{"id":33263,"date":"2008-07-23T10:39:15","date_gmt":"2008-07-23T10:39:15","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/07\/23\/a-igreja-em-portugal-hoje\/"},"modified":"2008-07-23T10:39:15","modified_gmt":"2008-07-23T10:39:15","slug":"a-igreja-em-portugal-hoje","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-igreja-em-portugal-hoje\/","title":{"rendered":"A Igreja em Portugal, hoje"},"content":{"rendered":"<p>Confer\u00eancia do Bispo do Porto ao Col\u00e9gio Internacional das Equipas de Nossa Senhora <!--more--> Apresento nesta curta reflex\u00e3o algumas notas pessoais sobre a rela\u00e7\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica com o Portugal contempor\u00e2neo. Uma breve caracteriza\u00e7\u00e3o que me levar\u00e1 a adiantar alguns pontos para o futuro. Comecemos pelo pa\u00eds, Portugal. Um territ\u00f3rio com cerca de 90 000 quil\u00f3metros quadrados (continente e ilhas), uma popula\u00e7\u00e3o que ronda os dez milh\u00f5es, imigrantes inclu\u00eddos. Uma das mais antigas na\u00e7\u00f5es europeias (independente desde o s\u00e9culo XII), com forte unidade cultural. Uma experi\u00eancia hist\u00f3rica densa, com grande expans\u00e3o mundial desde o s\u00e9culo XV. Sofre actualmente das caracter\u00edsticas comuns \u00e0 Europa: urbaniza\u00e7\u00e3o e sub-urbaniza\u00e7\u00e3o gerais, desagrega\u00e7\u00e3o da fam\u00edlia tradicional, com baixa de casamentos, religiosos e mesmo civis, aumento de div\u00f3rcios, escassez de filhos e de gente nova.  Culturalmente, oscila entre a globaliza\u00e7\u00e3o e a individualiza\u00e7\u00e3o. Muito maior circula\u00e7\u00e3o de informa\u00e7\u00f5es em todo o tipo de redes, das inform\u00e1ticas \u00e0s inter-locais, de escolaridade, trabalho e divers\u00e3o, mesmo para fora do pa\u00eds. Muito maior determina\u00e7\u00e3o e viv\u00eancia individuais, nas escolhas, consumos e planos. \u00c0 sociedade maioritariamente fixa de nascimento, crescimento e perten\u00e7a, vigente at\u00e9 aos anos sessenta do s\u00e9culo passado, sucedeu a variedade de \u201cpercursos\u201d e territ\u00f3rios, geogr\u00e1ficos e mentais. Estamos na primeira gera\u00e7\u00e3o que hesita quando perguntada de que terra \u00e9\u2026 Um novo tipo de nomadismo e err\u00e2ncia.  Atendamos a alguns n\u00fameros referentes \u00e0 Igreja Cat\u00f3lica em Portugal (cerca de 10 milh\u00f5es de habitantes): Entre 2000 e 2006, o n\u00famero de sacerdotes diocesanos baixou de 3159 para 2894. Em m\u00e9dia, por dois que morreram ordenou-se apenas um novo\u2026 Em 21 dioceses, incluindo a das For\u00e7as Armadas, havia, no final de 2006, 2894 padres diocesanos e 1052 padres de Institutos Religiosos, 198 di\u00e1conos permanentes, 327 religiosos professos e 5717 religiosas professas, diminuindo estas tamb\u00e9m. Os seminaristas de filosofia e teologia desceram de 547 diocesanos e religiosos no ano 2000, para 475 em 2006. A percentagem de \u201ccat\u00f3licos\u201d em Portugal situa-se nos 88, 10% (cf. Menos padres em Portugal. Ag\u00eancia Ecclesia. Seman\u00e1rio de Actualidade Religiosa, 15 de Julho de 2008, p. 4). Ali\u00e1s, quando falamos de dioceses, Lisboa e o Porto juntas t\u00eam quase metade da popula\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Variam entre dezenas de milhares e a centena os habitantes dos quatro milhares e meio de par\u00f3quias. Tamb\u00e9m desde os anos sessenta, os \u201cmovimentos\u201d trouxeram algo de novo no modo de inclu\u00edrem os cat\u00f3licos que lhes aderem. Se at\u00e9 ent\u00e3o tinham uma forte refer\u00eancia local, como nas sec\u00e7\u00f5es paroquiais da Ac\u00e7\u00e3o Cat\u00f3lica, constituem-se agora a partir de ades\u00f5es inter-pessoais, de ide\u00e1rio e viv\u00eancia, que geralmente n\u00e3o se confinam a um territ\u00f3rio espec\u00edfico. S\u00e3o relativamente novos e distintos do que ainda h\u00e1 d\u00e9cadas acontecia como vincula\u00e7\u00e3o eclesial. Por isso mesmo, podem encontrar alguma resist\u00eancia da parte da pastoral tradicional, muito mais localizada. Tamb\u00e9m a defini\u00e7\u00e3o vocacional espec\u00edfica de sacerdotes, di\u00e1conos, religiosos e religiosas, bem como o respectivo encaminhamento formativo encontra altera\u00e7\u00f5es importantes. Ao grande n\u00famero de entradas nos semin\u00e1rios menores, como ainda se constatava at\u00e9 h\u00e1 meio s\u00e9culo, sucedeu-se o esvaziamento e a quase extin\u00e7\u00e3o dessas institui\u00e7\u00f5es. Hoje entra-se menos e mais tarde nos semin\u00e1rios, ainda que haja mais persist\u00eancia depois. Crescem as decis\u00f5es pessoais e adultas, menos dependentes do envolvimento familiar. A pr\u00e1tica dominical situou-se no \u00faltimo recenseamento (2001) em cerca de 20 % da popula\u00e7\u00e3o portuguesa. Mas a pr\u00e1tica menos ritmada \u00e9 muito maior: em Junho desse mesmo ano, uma sondagem asseverava que mais de 70 % da popula\u00e7\u00e3o praticava uma vez por m\u00eas algum acto da sua cren\u00e7a. H\u00e1 cerca de um m\u00eas, uma outra sondagem mostrava que cerca de 70 % dos portugueses continua a incluir o catolicismo na defini\u00e7\u00e3o nacional. Portugal disp\u00f5e dum grande centro espiritual, verdadeiramente nacional, tanto como internacional. Refiro-me a F\u00e1tima e aos seus mais de 5 milh\u00f5es de peregrinos anuais (com mais de 200 000 confiss\u00f5es). Desde 1917 e crescentemente, esta \u00e9 uma particularidade do catolicismo portugu\u00eas, que se encontra e rev\u00ea no grande centro mariano. Al\u00e9m das presen\u00e7as ocasionais, dificilmente defin\u00edveis em termos de ortodoxia e ortopraxia, F\u00e1tima atrai um crescente n\u00famero de peregrinos, de variadas condi\u00e7\u00f5es sociais e culturais; acolhendo, ali\u00e1s, todo o tipo de celebra\u00e7\u00f5es e cursos de \u00edndole pastoral, abertos \u00e0 participa\u00e7\u00e3o de crentes do pa\u00eds inteiro.       A Igreja em Portugal conta com centenas de associa\u00e7\u00f5es de fi\u00e9is da mais diversa \u00edndole, do estritamente \u201creligioso\u201d ao mais abertamente social e s\u00f3cio-caritativo. \u00c9 tamb\u00e9m por aqui que a Igreja Cat\u00f3lica mais se aproxima da sociedade e dos seus problemas, como \u00e9 geralmente reconhecido. No entanto, \u00e9 crescentemente dif\u00edcil garantir a sucess\u00e3o dos respons\u00e1veis dessas associa\u00e7\u00f5es, tamb\u00e9m por causa das m\u00faltiplas desloca\u00e7\u00f5es de resid\u00eancia ou trabalho, ou por alguma resist\u00eancia ao compromisso, t\u00e3o pr\u00f3pria da atmosfera p\u00f3s-moderna, individualista e err\u00e1tica, geogr\u00e1fica e mentalmente.  Neste contexto, compartilhado pela Europa em geral, aplica-se perfeitamente ao pa\u00eds o que Jo\u00e3o Paulo II escreveu em 2003, na exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica p\u00f3s-sinodal Ecclesia in Europa, n\u00ba 46: \u201cEm v\u00e1rias partes da Europa, h\u00e1 necessidade do primeiro an\u00fancio do Evangelho: aumenta o n\u00famero das pessoas n\u00e3o baptizadas, [\u2026] porque fam\u00edlias de tradi\u00e7\u00e3o crist\u00e3 n\u00e3o baptizaram os filhos devido [\u2026] a uma generalizada indiferen\u00e7a religiosa. Com efeito, a Europa faz parte j\u00e1 daqueles espa\u00e7os tradicionalmente crist\u00e3os, onde, para al\u00e9m duma nova evangeliza\u00e7\u00e3o, se requer em determinados casos a primeira evangeliza\u00e7\u00e3o. [\u2026] Mesmo no \u2018velho\u2019 continente existem extensas \u00e1reas sociais e culturais onde se torna necess\u00e1ria uma verdadeira e pr\u00f3pria missio ad gentes\u201d.  De tudo isto se v\u00ea na Igreja portuguesa. A par da habitual ac\u00e7\u00e3o pastoral, que absorve a maior parte da actividade cat\u00f3lica, nas diversas comunidades &#8211; catequese e prega\u00e7\u00e3o, liturgia e piedade, ac\u00e7\u00e3o s\u00f3cio-caritativa -, t\u00eam-se tentado algumas iniciativas de nova evangeliza\u00e7\u00e3o e vai-se assumindo a missio ad gentes interna ou, pelo menos, a sua necessidade. Por \u201cnova evangeliza\u00e7\u00e3o\u201d entendia o mesmo Pont\u00edfice, na exorta\u00e7\u00e3o apost\u00f3lica p\u00f3s-sinodal Christifideles Laici, de 1988, n\u00ba 34, o seguinte: \u201cEsta nova evangeliza\u00e7\u00e3o, dirigida n\u00e3o apenas aos indiv\u00edduos mas a inteiras faixas de popula\u00e7\u00e3o, nas suas diversas situa\u00e7\u00f5es, ambientes e culturas, tem por fim formar comunidades eclesiais maduras, onde a f\u00e9 desabroche e realize todo o seu significado origin\u00e1rio de ades\u00e3o \u00e0 pessoa de Cristo e ao seu Evangelho, de encontro e de comunh\u00e3o sacramental com Ele, de exist\u00eancia vivida na caridade e no servi\u00e7o\u201d. Em 2005 realizou-se em Lisboa uma sess\u00e3o do Congresso Internacional para a Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o, onde se pretendeu precisamente propor e redescobrir \u201cCristo vivo\u201d, como p\u00f3lo aut\u00eantico da vida crist\u00e3 e eclesial. Para isso, al\u00e9m das sess\u00f5es gerais de reflex\u00e3o e testemunho, em torno da problem\u00e1tica da vida nas suas v\u00e1rias acep\u00e7\u00f5es, experimentaram-se e verificaram-se v\u00e1rias realiza\u00e7\u00f5es mission\u00e1rias na cidade, quer em comunidades que habitualmente as tentam, quer em testemunhos de f\u00e9 nos espa\u00e7os p\u00fablicos, do simples an\u00fancio \u00e0s manifesta\u00e7\u00f5es culturais.  Na sess\u00e3o de Lisboa do Congresso Internacional para a Nova Evangeliza\u00e7\u00e3o, apurou-se mais a respectiva pr\u00e1tica, em dois pontos essenciais: o an\u00fancio \u00e9 precisamente o de Cristo vivo, como fonte de vida (verdade, bondade e beleza) para as pessoas, as fam\u00edlias e a sociedade; e an\u00fancio protagonizado por comunidades convictas \u2013 par\u00f3quias, congrega\u00e7\u00f5es, movimentos, estabelecimentos de ensino ou sa\u00fade, etc \u2013 que testemunham e acolhem a todos, crentes ou descrentes que sejam. E tudo isto com a necess\u00e1ria criatividade e inova\u00e7\u00e3o, lembrando a tripla qualifica\u00e7\u00e3o que Jo\u00e3o Paulo II fazia da \u201cnova evangeliza\u00e7\u00e3o\u201d (Haiti, 1983): \u201cnova no ardor, nos m\u00e9todos e nas express\u00f5es\u201d.  Ganha-se mais consci\u00eancia de que a \u201cnova evangeliza\u00e7\u00e3o\u201d tem de refor\u00e7ar o interesse e o empenhamento nos aspectos \u00e9ticos (compromisso social e promo\u00e7\u00e3o da vida), est\u00e9ticos (a beleza evang\u00e9lica nas letras e nas artes) e comunit\u00e1rios (conviv\u00eancia e partilha). Ainda que, em rela\u00e7\u00e3o a este \u00faltimo ponto sobrem dificuldades e indefini\u00e7\u00f5es. Considero, de facto, que o maior desafio pastoral do catolicismo portugu\u00eas para os tempos mais pr\u00f3ximos est\u00e1 na inevit\u00e1vel reconfigura\u00e7\u00e3o da comunidade crist\u00e3. Por um lado, sabe-se e comprova-se que n\u00e3o h\u00e1 inicia\u00e7\u00e3o nem crescimento na f\u00e9 sem comunidade, pr\u00f3pria e persistente. Por outro, manifestam-se continuamente as dificuldades em formar e manter comunidades fixas numa sociedade t\u00e3o fugaz e movedi\u00e7a como a actual. Lembremos, ali\u00e1s, que as \u201credes\u201d de comunica\u00e7\u00e3o, concretamente televisivas e inform\u00e1ticas, n\u00e3o se definem em termos territoriais.   \u00c9 aqui que algumas experi\u00eancias se v\u00e3o somando na Igreja em Portugal, quer no \u00e2mbito da pastoral inter-paroquial e transcomunit\u00e1ria, quer nos movimentos, quer nas fam\u00edlias. Com a normal resist\u00eancia da religiosidade arcaica e realmente pr\u00e9-crist\u00e3, que continua a ter como \u00fanicos artigos do seu credo \u201ca terra, o sangue e os mortos\u201d \u2013 prevalecendo a terra e a capela de cada grupo, os la\u00e7os do sangue e o descanso dos respectivos falecidos -, as grandes propostas do Conc\u00edlio Vaticano II v\u00e3o tendo alguma recep\u00e7\u00e3o, como o actual contexto s\u00f3cio-cultural mais exige.  Efectivamente, um conceito mais correcto e universal da Igreja de Cristo &#8211; ainda que v\u00e1 a par com a sua dimens\u00e3o particular -, o acolhimento do apelo geral \u00e0 miss\u00e3o, a afirma\u00e7\u00e3o do conte\u00fado cristol\u00f3gico e trinit\u00e1rio do querigma evang\u00e9lico, a maior aten\u00e7\u00e3o aos \u201csinais dos tempos\u201d, como apelos do Esp\u00edrito no cora\u00e7\u00e3o do mundo actual, tudo vai originando, aqui e ali, novas concretiza\u00e7\u00f5es de corresponsabilidade, comunh\u00e3o e testemunho.  S\u00e3o hoje m\u00faltiplas as ac\u00e7\u00f5es de evangeliza\u00e7\u00e3o de grupos, movimentos e fam\u00edlias, com grande empenho e criatividade laicais. Podem ser fam\u00edlias que transformam os seus lares em pontos de acolhimento e partilha crist\u00e3 nos respectivos pr\u00e9dios; podem ser ac\u00e7\u00f5es conjuntas de evangeliza\u00e7\u00e3o e miss\u00e3o popular, envolvendo par\u00f3quias, congrega\u00e7\u00f5es e movimentos; podem ser novas formas de miss\u00e3o \u00e0 dist\u00e2ncia, com gemina\u00e7\u00e3o de par\u00f3quias europeias e ultramarinas; podem ser \u201cs\u00edtios\u201d e \u201cblogues\u201d na Internet\u2026 De tudo um pouco se vai constatando em Portugal. E tamb\u00e9m uma consider\u00e1vel presen\u00e7a na R\u00e1dio e na Televis\u00e3o, a n\u00edvel nacional ou local. Na televis\u00e3o p\u00fablica, por exemplo, a Igreja Cat\u00f3lica disp\u00f5e de vinte e alguns minutos de segunda a sexta-feira, al\u00e9m de um tempo ao Domingo; tamb\u00e9m na r\u00e1dio estatal disp\u00f5e de algum tempo ao Domingo de manh\u00e3. No campo da r\u00e1dio, o grupo Renascen\u00e7a, da Igreja cat\u00f3lica, lidera as audi\u00eancias.  Estas e outras realidades do catolicismo portugu\u00eas contempor\u00e2neo revelam a sua consider\u00e1vel vitalidade, mas n\u00e3o resolvem para j\u00e1 o problema pastoral acima indicado, isto \u00e9, o da reconfigura\u00e7\u00e3o comunit\u00e1ria da vida crist\u00e3. Alimenta-se, sem d\u00favida, um certo lastro cultural cat\u00f3lico, que explica a persistente identifica\u00e7\u00e3o do pa\u00eds com esta tradi\u00e7\u00e3o religiosa. Facto redobrado com a not\u00e1vel presen\u00e7a da Igreja Cat\u00f3lica no campo s\u00f3cio-caritativo, para crentes e n\u00e3o crentes. Mas a capacidade das par\u00f3quias e outros centros comunit\u00e1rios de integrarem uma popula\u00e7\u00e3o cada vez mais fluida nos percursos individuais e familiares \u00e9 efectivamente reduzida e, nalguns casos, cada vez mais problem\u00e1tica.  Tanto mais que poucos poder\u00e3o dizer com grande certeza qual ser\u00e1 amanh\u00e3 a pr\u00f3pria realiza\u00e7\u00e3o social das exist\u00eancias. A Igreja Cat\u00f3lica conheceu uma fase prevalentemente urbana nos seus primeiros cinco s\u00e9culos, no Imp\u00e9rio Romano; percorreu depois um longo percurso rural; vive actualmente uma nova concentra\u00e7\u00e3o urbana, mas muito mais movimentada do que a antiga; podemos at\u00e9 falar de desconcentra\u00e7\u00e3o ou policentra\u00e7\u00e3o, variando as estadas, semana a semana ou ao longo do ano, por v\u00e1rios locais.  Pode mesmo dizer-se que muitos dos actuais portugueses s\u00e3o urbanos de semana, rurais de fim-de-semana e litorais de Ver\u00e3o, pois trabalham na cidade, descansam fora dela e v\u00e3o para a praia no tempo quente\u2026 Dif\u00edcil \u00e9 assim a liga\u00e7\u00e3o persistente a uma comunidade situada, particularmente no aspecto religioso. Mais f\u00e1cil \u00e9, para muitos, individualizarem a pr\u00e1tica, indo a sucessivos locais de culto, mesmo a um grande santu\u00e1rio como F\u00e1tima, ou praticarem de longe em longe nalgum lugar onde se sintam bem, pela mais diversa e subjectiva ordem de raz\u00f5es.  \u00c9 neste contexto que a Igreja Cat\u00f3lica em Portugal pretende \u201caproveitar\u201d o Ano Paulino para se redefinir mais e reconfigurar melhor em termos propriamente crist\u00e3os. A Confer\u00eancia Episcopal publicou, nesse sentido, a 6 de Maio \u00faltimo, um documento intitulado Ano Paulino, uma proposta pastoral, onde se sugerem passos em ordem a redescobrir a \u00edndole cristol\u00f3gica e eclesiol\u00f3gica da experi\u00eancia crist\u00e3. Estamos de novo no \u00e2mbito da \u201cnova evangeliza\u00e7\u00e3o\u201d como atr\u00e1s a vimos: \u201cO alargamento do an\u00fancio do Evangelho aos descrentes e aos que abandonaram a vida crist\u00e3, sup\u00f5e evangelizadores com as caracter\u00edsticas exigidas pela nova evangeliza\u00e7\u00e3o. No dizer de Jo\u00e3o Paulo II, esses evangelizadores t\u00eam de ser possu\u00eddos de um novo ardor, porque o seu testemunho \u00e9 um primeiro an\u00fancio de natureza querigm\u00e1tica\u201d (Ano Paulino, n\u00ba 4). Querigma, an\u00fancio de Cristo vivo, como proposta de vida n\u2019Ele. Para tal se proclama a Palavra e se celebram os sacramentos: \u201cO caminho catequ\u00e9tico leva, sobretudo, \u00e0 identifica\u00e7\u00e3o com Cristo. O baptismo, sacramento pelo qual os que acreditaram em Jesus Cristo, atrav\u00e9s da Palavra, entram na comunidade dos disc\u00edpulos, para caminharem em Igreja, consiste em morrer com Cristo, para com Ele ressuscitar. [\u2026] \u00c9 uma caminhada catecumenal, porque aprofunda continuamente a alegria do seu in\u00edcio: a f\u00e9 em Jesus Cristo e o mergulhar n\u2019 Ele, no Baptismo\u201d (Ano Paulino, n\u00ba 5). Caminho essencialmente comunit\u00e1rio, pois se trata duma aut\u00eantica \u201cincorpora\u00e7\u00e3o\u201d, no grande \u201ccorpo\u201d que Cristo forma com todos e cada um dos seus, muito al\u00e9m de qualquer subjectivismo ou alheamento. De novo a insist\u00eancia paulina: \u201cA uni\u00e3o a Cristo, realizada no baptismo, \u00e9 t\u00e3o profunda, que a Igreja \u00e9 a nova dimens\u00e3o do Corpo de Cristo, a nova fase do mist\u00e9rio da encarna\u00e7\u00e3o\u201d (Ano Paulino, n\u00ba 6). Contexto cristol\u00f3gico e eclesial que afasta imediatamente qualquer hip\u00f3tese de exibicionismo ou protagonismo excessivo, contrariando tamb\u00e9m um certo gosto \u201cp\u00f3s-moderno\u201d de originalidade e espect\u00e1culo. \u00c9 sempre com Paulo que o documento da Confer\u00eancia Episcopal nos lembra: \u201cn\u00e3o h\u00e1 dons do Esp\u00edrito estritamente para benef\u00edcio individual, mas s\u00e3o dons para toda a Igreja e s\u00f3 esta \u00e9 o juiz do seu discernimento\u201d (Ano Paulino, 6). Nota igualmente importante e urgente \u00e9 a da implica\u00e7\u00e3o de todos na nova evangeliza\u00e7\u00e3o do pa\u00eds. Tamb\u00e9m neste caso, muito para al\u00e9m da triparti\u00e7\u00e3o arcaica \u2013 e persistente! &#8211; entre \u201cclero, nobreza e povo\u201d, que reservava aos \u201chomens do sagrado\u201d a actua\u00e7\u00e3o religiosa, o Ano Paulino levar-nos-\u00e1 a acolher o ensinamento e a pr\u00e1tica do grande Ap\u00f3stolo: \u201cPaulo percebeu que toda a Igreja \u00e9 chamada a ser, com os Ap\u00f3stolos, correspons\u00e1vel na miss\u00e3o. Agregou ao seu minist\u00e9rio cooperadores zelosos: presb\u00edteros, que \u2018trabalham na palavra e na instru\u00e7\u00e3o\u2019 (1 Tim 5, 17), crist\u00e3os, mulheres e homens, empenhados no \u2018trabalho do amor\u2019 (1 Tes 1, 3). No final da Carta aos Romanos refere-se a eles com grande afecto: \u2018Saudai Priscila e \u00c1quila, meus colaboradores em Cristo Jesus\u2026\u2019\u201d (Ano Paulino, n\u00ba 7).  Assim se sugere, em tra\u00e7o r\u00e1pido, a situa\u00e7\u00e3o da Igreja Cat\u00f3lica em Portugal, no tempo que corre. Mais do que em situa\u00e7\u00e3o, podemos falar em \u201ctens\u00e3o\u201d. \u00c9 desta que se trata, como num organismo vivo, que espera e arrisca. Sim, apesar das inevit\u00e1veis resist\u00eancias de atavismos v\u00e1rios, ou de algumas desist\u00eancias face a desafios grandes e desinstala\u00e7\u00f5es necess\u00e1rias, h\u00e1 muita gente cat\u00f3lica a redescobrir a subst\u00e2ncia cristol\u00f3gica do an\u00fancio e da viv\u00eancia crentes. H\u00e1 muita gente, de mais ou menos idade, a redescobrir a dimens\u00e3o eclesial da f\u00e9, com antigas e novas formas comunit\u00e1rias. Ou inovando dentro das antigas, tomando a par\u00f3quia como \u201ccomunidade de comunidades\u201d e \u201cfam\u00edlia de fam\u00edlias\u201d. Sucedem-se as iniciativas de \u00e2mbito interparoquial e diocesano, com participa\u00e7\u00e3o de seculares e religiosos, fam\u00edlias, movimentos e grupos, valorizando tamb\u00e9m o \u201ccarisma\u201d e o modo pr\u00f3prios de cada um. Alargam-se os la\u00e7os inter-mission\u00e1rios, para longe e perto, em reciprocidade nova de presen\u00e7as e contributos. Arrisca-se e inova-se alguma coisa no campo da cultura e da arte, a partir da Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa e de outras inst\u00e2ncias eclesiais. Mant\u00eam-se com abnega\u00e7\u00e3o e consist\u00eancia muitas ac\u00e7\u00f5es no campo s\u00f3cio-caritativo. Com tudo isto se \u201clan\u00e7ar\u00e3o as redes\u201d, mesmo que ainda n\u00e3o divisemos bem a nova malha em que se entrela\u00e7ar\u00e3o.  F\u00e1tima, 22 de Julho de 2008 <i>+ Manuel Clemente, Bispo do Porto<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Confer\u00eancia do Bispo do Porto ao Col\u00e9gio Internacional das Equipas de Nossa Senhora<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[95,113,127,144,187,203,206,207,335,237,246,268,294],"class_list":["post-33263","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-accao-catolica","tag-ano-paulino","tag-catequese","tag-concilio-vaticano-ii","tag-diocese-do-porto","tag-europa","tag-familia","tag-fatima","tag-haiti","tag-joao-paulo-ii","tag-liturgia","tag-nova-evangelizacao","tag-sacramentos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33263","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=33263"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33263\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=33263"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=33263"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=33263"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}