morte\u201d.   O Pe. Jo\u00e3o Gon\u00e7alves descreve uma fotografia de D. Manuel que tem na sua frente, onde est\u00e1 pensativo, reflectindo com uma B\u00edblia na m\u00e3o. &#8220;Dizia-me que se algum dia fosse preso, queria que o deixassem levar uma B\u00edblia. \u00c9 precisamente assim que o recordo. Um homem de estudo e de uma vida espiritual\u201d.  <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Pe. 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