{"id":33187,"date":"2008-07-18T16:24:49","date_gmt":"2008-07-18T16:24:49","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/07\/18\/a-forca-da-igreja-timorense-reside-nos-leigos\/"},"modified":"2008-07-18T16:24:49","modified_gmt":"2008-07-18T16:24:49","slug":"a-forca-da-igreja-timorense-reside-nos-leigos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/a-forca-da-igreja-timorense-reside-nos-leigos\/","title":{"rendered":"A for\u00e7a da Igreja Timorense reside nos Leigos"},"content":{"rendered":"<p>Recentemente esteve em \u00c9vora o Bispo de Baucau, D. Bas\u00edlio do Nascimento, que veio \u201cmatar saudades\u201d da cidade, da Diocese e dos amigos que o acompanharam na sua forma\u00e7\u00e3o sacerdotal. Recorde-se que D. Bas\u00edlio do Nascimento estudou e foi ordenado padre diocesano, em \u00c9vora, em 1977, onde permaneceu at\u00e9 1994, ano em que foi transferido para Timor. Nesta sua breve estadia em \u00c9vora, entrevist\u00e1mo-lo para conhecermos de viva voz a actualidade timorense, que apesar da independ\u00eancia alcan\u00e7ada, ainda \u00e9 uma na\u00e7\u00e3o muito jovem e com grandes desafios pela frente.  \u201ca defesa\u201d &#8211; Como \u00e9 que est\u00e1 Timor depois da tentativa de \u201cgolpe de Estado\u201d, de Fevereiro passado? D. Bas\u00edlio do Nascimento \u2013 Por mais estranho que pare\u00e7a, penso que o \u201cgolpe de Estado\u201d criou uma certa consciencializa\u00e7\u00e3o para que as pessoas n\u00e3o se deixem levar por falsas promessas. Penso que o facto do atentado ser contra as duas mais importantes figuras do Estado, o Presidente e o Primeiro-Ministro, criou tamb\u00e9m uma consci\u00eancia no povo, em geral, de que h\u00e1 qualquer coisa de amea\u00e7ador.  Depois do atentado, fiquei com a impress\u00e3o que ultrapass\u00e1mos os tr\u00eas problemas que nos afligiam desde 2006: o Major Reinado, os Peticion\u00e1rios e os Refugiados. O primeiro resolveu-se como se sabe. O segundo houve capacidade de negocia\u00e7\u00e3o para que a tens\u00e3o diminu\u00edsse, com algumas reintegra\u00e7\u00f5es nas for\u00e7as armadas. E o terceiro problema tamb\u00e9m come\u00e7ou a ser resolvido, sendo que dos 12 campos de refugiados que existiam em D\u00edli, actualmente devem existir apenas metade.   \u201ca defesa\u201d \u2013 Aquele acto violento foi fruto de um descontentamento geral ou foi apenas um acto meramente pol\u00edtico? D. B. N. &#8211; Eu n\u00e3o tenho respostas. N\u00e3o se sabe quem esteve por detr\u00e1s, quais foram os objectivos, quais os interesses. H\u00e1 muita especula\u00e7\u00e3o, boatos, e poucas explica\u00e7\u00f5es l\u00f3gicas. O certo \u00e9 que aconteceu, mas de resto ignoram-se muitas respostas.  \u201ca defesa\u201d \u2013 Os timorenses est\u00e3o a viver melhor ou pior do que h\u00e1 5 anos? D. B. N. \u2013 Creio que pior. Contudo, do ponto de vista da seguran\u00e7a e da estabilidade, julgo que est\u00e3o melhores. Do ponto de vista econ\u00f3mico, sendo que esta crise mundial tamb\u00e9m nos atinge, estamos pior. A crise alimentar que assola o mundo tamb\u00e9m se faz sentir em Timor. Por exemplo, um saco de arroz de 50kg que h\u00e1 3 meses custava 13 d\u00f3lares, hoje custa 40 d\u00f3lares.  \u201ca defesa\u201d \u2013 J\u00e1 se v\u00eaem efeitos do petr\u00f3leo? D. B. N. \u2013 Ainda n\u00e3o. Por mais paradoxal que pare\u00e7a, quando falamos com os membros do Governo, eles dizem sempre que dinheiro n\u00e3o \u00e9 problema. Somente para se ter uma ideia, dizem os Governantes, que actualmente os benef\u00edcios do petr\u00f3leo rondam os 240 milh\u00f5es de d\u00f3lares por m\u00eas. Simplesmente olhando para a realidade de Timor, necessariamente, nos interrogamos: onde est\u00e1 aplicado esse dinheiro?  \u201ca defesa\u201d \u2013 A Igreja continua sendo aceite pelos timorenses? D. B. N. \u2013 Sim. Num dado momento, pensei que os \u00e2nimos esmorecessem um bocado, e \u00e9 verdade que depois da independ\u00eancia houve uma diminui\u00e7\u00e3o de pr\u00e1tica, mas hoje em dia v\u00ea-se de novo aquele esplendor em termos de pr\u00e1tica e de afectividade. H\u00e1 v\u00e1rios fen\u00f3menos que \u00e9 necess\u00e1rio interpretar, mas conven\u00e7o-me que h\u00e1 elementos de identidade timorense dos quais n\u00e3o podemos fugir \u00e0 realidade: o catolicismo entra hoje como um elemento de identidade timorense.  \u201ca defesa\u201d \u2013 As duas dioceses existentes fazem cobertura de toda a ilha? D. B. N. \u2013 Fazem, com sacerdotes e catequistas (remunerados e volunt\u00e1rios). Al\u00e9m disso n\u00e3o se podem esquecer os animadores de comunidades. N\u00e3o tenho d\u00favidas de que a for\u00e7a da Igreja Timorense residiu e reside nos Leigos. Hoje em dia, apesar da limita\u00e7\u00e3o de forma\u00e7\u00e3o, cada vez mais se v\u00ea que os leigos, aqueles que t\u00eam papel a exercer dentro da Igreja, fazem-no com maior convic\u00e7\u00e3o e, direi mesmo, militantismo. D\u00e3o a entender que de facto a Igreja tamb\u00e9m \u00e9 deles.  Na minha diocese tenho: 42 sacerdotes entre diocesanos e religiosos; 242 catequistas remunerados; 1700 catequistas n\u00e3o remunerados. Digamos que estes s\u00e3o as bases que est\u00e3o em quase todos os lugares, animando as comunidades, mesmo nos lugares mais rec\u00f4nditos.  Em suma, os leigos, sempre o fizeram, e actualmente, est\u00e3o a fazer um bel\u00edssimo trabalho.   \u201ca defesa\u201d \u2013 Em que estado se encontra a quest\u00e3o da terceira Diocese? D. B. N. \u2013 Penso que o Vaticano est\u00e1 a aguardar a defini\u00e7\u00e3o por parte do governo, em rela\u00e7\u00e3o, \u00e0 divis\u00e3o administrativa do territ\u00f3rio. Uma futura abranger\u00e1 certamente a zona de Mariana.  \u201ca defesa\u201d \u2013 As actuais dioceses trabalham em comum? D. B. N. \u2013 Sim. Neste momento estamos a preparar projectos em conjunto. Apesar de ainda n\u00e3o termos uma confer\u00eancia episcopal, h\u00e1 j\u00e1 estruturas que est\u00e3o a ser criadas em ordem a esse objectivo. Procuramos uma unidade de ac\u00e7\u00e3o e de pr\u00e1tica, tendo cada diocese a sua autonomia. Quando a terceira diocese for criada, e quando tivermos que constituir a nossa confer\u00eancia h\u00e1 j\u00e1 alguma coisa criada, n\u00e3o se partindo do zero.  \u201ca defesa\u201d \u2013 Como \u00e9 que a diocese continua a dirigir as estruturas implementadas, como a tipografia, o turismo, a forma\u00e7\u00e3o?. D. B. N. \u2013 Como sabe estas estruturas surgiram, tentando dar resposta a uma frase de um nosso antigo reitor do Semin\u00e1rio, um sacerdote jesu\u00edta que dizia, na altura, \u201cmetam na vossa consci\u00eancia que nunca poder\u00e3o pregar o Evangelho a est\u00f4magos vazios\u201d. Foi com esta ideia que cresci, e sempre pensei, que se tivesse uma responsabilidade na Igreja, deveria fazer algo ao n\u00edvel material. Tentou-se criar uma s\u00e9rie de estruturas que visam a forma\u00e7\u00e3o das pessoas e dar o p\u00e3o di\u00e1rio a algumas fam\u00edlias. Tudo come\u00e7ou \u00e0s apalpadelas, pois a ideia era bonita, mas n\u00e3o sab\u00edamos bem aonde \u00edamos. Mas fomos tendo apoio do Governo Portugu\u00eas, de entidades, de amigos e, hoje, os objectivos j\u00e1 est\u00e3o mais definidos.  Felizmente podemos dizer que o p\u00e3o n\u00e3o falta, o que \u00e9 motivo de contentamento, mas como deve imaginar dirigir tudo isso d\u00e1 muitas dores de cabe\u00e7a. O certo \u00e9 que as coisas se v\u00e3o bastando a si pr\u00f3prias. N\u00e3o h\u00e1 d\u00edvidas, mas tamb\u00e9m n\u00e3o h\u00e1 ainda lucros. Pensamos que \u00e9 um investimento que dar\u00e1 os seus frutos.  \u201ca defesa\u201d \u2013 A par do desenvolvimento econ\u00f3mico e social, h\u00e1 tamb\u00e9m o desenvolvimento espiritual. H\u00e1 muitas voca\u00e7\u00f5es? D. B. N. \u2013 Felizmente h\u00e1 voca\u00e7\u00f5es e n\u00e3o s\u00f3 em Baucau. Penso que \u00e9 uma das grandes riquezas da Igreja Timorense, o crescimento das voca\u00e7\u00f5es para a vida consagrada. Hoje em dia, Timor-Leste \u00e9 um pa\u00eds onde as voca\u00e7\u00f5es florescem. Para dar um n\u00famero, o Semin\u00e1rio Menor est\u00e1 lotado, com 120 seminaristas, sendo que no ano passado tivemos que recusar cerca de 230 candidatos. O Semin\u00e1rio Maior, em D\u00edli, tem 83 seminaristas. Ainda h\u00e1 um Semin\u00e1rio interm\u00e9dio, que neste momento, tem 43 seminaristas. Trata-se de um Semin\u00e1rio Proped\u00eautico, onde se ensinam l\u00ednguas, algumas introdu\u00e7\u00f5es e espiritualidade. Para este Semin\u00e1rio v\u00e3o tamb\u00e9m aqueles que n\u00e3o fizeram o Semin\u00e1rio menor. Neste momento, os tr\u00eas Semin\u00e1rios tem mais de 230 seminaristas  \u201ca defesa\u201d \u2013 Qualquer dia come\u00e7am a exportar Padres para a Europa? D. B. N. \u2013 J\u00e1 h\u00e1 pessoas que falam nisso. Desde que as estruturas estejam bem definidas, e de acordo com o curriculum do Instituto Superior de Teologia de \u00c9vora, gostaria de enviar alguns alunos para c\u00e1. Depois da ordena\u00e7\u00e3o poder\u00e1 ser feito uma esp\u00e9cie de acordo para que fiquem por aqui alguns anos, para ganhar mais experi\u00eancia, o que ser\u00e1 rico tamb\u00e9m para a Igreja Timorense.  \u201ca defesa\u201d \u2013 Na \u00faltima vez que fal\u00e1mos com o Bispo de Baucau, estava muito preocupado com a quest\u00e3o das Escolas. A situa\u00e7\u00e3o melhorou? D. B. N. \u2013 A situa\u00e7\u00e3o continua. Este ano o Governo j\u00e1 decidiu dar um subs\u00eddio, que nos ajudar\u00e1 a resolver muitos problemas. No entanto, o dinheiro ainda n\u00e3o est\u00e1 nas nossas m\u00e3os, embora o acordo esteja j\u00e1 assinado. Como digo, espero que com essa ajuda as coisas comecem a ter alguma solu\u00e7\u00e3o.  A educa\u00e7\u00e3o \u00e9 primordial para a sociedade timorense, o Governo n\u00e3o tem capacidade para dar resposta a tudo, e a Igreja j\u00e1 tem uma rede bem montada e articulada em todo o pa\u00eds. Mas faltam-nos meios econ\u00f3micos para que esta nossa ajuda ao Governo seja melhor.  \u201ca defesa\u201d \u2013 Para quem visitou Timor h\u00e1 5 anos, que modifica\u00e7\u00f5es encontra hoje? D. B. N. \u2013 D\u00edli est\u00e1 diferente para melhor. Muitas casas j\u00e1 foram recuperadas. As ruas est\u00e3o mais limpas. A urbaniza\u00e7\u00e3o em D\u00edli ainda continua a ser um caos, mas esperamos que os t\u00e9cnicos possam contribuir para o embelezamento da cidade. Por outro lado, o parque autom\u00f3vel, que sabemos que a maioria \u00e9 dos funcion\u00e1rios da ONU, contradiz o r\u00f3tulo de pobre que temos.  A n\u00edvel de seguran\u00e7a n\u00e3o se registam problemas. Na sa\u00fade h\u00e1 melhorias.  Infelizmente, em termos de estradas n\u00e3o tiveram grandes melhorias, mantendo-se ainda as que foram deixadas pelos indon\u00e9sios, como acontece com as pontes, que s\u00f3 agora est\u00e3o a ser finalizadas. Em termos de agricultura, o actual ministro da tutela est\u00e1 a dar um grande dinamismo ao sector, porque compreendeu que a agricultura nesta fase deve ser a for\u00e7a motriz de Timor. H\u00e1 grandes investimentos neste sector. Por exemplo, dizem as fontes oficiais que Timor necessita 90 mil toneladas de arroz, sendo que s\u00f3 produzimos 30 mil. Por um lado, esta situa\u00e7\u00e3o obriga-nos a apertar o cinto. Por outro lado, deve ser uma motiva\u00e7\u00e3o para tirar melhor partido das terras que temos. Contudo, real\u00e7o sobretudo o clima de seguran\u00e7a e de paz que se respira em Timor.  \u201ca defesa\u201d \u2013 No sector das Pescas. H\u00e1 melhorias? D. B. N. \u2013 Infelizmente n\u00e3o h\u00e1. Existe a pesca artesanal. Neste momento h\u00e1 contratos com a Tail\u00e2ndia que v\u00eam pescar nas nossas \u00e1guas.  \u201ca defesa\u201d \u2013 J\u00e1 se produz leite e queijo? D. B. N. \u2013 Infelizmente tamb\u00e9m n\u00e3o. Quer dizer, existem vacas leiteiras, mas n\u00e3o h\u00e1 iniciativa. Lembro-me que no meu tempo de crian\u00e7a, um padre dos A\u00e7ores, com duas vacas produzia queijo e manteiga. Creio que se hoje existisse algu\u00e9m que ensinasse a fazer, os timorenses aprendiam.  \u201ca defesa\u201d \u2013 Como est\u00e1 o ensino do portugu\u00eas em Timor? D. B. N. \u2013 Penso que comparando com a situa\u00e7\u00e3o de h\u00e1 5 anos, as coisas est\u00e3o a tomar outro rumo. Este governo tem ideias mais claras sobre a import\u00e2ncia do portugu\u00eas como l\u00edngua oficial. Uma coisa \u00e9 considerar o portugu\u00eas l\u00edngua oficial, e outra coisa \u00e9 criar condi\u00e7\u00f5es para que a l\u00edngua se torne de facto um instrumento utilizado por todos. Felizmente j\u00e1 h\u00e1 medidas, por exemplo, no ensino prim\u00e1rio, a partir do pr\u00f3ximo ano lectivo o indon\u00e9sio deixe de ser a l\u00edngua de transmiss\u00e3o, como tamb\u00e9m o t\u00e9tum, para que seja apenas o portugu\u00eas. A n\u00edvel secund\u00e1rio, est\u00e3o a sair agora os primeiros bachar\u00e9is que ir\u00e3o ensinar o portugu\u00eas nesse n\u00edvel de ensino. As informa\u00e7\u00f5es que tenho apontam para que o ensino secund\u00e1rio comece a ter o portugu\u00eas como l\u00edngua de transmiss\u00e3o, nos pr\u00f3ximos 3 anos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Recentemente esteve em \u00c9vora o Bispo de Baucau, D. Bas\u00edlio do Nascimento, que veio \u201cmatar saudades\u201d da cidade, da Diocese e dos amigos que o acompanharam na sua forma\u00e7\u00e3o sacerdotal. Recorde-se que D. 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