{"id":334622,"date":"2024-07-21T09:31:20","date_gmt":"2024-07-21T08:31:20","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=334622"},"modified":"2024-07-19T14:42:01","modified_gmt":"2024-07-19T13:42:01","slug":"saude-o-respeito-pela-vida-humana-desde-a-concecao-ate-a-morte-natural-e-absolutamente-essencial-para-um-medico-margarida-neto","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/saude-o-respeito-pela-vida-humana-desde-a-concecao-ate-a-morte-natural-e-absolutamente-essencial-para-um-medico-margarida-neto\/","title":{"rendered":"Sa\u00fade: \u00abO respeito pela vida humana, desde a conce\u00e7\u00e3o at\u00e9 \u00e0 morte natural, \u00e9 absolutamente essencial para um m\u00e9dico\u00bb &#8211; Margarida Neto"},"content":{"rendered":"<p><em>Psiquiatra, eleita em abril para a presid\u00eancia da Associa\u00e7\u00e3o de M\u00e9dicos Cat\u00f3licos, \u00e9 a convidada desta semana da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_334624\" aria-describedby=\"caption-attachment-334624\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Margarida-Neto-2.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-334624 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Margarida-Neto-2.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"1280\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Margarida-Neto-2.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Margarida-Neto-2-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Margarida-Neto-2-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Margarida-Neto-2-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Margarida-Neto-2-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Margarida-Neto-2-1536x1024.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-334624\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR\/Beatriz Pereira<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>Aquando da elei\u00e7\u00e3o, a Associa\u00e7\u00e3o sublinhou o seu compromisso assente em tr\u00eas vertentes: a Medicina, a Igreja e a Comunidade. Qual a import\u00e2ncia destes pilares na forma\u00e7\u00e3o e apoio aos m\u00e9dicos?<\/em><\/p>\n<p>A Associa\u00e7\u00e3o \u00e9 uma associa\u00e7\u00e3o profissional cat\u00f3lica, que se fundou em 1915, portanto j\u00e1 tem mais de 100 anos. O seu objetivo \u00e9 congregar os m\u00e9dicos que, sendo cat\u00f3licos, gostam de se associar. Obviamente n\u00e3o representa todos os m\u00e9dicos cat\u00f3licos, mas representa aqueles que gostam de se associar e pertencer a uma associa\u00e7\u00e3o que tem os princ\u00edpios da Doutrina Social da Igreja e da medicina. Tamb\u00e9m o seu c\u00f3digo deontol\u00f3gico, c\u00f3digo \u00e9tico. Estando juntos, somos uma companhia uns para os outros, e cada vez mais, porque o mundo da medicina n\u00e3o est\u00e1 f\u00e1cil e o mundo dos valores cat\u00f3licos, crist\u00e3os, n\u00e3o est\u00e1 f\u00e1cil. Precisamos muito de nos sentirmos acompanhados uns pelos outros, espiritualmente e dentro do trabalho do dia-a-dia.<\/p>\n<p>A forma\u00e7\u00e3o mant\u00e9m-se em torno do que \u00e9 medicina hoje, qual o nosso papel na medicina, os nossos valores crist\u00e3os e os nossos valores como profissionais.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Tamb\u00e9m em di\u00e1logo com a sociedade\u2026<\/em><\/p>\n<p>Sempre em di\u00e1logo com a sociedade. Isso tem sido uma caracter\u00edstica da nossa associa\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Acha que a forma\u00e7\u00e3o m\u00e9dica em Portugal ainda est\u00e1 muito centrada na doen\u00e7a e pouco centrada na rela\u00e7\u00e3o com o doente?<\/em><\/p>\n<p>Eu, n\u00e3o sendo estudante de medicina, sei responder. Acho eu\u2026 N\u00f3s temos uma forma\u00e7\u00e3o m\u00e9dica cient\u00edfica muito boa, todos os m\u00e9dicos que v\u00e3o trabalhar l\u00e1 para fora s\u00e3o reconhecidos por isso, mas tamb\u00e9m acho que falta o relacional. Isso est\u00e1 estudado e \u00e9 bom trabalh\u00e1-lo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Pode ser uma dimens\u00e3o que as pessoas associam mais facilmente, digamos assim, a uma dimens\u00e3o mais cat\u00f3lica\u2026<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o. A rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-doente \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-doente.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mas \u00e9 uma preocupa\u00e7\u00e3o de associa\u00e7\u00e3o\u2026<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 uma preocupa\u00e7\u00e3o enorme, porque se nos transformamos em apenas cientistas que usam muita tecnologia, a intelig\u00eancia artificial e por a\u00ed, perdemos aquilo que \u00e9, diria, a base da medicina, que \u00e9 a rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-doente. Onde est\u00e1 o respeito pelo doente \u00e9 onde est\u00e1 o sentido humano.<\/p>\n<p>Eu, sendo psiquiatra, para mim isto \u00e9 clar\u00edssimo. Tenho a sorte de ter uma especialidade em que n\u00e3o h\u00e1 outra conversa que n\u00e3o seja esta. Com certeza, com muita aprendizagem sobre o c\u00e9rebro e sobre os neurotransmissores e sobre a forma como tudo isto se traduz intracerebralmente, as emo\u00e7\u00f5es, tudo isso. E \u00e9 curioso que quanto mais tenho experi\u00eancia cl\u00ednica, eu j\u00e1 sou m\u00e9dica h\u00e1 35 anos, mais valorizo a rela\u00e7\u00e3o m\u00e9dico-doente, porque muitas coisas s\u00e3o melhoradas para al\u00e9m da t\u00e9cnica e para al\u00e9m da medica\u00e7\u00e3o que damos. Eu tinha um colega que dizia, e para mim \u00e9 uma coisa muito importante, \u201ca m\u00e3o que d\u00e1 o rem\u00e9dio ao doente tamb\u00e9m trata\u201d.<\/p>\n<p>Um doente que n\u00e3o confia, por exemplo com o antidepressivo. Um doente que n\u00e3o confia, \u201cagora medicamentos para qu\u00ea? Para tratar a minha tristeza, eu preciso de outras coisas\u201d\u2026 se n\u00e3o confiar, aquilo n\u00e3o tem efeito nenhum. Esta transmiss\u00e3o da confian\u00e7a \u00e9 aqui na psiquiatria como em qualquer outra coisa, como a import\u00e2ncia do m\u00e9dico de fam\u00edlia, que h\u00e1 de ser o m\u00e9dico por excel\u00eancia da rela\u00e7\u00e3o com o doente e no seu contexto familiar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Falemos um pouco do programa de a\u00e7\u00e3o para os pr\u00f3ximos tr\u00eas anos. Quais s\u00e3o as principais prioridades da associa\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Acho que a principal, esta palavra compromisso n\u00e3o vem ao acaso, n\u00e3o \u00e9? \u00c9 mesmo um compromisso com a medicina. N\u00f3s, em primeiro lugar, somos m\u00e9dicos e somos m\u00e9dicos competentes, com esta preocupa\u00e7\u00e3o de humanidade e por vermos em Jesus Cristo o m\u00e9dico, o m\u00e9dico cura e o m\u00e9dico que salva. Um compromisso com a Igreja, porque temos sido ao longo destes mais de cem anos tamb\u00e9m uma ajuda \u00e0 Igreja, ou a Igreja conta connosco para ser a sua presen\u00e7a nacional.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c9 f\u00e1cil assumir-se como cat\u00f3lico no meio hospitalar?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o \u00e9 f\u00e1cil. Eu pessoalmente n\u00e3o tenho dificuldade, porque trabalho num hospital cat\u00f3lico, n\u00e3o \u00e9? Mas \u00e0s vezes, ainda assim\u2026<\/p>\n<p>O respeito pela vida humana, desde a conce\u00e7\u00e3o at\u00e9 \u00e0 morte natural, que agora mais estamos aqui em fratura, \u00e9 absolutamente essencial para um m\u00e9dico. Como \u00e9 o respeito pela vida do doente, pelo consentimento do doente em rela\u00e7\u00e3o \u00e0quilo que fazemos com ele, isto n\u00e3o s\u00e3o s\u00f3 valores cat\u00f3licos. O sagrado da vida ser\u00e1, tudo o resto do que eu disse\u2026 o m\u00e9dico cat\u00f3lico n\u00e3o \u00e9 um m\u00e9dico extraterrestre, \u00e9 um m\u00e9dico supercompetente, tecnicamente e cientificamente, para ter a ousadia de dizer e de relembrar tudo o que \u00e9 \u00e9tico, tudo o que \u00e9 deontol\u00f3gico, tudo o que \u00e9 humano.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>H\u00e1 uma quest\u00e3o que j\u00e1 aflorou, que \u00e9 a legaliza\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia em Portugal. \u00c9 uma preocupa\u00e7\u00e3o que a associa\u00e7\u00e3o tem tido ao longo dos \u00faltimos anos, h\u00e1 uma lei que est\u00e1 aprovada no Parlamento, que ainda guarda por regulamenta\u00e7\u00e3o. Espera que o Parlamento revisite este dossi\u00ea e haja a possibilidade de recuar?<\/em><\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 lei da eutan\u00e1sia, obviamente que nos opomos. Mas n\u00e3o nos opomos porque somos cat\u00f3licos, opomo-nos porque somos m\u00e9dicos, isso est\u00e1 no nosso c\u00f3digo deontol\u00f3gico: \u00e9 vedado ao m\u00e9dico a pr\u00e1tica da eutan\u00e1sia, do suic\u00eddio assistido e da distan\u00e1sia. Isto \u00e9 para todos n\u00f3s.<\/p>\n<p>Qual \u00e9 a diferen\u00e7a com o m\u00e9dico cat\u00f3lico? \u00c9 que tem bem dentro dele o sobressalto que \u00e9 pensar que um m\u00e9dico possa terminar a vida de um doente. Esta souplesse de inquieta\u00e7\u00e3o, de sobressalto, de saber o que est\u00e1 ali em jogo, \u00e9 aquilo que motiva para ser contra, pelo menos para mim \u00e9 assim, e para ser militante destas causas da vida, desde o nascimento at\u00e9 a morte natural.<\/p>\n<p>Portanto, o que \u00e9 que n\u00f3s esperamos? A lei est\u00e1 aprovada, por uma maioria diferente desta. Mas ainda falta fazer coisas com a lei. O ponto, neste momento, \u00e9 que h\u00e1 dois pedidos de fiscaliza\u00e7\u00e3o sucessiva da lei, em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 constitucionalidade. O presidente da Rep\u00fablica desta vez n\u00e3o enviou para o Tribunal Constitucional, mas houve quem enviasse por ele. Um grupo grande de deputados do PSD e a provedora de Justi\u00e7a. O segundo pedido muitas vezes n\u00e3o \u00e9 lembrado. S\u00e3o dois pedidos que h\u00e3o de fazer o seu caminho\u2026<\/p>\n<p>Por outro lado, a lei n\u00e3o est\u00e1 regulamentada. N\u00e3o estando regulamentada, pode haver a lei aprovada, mas n\u00e3o h\u00e1 uma lei que se exer\u00e7a. Ora, o problema da regulamenta\u00e7\u00e3o da lei pode levantar, em si mesmo, problemas constitucionais e pode levantar problemas de aprova\u00e7\u00e3o. Temos uma maioria diferente e, portanto, temos aqui ainda um ponto de interroga\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>V\u00ea alguma iniciativa a breve prazo, no Parlamento?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o vejo, n\u00e3o vejo. Acho que t\u00eam outras coisas para se preocupar. Francamente, no mundo da sa\u00fade e da medicina t\u00eam, certamente, muito mais coisas para se preocuparem do que pensar em como fazer a morte de um doente, provocar a morte de um doente, ou assistir ao suic\u00eddio premeditado e assistido de um doente, que \u00e9 uma coisa que me provoca imensa inquieta\u00e7\u00e3o como psiquiatra. N\u00e3o vejo nenhuma iniciativa e, francamente, at\u00e9 desejo que essa situa\u00e7\u00e3o se mantenha, porque n\u00e3o h\u00e1 lei de eutan\u00e1sia, neste momento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ent\u00e3o, n\u00e3o esperamos tamb\u00e9m da Associa\u00e7\u00e3o qualquer iniciativa? Deixar como est\u00e1?<\/em><\/p>\n<p>Eu n\u00e3o gosto dessa coisa de deixar como est\u00e1. Podemos perguntar, no espa\u00e7o p\u00fablico, quando \u00e9 que o Tribunal Constitucional responde \u00e0 fiscaliza\u00e7\u00e3o sucessiva da lei. Essa era uma boa pergunta, n\u00e3o \u00e9? N\u00f3s sabemos que isso demora muito tempo. Portanto, temos aqui duas frentes: uma do Tribunal Constitucional, que n\u00e3o est\u00e1 de fora, e a da regulamenta\u00e7\u00e3o da lei. E depois temos ainda muitos campos de luta: na regulamenta\u00e7\u00e3o de uma lei, tamb\u00e9m temos perguntas a fazer ou lutas tamb\u00e9m por fazer, quer de constitucionalidade, mas at\u00e9 de como \u00e9 que isto se faz na pr\u00e1tica. Depois, a rela\u00e7\u00e3o com a Ordem dos M\u00e9dicos, uma outra associa\u00e7\u00e3o que faz por salvaguardar o seu c\u00f3digo deontol\u00f3gico.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E que tem estado sempre contra\u2026<\/em><\/p>\n<p>Sempre. E, portanto, ela h\u00e1 de ser chamada, se houver lei, a pertencer \u00e0 comiss\u00e3o de verifica\u00e7\u00e3o. Aqui levantam-se problemas e se a Ordem n\u00e3o sentir esses problemas, n\u00f3s estaremos c\u00e1 para questionar isso. N\u00e3o parece que v\u00e1 haver problema sobre isso, porque, realmente, quer a Ordem dos M\u00e9dicos, quer n\u00f3s, pensamos da mesma forma. \u00c9 uma quest\u00e3o de como lutar, como lembrar que um m\u00e9dico n\u00e3o pode fazer isto.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_334623\" aria-describedby=\"caption-attachment-334623\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Margarida-Neto-1.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-334623\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Margarida-Neto-1-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Margarida-Neto-1-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Margarida-Neto-1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Margarida-Neto-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Margarida-Neto-1-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Margarida-Neto-1-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Margarida-Neto-1.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-334623\" class=\"wp-caption-text\">Foto: RR\/Beatriz Pereira<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>N\u00e3o \u00e9 ainda mais preocupante, esta quest\u00e3o da legaliza\u00e7\u00e3o da eutan\u00e1sia, quanto \u00e9 cada vez mais evidente que a resposta da rede de cuidados paliativos \u00e9 insuficiente em Portugal?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 evidente. Embora n\u00e3o seja a resposta para a eutan\u00e1sia. N\u00e3o se pode dizer, pelo menos n\u00f3s n\u00e3o dizemos que somos contra a eutan\u00e1sia porque n\u00e3o h\u00e1 cuidados paliativos.<\/p>\n<p>Bom, mas n\u00e3o h\u00e1 cuidados paliativos\u2026 n\u00e3o h\u00e1 cuidados paliativos, portanto s\u00f3 20, 30% das pessoas a necessitar de cuidados paliativos \u00e9 que os t\u00eam. H\u00e1 aqui uma enorme diferen\u00e7a entre ricos e pobres, ou aqueles que podem pagar privadamente uma situa\u00e7\u00e3o, e outros que n\u00e3o cabem na rede. Isto \u00e9 uma coisa absolutamente indigna, indigna da pr\u00f3pria medicina e de quem a gere. Julgo que a Ministra da Sa\u00fade ter\u00e1 isto em considera\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Em primeiro lugar, \u00e9 dado \u00e0 pessoa o conforto que \u00e9 necess\u00e1rio, n\u00e3o vou dizer bem-estar, mas o conforto e a dignidade necess\u00e1ria na \u00faltima etapa da vida, e \u00e0 fam\u00edlia tamb\u00e9m. A quest\u00e3o dos cuidados paliativos \u00e9, de facto, uma \u00e1rea da medicina, que al\u00e9m de ser necess\u00e1ria, \u00e9 dif\u00edcil, \u00e9 muito dif\u00edcil. T\u00eam de ser colegas muito especiais e uma equipa grande de enfermeiros, de assistentes sociais, de acompanhamento espiritual e de m\u00e9dicos especialistas.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Implica um grande investimento?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Sim, um grande investimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Eu queria detalhar a pergunta at\u00e9 para que se perceba melhor: morre-se mal em Portugal? <\/em><\/p>\n<p>Morre-se. Morre-se mal. Morre-se sozinho. E n\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil perceber que os idosos t\u00eam imensa dificuldade, que vivem sozinhos, sem fam\u00edlia, ou a fam\u00edlia n\u00e3o d\u00e1 o apoio suficiente e estas pessoas n\u00e3o t\u00eam m\u00e9dicos de fam\u00edlia e, portanto, v\u00e3o agravando o seu problema de sa\u00fade. E alguns s\u00e3o encontrados mortos tempos mais tarde\u2026<\/p>\n<p>Tamb\u00e9m se morre na rua, aten\u00e7\u00e3o. Porque os sem-abrigo s\u00e3o uma situa\u00e7\u00e3o que nos deveria inquietar como sociedade e eu n\u00e3o vejo isso. Vejo planos, eu tamb\u00e9m sou deputada municipal, h\u00e1 agora um novo plano no qual temos bastante esperan\u00e7a. O problema \u00e9 que h\u00e1 uma avalanche de sem-abrigo e depois \u00e9 muito dif\u00edcil. O que me preocupa s\u00e3o os doentes que est\u00e3o em situa\u00e7\u00e3o de sem-abrigo. E essa \u00e9 a \u00e1rea da medicina, n\u00e3o \u00e9?\u00a0 A outra \u00e1rea da imigra\u00e7\u00e3o \u00e9 dif\u00edcil, mas n\u00e3o ia para a\u00ed.<\/p>\n<p>A quantidade de pessoas em condi\u00e7\u00e3o de sem-abrigo, sem teto, que s\u00e3o doentes mentais, \u00e9 enorme. Eu, no outro dia, fui fazer uma ronda com a equipa de psiquiatria de sa\u00fade mental da C\u00e2mara [de Lisboa] e verifiquei isso. J\u00e1 sab\u00edamos, mas \u00e9 diferente saber pelos livros e \u00e9 diferente encontrar o alco\u00f3lico, o toxicodependente, sobretudo o \u00e1lcool e a doen\u00e7a mental generalizada, psic\u00f3tica e por a\u00ed.<\/p>\n<p>Estas pessoas n\u00e3o t\u00eam lugar nos hospitais psiqui\u00e1tricos, s\u00e3o tamb\u00e9m enxotadas. chegam \u00e0 urg\u00eancia e, n\u00e3o tendo condi\u00e7\u00f5es de habitabilidade, as pessoas &#8211; eu tenho no\u00e7\u00e3o do que \u00e9 que eu estou a dizer &#8211; podem n\u00e3o ser internadas com essa facilidade. Porque depois \u00e9 dif\u00edcil sair dos hospitais psiqui\u00e1tricos, que s\u00e3o poucos tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>A Unidade de Alcoologia de Lisboa est\u00e1 fechada h\u00e1 tr\u00eas anos. A unidade que internava muitas destas pessoas est\u00e1 fechada. Portanto, eles acumulam-se. Se n\u00e3o s\u00e3o tratados, muitas vezes internados, um doente alco\u00f3lico o que quer \u00e9 beber. A motiva\u00e7\u00e3o para o tratamento \u00e9 muito dif\u00edcil. Tudo isto requer tempo, voca\u00e7\u00e3o, paci\u00eancia e meios.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Recentemente o Parlamento Europeu aprovou uma resolu\u00e7\u00e3o que pede que o direito ao aborto seja consagrado na Carta dos Direitos Fundamentais da Uni\u00e3o Europeia. Caso a decis\u00e3o seja aprovada no Conselho Europeu, estamos perante uma situa\u00e7\u00e3o que coloca em causa valores fundamentais na defesa da vida, n\u00e3o \u00e9?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>Aquilo que foi aprovado n\u00e3o \u00e9 vinculativo, tem de haver unanimidade. Isto \u00e9 um problema de sa\u00fade e espero, com esta esperan\u00e7a que os crist\u00e3os t\u00eam, que tal coisa n\u00e3o seja aprovada. Foi mais f\u00e1cil aprovar em Fran\u00e7a, por raz\u00f5es grandes ou outras, mas o aborto nunca, mas nunca \u00e9 um direito humano. Equivaler isso ao direito \u00e0 sa\u00fade, ao direito \u00e0 dignidade, \u00e0 habita\u00e7\u00e3o, \u00e0 paz, a todos os direitos; n\u00e3o est\u00e1 correto. O aborto n\u00e3o \u00e9 um direito, porque nele est\u00e1 a morte de um outro ser que tem direito a viver, direito \u00e0 vida. E esse sim \u00e9 um direito que se tem de defender; n\u00e3o \u00e9 o direito ao aborto. \u00c9 uma coisa absolutamente inadmiss\u00edvel, impens\u00e1vel. Agora vou s\u00f3 lembrar isto: quando foi o primeiro referendo do aborto em Portugal [1998], todos diziam, todos diz\u00edamos que o aborto era um mal. O aborto era uma coisa que tinha de ser segura e rara. Vejam como, em poucos anos, se transformou algo que era para ser despenalizado, mas que devia ser seguro e raro, para um direito europeu. \u00c9 uma viagem absolutamente inadmiss\u00edvel. De resto, deixe-me lembrar que nem \u00e9 preciso isto: a maior parte dos pa\u00edses na Europa t\u00eam leis favor\u00e1veis ao aborto.\u00a0 Em Portugal, o aborto n\u00e3o \u00e9 um direito, c continua a ser criminalizado. \u00c9 despenalizado at\u00e9 \u00e0s 10 semanas, naquelas circunst\u00e2ncias que sabemos.\u00a0 Portanto, n\u00e3o \u00e9 um direito. Em circunst\u00e2ncia nenhuma \u00e9 um direito.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Este percurso, que acabou de referir, pode vir a limitar ou at\u00e9 mesmo impedir o direito \u00e0 obje\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia dos profissionais de sa\u00fade?\u00a0<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 uma coisa a que estamos bastante atentos, porque h\u00e1 um caminho que se faz. Reparem como na \u00faltima campanha eleitoral para a Europa, a ideia que foi matraqueada foi de que est\u00e1vamos a caminhar\u2026 em vez de discutir outras coisas, discutiu-se muito o voltar atr\u00e1s nos direitos reprodutivos das mulheres. Isto n\u00e3o \u00e9 verdade, isto n\u00e3o \u00e9 assim. \u00c9 importante saber isto, havia nas legislativas de abril pelo menos dois partidos que propunham &#8211; um deles com grande responsabilidade, o Partido Socialista &#8211; a limita\u00e7\u00e3o da obje\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia. Ora, a obje\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia \u00e9 a obje\u00e7\u00e3o de consci\u00eancia, n\u00e3o \u00e9 para ser limitada.\u00a0 A minha consci\u00eancia n\u00e3o est\u00e1 limitada.\u00a0 Ali\u00e1s, tenho a certeza de que a Ordem dos M\u00e9dicos tamb\u00e9m est\u00e1 preocupada com isto, e n\u00f3s preocupad\u00edssimos. Em termos de associa\u00e7\u00e3o, s\u00f3 dizer que a Ordem reconhece na Associa\u00e7\u00e3o dos M\u00e9dicos Cat\u00f3licos valores com que ela pr\u00f3pria conta, e, portanto, somos convidados para refletir em conjunto. No pr\u00f3ximo dia de S\u00e3o Lucas, 18 de outubro, vai ser celebrado com o senhor patriarca e com um jantar na Ordem dos M\u00e9dicos. Isto \u00e9 muito importante. Eu tenho muito alegria, tamb\u00e9m tenho orgulho, mas sobretudo alegria em podermos participar nesta ajuda tamb\u00e9m \u00e0 Ordem.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Vamos terminar com um minuto de reflex\u00e3o sobre a realidade do setor da sa\u00fade em Portugal. O SNS vive momentos de grande dificuldade, n\u00e3o vamos agora aqui elenc\u00e1-los. Encontra sinais positivos, sinais de esperan\u00e7a?<\/em><\/p>\n<p>Quando os m\u00e9dicos lutam por melhores condi\u00e7\u00f5es, concordo com isso. Trabalhar com dignidade \u00e9 um direito e uma necessidade e uma salvaguarda para tratar bem dos doentes tamb\u00e9m. N\u00e3o se pode \u00e9 p\u00f4r o meu interesse \u00e0 frente dos doentes. Isso \u00e9 diferente.<\/p>\n<p>Agora, quando falamos em SNS j\u00e1 estamos a limitar. Estamos a ver uma parte da sa\u00fade. Se falarmos em Sistema Nacional de Sa\u00fade estamos a incluir todos e para mim era assim que dever\u00edamos trabalhar.\u00a0 O SNS tem menos gente, menos recursos; a solu\u00e7\u00e3o, ou uma das solu\u00e7\u00f5es, \u00e9 fazer uma parceria verdadeira, uma rede verdadeira entre p\u00fablico, privado e o setor social, que \u00e9 enorme e que faz um trabalho absolutamente extraordin\u00e1rio. O que seria deste pa\u00eds sem o setor social? E pergunto eu, isso \u00e9 valorizado? \u00c9 valorizado nas di\u00e1rias que se pagam? Tudo isto tamb\u00e9m tem a ver com esta situa\u00e7\u00e3o do SNS. Eu acho que n\u00e3o devemos falar s\u00f3 do SNS. Ele tem aspetos particulares. Devemos falar do Sistema Nacional de Sa\u00fade em Portugal, em que todos t\u00eam de colaborar com todos.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Antecipa um ver\u00e3o dif\u00edcil? <\/em><\/p>\n<p>Antecipo, porque esta quest\u00e3o das horas extraordin\u00e1rias &#8211; os m\u00e9dicos j\u00e1 come\u00e7aram a anunciar que n\u00e3o as far\u00e3o &#8211; vai aumentar a dificuldade nas urg\u00eancias, pelo menos, e nos servi\u00e7os.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Psiquiatra, eleita em abril para a presid\u00eancia da Associa\u00e7\u00e3o de M\u00e9dicos Cat\u00f3licos, \u00e9 a convidada desta semana da Renascen\u00e7a e da Ag\u00eancia Ecclesia<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":334624,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[204,277],"class_list":["post-334622","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-eutanasia-bioetica","tag-pastoral-da-saude"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/334622","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=334622"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/334622\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/334624"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=334622"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=334622"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=334622"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}