{"id":334149,"date":"2024-07-16T10:57:29","date_gmt":"2024-07-16T09:57:29","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=334149"},"modified":"2024-07-16T10:57:29","modified_gmt":"2024-07-16T09:57:29","slug":"altar-novo-vida-eterna","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/altar-novo-vida-eterna\/","title":{"rendered":"Altar Novo, Vida Eterna"},"content":{"rendered":"<p><em>Jo\u00e3o Francisco Diogo, Diocese de Santar\u00e9m<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-334150 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/joao-francisco-diogo-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/joao-francisco-diogo-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/joao-francisco-diogo-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/joao-francisco-diogo-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/joao-francisco-diogo.jpg 900w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/>Por ocasi\u00e3o das celebra\u00e7\u00f5es do Jubileu do 50\u00ba anivers\u00e1rio da cria\u00e7\u00e3o da sua Diocese, que come\u00e7a no dia 16 de Julho, a Catedral de Santar\u00e9m recebeu um novo espa\u00e7o lit\u00fargico no altar-mor. O projecto das novas pe\u00e7as, que incluem um novo altar, amb\u00e3o, c\u00e1tedra e coluna para o C\u00edrio Pascal, \u00e9 da autoria dos monges do Mosteiro de S\u00e3o Bento de Singeverga e a execu\u00e7\u00e3o, em pedra de Estremoz, \u00e9 do escultor Paulo das Neves. Para al\u00e9m da muita pol\u00e9mica que t\u00eam causado e que me recuso a comentar, este novo espa\u00e7o \u00e9 uma marca poderosa de renova\u00e7\u00e3o e de vigor da Igreja de Santar\u00e9m nesta auspiciosa data que, celebrando a hist\u00f3ria, a desafia a construir futuro. A mim, que as vi pela primeira vez no dia 14 de julho, motivou-me estas breves ideias.<\/p>\n<p>A primeira ideia prende-se com o significado da mudan\u00e7a. Naturalmente, podem existir raz\u00f5es pr\u00e1ticas para essa mudan\u00e7a, mas queria aqui focar-me em raz\u00f5es de natureza menos pr\u00e1tica, que s\u00e3o sempre mais aliciantes para reflectir. Porqu\u00ea um novo espa\u00e7o lit\u00fargico numa catedral com tantos anos e mem\u00f3rias de servi\u00e7o \u00e0 comunidade? Porqu\u00ea uma nova dire\u00e7\u00e3o art\u00edstica a um patrim\u00f3nio de reconhecido valor cultural? Valer\u00e1 a pena? Para muitos, a resposta imediata e constante a esta \u00faltima quest\u00e3o \u00e9 sempre um retumbante \u201cN\u00e3o\u201d. Ningu\u00e9m ousaria retocar a \u201cPrimavera\u201d de Botticelli, ou alterar as melodias de uma sinfonia de Beethoven, ou reescrever o final d\u2019\u201dOs Maias\u201d de E\u00e7a de Queiroz. Para qu\u00ea mexer na arte da Catedral?<\/p>\n<p>Se consider\u00e1ssemos uma igreja apenas como uma obra de arte, talvez este racioc\u00ednio fizesse sentido. Mas, apesar de serem indiscutivelmente obras de arte, as igrejas s\u00e3o, antes de tudo, espa\u00e7os vivos. Espa\u00e7os onde cada comunidade se encontra e se renova em cada encontro. Portanto, mesmo a arte numa igreja deve ser uma arte viva, que se renova a cada momento como a pr\u00f3pria comunidade se renova. Tantas vezes, como crist\u00e3os, somos confrontados com uma cultura de morte na sociedade de hoje. Mas, dentro da Igreja, somos cada vez mais confrontados com uma cultura morta, que se prende a sinais lit\u00fargicos e art\u00edsticos do passado (escolhidos arbitrariamente ou consoante gostos e agendas pessoais da vasta hist\u00f3ria da Igreja) para a\u00ed encontrar uma pureza est\u00e9tica constante e imut\u00e1vel que se confunde com a pureza espiritual a que o Evangelho nos chama. Onde o Mist\u00e9rio da Encarna\u00e7\u00e3o se confunde com os hinos que se compuseram em latim para o venerar e onde o Sacramento da Eucaristia se confunde com o tra\u00e7ado dos altares onde se celebra. Pod\u00edamos, desde logo, perguntar-nos que Caridade \u00e9 poss\u00edvel de realizar com c\u00e2nones est\u00e9ticos! Mas o que a hist\u00f3ria da Igreja nos mostra \u00e9 o oposto: const\u00e2ncia na F\u00e9 e diversidade temporal e geogr\u00e1fica nas express\u00f5es, porque s\u00f3 na conjuga\u00e7\u00e3o destas duas din\u00e2micas \u00e9 que a Igreja se mant\u00e9m viva e atuante no mundo. A const\u00e2ncia da F\u00e9 morre se for sujeita \u00e0 \u201cpureza\u201d de uma s\u00f3 forma de express\u00e3o, contr\u00e1ria \u00e0 diversidade que nasce da liberdade dos filhos de Deus. \u00c9 este o esp\u00edrito de aggiornamento a que o Conc\u00edlio Vaticano II nos exorta e, neste sentido, a renova\u00e7\u00e3o dos espa\u00e7os lit\u00fargicos em momentos de especial significado, como este jubileu, est\u00e1 perfeitamente enquadrada com este esp\u00edrito de cultura viva e de renova\u00e7\u00e3o constante que mant\u00e9m viva a F\u00e9 no mundo de hoje e agora.<\/p>\n<figure id=\"attachment_334151\" aria-describedby=\"caption-attachment-334151\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/altar-se-santarem.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"wp-image-334151 size-medium\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/altar-se-santarem-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/altar-se-santarem-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/altar-se-santarem-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/altar-se-santarem-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/altar-se-santarem-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/altar-se-santarem.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-334151\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Diocese de Santar\u00e9m<\/figcaption><\/figure>\n<p>Outro grande sinal desta desejada const\u00e2ncia na F\u00e9 \u00e9 o sentido da mudan\u00e7a que se operou: passar de um espa\u00e7o lit\u00fargico predominado pelas pe\u00e7as de talha dourada para pe\u00e7as talhadas nas cores e texturas da pedra de Estremoz. Ningu\u00e9m contesta que as antigas pe\u00e7as deste espa\u00e7o lit\u00fargico eram excelentes exemplares art\u00edsticos. Mas \u00e9 importante considerar o seu per\u00edodo e contexto. A talha dourada, como elemento caracter\u00edstico da arte barroca, \u00e9 um produto curioso do seu tempo. O Barroco surge num momento da hist\u00f3ria da Europa de profunda degrada\u00e7\u00e3o social: as convuls\u00f5es geopol\u00edticas da ordem medieval moribunda e do surgimento de novas formas de organiza\u00e7\u00e3o pol\u00edtica, as divis\u00f5es religiosas da Reforma Protestante e da Contra-Reforma, as convuls\u00f5es econ\u00f3micas de um modo de produ\u00e7\u00e3o capitalista em nascimento criaram uma Europa fragmentada e dividida, onde os horrores da guerra e a mis\u00e9ria das popula\u00e7\u00f5es eram presen\u00e7as constantes. A arte barroca surge, em grande medida, como um contraponto a esta situa\u00e7\u00e3o de colapso das estruturas sociais, onde se procurava mascarar a realidade com uma exuber\u00e2ncia art\u00edstica exagerada. A talha dourada \u00e9 tamb\u00e9m isto: falso ouro, uma fina camada de riqueza pintada sobre a madeira perec\u00edvel e corrupt\u00edvel. \u00c9 exemplo de uma arte de apar\u00eancias e ilus\u00f5es (vejam-se, tamb\u00e9m, os numerosos exemplos da utiliza\u00e7\u00e3o de trompe-l\u2019oeil nas pe\u00e7as deste per\u00edodo).<\/p>\n<p>Talvez por isso seja uma arte \u00e0 qual tantos se apegam hoje em dia, numa sociedade em que os la\u00e7os e estruturas sociais se parecem degradar a olhos vistos e t\u00e3o predominada por uma cultura de apar\u00eancia e ilus\u00e3o. Mas, se assim \u00e9, torna-se ainda mais urgente relembrar a esta sociedade que o Evangelho de Jesus Cristo \u00e9 uma rocha segura para construirmos as nossas vidas individuais e as nossas vidas em comunidade. \u00c0s ansiedades do mundo atual, os crist\u00e3os s\u00e3o chamados a responder com a serenidade e const\u00e2ncia do Evangelho, que dissipa todas as apar\u00eancias com a sua simplicidade e que apenas se pode aderir com uma sincera convers\u00e3o de cora\u00e7\u00e3o. As novas pe\u00e7as do espa\u00e7o lit\u00fargico do altar-mor da S\u00e9 de Santar\u00e9m s\u00e3o express\u00f5es eloquentes deste imperativo para a Igreja de hoje e agora.<\/p>\n<p>E tudo isto se pode dizer sem entrar na an\u00e1lise dos bel\u00edssimos elementos est\u00e9ticos deste novo conjunto: da utiliza\u00e7\u00e3o da pedra de Estremoz que, nas suas cores e texturas, harmoniza perfeitamente com a restante pedraria do altar-mor, \u00e0s espirais esculpidas que decoram o amb\u00e3o e o altar, que convidam a contemplar a eternidade, mas que lembram tamb\u00e9m o desabrochar de uma rosa, elemento t\u00e3o apropriado numa igreja dedicada \u00e0 Rosa M\u00edstica, Maria, Nossa Senhora da Imaculada Concei\u00e7\u00e3o. Mas, quando a arte \u00e9 viva, n\u00e3o se esgota no espa\u00e7o de umas meras linhas e convida a uma contempla\u00e7\u00e3o frut\u00edfera e tamb\u00e9m ela sempre renovada, que os membros da Igreja de Santar\u00e9m poder\u00e3o fazer a partir de agora na sua Catedral.<\/p>\n<p><em>Jo\u00e3o Francisco Diogo<\/em><\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jo\u00e3o Francisco Diogo, Diocese de Santar\u00e9m<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":334150,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-334149","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/334149","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=334149"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/334149\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/334150"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=334149"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=334149"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=334149"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}