{"id":334666,"date":"2024-07-20T09:14:50","date_gmt":"2024-07-20T08:14:50","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=334666"},"modified":"2024-07-19T23:16:33","modified_gmt":"2024-07-19T22:16:33","slug":"sou-muito-religioso-e-cristao","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/sou-muito-religioso-e-cristao\/","title":{"rendered":"Sou Muito Religioso. E Crist\u00e3o?"},"content":{"rendered":"<p><em>Padre V\u00edtor Pereira, Diocese de Vila Real<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"alignright wp-image-268285 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2023\/01\/PeVitor-Pereira-vila-real.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a>Genoveva do Esp\u00edrito Santo (nome fict\u00edcio) \u00e9 uma figura conhecida do bairro da Boa Fama. J\u00e1 \u00e9 vi\u00fava h\u00e1 dezena e meia de anos, nunca mais se deixou enredar por amores (\u00abtive um e chegou-me\u00bb), anda sempre bem vestida e perfumada, com um vistoso fio de ouro no pesco\u00e7o, onde exibe a figura do grande amor da sua vida, que visita diariamente no cemit\u00e9rio, homenageando-o com algumas ora\u00e7\u00f5es e sentidas l\u00e1grimas. Quando o padre Anacleto vem ao bairro celebrar a missa, ela n\u00e3o falha: apresenta a sua inten\u00e7\u00e3o e tem sempre ter\u00e7os e outros objetos religiosos para o senhor padre benzer. J\u00e1 se lhe ouviu dizer muitas vezes, altiva e convicta: \u00absabe, padre Anacleto, a minha fam\u00edlia sempre foi muito religiosa. Como n\u00e3o podia deixar de ser, eu tamb\u00e9m sou.\u00bb N\u00e3o falha uma missa, festa ou romaria.<\/p>\n<p>Maria Antonieta da Purifica\u00e7\u00e3o (nome fict\u00edcio) \u00e9 uma boa m\u00e3e de fam\u00edlia e uma av\u00f3 carinhosa. N\u00e3o h\u00e1 maior alegria para ela do que ver os netos irrequietos \u00e0 volta da mesa e ela a contempl\u00e1-los embevecida, com um sorriso de orelha a orelha, como um ourives contempla as suas melhores joias. Educou os seus tr\u00eas filhos a ir \u00e0 missa todos os Domingos e \u00e0 noite rezava o ter\u00e7o com eles, na companhia do marido, o que tenta fazer com os netos, mas com pouco sucesso. Tem um altar na sala de estar, onde vive as suas devo\u00e7\u00f5es e alimenta a sua piedade, com uma bela cruz de prata e v\u00e1rias imagens de santos, quadros com rezas, com uma vela sempre a arder. Todas as manh\u00e3s e noites passa por ali, para consolo da sua alma. N\u00e3o h\u00e1 ano que n\u00e3o fa\u00e7a uma promessa, para ter a benevol\u00eancia de Deus e dos santos. Est\u00e1 sempre prest\u00e1vel para ajudar o padre Agripino, a quem assegurou: \u00abA minha m\u00e3e era uma mulher muito religiosa. E eu tamb\u00e9m gosto de ser, gosto da Igreja, e morrerei como mulher de Igreja. N\u00e3o consigo viver sem f\u00e9\u00bb.<\/p>\n<p>De certeza que conheceremos pessoas assim. N\u00e3o t\u00eam nada de errado. Conhecemos muito bem esta educa\u00e7\u00e3o e cultura cat\u00f3licas, que foram o nosso ber\u00e7o. E muito temos a agradecer. N\u00e3o tenho qualquer d\u00favida de que ser\u00e3o pessoas de verdadeira f\u00e9, boas e devotas, que procuram ser fi\u00e9is \u00e0 tradi\u00e7\u00e3o e aos costumes cat\u00f3licos, e que tentam pautar a vida pela boa educa\u00e7\u00e3o religiosa cat\u00f3lica que tiveram. O problema \u00e9 que, muitas vezes, somos educados a ser muito religiosos e pouco crist\u00e3os, o que n\u00e3o pode acontecer. \u00c9 um salto ou um passo fundamental que muitos crist\u00e3os cat\u00f3licos precisam de dar. H\u00e1 por a\u00ed religi\u00e3o a mais, com muitos atos e pr\u00e1ticas religiosas ancestrais, embrulhadas com muita supersti\u00e7\u00e3o e esp\u00edrito interesseiro, e cristianismo a menos. E n\u00e3o faltam \u00abcat\u00f3licos\u00bb, que ignoram o que \u00e9 ser crist\u00e3o e viver como tal. Ser um bom crist\u00e3o cat\u00f3lico n\u00e3o \u00e9 ser s\u00f3 fiel a regras, pr\u00e1ticas e costumes que a Igreja prop\u00f5e, f\u00e9rreo cumpridor de ritos e cerim\u00f3nias e aficionado de devo\u00e7\u00f5es e rezas, mas pautar a vida pelos crit\u00e9rios, valores e sentimentos de Jesus Cristo, pela fidelidade ao Evangelho. Corremos o risco de se cumprir em n\u00f3s o que o padre Ant\u00f3nio Vieira j\u00e1 alertava no seu tempo, \u00absermos cat\u00f3licos de dogmas, mas hereges de mandamentos\u00bb, ou seja, acreditar numa s\u00e9rie de verdades e praticar uma certa ritualidade e disciplina sacramental, mas depois viver ao contr\u00e1rio daquilo em que se acredita e se afirma diante de Deus, separando-se o culto da vida e a vida do culto, a f\u00e9 e a doutrina da \u00e9tica e da moral que devemos praticar todos os dias. \u00c9 uma contradi\u00e7\u00e3o inaceit\u00e1vel, que Jesus condenou severamente no seu tempo.<\/p>\n<p>O div\u00f3rcio entre o culto a Deus (ser religioso) e a vida (ser mesmo crist\u00e3o) chega a atingir o esc\u00e2ndalo, como descreve o escritor cat\u00f3lico, Jo\u00e3o da Silva Gama: \u00abTemos muito povo crist\u00e3o que ainda est\u00e1 por evangelizar: para ele, a religiosidade s\u00f3 funciona em certas alturas da vida, como o nascimento, casamento e missa aos Domingos. Nos intervalos, o tempo mais importante da vida, h\u00e1 crist\u00e3os que chegam a cometer as mais incr\u00edveis barbaridades: caluniar e difamar sistematicamente o vizinho, fazer justi\u00e7a por m\u00e3os pr\u00f3prias, \u00e0 enxada ou linchamento, s\u00f3 porque lhe tiraram um palmo de pinhal ou da horta. No dia seguinte, vemo-los na missa com uma devo\u00e7\u00e3o de estarrecer.\u00bb<\/p>\n<p>N\u00e3o temos de ser muito religiosos, enquanto meros consumidores e praticantes de religi\u00e3o, trazendo para a nossa rela\u00e7\u00e3o com Deus os mesmos h\u00e1bitos, pr\u00e1ticas, ritos, medos e supersti\u00e7\u00f5es que todas as religi\u00f5es sugerem ou imp\u00f5em aos seus sequazes, ou o \u00abanimal religioso\u00bb, que habita o ser humano, dita, sempre em busca de controle e de seguran\u00e7a. Alguns autores cat\u00f3licos at\u00e9 defendem que Jesus Cristo n\u00e3o quis fundar uma religi\u00e3o, tal como \u00e9 conhecida, quis fundar um movimento de disc\u00edpulos, que perpetuaria no mundo a sua forma de estar e de viver, contruindo e testemunhando o Reino de Deus, de acordo com os princ\u00edpios e valores do Evangelho. \u201cReligiosizar\u201d a f\u00e9 crist\u00e3 talvez n\u00e3o tenha sido um bom caminho. O que temos de ser mesmo \u00e9 crist\u00e3os de verdade, imbu\u00eddos do Evangelho na mentalidade e no cora\u00e7\u00e3o, com uma postura digna de crist\u00e3os nas rela\u00e7\u00f5es humanas, na fam\u00edlia, no trabalho, nos neg\u00f3cios e restantes \u00e2mbitos da vida humana e social, n\u00e3o descurando, certamente, a vida lit\u00fargica, a ora\u00e7\u00e3o e o encontro com os outros, mas viver s\u00f3 isto, sem a fidelidade di\u00e1ria a Cristo e ao Evangelho, \u00e9 uma hipocrisia e uma cis\u00e3o inaceit\u00e1vel para um crist\u00e3o cat\u00f3lico.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre V\u00edtor Pereira, Diocese de Vila Real<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":268285,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-334666","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/334666","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=334666"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/334666\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/268285"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=334666"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=334666"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=334666"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}