{"id":331065,"date":"2024-06-23T09:31:00","date_gmt":"2024-06-23T08:31:00","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=331065"},"modified":"2024-06-23T10:37:51","modified_gmt":"2024-06-23T09:37:51","slug":"cabo-delgado-a-nossa-missao-e-com-todos-fatima-castro","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/cabo-delgado-a-nossa-missao-e-com-todos-fatima-castro\/","title":{"rendered":"Cabo Delgado: \u00abA nossa miss\u00e3o \u00e9 com todos\u00bb &#8211; F\u00e1tima Castro"},"content":{"rendered":"<p><em>Cabo Delgado regressou esta semana ao ordenamento das not\u00edcias por for\u00e7a da desloca\u00e7\u00e3o \u00e0 regi\u00e3o de Jorge Moreira da Silva, subsecret\u00e1rio-geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas.\u00a0 A trabalhar como volunt\u00e1ria em Pemba, desde 2021, F\u00e1tima Castro, leiga mission\u00e1ria oriunda da Arquidiocese de Braga tem a responsabilidade de acompanhar as comunidades Par\u00f3quia de Santa Cec\u00edlia de Ocua<\/em><!--more--><\/p>\n<figure id=\"attachment_331484\" aria-describedby=\"caption-attachment-331484\" style=\"width: 1920px\" class=\"wp-caption alignnone\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/20240526_135820.jpg\"><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-331484 size-full\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/20240526_135820.jpg\" alt=\"\" width=\"1920\" height=\"865\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/20240526_135820.jpg 1920w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/20240526_135820-400x180.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/20240526_135820-1024x461.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/20240526_135820-768x346.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/20240526_135820-1536x692.jpg 1536w\" sizes=\"(max-width: 1920px) 100vw, 1920px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-331484\" class=\"wp-caption-text\">Foto: F\u00e1tima Castro\/Par\u00f3quia de Ocua<\/figcaption><\/figure>\n<p style=\"text-align: right;\"><em>Entrevista conduzida por Henrique Cunha (Renascen\u00e7a) e Oct\u00e1vio Carmo (Ecclesia) <\/em><\/p>\n<p><em>Que import\u00e2ncia tem a presen\u00e7a no terreno de um alto representante das Na\u00e7\u00f5es Unidas?<\/em><\/p>\n<p>Tem toda a import\u00e2ncia, na medida em que voltam a colocar Cabo Delgado nas not\u00edcias internacionais e nacionais, porque muitas vezes n\u00e3o se fala de Cabo Delgado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Mesmo internamente?<\/em><\/p>\n<p>Mesmo internamente, sim.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>E porqu\u00ea?<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s, \u00e0s vezes, brincamos com a situa\u00e7\u00e3o, dizendo que Cabo Delgado \u00e9 outro pa\u00eds, que n\u00e3o faz parte de Mo\u00e7ambique. Muito facilmente encontramos pessoas que nos perguntam se ainda h\u00e1 guerra em Cabo Delgado, porque as not\u00edcias n\u00e3o falam disso e quando falam, falam como se tudo estivesse normalizado, que j\u00e1 n\u00e3o houvesse por aqui ataques, j\u00e1 n\u00e3o houvesse por aqui insurgentes, o que de facto n\u00e3o se verifica. Por isso, esta presen\u00e7a, esta vinda c\u00e1 \u00e9 sempre muito oportuna para voltar a colocar Cabo Delgado nas agendas.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Nesse sentido, pergunto, at\u00e9 olhando mais para a sensibilidade da comunidade internacional e de Portugal, se h\u00e1 o risco de que Cabo Delgado acabe por se tornar uma crise esquecida como a tantas outras?<\/em><\/p>\n<p>Eu penso que j\u00e1 est\u00e1 esquecida. H\u00e1 momentos aqui da hist\u00f3ria que voltam a colocar Cabo Delgado nas not\u00edcias, mas depois facilmente esmorecem essas mesmas not\u00edcias, porque h\u00e1 outros problemas no mundo e entendem que esses problemas s\u00e3o realmente maiores e mais graves do que aqui, o que leva a algum esquecimento de Cabo Delgado.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A F\u00e1tima tem uma forte liga\u00e7\u00e3o ao Centro Mission\u00e1rio da Arquidiocese de Braga, que tem levado a cabo diversas iniciativas humanit\u00e1rias e solid\u00e1rias, tem mesmo a responsabilidade pastoral na par\u00f3quia de Santa Cec\u00edlia de Ocua. Que retrato nos pode fazer? Qual \u00e9 a realidade neste momento?<\/em><\/p>\n<p>Em rela\u00e7\u00e3o \u00e0 par\u00f3quia de Santa Cec\u00edlia de Ocua, a nossa presen\u00e7a vai fazer quase dez anos deste acordo que foi celebrado entre as duas dioceses. As realidades de h\u00e1 dez anos para esta parte s\u00e3o muito diferentes, at\u00e9 porque a guerra come\u00e7ou aqui em 2017. A realidade daqui da par\u00f3quia, e eu cheguei em 2021, \u00e9 muito diferente neste momento tamb\u00e9m.<\/p>\n<p>N\u00f3s tivemos o primeiro ataque na par\u00f3quia em outubro de 2022, com todas as crises e condicionalismos que trazem esses mesmos ataques, e depois voltamos a ter um novo ataque aqui na par\u00f3quia, em fevereiro do ano corrente. As realidades mudam porque se a nossa vinda era mais pastoral e de alguma forma social, a realidade tamb\u00e9m nos obriga a criar outros tipos de pastoral, como a pastoral do sofrimento, a pastoral da presen\u00e7a, da escuta, do estar, do acompanhar.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Estavam a dizer que \u00e9 uma crise que j\u00e1 come\u00e7ou em 2017 e essa crise j\u00e1 ter\u00e1 provocado mais de um milh\u00e3o de deslocados internos. Quem est\u00e1 no terreno sente desproporcionalidade entre a forma como a comunidade internacional olha para este conflito e outros que est\u00e3o em curso?<\/em><\/p>\n<p>Isto parece que se torna normal, dentro desta anormalidade toda, vive-se isto como se fosse uma coisa normal. As pessoas deslocam-se por medo, por inseguran\u00e7a, por v\u00e1rios fatores. Agora, n\u00e3o se deixam de deslocar quase todos os dias, porque quase todos os dias se houve, \u00e0s vezes not\u00edcias que s\u00e3o verdadeiras, outras que s\u00e3o falaciosas, outras que s\u00e3o simples boatos, outras que s\u00e3o suposi\u00e7\u00f5es\u2026<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>Acredito que j\u00e1 haja muito p\u00e2nico instalado, n\u00e3o \u00e9?<\/em><\/p>\n<p>Imenso, sim, imenso. Em v\u00e1rias ocasi\u00f5es aqui, depois dos ataques, voltamos a sair e volt\u00e1mos a entrar, mas por p\u00e2nico, por medo, por inseguran\u00e7a.<\/p>\n<p><em>\u00a0<\/em><\/p>\n<p><em>J\u00e1 faz parte do dia-a-dia, faz parte do quotidiano essa situa\u00e7\u00e3o de inseguran\u00e7a. Em algum momento, perante este cen\u00e1rio, pensou em desistir?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o, nunca. E j\u00e1 fui tendo esta conversa v\u00e1rias vezes: mais do que nunca, faz-me sentido a presen\u00e7a aqui. Eu vinha com aqueles objetivos muito bem definidos, o que \u00e9 que era para fazer, o que \u00e9 que faz aqui o dia-a-dia, as situa\u00e7\u00f5es que v\u00e3o ocorrendo, v\u00e3o-nos moldando os planos e n\u00f3s vamos ajustando.<\/p>\n<p>Nunca, nunca me passou pela ideia, nunca tive essa vontade de sair, porque tamb\u00e9m entendo que \u00e9 esta altura que eles mais precisam de n\u00f3s. \u00c0s vezes, n\u00e3o precisam que n\u00f3s demos nada, eles precisam apenas que n\u00f3s estejamos c\u00e1. T\u00eam muito esta express\u00e3o, \u201cestamos juntos\u201d, e nestes \u00faltimos tempos ou\u00e7o-a quase diariamente. Os nossos respons\u00e1veis, os nossos animadores v\u00e3o-nos perguntando onde \u00e9 que n\u00f3s estamos, e n\u00f3s dizemos, \u201cem casa, estamos na miss\u00e3o\u201d. E eles dizem, \u201cent\u00e3o estamos juntos, cuidamos uns dos outros\u201d. E \u00e9 isso que n\u00f3s agora fazemos, \u00e9 o estarmos para escutar ou para ajudar, dentro das nossas poucas possibilidades tamb\u00e9m, mas \u00e9 o estarmos juntos. E sair n\u00e3o \u00e9 op\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Aproveito para lhe perguntar um bocadinho como \u00e9 que \u00e9 o trabalho a\u00ed, a realidade da par\u00f3quia, imagino tamb\u00e9m a dificuldade em acudir a comunidades que s\u00e3o muito dispersas.<\/em><\/p>\n<p>Sim, a nossa par\u00f3quia tem neste momento 98 comunidades. Para termos um bocadinho a no\u00e7\u00e3o, em termos territoriais tem a mesma dimens\u00e3o, esta par\u00f3quia, de toda a Arquidiocese de Braga, mas neste momento tem apenas um padre, o padre Manuel Faria, e uma leiga, que sou eu, a trabalhar para estas 98 comunidades. Temos toda a parte pastoral, a parte dos sacramentos, da forma\u00e7\u00e3o; depois temos a parte social, que \u00e9 a parte dos projetos, o projeto de aleitamento e nutri\u00e7\u00e3o, o projeto de apoio \u00e0s meninas, \u00e0s raparigas, o projeto dos campos de reassentamento, que temos dois campos de reassentamento aqui na par\u00f3quia, desde 2021, e todo este trabalho passa quase todo por n\u00f3s. Claro que temos a ajuda de muitos leigos aqui, nesta Igreja ministerial, que se colocam todos em movimento para ela poder funcionar.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E a ajuda externa, tamb\u00e9m \u00e9 importante nestes casos, nomeadamente a ajuda que vem da arquidiocese e de outros pontos, tamb\u00e9m chega?<\/em><\/p>\n<p>Sim, a Arquidiocese de Braga est\u00e1 nesta primeira linha, neste envio dos mission\u00e1rios e neste envio de recursos, mesmo nas situa\u00e7\u00f5es de maior emerg\u00eancia. Depois aqui a Diocese de Pemba, tamb\u00e9m, com os projetos de emerg\u00eancia, que nos t\u00eam ajudado muito nestes \u00faltimos tempos. E depois as dioceses vizinhas, a Diocese de Nacala, porque a par\u00f3quia \u00e9 mesmo encostada, faz fronteira, e quando houve esta desloca\u00e7\u00e3o em fevereiro, a popula\u00e7\u00e3o daqui saiu para Namapa, que j\u00e1 pertence \u00e0 Nacala. A diocese tem sido tamb\u00e9m uma grande parceira. Tamb\u00e9m h\u00e1 aqueles an\u00f3nimos e congrega\u00e7\u00f5es, mesmo daqui dentro da diocese, que se disponibilizam para ajudar e para estar connosco, para estarmos junto do povo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Como \u00e9 que est\u00e1 agora o Programa Alimentar Mundial? Ao longo do \u00faltimo ano chegaram not\u00edcias de que havia falta de apoio da comunidade internacional, em particular do Programa Alimentar Mundial. Esse \u00e9 um problema ultrapassado?<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o, ainda se mant\u00e9m. N\u00f3s verificamos, por exemplo, que a primeira linha de ajuda, quando aconteceu o ataque aqui na par\u00f3quia, foi o Programa Alimentar Mundial, mas j\u00e1 n\u00e3o com o kit b\u00e1sico que eles estavam a dar \u00e0s fam\u00edlias, ou seja, j\u00e1 estava a ser racionado, talvez porque tamb\u00e9m eram muitas fam\u00edlias e n\u00e3o havia a capacidade de resposta imediata. Mas depois, aquilo que vamos percebendo, tamb\u00e9m pelos campos de reassentamento, que muito desse apoio terminou ou ent\u00e3o \u00e9 mais espor\u00e1dico. V\u00eam outras organiza\u00e7\u00f5es, que v\u00e3o ajudando na medida do poss\u00edvel, mas nota-se um decr\u00e9scimo do PAM nesta ajuda humanit\u00e1ria.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<figure id=\"attachment_331483\" aria-describedby=\"caption-attachment-331483\" style=\"width: 400px\" class=\"wp-caption alignright\"><a href=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/IMG-20240329-WA0006.jpg\"><img decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-331483\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/IMG-20240329-WA0006-400x180.jpg\" alt=\"\" width=\"400\" height=\"180\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/IMG-20240329-WA0006-400x180.jpg 400w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/IMG-20240329-WA0006-1024x461.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/IMG-20240329-WA0006-768x346.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/IMG-20240329-WA0006-1536x691.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/06\/IMG-20240329-WA0006.jpg 1600w\" sizes=\"(max-width: 400px) 100vw, 400px\" \/><\/a><figcaption id=\"caption-attachment-331483\" class=\"wp-caption-text\">Foto: F\u00e1tima Castro\/Par\u00f3quia de Ocua<\/figcaption><\/figure>\n<p><em>F\u00e1tima foi de Portugal, de uma das dioceses com maior percentagem e at\u00e9 predomin\u00e2ncia cultural cat\u00f3lica do pa\u00eds, de Braga, para uma regi\u00e3o em Mo\u00e7ambique que \u00e9 maioritariamente isl\u00e2mica. Como \u00e9 que tem sido esta experi\u00eancia de trabalhar com a comunidade mu\u00e7ulmana?<\/em><\/p>\n<p>Muito saud\u00e1vel, at\u00e9 porque n\u00f3s temos um discurso que diz que n\u00f3s n\u00e3o ajudamos nem ra\u00e7a, nem cor, nem religi\u00e3o. A nossa miss\u00e3o \u00e9 com todos. E por exemplo, estes projetos sociais que n\u00f3s temos, maioritariamente s\u00e3o mu\u00e7ulmanos. Mas n\u00f3s n\u00e3o perguntamos quando vem uma mam\u00e3 ou uma fam\u00edlia pedir leite para a crian\u00e7a qual \u00e9 a religi\u00e3o. Claro que n\u00f3s percebemos pela indument\u00e1ria que usam, mas para n\u00f3s isso n\u00e3o \u00e9 importante.<\/p>\n<p>O importante \u00e9 percebermos que h\u00e1 uma crian\u00e7a que perdeu a m\u00e3e e que precisa do leite, ou uma fam\u00edlia que n\u00e3o tem alimentos, porque esse tamb\u00e9m \u00e9 um dos graves problemas que est\u00e1 a surgir agora e que futuramente ser\u00e1 pior. No projeto de apoio \u00e0s meninas, tamb\u00e9m, grande parte delas s\u00e3o mu\u00e7ulmanas, mas isso para n\u00f3s n\u00e3o \u00e9 importante. O importante \u00e9 a pessoa e \u00e9 a necessidade e \u00e9 aquilo que ela precisa no momento. Por isso \u00e9 muito saud\u00e1vel, mesmo esta conviv\u00eancia com os l\u00edderes de outras religi\u00f5es locais que frequentam a nossa casa e que nos visitam, \u00e9 uma vida saud\u00e1vel.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Eu tamb\u00e9m fiz esta pergunta porque muitas vezes se define o conflito em Cabo Delgado como um conflito religioso\u2026<\/em><\/p>\n<p>N\u00e3o, de todo. Eu tive a preocupa\u00e7\u00e3o de ir perguntando nas comunidades se haveria algum conflito, dentro dos pequenos grupos, para trabalhar nesse sentido, caso houvesse. Aqui vivemos todos como irm\u00e3os e sofremos todos o mesmo, partilhamos todos os mesmos sofrimentos, a mesma vida. Eles foram dizendo que n\u00e3o, que isso nunca foi um problema. At\u00e9 porque as fam\u00edlias aqui s\u00e3o mistas: o pai \u00e9 mu\u00e7ulmano, os filhos s\u00e3o crist\u00e3os, ou seja, n\u00e3o h\u00e1 uma linhagem familiar que tenha a mesma religi\u00e3o. Por isso \u00e9 que eu tamb\u00e9m acho que \u00e9 uma conviv\u00eancia saud\u00e1vel e eles n\u00e3o veem isso como um problema de religi\u00f5es.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>F\u00e1tima, a apresenta\u00e7\u00e3o das tradi\u00e7\u00f5es da miss\u00e3o do Ocua aos jovens estudantes de Braga \u00e9 uma forma de refor\u00e7ar esta liga\u00e7\u00e3o e tamb\u00e9m de promover a defesa das popula\u00e7\u00f5es, tornando-as mais conhecidas e tamb\u00e9m apreciadas?<\/em><\/p>\n<p>Claro, \u00e9 tomarmo-nos pr\u00f3ximos tamb\u00e9m de Braga, porque a Par\u00f3quia de Ocua, pastoralmente e territorialmente, lhe pertence.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>\u00c9 par\u00f3quia 552, n\u00e3o \u00e9?<\/em><\/p>\n<p>\u00c9 verdade, de Braga. Por isso tem esta liga\u00e7\u00e3o e \u00e9 importante que tamb\u00e9m os crist\u00e3os e a comunidade de Braga conhe\u00e7am a realidade daqui. A Igreja \u00e9 mission\u00e1ria por iner\u00eancia e n\u00e3o faria sentido, de outra forma, que Braga tivesse uma par\u00f3quia e os crist\u00e3os de Braga n\u00e3o conhecessem a vida pastoral, a vida religiosa, a vida cultural desta sua par\u00f3quia tamb\u00e9m. Por isso \u00e9 muito importante esta divulga\u00e7\u00e3o que se est\u00e1 a fazer nas escolas, com esta exposi\u00e7\u00e3o e que tamb\u00e9m os alunos, os jovens, percebam que h\u00e1 realidades que s\u00e3o muito diferentes das deles.<\/p>\n<p>Ainda h\u00e1 pouco tempo eu conversava com um jovem da\u00ed e explicava que havia jovens aqui que fazem 13 quil\u00f3metros para ir para a escola e est\u00e3o l\u00e1 duas horas para depois voltarem a fazer 13 quil\u00f3metros a p\u00e9, todos os dias, debaixo deste sol africano. Fazem este esfor\u00e7o para estudar. E esse jovem da\u00ed dizia-me: \u201cmas isso n\u00e3o \u00e9 poss\u00edvel, ele vai uma vez \u00e0 escola e depois n\u00e3o volta\u201d. Esta disparidade que existe entre estas duas realidades, \u00e0s vezes \u00e9 dif\u00edcil eles a\u00ed entenderem como \u00e9 que \u00e9 a vida aqui. Por isso faz tanta falta este cruzar de conhecimentos e divulgar a Par\u00f3quia de Santa Cec\u00edlia de Ocua em Braga.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>Nas suas \u00faltimas mensagens \u2018Urbi et Orbi\u2019 e nos discursos ao corpo diplom\u00e1tico, uma tradi\u00e7\u00e3o anual, o Papa tem falado sempre da situa\u00e7\u00e3o em Mo\u00e7ambique, especificamente em Cabo Delgado. Qual tem sido a import\u00e2ncia destas interven\u00e7\u00f5es? Acha que esta palavra de Francisco pode sensibilizar a comunidade internacional?<\/em><\/p>\n<p>N\u00f3s ficamos sempre muito felizes e agradados quando percebemos isso e quando ouvimos o Papa Francisco falar deste problema, porque temos sempre a esperan\u00e7a de que Cabo Delgado volte \u00e0s agendas mundiais. Mas depois tamb\u00e9m percebemos, com alguma tristeza, que \u00e9 moment\u00e2neo. Agradecemos imenso este esfor\u00e7o do Papa Francisco, mas depois parece que voltamos a cair no esquecimento, at\u00e9 que haja outra coisa maior, mais importante. Acreditamos que ele continua a olhar por n\u00f3s e a rezar por n\u00f3s e que coloca o mundo, que \u00e9 isso que tamb\u00e9m \u00e9 importante, que coloca o mundo a rezar por este povo que vive numa constante Via Sacra.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>A Confer\u00eancia Episcopal Mo\u00e7ambicana publicou uma nota pastoral sobre o processo de recenseamento eleitoral e as elei\u00e7\u00f5es gerais de outubro deste ano. \u00c9 um tema que precisa de aten\u00e7\u00e3o por parte da comunidade portuguesa?<\/em><\/p>\n<p>Tamb\u00e9m, sim. Eles pedem que os crist\u00e3os sejam uma parte ativa na pol\u00edtica. O Papa Francisco tamb\u00e9m diz isso muitas vezes, que n\u00f3s os crist\u00e3os devemos de estar na pol\u00edtica. A Confer\u00eancia Episcopal aqui de Mo\u00e7ambique fez essa nota, que foi lida nas nossas par\u00f3quias, nas comunidades, pedindo que os crist\u00e3os se empenhem nestas pr\u00f3ximas elei\u00e7\u00f5es, de forma a tentar normalizar este processo eleitoral, que s\u00e3o sempre muito complicados.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>N\u00f3s j\u00e1 estamos a chegar \u00e0 reta final aqui desta nossa conversa, muito obrigado. Eu pergunto-lhe se est\u00e3o a ser ponderadas novas iniciativas para ajudar as popula\u00e7\u00f5es na Diocese de Pemba?<\/em><\/p>\n<p>Essas nunca param, e n\u00f3s temos sempre esta vontade e esta iniciativa de querer fazer mais e melhor por este povo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><em>E h\u00e1 sempre novas necessidades, n\u00e3o \u00e9?<\/em><\/p>\n<p>Sempre, sempre. E n\u00f3s vamos aprendendo, ao estar com o povo, a perceber quais s\u00e3o as necessidades que eles t\u00eam, e que s\u00e3o partilhadas com o Centro Mission\u00e1rio de Braga, sempre muito dispon\u00edvel para ajudar tamb\u00e9m dentro das possibilidades que tem a Arquidiocese. V\u00e1rias iniciativas est\u00e3o a ser pensadas, estamos agora quase a festejar o d\u00e9cimo anivers\u00e1rio deste acordo de coopera\u00e7\u00e3o entre as dioceses, por isso deve haver novidades para essa altura.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Cabo Delgado regressou esta semana ao ordenamento das not\u00edcias por for\u00e7a da desloca\u00e7\u00e3o \u00e0 regi\u00e3o de Jorge Moreira da Silva, subsecret\u00e1rio-geral das Na\u00e7\u00f5es Unidas.\u00a0 A trabalhar como volunt\u00e1ria em Pemba, desde 2021, F\u00e1tima Castro, leiga mission\u00e1ria oriunda da Arquidiocese de Braga tem a responsabilidade de acompanhar as comunidades Par\u00f3quia de Santa Cec\u00edlia de Ocua<\/p>\n","protected":false},"author":2,"featured_media":331484,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[6,630],"tags":[],"class_list":["post-331065","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-entrevistas","category-entrevistas-ecclesia-rr"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/331065","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/2"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=331065"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/331065\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/331484"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=331065"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=331065"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=331065"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}