{"id":332048,"date":"2024-06-30T09:31:19","date_gmt":"2024-06-30T08:31:19","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=332048"},"modified":"2024-06-28T11:58:56","modified_gmt":"2024-06-28T10:58:56","slug":"igreja-etica-inteligencia-artificial-sera-provavelmente-o-maior-desafio-antropologico-de-todos-os-tempos-mara-de-sousa-freitas","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/igreja-etica-inteligencia-artificial-sera-provavelmente-o-maior-desafio-antropologico-de-todos-os-tempos-mara-de-sousa-freitas\/","title":{"rendered":"Igreja\/\u00c9tica: \u00abIntelig\u00eancia Artificial ser\u00e1, provavelmente, o maior desafio antropol\u00f3gico de todos os tempos\u00bb &#8211; Mara de Sousa Freitas"},"content":{"rendered":"<p><em>A IA representa um passo gigante no avan\u00e7o tecnol\u00f3gico, mas os desafios que acarreta s\u00e3o tamb\u00e9m maiores do que nunca. O tema est\u00e1 no centro do debate e o Papa abordou-o no recente discurso aos l\u00edderes do G7. Para abordar estas quest\u00f5es, \u00e9 convidada da Ecclesia e Renascen\u00e7a a diretora do Instituto Bio\u00e9tica e professora auxiliar na Faculdade de Medicina da Universidade Cat\u00f3lica Portuguesa, que tamb\u00e9m faz parte do Observat\u00f3rio Portugu\u00eas de Cuidados Paliativos<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_332051\" aria-describedby=\"caption-attachment-332051\" style=\"width: 1620px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/MaraDeSousaFreitas.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-332051 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/MaraDeSousaFreitas.jpg\" alt=\"\" width=\"1620\" height=\"1080\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/MaraDeSousaFreitas.jpg 1620w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/MaraDeSousaFreitas-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/MaraDeSousaFreitas-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/MaraDeSousaFreitas-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/MaraDeSousaFreitas-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/MaraDeSousaFreitas-1536x1024.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1620px) 100vw, 1620px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-332051\" class=\"wp-caption-text\">Foto: UCP<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>Entrevista conduzida por \u00c2ngela Roque (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia)<\/em><\/p>\n<p><em>H\u00e1 a preocupa\u00e7\u00e3o de acompanhar o desenvolvimento tecnol\u00f3gico com uma reflex\u00e3o \u00e9tica, ou esta tende a ficar sempre para tr\u00e1s?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 um desafio gigante, diria que neste momento\u00a0a \u00e9tica est\u00e1 a ser colocada na vanguarda da reflex\u00e3o, depois de termos come\u00e7ado a falar de forma mais premente nas quest\u00f5es de Intelig\u00eancia Artificial. Sou relativamente jovem, mas ainda assim acho que n\u00e3o tinha assistido \u00e0 necessidade e \u00e0 coloca\u00e7\u00e3o da reflex\u00e3o e das quest\u00f5es \u00e9ticas na base deste desenvolvimento tecnol\u00f3gico, o que \u00e9 uma coisa francamente positiva, no meu entendimento.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Isso ter\u00e1 a ver com os receios do s\u00edtio para onde esta tecnologia nos pode levar, ou \u00e9 uma rea\u00e7\u00e3o natural perante a novidade?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o, n\u00e3o parece ser uma rea\u00e7\u00e3o natural perante a novidade. Ali\u00e1s, j\u00e1 em 2018 tivemos o primeiro Livro Branco da Comiss\u00e3o Europeia sobre as quest\u00f5es da \u00e9tica e a Intelig\u00eancia Artificial. Tamb\u00e9m o Papa Francisco, agora, em junho, no G7, falou do tema, mas em janeiro, com a mensagem para o Dia Mundial da Paz, j\u00e1 tinha colocado de uma forma muito clara e objetiva os benef\u00edcios daquilo que pode ser o desenvolvimento tecnol\u00f3gico relativamente \u00e0 aplica\u00e7\u00e3o da Intelig\u00eancia Artificial e, como eu gosto de chamar, das ferramentas de IA. Mas tamb\u00e9m colocou em foco, sublinhou e apontou caminhos sobre os verdadeiros desafios \u00e9ticos e humanos da aplica\u00e7\u00e3o destas ferramentas \u00e0 vida humana, e n\u00e3o s\u00f3. Logo na celebra\u00e7\u00e3o do Dia Mundial da Paz falou das quest\u00f5es da Intelig\u00eancia Artificial, \u00e9tica e paz, e apontou para as medidas que teremos de contemplar para que estas ferramentas se possam transformar em ferramentas para a vida boa, para o bom uso e para a n\u00e3o viol\u00eancia.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Voltando ao discurso do Papa na cimeira do G7, Francisco deixou um apelo particular para que se trave o desenvolvimento das armas aut\u00f3nomas letais. \u00c9 importante que se pense no risco que a humanidade corre deixando m\u00e1quinas dispararem autonomamente?<\/em><\/p>\n<p>Acho que esta alerta \u00e9 muito pertinente. Eu fa\u00e7o revis\u00e3o \u00e9tica na Comiss\u00e3o Europeia de Projetos de Investiga\u00e7\u00e3o e,\u00a0quando come\u00e7aram a surgir os primeiros drones, um dos elementos de avalia\u00e7\u00e3o era o uso duplo,\u00a0o uso secund\u00e1rio das novas tecnologias com finalidades que possam ser menos ben\u00e9volas ou at\u00e9 mal\u00e9ficas, com um impacto negativo sobre a sociedade. Na altura falava-se, sobretudo, da utiliza\u00e7\u00e3o em termos de seguran\u00e7a, em termos de projetos de investiga\u00e7\u00e3o com finalidades boas. E come\u00e7ou-se a falar exatamente que estes instrumentos e ferramentas poderiam ser usados como instrumentos de guerra\u2026<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Como, ali\u00e1s, se viu agora na guerra na Ucr\u00e2nia\u2026<\/em><\/p>\n<p>Exatamente. Passados estes anos\u00a0percebemos claramente qual \u00e9 o uso que pode ser dado a ferramentas desenvolvidas por meios cient\u00edficos adequados, rigorosos, com finalidades que serviam os prop\u00f3sitos da sociedade, mas com usos poss\u00edveis secund\u00e1rios que t\u00eam de ser prevenidos e delimitados, ou efetivamente eliminados.<\/p>\n<p>Esse uso secund\u00e1rio com potencial militar, por exemplo, pode ser danoso, dependendo em que m\u00e3os \u00e9 que cai. No fundo, as quest\u00f5es \u00e9ticas s\u00e3o sobre o bem e o mal, como \u00e9 que, perante uma situa\u00e7\u00e3o, fazemos uma boa escolha. A\u00ed depende sempre do agente, da pessoa, do indiv\u00edduo. N\u00e3o \u00e9 pass\u00edvel de poder ser massificado, ainda que se possa criar uma orienta\u00e7\u00e3o que procure guiar a a\u00e7\u00e3o individual.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Ainda \u00e9 poss\u00edvel impor limites? H\u00e1 um certo fasc\u00ednio em todas as \u00e1reas com a intelig\u00eancia artificial, com o avan\u00e7o tecnol\u00f3gico que se conseguiu, nunca se esteve neste patamar do desenvolvimento, mas corremos o risco de entrar num caminho sem retorno, se n\u00e3o balizarmos bem as coisas?<\/em><\/p>\n<p>Tenho por norma ser otimista e acreditar na m\u00e1xima de que a esperan\u00e7a \u00e9 o caminho permanente que fazemos. Eu diria que\u00a0ainda est\u00e1 muito por fazer, mesmo que muito j\u00e1 esteja feito, e acho que nunca \u00e9 tarde para procurarmos colocar limites, mas sobretudo criarmos capacidade humana para resistir a uma press\u00e3o maior. Muitas vezes, nestas situa\u00e7\u00f5es, h\u00e1 um hiato que a me preocupa particularmente: o conhecimento das novas tecnologias, a inova\u00e7\u00e3o, o desenvolvimento, qual \u00e9 o grande prop\u00f3sito, o maior? \u00c9 procurar dar-nos a todos uma melhor qualidade de vida. O Papa alerta exatamente sobre isso.<\/p>\n<p>Ser\u00e1 que podemos falar em avan\u00e7os tecnol\u00f3gicos e inova\u00e7\u00e3o se o fruto, se o resultado dessa inova\u00e7\u00e3o tiver um impacto que possa prejudicar a nossa qualidade de vida, agravar as quest\u00f5es de justi\u00e7a, de desigualdade, de guerra?\u00a0Eu tenho d\u00favidas, verdadeiramente.<\/p>\n<p>Sobre o impor limites, creio que, por um lado, esse trabalho est\u00e1 a ser desenvolvido a n\u00edvel da Europa e a n\u00edvel internacional, numa perspetiva de seguran\u00e7a, porque a Intelig\u00eancia Artificial, nos seus diferentes modos, \u00e9 sobre um grande manancial, o\u00a0grande agente econ\u00f3mico neste momento, que se chama dados. N\u00e3o \u00e9 informa\u00e7\u00e3o, s\u00e3o os dados.<\/p>\n<p>J\u00e1 em 2017, num grupo em que estive, na Comiss\u00e3o de \u00c9tica, o \u2018policy paper\u2019 que fizemos foi sobre a informa\u00e7\u00e3o e a \u00e9tica e a informa\u00e7\u00e3o, particularmente na sa\u00fade. Este \u00e9 um ecossistema que est\u00e1 a ser criado, e os cidad\u00e3os &#8211; ou seja, os destinat\u00e1rios \u00faltimos daquilo que s\u00e3o as ferramentas que possam vir a ser criadas &#8211; est\u00e3o muitas vezes alheados, no sentido da sua partilha, do seu uso, de quem ter\u00e1 a cust\u00f3dia destes dados, da finalidade com que v\u00e3o ser usados.<\/p>\n<p>Estes\u00a0dados, no meu entendimento, s\u00e3o uma d\u00e1diva, numa perspetiva de qualidade e de podermos enriquecer um ecossistema com dados de qualidade que permitam construir ferramentas confi\u00e1veis, seguras.\u00a0Esses algoritmos s\u00e3o-nos alheios, mais uma vez, s\u00e3o controlados por uma minoria da popula\u00e7\u00e3o, os peritos nestas \u00e1reas. Falamos em rastreabilidade e em transpar\u00eancia\u2026 recentemente o conselheiro do Papa para a intelig\u00eancia artificial [padre Paolo Benanti] esteve em Lisboa e falou exatamente disso:\u00a0a transpar\u00eancia \u00e9 importante, mas quem de n\u00f3s \u00e9 capaz de compreender esse circuito, de tal modo que essa transpar\u00eancia possa significar uma maior confian\u00e7a nesse mesmo sistema? Se calhar queremos confiar nos resultados, tendo em conta a seguran\u00e7a, sabermos que os dados est\u00e3o nesta dita caixa negra e que podemos confiar.<\/p>\n<p>Impor limites\u00a0passa por continuarmos matrizes fundamentais e uma delas \u00e9 a educa\u00e7\u00e3o: a capacita\u00e7\u00e3o, a educa\u00e7\u00e3o e o envolvimento dos cidad\u00e3os.\u00a0H\u00e1 um hiato entre o conhecimento que \u00e9 produzido, a ci\u00eancia, a inova\u00e7\u00e3o tecnol\u00f3gica e as reais necessidades dos contextos em que vivemos. Por isso \u00e9 que cada vez mais, e agora a n\u00edvel internacional, tem havido um grande esfor\u00e7o para a aproxima\u00e7\u00e3o da tecnologia e da ci\u00eancia aos cidad\u00e3os, uma certa democratiza\u00e7\u00e3o. Ou seja, se estamos a criar uma resposta para determinadas sociedades, para a sociedade no seu todo ou para esta aldeia global em que nos transformamos,\u00a0\u00e9 necess\u00e1rio ouvir quem precisa, o que precisa e como precisa, percebermos qual a perspetiva dos cidad\u00e3os sobre o uso destas ferramentas,\u00a0e isso realmente n\u00e3o existe.<\/p>\n<p>Existem iniciativas de ci\u00eancia cidad\u00e3 ao n\u00edvel da investiga\u00e7\u00e3o\u2026 NA Comiss\u00e3o de \u00c9tica da Universidade Cat\u00f3lica temos procurado que em termos de projetos de investiga\u00e7\u00e3o exista uma partilha de benef\u00edcios com os sujeitos envolvidos na cria\u00e7\u00e3o de conhecimento: escutar e compreender as necessidades e procurar criar ferramentas que se destinam a essas necessidades.<\/p>\n<p>Criar limites passa muito pela regula\u00e7\u00e3o, e a regula\u00e7\u00e3o tem um lugar diferente da \u00e9tica; nesta fase, diria que\u00a0\u00e9 elementar podermos criar espa\u00e7o e tempo para a reflex\u00e3o que \u00e9 necess\u00e1rio ser feita.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O Instituto de Bio\u00e9tica da Universidade Cat\u00f3lica foi pioneiro em Portugal. Como \u00e9 que o organismo acompanha este momento? V\u00ea a possibilidade de criar, como disse o padre Paolo Benanti &#8211; que esteve em Lisboa a convite da Cat\u00f3lica &#8211; barreiras de prote\u00e7\u00e3o \u00e9ticas no campo da Intelig\u00eancia Artificial?<\/em><\/p>\n<p>Exer\u00e7o fun\u00e7\u00f5es no Instituto de Bio\u00e9tica\u00a0desde novembro de 2022 e, logo em mar\u00e7o de 2023, organiz\u00e1mos uma primeira confer\u00eancia sobre \u00e9tica e Intelig\u00eancia Artificial. Na altura convid\u00e1mos um professor do Instituto Superior T\u00e9cnico (Joaquim Jorge), que \u00e9 neste momento o coordenador da C\u00e1tedra de Intelig\u00eancia Artificial da Unesco em Portugal, e que tem tamb\u00e9m liderado estes processos, do ponto de vista mais t\u00e9cnico-cient\u00edfico. Foi uma das primeiras confer\u00eancias inseridas num ciclo que foi criado pelo Instituto de Bio\u00e9tica, sob o lema \u201cBio\u00e9tica para todos\u201d, numa perspetiva n\u00e3o apenas de acad\u00e9micos, mas sim da abertura das portas da Faculdade de Medicina e do Instituto de Bio\u00e9tica \u00e0 sociedade. Depois da confer\u00eancia sobre IA houve outra sobre \u201cDecis\u00f5es \u00e9ticas em fim de vida\u201d, e ainda acontecer\u00e1 outra, este ano, sobre \u201c\u00c9tica, educa\u00e7\u00e3o e valores\u201d.<\/p>\n<p>Tivemos as duas primeiras na Faculdade e a pr\u00f3xima ser\u00e1 na C\u00e2mara Municipal de Oeiras, num espa\u00e7o comunit\u00e1rio. O objetivo \u00e9 envolver a ci\u00eancia, a sociedade e a pol\u00edtica no mesmo meio e\u00a0procurar criar pontes entre a sociedade, a reflex\u00e3o \u00e9tica e filos\u00f3fica, a ci\u00eancia que procura responder a estas necessidades, e a pol\u00edtica. Porque n\u00e3o podemos ignorar que h\u00e1 um caminho de implementa\u00e7\u00e3o que compete \u00e0 pol\u00edtica.<\/p>\n<p>Na Europa, neste momento, somos vice-presidentes de um grupo Europeu que est\u00e1 a desenhar as pol\u00edticas do ponto de vista \u00e9tico e legal para a gest\u00e3o respons\u00e1vel de dados resultantes da aplica\u00e7\u00e3o das ferramentas de Intelig\u00eancia Artificial. Este grupo, que tem v\u00e1rios subgrupos, est\u00e1 a agregar esfor\u00e7os e a produzir ferramentas, orienta\u00e7\u00f5es, e tamb\u00e9m a promover espa\u00e7os de debate a n\u00edvel europeu sobre os desafios do bom uso das ferramentas de IA e as regras criadas, por um lado, no \u00e2mbito da Lei da Intelig\u00eancia Artificial, que foi agora publicada a n\u00edvel europeu, e tamb\u00e9m dos C\u00f3digos de Integridade que j\u00e1 est\u00e3o estipulados, ver como como \u00e9 que esses princ\u00edpios t\u00eam uma aplica\u00e7\u00e3o pr\u00e1tica. Porque o que efetivamente \u00e9 a chave, muitas vezes n\u00e3o \u00e9 tanto a legisla\u00e7\u00e3o aplic\u00e1vel &#8211; que regula e \u00e9 necess\u00e1ria, porque todos teremos de respeit\u00e1-la -, mas o que \u00e9 que significam aqueles princ\u00edpios na vida quotidiana, no exerc\u00edcio da nossa cidadania.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>O Papa tem sido pioneiro em muitos gestos e em muitas iniciativas relacionadas com a Intelig\u00eancia Artificial. Em fevereiro de 2020 a Academia Pontif\u00edcia para a Vida assinou com a Microsoft, a IBM, a FAO e o governo italiano o chamado &#8216;Rome Call&#8217; &#8211; o &#8216;Apelo de Roma&#8217; para o uso \u00e9tico da tecnologia, para promover a responsabilidade partilhada entre as institui\u00e7\u00f5es e organiza\u00e7\u00f5es internacionais e os governos. Agora em julho, dias 9 e 10, representantes de v\u00e1rias religi\u00f5es mundiais v\u00e3o assinar, em Hiroxima, um apelo conjunto para o uso \u00e9tico da IA a favor da paz. Que import\u00e2ncia t\u00eam estes gestos?<\/em><\/p>\n<p>S\u00e3o gestos que procuram, atrav\u00e9s desse simbolismo, criar caminhos. Ainda agora, no G7, foi dito que a Intelig\u00eancia Artificial ser\u00e1, provavelmente, o maior desafio antropol\u00f3gico de todos os tempos. E esse desafio requer, efetivamente, uma resposta greg\u00e1ria, de conjunto, em que os princ\u00edpios que orientam a a\u00e7\u00e3o individual possam contribuir para o caminho que \u00e9 necess\u00e1rio ser feito neste global, nesta Casa Comum.<\/p>\n<p>Este simbolismo deste novo acordo ir ser firmado em Hiroxima, n\u00e3o \u00e9 por acaso. Ainda recentemente tivemos um filme, Oppenheimer, que veio lembrar-nos de Hiroxima, que vem colocar-nos a pergunta a fazer em quase todas as situa\u00e7\u00f5es que decorrem das escolhas sobre estas novas tecnologias como formas de progresso. \u00c9 a pergunta \u00e9tica: &#8216;eu posso?&#8217;. Tenho o conhecimento, os meios e os recursos. A pergunta \u00e9 &#8216;eu devo?&#8217;. \u00c9 neste dever que encontramos o poder, e em que se fazem as perguntas: &#8216;o qu\u00ea?&#8217;, n\u00f3s j\u00e1 sabemos, mas o &#8216;para qu\u00ea?&#8217;, &#8216;para quem?&#8217;, &#8216;quando?&#8217;, e o &#8216;como?&#8217;. Essas s\u00e3o as perguntas que devem guiar estas escolhas, e estes momentos simb\u00f3licos v\u00eam exatamente trazer \u00e0 cola\u00e7\u00e3o momentos cr\u00edticos da nossa hist\u00f3ria, com um impacto que se faz sentir at\u00e9 \u00e0 atualidade.<\/p>\n<p>Estes acordos, estas assinaturas s\u00e3o o comprometimento com valores comuns. Um dos elementos de verdadeira solidariedade social \u00e9 o encontro. E aqui a pergunta \u00e9 &#8216;como \u00e9 que n\u00f3s, enquanto sociedade, enquanto indiv\u00edduos, nos encontramos?&#8217;. E esta intelig\u00eancia artificial, e n\u00e3o s\u00f3, as redes sociais&#8230;\u00a0a forma como nos relacionamos, comunicamos, ensinamos, aprendemos, somos cuidados e cuidamos, t\u00eam vindo a sofrer um impacto e uma altera\u00e7\u00e3o consider\u00e1vel, decorrente do uso destas ferramentas. O desafio \u00e9 como permanecer humano atrav\u00e9s do uso desta tecnologia? Como \u00e9 que n\u00f3s, enquanto pessoas, somos capazes de melhorar a nossa qualidade de vida utilizando estas ferramentas, maximizando o bem e, por iner\u00eancia, tentando ter a m\u00e1xima prud\u00eancia e evitar todo o mal que seja poss\u00edvel ser evitado. Este \u00e9 o verdadeiro desafio.<\/p>\n<p>As quest\u00f5es da Intelig\u00eancia Artificial s\u00e3o uma oportunidade para compreendermos quem \u00e9 que somos, quem \u00e9 que queremos continuar a ser e que escolhas \u00e9 que queremos continuar a ter para, permanecendo humano, a tecnologia possa ser um meio de realiza\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>J\u00e1 falou na import\u00e2ncia da educa\u00e7\u00e3o, mais no meio acad\u00e9mico. Mas a educa\u00e7\u00e3o para esta \u00e1rea, combater a iliteracia, tem de come\u00e7ar cada vez mais cedo, n\u00e3o \u00e9? Tamb\u00e9m \u00e9 um desafio para pr\u00f3pria Pol\u00edtica?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 um desafio para a pol\u00edtica macro, e n\u00e3o apenas numa perspetiva de literacia. \u00c9 fundamental trabalharmos as quest\u00f5es de literacia nas m\u00faltiplas \u00e1reas. Trabalhar a literacia \u00e9 respeitar as pessoas, procurar que elas sejam capazes de compreender o que dizemos, proteger e respeitar a sua vulnerabilidade. Eu, perante o outro que \u00e9 fr\u00e1gil e vulner\u00e1vel, devo colocar em pr\u00e1tica todas as medidas que permitam que n\u00e3o se agrave essa vulnerabilidade, se poss\u00edvel protegendo-o. Mas n\u00e3o chega isso, \u00e9 preciso continuar a olhar para aquela pessoa como uma pessoa, e n\u00e3o obstante a situa\u00e7\u00e3o de particular vulnerabilidade, ser capaz de prov\u00ea-la do m\u00e1ximo de recursos para que ela possa ser capaz de desenvolver o seu m\u00e1ximo potencial humano, ainda que numa situa\u00e7\u00e3o vulner\u00e1vel.<\/p>\n<p>\u00c9 necess\u00e1rio trabalhar a literacia, mas diria que estamos a um n\u00edvel mais de base da pir\u00e2mide,\u00a0em que estamos a falar de unidades estruturais da nossa sociedade, como a fam\u00edlia e a educa\u00e7\u00e3o. Foco aqui na educa\u00e7\u00e3o das crian\u00e7as, no sistema de educa\u00e7\u00e3o que temos, n\u00e3o apenas nas universidades &#8211; que \u00e9 fundamental e onde a Intelig\u00eancia Artificial coloca desafios gigantes -, mas tamb\u00e9m no desafio de valores, nas gera\u00e7\u00f5es que neste momento est\u00e3o a nascer e para as quais o natural \u00e9 a IA. \u00c9 o primeiro contacto, e que rela\u00e7\u00e3o \u00e9 que est\u00e3o a criar com algo que n\u00f3s, gera\u00e7\u00f5es adultas, ainda desconhecemos?<\/p>\n<p>O contacto e a rela\u00e7\u00e3o que elas estabelecem \u00e9 de espontaneidade para com estas ferramentas. Que pontes intergeracionais somos capazes de formar para esta sabedoria, conhecimento e capacidade para gerir o melhor uso destas ferramentas? Em \u00faltima inst\u00e2ncia &#8211; e este \u00e9 outro dos aspetos que a IA vem acentuar -, o que \u00e9 que \u00e9 isto do conhecimento, da verdade, sendo que \u00e0 dist\u00e2ncia de um clique eu fa\u00e7o uma pergunta e tenho automaticamente uma resposta?<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>H\u00e1 que desenvolver o sentido cr\u00edtico, para que se perceba que nem tudo o que ali est\u00e1 \u00e9 correto&#8230;<\/em><\/p>\n<p>O sentido cr\u00edtico e criatividade. O ser humano \u00e9, por natureza, criativo, \u00e9 inovador&#8230;.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>\u00c9 uma das coisas que nos diferencia das m\u00e1quinas&#8230;.<\/em><\/p>\n<p>A m\u00e1quina tem dados que s\u00e3o limitados, e a partir de uma s\u00e9rie de conjuga\u00e7\u00f5es, e dizem os especialistas &#8211; n\u00e3o me atrevo a pronunciar, porque \u00e9 uma mat\u00e9ria sobre a qual n\u00e3o tenho compet\u00eancia nem capacidade para analisar &#8211; que h\u00e1 um certo n\u00famero de combina\u00e7\u00f5es que pode ser esgotada, extinguir-se e criar alguma criatividade\u2026 Portanto, o lugar da inova\u00e7\u00e3o criativa tipicamente humana qual \u00e9? Qual \u00e9 o pensamento cr\u00edtico? Na realidade, vimos \u00e0 educa\u00e7\u00e3o &#8211; como \u00e9 que n\u00f3s aprendemos?\u00a0Aprendemos a ler e a escrever, que s\u00e3o atividades que no sistema educativo t\u00eam vindo a ser transformadas sem qualquer ju\u00edzo sobre essa transforma\u00e7\u00e3o.\u00a0Na verdade, os processos de ensino\/aprendizagem\/conhecimento est\u00e3o substancialmente alterados. Como \u00e9 que mantemos este pensamento cr\u00edtico sobre o que \u00e9 que eu posso, o que \u00e9 que eu devo?&#8230;<\/p>\n<p>N\u00e3o tenho um discurso de medo perante a Intelig\u00eancia Artificial, mas sobretudo de grande responsabilidade. Mas n\u00e3o posso deixar de enquadrar isto num fen\u00f3meno hist\u00f3rico que n\u00e3o \u00e9 novo, \u00e9 apenas fruto da evolu\u00e7\u00e3o e das capacidades humanas, desenvolveu-se e \u00e9 uma ferramenta poderosa. Como \u00e9 que n\u00f3s usamos este poder? A Hannah Arendt falava disto, num discurso muito simples que todos conhecemos, sobre a manipula\u00e7\u00e3o de massas. Que riscos \u00e9 que temos aqui, na \u00e1rea da comunica\u00e7\u00e3o e do jornalismo? A Susan Sontag tamb\u00e9m explica muito bem os fen\u00f3menos da guerra, das cat\u00e1strofes, que s\u00e3o previamente escolhidos quais s\u00e3o os que devem ou n\u00e3o ser disseminados. Ou seja, preocupamo-nos com as escolhas que a m\u00e1quina vai fazer? Estamos preparados para decis\u00f5es que nos s\u00e3o alheias e que possam ser tomadas por uma m\u00e1quina?<\/p>\n<p>Creio que neste momento n\u00e3o estamos nesse ponto, exatamente porque quem programa, quem define algoritmos, quem determina quais s\u00e3o os valores que s\u00e3o imputados a um determinado sistema \u00e9 humano, continua a ser o humano.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>J\u00e1 referiu a \u00e1rea da sa\u00fade. \u00c9 enfermeira, doutorada em Bio\u00e9tica (com uma tese sobre vulnerabilidade, autonomia e a decis\u00e3o bio\u00e9tica em oncologia). Sabemos que h\u00e1 avan\u00e7os da Intelig\u00eancia Artificial que v\u00e3o ajudar a salvar vidas. Consegue imaginar uma rela\u00e7\u00e3o terap\u00eautica sem interven\u00e7\u00e3o humana?<\/em><\/p>\n<p>A Intelig\u00eancia Artificial pode vir a ser uma ferramenta extremamente importante face \u00e0 escassez de alguns dos recursos, de profissionais, por exemplo, em determinadas \u00e1reas geogr\u00e1ficas. Ou tamb\u00e9m na medicina de precis\u00e3o, ainda que care\u00e7a, mais uma vez, daquilo que \u00e9 a apropria\u00e7\u00e3o pelo humano.<\/p>\n<p>A rela\u00e7\u00e3o terap\u00eautica implica aquilo que \u00e9 uma rela\u00e7\u00e3o de ajuda, uma compreens\u00e3o, uma reciprocidade, implica apoio&#8230; Portanto, a rela\u00e7\u00e3o pode ser estabelecida com um rob\u00f4 &#8211; j\u00e1 existem neste momento enfermeiros rob\u00f4s -, ou rob\u00f4s de companhia para idosos que est\u00e3o muito isolados e sozinhos. A compreens\u00e3o depender\u00e1 da quantidade de dados, e a compreens\u00e3o&#8230; tenho d\u00favidas. Mas implica, sobretudo, uma colabora\u00e7\u00e3o e confian\u00e7a entre as partes, e esta confian\u00e7a tem como premissa aferir objetivos comuns entre uma m\u00e1quina e um humano, um v\u00ednculo emocional, que poder\u00e1 haver da parte do humano, mas a aus\u00eancia de reciprocidade condiciona esse v\u00ednculo por parte do humano, e implica o respeito e a aceita\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>Temos aqui alguns princ\u00edpios, valores e virtudes que s\u00e3o estritamente humanos, portanto, podem ser um apoio e significar uma melhoria da qualidade de vida. Sobre uma rela\u00e7\u00e3o dita terap\u00eautica, h\u00e1 uma rela\u00e7\u00e3o, mas a parte da terap\u00eautica, poder\u00e1, em coisas espec\u00edficas, prover medicamentos, se for programado para tal. Do ponto de vista de confian\u00e7a, v\u00ednculo emocional, respeito e reciprocidade, creio que n\u00e3o estamos ainda em condi\u00e7\u00f5es de poder avan\u00e7ar para esse n\u00edvel de rela\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A IA representa um passo gigante no avan\u00e7o tecnol\u00f3gico, mas os desafios que acarreta s\u00e3o tamb\u00e9m maiores do que nunca. O tema est\u00e1 no centro do debate e o Papa abordou-o no recente discurso aos l\u00edderes do G7. Para abordar estas quest\u00f5es, \u00e9 convidada da Ecclesia e Renascen\u00e7a a diretora do Instituto Bio\u00e9tica e professora [&hellip;]<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":332051,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[515,916,321],"class_list":["post-332048","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr","tag-bioetica","tag-inteligencia-artificial","tag-ucp"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/332048","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=332048"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/332048\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/332051"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=332048"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=332048"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=332048"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}