{"id":333741,"date":"2024-07-14T09:31:45","date_gmt":"2024-07-14T08:31:45","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=333741"},"modified":"2024-07-12T14:32:50","modified_gmt":"2024-07-12T13:32:50","slug":"igreja-sem-medidas-concretas-corremos-o-risco-de-o-processo-sinodal-nao-se-explicitar-jose-eduardo-borges-de-pinho","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/igreja-sem-medidas-concretas-corremos-o-risco-de-o-processo-sinodal-nao-se-explicitar-jose-eduardo-borges-de-pinho\/","title":{"rendered":"Igreja: \u00abSem medidas concretas, corremos o risco de o processo sinodal n\u00e3o se explicitar\u00bb &#8211; Jos\u00e9 Eduardo Borges de Pinho"},"content":{"rendered":"<p><em>Por ocasi\u00e3o da divulga\u00e7\u00e3o do documento de trabalho para a segunda sess\u00e3o da 16\u00aaAssembleia Sinodal, \u00e9 convidado da Renascen\u00e7a e da Ecclesia Jos\u00e9 Eduardo Borges de Pinho, professor jubilado da Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa, membro da Equipa Sinodal da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_333843\" aria-describedby=\"caption-attachment-333843\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Borges-de-Pinho-2.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-333843\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Borges-de-Pinho-2-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Borges-de-Pinho-2-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Borges-de-Pinho-2-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Borges-de-Pinho-2-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Borges-de-Pinho-2-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Borges-de-Pinho-2-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Borges-de-Pinho-2.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-333843\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Beatriz Pereira\/RR<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>Olhando para este ciclo que estivemos a viver, este processo sinodal lan\u00e7ado pelo Papa Francisco em 2021, um arco de tr\u00eas anos, podemos ter no\u00e7\u00e3o da import\u00e2ncia que teve este processo a n\u00edvel global e, em particular, para as comunidades cat\u00f3licas em Portugal?<\/em><\/p>\n<p>Sim. Tem uma import\u00e2ncia crucial em termos objetivos, porque \u00e9 o grande acontecimento de rece\u00e7\u00e3o do Conc\u00edlio [Vaticano II]. Nota-se neste documento, que faz v\u00e1rias refer\u00eancias e alguma evolu\u00e7\u00e3o num ou no outro aspeto concreto, portanto, \u00e9 uma chamada de aten\u00e7\u00e3o renovada para o dever que todos temos de assumir, com todas as consequ\u00eancias, desenvolvendo e concretizando aquilo que o Conc\u00edlio Vaticano II nos deixou.<\/p>\n<p>Eu digo isto com uma certa \u00eanfase, porque era um jovem, era um jovenzito, com 15 anos, 14 anos, quando o Conc\u00edlio se realizou e tenho uma sensibilidade muito particular para esse momento da Igreja e aquilo que significou.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Este momento pode representar, para uma determinada gera\u00e7\u00e3o de cat\u00f3licos, aquilo que o Conc\u00edlio representou nas \u00faltimas seis d\u00e9cadas?<\/em><\/p>\n<p>Eu espero que sim. Como dizia, no documento que agora foi publicado, o <em>Instrumentum Laboris<\/em>, s\u00e3o n\u00edtidas as duas coisas: por um lado a participa\u00e7\u00e3o de te\u00f3logos, peritos e pessoas de todas as partes do mundo, portanto, o sentido da catolicidade, a express\u00e3o da catolicidade da Igreja est\u00e1 muito viva; por outro lado, nota-se realmente que s\u00e3o pessoas que receberam, acolheram o Conc\u00edlio e entendem a sinodalidade como ela deve ser entendida: uma dimens\u00e3o essencial da Igreja, que sempre houve, ainda que nem sempre a palavra tenha sido sublinhada. E que hoje \u00e9 o caminho e \u00e9 o estilo que nos \u00e9 pedido, que o Esp\u00edrito Santo nos pede\u2026 n\u00e3o \u00e9 o Papa, que o Esp\u00edrito Santo nos pede para que a Igreja esteja \u00e0 altura dos momentos que estamos a viver, que n\u00e3o s\u00e3o f\u00e1ceis.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa publicou, em maio, o seu relat\u00f3rio sobre a segunda fase da consulta sinodal, apelando a um maior discernimento sobre as quest\u00f5es ditas fraturantes. O novo documento de trabalho, divulgado pelo Vaticano, do qual j\u00e1 aqui falou, exclui quest\u00f5es controversas, remetendo-as para os grupos de estudo que o Papa criou. Entende esta op\u00e7\u00e3o?<\/em><\/p>\n<p>Sim, entendo neste momento. Quer dizer, exclui no sentido que n\u00e3o v\u00e3o ser expressamente debatidas, mas n\u00e3o fecha os assuntos, n\u00e3o fecha os temas.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>A ideia foi retirar da agenda do sinodal alguns temas, digamos, mais pol\u00e9micos?<\/em><\/p>\n<p>Eu penso que a ideia foi, por um lado, ter em conta o necess\u00e1rio estudo aprofundado e especializado que estas quest\u00f5es exigem. Os dez grupos de trabalho que o Papa criou em fevereiro s\u00e3o constitu\u00eddos por pessoas que est\u00e3o dentro dos assuntos e que s\u00e3o capazes de refletir melhor do que o comum das pessoas, at\u00e9 o comum dos te\u00f3logos &#8211; porque n\u00f3s somos, por vezes, especialistas nesta \u00e1rea ou naquela, mas n\u00e3o somos especialistas em tudo.<\/p>\n<p>Por outro lado, creio que \u00e9 a consci\u00eancia de que s\u00e3o quest\u00f5es que exigem matura\u00e7\u00e3o e que exigem que os crist\u00e3os v\u00e3o tomando consci\u00eancia delas, v\u00e3o pensando, v\u00e3o discernindo, v\u00e3o amadurecendo a perce\u00e7\u00e3o daquilo que significam, face aos desafios que hoje acontecem. De resto, segundo as refer\u00eancias da Secretaria-Geral do S\u00ednodo, contidas tamb\u00e9m no pr\u00f3prio documento agora publicado, esses grupos de trabalho far\u00e3o alguma refer\u00eancia ao estado da quest\u00e3o, digamos assim, ou ao estado das quest\u00f5es, nos trabalhos sinodais com informa\u00e7\u00e3o \u00e0 Assembleia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Quem em 2021 foi consultado e chamado a dar a sua opini\u00e3o, se calhar tinha expectativas\u2026 dou um exemplo concreto, sobre a ordena\u00e7\u00e3o de homens casados. Olha para este instrumento de trabalho e n\u00e3o v\u00ea uma \u00fanica refer\u00eancia, o que \u00e9 que se diz a estas pessoas?<\/em><\/p>\n<p>Sim, eu creio que estas pessoas t\u00eam uma certa raz\u00e3o em pensar e em pedir que as inst\u00e2ncias eclesiais se movam mais depressa e que as estruturas da Igreja no seu conjunto, as pessoas e as estruturas, sejam capazes de ir sinalizando respostas, mesmo que sejam respostas experimentais. N\u00f3s tivemos o S\u00ednodo sobre a Amaz\u00f3nia e, nessa altura, essa quest\u00e3o em concreto tamb\u00e9m j\u00e1 foi levantada expressamente. Podemos dizer que foi, na altura, uma certa dece\u00e7\u00e3o entre as pessoas, que n\u00e3o se tenha avan\u00e7ado para aquela regi\u00e3o espec\u00edfica, no sentido de um caminho em que se poderia ir. Lendo este documento, verificamos que h\u00e1 um avan\u00e7o qualitativo na refer\u00eancia aos contextos pr\u00f3prios em que o Evangelho tem de ser anunciado e a Igreja vive; h\u00e1 uma refer\u00eancia tamb\u00e9m expressa, mais do que uma vez, para dizer que a Igreja n\u00e3o \u00e9 uniforme, no sentido negativo da palavra, ou seja, uniforme em termos de que todos pensam da mesma maneira e a vida da Igreja \u00e9 realizada sempre da mesma maneira, pelo contr\u00e1rio, chama-se a aten\u00e7\u00e3o precisamente para essa diversidade de contextos.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Mas n\u00e3o ter\u00e1 de haver um momento em que se tome uma decis\u00e3o? <\/em><\/p>\n<p>Sem d\u00favida, sem d\u00favida.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>O receio \u00e9 mesmo esse, \u00e9 que se protele no tempo?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o excluo esse receio, nesta mat\u00e9ria toda n\u00e3o sou nem otimista repentino, nem pessimista militante. Procuro ser realista e o realismo aqui \u00e9 um realismo com esperan\u00e7a, no sentido de que este processo \u00e9, de facto, irrevers\u00edvel, n\u00e3o \u00e9 s\u00f3 minha convic\u00e7\u00e3o, creio que os sinais s\u00e3o v\u00e1rios\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O caso espec\u00edfico da ordena\u00e7\u00e3o de homens casados?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o, neste caso estou a falar do S\u00ednodo, em geral, deste processo. Essa quest\u00e3o em particular at\u00e9 n\u00e3o ser\u00e1 das mais dif\u00edceis, a n\u00e3o ser aqui nos nossos contextos europeus e limitados, porque, como se sabe, nas Igrejas Cat\u00f3licas Orientais j\u00e1 existem padres casados. \u00c9 mais uma quest\u00e3o agora de oportunidade, de olhar para os sinais que da\u00ed podem resultar, de amadurecimento das quest\u00f5es. Eu vejo dois problemas, n\u00e3o sei qual \u00e9 o principal, mas talvez o segundo&#8230;<\/p>\n<p>O primeiro \u00e9 que n\u00f3s estamos sempre a lidar com pessoas e estruturas interm\u00e9dias, ou seja, sendo assim um bocadinho direto demais -para tamb\u00e9m ser r\u00e1pido &#8211; o minist\u00e9rio episcopal, tal como est\u00e1 a ser exercido muitas vezes, n\u00e3o em todos os casos, pelo contr\u00e1rio, \u00e9 tendencialmente mon\u00e1rquico. E os p\u00e1rocos, em geral, em muitos s\u00edtios, por in\u00e9rcia ou por dificuldades de tempo e outras, tendem a n\u00e3o dar os passos que podem ser dados e que s\u00e3o necess\u00e1rios. Aqui est\u00e1 um bloqueio, que acontece de muitas maneiras, em muitos lados e de v\u00e1rias formas.<\/p>\n<p>O segundo aspeto, talvez mais importante, \u00e9 que isto da sinodalidade n\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de elites, sejam bispos, padres, te\u00f3logos ou leigos mais envolvidos nas par\u00f3quias, \u00e9 uma quest\u00e3o que tem de ver com todo o povo de Deus. Neste sentido, o discernimento significa que olhemos para aquilo que o Esp\u00edrito Santo nos diz, neste contexto e nesta situa\u00e7\u00e3o atual que estamos a viver, na Igreja, mas simultaneamente que percebamos os sinais que v\u00eam do mundo, das pessoas, das suas in\u00e9rcias, das suas necessidades de forma\u00e7\u00e3o, etc.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Queria introduzir um tema que est\u00e1 em enorme destaque em todo este processo: a quest\u00e3o do papel das mulheres, da participa\u00e7\u00e3o das mulheres nas comunidades cat\u00f3licas. Este documento fala especificamente nos processos de tomada de decis\u00e3o, mas o tema que talvez seja mais pol\u00e9mico, o diaconado feminino, \u00e9 remetido para um grupo de trabalho coordenado pela Doutrina da F\u00e9. Quer dizer que o debate sinodal se vai concentrar em aspetos que s\u00e3o mais concretos, do dia a dia das comunidades?<\/em><\/p>\n<p>Eu creio que sim, e isso est\u00e1 de alguma maneira referido, de forma expressa, mas ainda que n\u00e3o com todas as letras, no <em>Instrumentum Laboris<\/em>. Ou seja, a certa altura diz-se mesmo l\u00e1 que, sem medidas concretas, corremos o risco de o processo sinodal n\u00e3o se explicitar, crescer e desenvolver-se e at\u00e9 pode criar desalento em muitas pessoas. Portanto, essa consci\u00eancia existe e espero que, relativamente a alguns pontos, como esse do papel da mulher na vida da Igreja, sejam dados n\u00e3o apenas sinais claros, mas se aponte uma ou outra medida concreta que seja realmente realiz\u00e1vel j\u00e1 a curto prazo, sem que com isso se crie qualquer problema.<\/p>\n<p>Neste momento h\u00e1 a quest\u00e3o dos minist\u00e9rios, chamados batismais, possibilidades de participa\u00e7\u00e3o em inst\u00e2ncias de governo, que num caso ou outro j\u00e1 existe\u2026 ali\u00e1s, o documento tamb\u00e9m diz, e \u00e9 verdade, que j\u00e1 h\u00e1 muitas possibilidades, mas n\u00e3o s\u00e3o aproveitadas, e o problema base \u00e9 um problema de mentalidades.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_333845\" aria-describedby=\"caption-attachment-333845\" style=\"width: 390px\" class=\"wp-caption alignleft\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Borges-de-Pinho-1-1.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-333845\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Borges-de-Pinho-1-1-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Borges-de-Pinho-1-1-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Borges-de-Pinho-1-1-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Borges-de-Pinho-1-1-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Borges-de-Pinho-1-1-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Borges-de-Pinho-1-1-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/07\/Borges-de-Pinho-1-1.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-333845\" class=\"wp-caption-text\">Foto: Beatriz Pereira\/RR<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Ser\u00e1 uma forma de conduzir o debate para uma vis\u00e3o mais ampla, relativamente \u00e0 participa\u00e7\u00e3o de todos na vida das comunidades cat\u00f3licas?<\/em><\/p>\n<p>Eu espero que sim. Ali\u00e1s, na reflex\u00e3o que \u00e9 feita sobre o papel da mulher, vejo no texto algumas refer\u00eancias j\u00e1 mais incisivas do que no pr\u00f3prio relat\u00f3rio de s\u00edntese. Agora \u00e9 preciso que isso se concretize na Assembleia Sinodal e, depois, em indica\u00e7\u00f5es\/normas can\u00f3nicas que possam ser referidas. Mas o \u00faltimo par\u00e1grafo, se n\u00e3o me engano, nesse cap\u00edtulo chama a aten\u00e7\u00e3o que o problema da sinodalidade e da participa\u00e7\u00e3o na Igreja \u00e9 tamb\u00e9m, e em muitos casos decisivamente, um problema dos homens, um problema dos crist\u00e3os do sexo masculino, que precisam de ser, na sua consci\u00eancia crist\u00e3, na sua consci\u00eancia batismal e nas responsabilidades que t\u00eam na vida, poderem assumir de forma mais decisiva o seu lugar nas diversas inst\u00e2ncias, nos diversos lugares onde a Igreja se realiza. Isto n\u00e3o \u00e9 diminuir nada o papel da mulher, pelo contr\u00e1rio, \u00e9 dizer: a sinodalidade \u00e9 realmente um esfor\u00e7o de reciprocidade, de di\u00e1logo, de partilha, entre as pessoas e de consci\u00eancia do lugar que cada um \u00e9 chamado a desempenhar dentro das suas possibilidades.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Este processo sinodal tem sido marcado em larga medida, at\u00e9 pela perce\u00e7\u00e3o p\u00fablica, pela ideia da consulta e da mobiliza\u00e7\u00e3o, e no documento h\u00e1 um detalhe que eu gostaria que comentasse. No documento h\u00e1 uma proposta da cria\u00e7\u00e3o de um Minist\u00e9rio da Escuta e do Acompanhamento nas Comunidades Cat\u00f3licas, para todos. Pergunto-lhe se isto j\u00e1 \u00e9 um fruto vis\u00edvel de todo este processo?<\/em><\/p>\n<p>Absolutamente. Esse aspeto \u00e9 j\u00e1 um dos tais elementos concretos irrevers\u00edveis. N\u00e3o sei o tempo que vai demorar a institucionalizar, ali\u00e1s \u00e9 dito que a institucionaliza\u00e7\u00e3o deste minist\u00e9rio n\u00e3o significa que n\u00e3o se exer\u00e7a j\u00e1. Ao mesmo tempo que tamb\u00e9m servi\u00e7os de escuta e de acompanhamento, n\u00e3o devam estar j\u00e1 presentes e serem dinamizados. Ou seja, n\u00e3o podemos estar \u00e0 espera daquilo que s\u00e3o depois os frutos em termos de documentos. Eu acho que h\u00e1, e creio que \u00e9 neste momento o grande desafio, \u00e9 realmente perguntarmos nas nossas comunidades, pequenas ou maiores, com mais pessoas ou com menos pessoas, em todas as atividades que n\u00f3s fa\u00e7amos; perguntarmo-nos se o modo como estamos a funcionar, como estamos a pensar, a ler a realidade, como estamos a decidir, corresponde j\u00e1 a uma vontade, a um desejo de caminhar em frente, de caminhar para uma realidade de Igreja mais viva e participativa, ou se queremos manter prerrogativas de autoridade e de poder, leituras sociol\u00f3gicas que assentam muito no prest\u00edgio, etc., e n\u00e3o estarmos atentos \u00e0quilo que s\u00e3o as possibilidades e exig\u00eancias reais.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E qual \u00e9 a sua perce\u00e7\u00e3o? H\u00e1 um hiato entre esse esfor\u00e7o de escuta e uma integra\u00e7\u00e3o real de quem tem vindo bater \u00e0 porta das comunidades cat\u00f3licas? O \u201ctodos, todos, todos\u201d, ainda est\u00e1 marcado por muitos \u201cmas\u201d?<\/em><\/p>\n<p>Sim, a come\u00e7ar pelo facto de que esses \u201cmas\u201d se referem muitas vezes dentro do pr\u00f3prio espa\u00e7o eclesial interno. Repare que, se n\u00f3s vamos ver a vida das nossas comunidades, em muitas delas as pessoas que, por exemplo, leem os textos na liturgia, as pessoas que \u201cmandam\u201d alguma coisa no quotidiano, s\u00e3o sempre as mesmas e n\u00e3o tem havido, nem h\u00e1 a preocupa\u00e7\u00e3o muitas vezes de se fazer uma renova\u00e7\u00e3o e de as pessoas perceberem que s\u00f3 tamb\u00e9m estando aberto e atento ao concreto das situa\u00e7\u00f5es \u00e9 que n\u00f3s conseguimos ir mudando. E, portanto, aqui a minha experi\u00eancia \u00e9 sempre limitada, n\u00e3o podemos generalizar, mas \u00e9 marcada muito por isso.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Quem estiver a ouvir depois tamb\u00e9m h\u00e1 de lembrar-se da sua e h\u00e1 de tirar as suas conclus\u00f5es&#8230;.<\/em><\/p>\n<p>Exatamente. Esse \u201cmas\u201d, obviamente, tem a ver tamb\u00e9m com todas as situa\u00e7\u00f5es de marginalidade, de dificuldade com a Igreja, de pobreza e a\u00ed eu confesso que ainda h\u00e1 muito a fazer. Mas \u00e9 preciso reconhecer tamb\u00e9m que \u00e9 um trabalho dif\u00edcil, isto \u00e9, n\u00f3s n\u00e3o estamos preparados, muitas vezes. H\u00e1 muitos crist\u00e3os em todo o mundo, n\u00e3o estou a falar apenas da nossa realidade, que s\u00e3o verdadeiros profetas na sua maneira de agir nessas situa\u00e7\u00f5es. N\u00f3s \u00e0s vezes tendemos a ver s\u00f3 o nosso cantinho e n\u00e3o vemos nada, ou vemos mal. Mas tamb\u00e9m \u00e9 preciso dizer que muitas das nossas comunidades fazem coisas muito boas, mas n\u00e3o h\u00e1 muitas vezes a sensibilidade para essas situa\u00e7\u00f5es, esses desafios de alguma marginalidade. \u00c9 preciso antes de mais reconhecer a dificuldade e pensar e dialogarmos uns com os outros para ver os passos que podem e devem ser dados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Olhando para a realidade interna das comunidades, o documento de trabalho que foi lan\u00e7ado na \u00faltima semana fala de um conceito que muitas vezes n\u00e3o \u00e9 t\u00e3o vis\u00edvel, a quest\u00e3o da transpar\u00eancia e da presta\u00e7\u00e3o de contas. E isto \u00e9 colocado no contexto em que se diz que \u00e9 necess\u00e1rio superar um modelo piramidal. Este modelo explica muitas resist\u00eancias \u00e0 din\u00e2mica sinodal? <\/em><\/p>\n<p>Sem d\u00favida, sem d\u00favida, porque h\u00e1 aqui mudan\u00e7as, mudan\u00e7as profundas que t\u00eam de ser feitas. S\u00e3o mudan\u00e7as naturalmente de mentalidade, mas s\u00e3o, no fundo, verdadeiras convers\u00f5es. Convers\u00e3o do modo de proceder, do modo de olhar, do sentido das prioridades, etc. Li, h\u00e1 dias, uma refer\u00eancia, j\u00e1 n\u00e3o me recordo de quem, que as pessoas n\u00e3o desistem do poder. E que, no fundo, agarram-se a ele, de uma maneira ou de outra. E esta mudan\u00e7a, que tamb\u00e9m aqui \u00e9 importante, exige alguma humildade, disponibilidade. N\u00e3o \u00e9 s\u00f3 uma quest\u00e3o te\u00f3rica, \u00e9 uma quest\u00e3o tamb\u00e9m muito pr\u00e1tica. Essa presta\u00e7\u00e3o de contas, no sentido n\u00e3o apenas financeiro, mas em todos os \u00e2mbitos, vai ser um elemento fundamental. Certamente, a pr\u00f3xima Assembleia Sinodal, nessa mat\u00e9ria, vai sugerir aspetos concretos. Claro que tudo vai ser entregue ao Santo Padre, ao Papa Francisco, e depois um ou outro aspeto ser\u00e1 concretizado mais tarde, mas esse \u00e9 um elemento, sem d\u00favida, irrenunci\u00e1vel e j\u00e1 bastante amadurecido.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>O processo Sinodal foi visto com muita esperan\u00e7a por setores e pessoas que se tinham distanciado da Igreja. Julga que houve expectativas pouco realistas, o que \u00e9 que se deve esperar, realmente, de uma Assembleia Sinodal? <\/em><\/p>\n<p>Eu penso que sim, que houve expectativas talvez a mais, por parte de alguns setores, algumas pessoas, mas quem conhece a Igreja, quem vive na Igreja, quem tem tamb\u00e9m algumas refer\u00eancias fundamentais, percebe que n\u00f3s n\u00e3o vivemos num espa\u00e7o a\u00e9reo, vivemos no terreno, com os p\u00e9s assentes na terra, isto \u00e9, somos marcados todos pela historicidade do viver humano e tamb\u00e9m do viver crente. Quer dizer, as coisas mudam, mas \u00e0s vezes muito lentamente. As coisas s\u00e3o condicionadas por rea\u00e7\u00f5es imprevistas. N\u00e3o me supreende muito que haja resist\u00eancias, n\u00e3o me admira muito que haja in\u00e9rcias. Admiro-me sim, e at\u00e9 de alguma forma posso dizer que sofro com isso interiormente, como crist\u00e3o, que as pessoas n\u00e3o se abram a dar aqueles passos para aquilo que, em todo o discurso que n\u00f3s fazemos na Igreja, at\u00e9 nas nossas homilias, para aquilo que \u00e9 essencial. H\u00e1 aqui, \u00e0s vezes, contradi\u00e7\u00f5es de linguagem e de pr\u00e1tica que, no fundo, n\u00e3o se justificam ou n\u00e3o se justificariam se as pessoas estivessem atentas, por um lado, \u00e0 realidade e tamb\u00e9m pensassem um bocadinho mais sobre o que \u00e9, de facto, a identidade crist\u00e3, o que \u00e9 a vida da Igreja, o que \u00e9 a sua miss\u00e3o.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>N\u00f3s vivemos num mundo marcado por conflitos, por desigualdades. Esta Igreja sinodal pode ser, prof\u00e9tica, um modelo alternativo de sociedade?<\/em><\/p>\n<p>Esse realmente o ponto fulcral de todo este dinamismo, de toda esta busca, de todo este processo, porque em \u201ccomunh\u00e3o, participa\u00e7\u00e3o, miss\u00e3o\u201d, as tr\u00eas palavras que traduzem a sinodalidade em concreto, o termo chave \u00e9, de facto, a miss\u00e3o. Como \u00e9 que n\u00f3s conseguimos viver como crist\u00e3os de modo que quem nos v\u00ea ache interpelativo, que faz algum sentido, que pode ajudar a transformar o quotidiano nas rela\u00e7\u00f5es? \u00c9 claro que tamb\u00e9m aqui, olhando realisticamente para o mundo em que vivemos, assustamo-nos. Eu creio que n\u00e3o h\u00e1 outra palavra. Mas, exatamente no documento que foi publicado, esse \u00e9 um aspeto que eu acho dos mais importantes. Chama-se a aten\u00e7\u00e3o, realmente, que esta dimens\u00e3o sinodal s\u00f3 tem sentido em termos de encontrar um rosto mais mission\u00e1rio, evangelizador para a Igreja, e s\u00f3 tem sentido, nessa linha, em ordem a que n\u00f3s crist\u00e3os mostremos que \u00e9 poss\u00edvel viver de outra maneira neste nosso mundo, neste nosso planeta, e encontrar caminhos de fraternidade e de justi\u00e7a e tamb\u00e9m de paz. Eu n\u00e3o estou a idealizar aquilo que a Igreja e os crist\u00e3os podem fazer, mas sublinho realmente, dentro da pergunta que acabou de colocar, que realmente isso \u00e9 que nos deve verdadeiramente preocupar e questionar todos os nossos h\u00e1bitos, mentalidades e modos de funcionar internamente. Portanto, isso \u00e9 que \u00e9 o decisivo.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Por ocasi\u00e3o da divulga\u00e7\u00e3o do documento de trabalho para a segunda sess\u00e3o da 16\u00aaAssembleia Sinodal, \u00e9 convidado da Renascen\u00e7a e da Ecclesia Jos\u00e9 Eduardo Borges de Pinho, professor jubilado da Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa, membro da Equipa Sinodal da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":333843,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[147,906],"class_list":["post-333741","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-conferencia-episcopal-portuguesa","tag-sinodo"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/333741","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=333741"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/333741\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/333843"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=333741"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=333741"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=333741"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}