{"id":33103,"date":"2008-07-15T11:55:53","date_gmt":"2008-07-15T11:55:53","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2008\/07\/15\/homilia-de-d-manuel-clemente-na-cerimonia-de-ordenacoes\/"},"modified":"2008-07-15T11:55:53","modified_gmt":"2008-07-15T11:55:53","slug":"homilia-de-d-manuel-clemente-na-cerimonia-de-ordenacoes","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/homilia-de-d-manuel-clemente-na-cerimonia-de-ordenacoes\/","title":{"rendered":"Homilia de D. Manuel Clemente na cerim\u00f3nia de ordena\u00e7\u00f5es"},"content":{"rendered":"<p>\u201cAs criaturas esperam ansiosamente a revela\u00e7\u00e3o dos filhos de Deus!\u201d (Rm 8, 19) <!--more--> Amados irm\u00e3os e irm\u00e3s, muito especialmente os que s\u00e3o ordenados nesta Santa Missa: Demos, antes de mais e sempre, muitas gra\u00e7as a Deus por tudo quanto realiza na Igreja e no mundo, na Igreja para o mundo. Parece um enunciado simples e comezinho, mas j\u00e1 pressup\u00f5e muita convic\u00e7\u00e3o essencial Pressup\u00f5e que Deus \u00e9 fonte permanente de vida, para cada um de n\u00f3s e para o mundo inteiro. N\u00e3o est\u00e1 ausente, mas sim presente, como garantia do aut\u00eantico acontecer das coisas. Digo acontecer, porque a experi\u00eancia quotidiana nos mostra como por vezes elas mais parecem \u201cdesacontecer\u201d, em muitas contrafac\u00e7\u00f5es da exist\u00eancia pr\u00f3pria e alheia. Considera\u00e7\u00e3o esta que nos leva a outro ponto, a saber, que a omnipresen\u00e7a de Deus como criador n\u00e3o significa a sua exclusividade como fazedor ou causa imediata dos acontecimentos. Essa \u00e9 ali\u00e1s a nossa dram\u00e1tica constata\u00e7\u00e3o: o bem ou o seu contr\u00e1rio, dependem, em maior ou menor medida, da liberdade e responsabilidade de cada um. Liberdade e responsabilidade que nem sempre se exercem devidamente\u2026 Mais importante e esperan\u00e7oso \u00e9 afirmar que Deus n\u00e3o se conforma com as consequ\u00eancias negativas do mau uso da liberdade que nos dispensa. Antes nos recria e plenifica em Cristo e no Esp\u00edrito de Cristo, reconstruindo em n\u00f3s \u2013 e por n\u00f3s no mundo \u2013 a verdade, a bondade e a beleza de todas as coisas. Se confessamos a Deus como nosso princ\u00edpio, confessemo-Lo tamb\u00e9m como nosso destino e acolhamos agora o seu amor criador e recriador de todas as coisas em Cristo.  Sim, amados irm\u00e3os e irm\u00e3s, h\u00e1 dois mil anos n\u00e3o se somou \u00e0 hist\u00f3ria da humanidade mais um facto \u201creligioso\u201d, na senda de tantos outros anteriores, dentro duma s\u00e9rie que tamb\u00e9m continuasse: s\u00e9rie em que ali\u00e1s n\u00e3o faltariam altas express\u00f5es de sabedoria e humanidade. N\u00f3s sabemos que na P\u00e1scoa de Cristo o tempo se ultimou qualitativamente, oferecendo-se agora como plenitude, para o Pentecostes do mundo inteiro. E reconhecemos tamb\u00e9m, e partilhamo-lo com todos, que em Cristo a cria\u00e7\u00e3o surge renovada, respirando finalmente a comunh\u00e3o prometida do prop\u00f3sito divino. Assim acontecia com Ele, \u201ca quem o vento e o mar obedeciam\u201d (cf. Mc 8, 27). E ainda mais agora, quando j\u00e1 nem h\u00e1 portas fechadas \u00e0 sua presen\u00e7a (cf. Jo 20, 19). Ali\u00e1s, interessant\u00edssimo \u00e9 verificar como na vida de tantos santos o Esp\u00edrito e a liberdade de Cristo d\u00e3o \u00e0 natureza um outro respiro e total comunh\u00e3o. Na verdade, a ecologia perfeita chama-se santidade.  Nesse sentido \u201ctrabalha\u201d constantemente, na discri\u00e7\u00e3o sua pr\u00f3pria, a Trindade divina: O Pai por Cristo, no amor criador e criativo do Esp\u00edrito. Ou como t\u00e3o surpreendentemente disse o mesmo Cristo: \u201cO meu Pai continua a realizar obras at\u00e9 agora e Eu tamb\u00e9m continuo!\u201d (Jo 5, 17). Compreendamos ent\u00e3o a verdade da exclama\u00e7\u00e3o paulina que ficou a ressoar nestas naves e nos nossos cora\u00e7\u00f5es: \u201cNa verdade, as criaturas esperam ansiosamente a revela\u00e7\u00e3o dos filhos de Deus!\u201d.  Esperam sim. Esperam com tantas vozes, gritantes ou surdas, de cada notici\u00e1rio ou constata\u00e7\u00e3o pessoal. Esperam de perto ou de longe, em interdepend\u00eancia geral. E essa esperan\u00e7a, t\u00e3o universal, espont\u00e2nea e persistente, traz, j\u00e1 em si mesma, a garantia da resposta. Duma resposta que s\u00f3 pode ser dada pelo pr\u00f3prio Deus, que tamb\u00e9m infunde e garante a expectativa. Encontramo-la, a essa \u201cansiosa esperan\u00e7a\u201d, no que a humanidade guarda de mais antigo e rec\u00f4ndito, acreditando nalguma imortalidade, a pouco e pouco definida, entrevendo a vit\u00f3ria final da justi\u00e7a, n\u00e3o desistindo de si mesma, apesar de tudo\u2026 Encontramo-la, a essa ansiosa esperan\u00e7a, na alma dos poetas, mesmo quando aparentemente incr\u00e9dulos. Encontramo-la, a essa ansiosa esperan\u00e7a, no \u00e2nimo dos profetas, abertos sempre \u00e0 derradeira palavra de Deus. Encontramo-la, a essa ansiosa esperan\u00e7a, na procura que fazemos uns dos outros, porque, ao fim e ao cabo, n\u00e3o desistimos duma resposta, pequena que seja, para come\u00e7ar. E esta \u201cesperan\u00e7a\u201d, por Deus suscitada na cria\u00e7\u00e3o inteira e pela humanidade apercebida como consci\u00eancia pr\u00f3pria, teria de ter resposta. Teve-a, de facto, em Cristo. Abramos agora a todos e  \u00e0 actualidade tamb\u00e9m o resumo largo e o c\u00edrculo completo, de cria\u00e7\u00e3o e conclus\u00e3o, de expectativa e resposta, do surpreendente in\u00edcio da Carta aos Hebreus (1, 1-2): \u201cMuitas vezes e de muitos modos, falou Deus aos nossos pais, nos tempos antigos, por meio dos profetas. Nestes dias, que s\u00e3o os \u00faltimos, Deus falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e por meio de quem fez o mundo\u201d. \u201cDeus falou-nos por meio do Filho\u201d, resposta definitiva e cabal \u00e0 \u201cansiosa esperan\u00e7a\u201d que o mundo transporta, transportando ela mesma o mundo. S\u00f3 que, de Deus para n\u00f3s, tudo \u00e9 surpreendente. Surpreendem-se os s\u00e1bios com as fronteiras insuspeitadas da cria\u00e7\u00e3o, no macro ou no micro da sua grandeza; surpreendemo-nos todos com a espantosa capacidade de ser, persistir e inovar que as pessoas revelam, por vezes nas condi\u00e7\u00f5es menos prop\u00edcias: em princ\u00edpio, pois que \u201ca necessidade agu\u00e7a o engenho\u201d. \u00c9 esta admira\u00e7\u00e3o e espanto, esta surpresa mantida, que nos acrescenta em humanidade e aprofunda em religiosidade. Como planta que se abra ao sol; como terra fecundada \u00e0 chuva, lembrava-nos Isa\u00edas na primeira leitura, falando pelo pr\u00f3prio Deus: \u201cAssim como a chuva e a neve que descem do c\u00e9u n\u00e3o voltam para l\u00e1 sem terem regado a terra, sem a terem fecundado e feito produzir, [\u2026] assim a palavra que sai da minha boca n\u00e3o volta sem ter produzido o seu efeito\u2026\u201d.       Mas atendamos ao que Deus se compara, na comunica\u00e7\u00e3o de si: chuva, neve\u2026 E ao que nos compara a n\u00f3s: terra a regar\u2026 Elementos fundamentais, de que tendemos a esquecer-nos, entretidos no acess\u00f3rio; elementos simplic\u00edssimos, que exigem o olhar mais l\u00edmpido e dispon\u00edvel, menos distra\u00eddo ou turvado: \u201cFelizes os puros de cora\u00e7\u00e3o, porque ver\u00e3o a Deus\u201d (Mt 5, 8).  Quem tinha um cora\u00e7\u00e3o e um olhar assim, \u201cviu\u201d e \u201couviu\u201d a Deus nos gestos e palavras de Cristo. Assim na humanidade compartilhada, como Jesus disse a Filipe: \u201cH\u00e1 tanto tempo que estou convosco, e n\u00e3o me ficaste a conhecer, Filipe? Quem me v\u00ea, v\u00ea o Pai. [\u2026] N\u00e3o cr\u00eas que Eu estou no Pai e o Pai est\u00e1 em mim?\u201d (Jo 14, 9-10). Assim tamb\u00e9m na humanidade crucificada e ressuscitada, como Tom\u00e9 finalmente confessou: \u201cEstando as portas fechadas, Jesus veio, p\u00f4s-se no meio deles e disse: \u2018A paz esteja convosco!\u2019. Depois, dirigiu-se a Tom\u00e9: \u2018Olha as minhas m\u00e3os: chega c\u00e1 o teu dedo! Estende a tua m\u00e3o e p\u00f5e-na no meu peito. E n\u00e3o sejas incr\u00e9dulo, mas fiel\u2019. Tom\u00e9 respondeu-lhe: \u2018Meu Senhor e meu Deus!\u2019\u201d (Jo 20, 26-28).   Car\u00edssimos ordinandos: parecendo falar em geral, tudo quanto disse \u00e9 muito particularmente a v\u00f3s que se destina. Mais ainda, \u00e9 na vossa vida at\u00e9 aqui e na vossa vida a partir daqui que eu vejo realizada a Palavra que escut\u00e1mos. Se assim estais agora, t\u00e3o perto j\u00e1 do Esp\u00edrito que far\u00e1 de v\u00f3s sacramentos vivos e activos de Cristo di\u00e1cono e pastor do seu povo, \u00e9 porque alimentastes a esperan\u00e7a e n\u00e3o a iludistes com pseudo respostas imediatistas e frustrantes; se assim estais agora, \u00e9 porque vistes e ouvistes a resposta de Deus em Cristo, discreta e fundamental resposta que s\u00f3 as almas l\u00edmpidas enxergam e acolhem; se assim estais \u00e9 porque vos dispusestes a passar absolutamente para o lado da resposta de Deus \u00e0 \u201cansiosa esperan\u00e7a\u201d que a cria\u00e7\u00e3o mant\u00e9m e a mant\u00e9m viva a ela, persistentemente viva e expectante. No vosso caso, pelo sacramento da Ordem, tudo se dispor\u00e1 nesse sentido, intelig\u00eancia e afecto, vontade e decis\u00e3o. No Esp\u00edrito de Cristo, respondereis como Ele um dia: \u201cO meu alimento \u00e9 fazer a vontade daquele que me enviou e consumar a sua obra\u201d (Jo 4, 34). E em v\u00f3s e por v\u00f3s, em benef\u00edcio da Igreja e do mundo, da Igreja para a salva\u00e7\u00e3o do mundo, se realizar\u00e1 a melhor conclus\u00e3o da par\u00e1bola escutada: \u201cE aquele que recebeu a palavra em boa terra \u00e9 o que ouve a palavra e a compreende. Esse d\u00e1 fruto e produz ora cem, ora sessenta, ora trinta por um!\u201d. S\u00e9 do Porto, 13 de Julho de 2008  <i>+ Manuel Clemente, Bispo do Porto    <\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>\u201cAs criaturas esperam ansiosamente a revela\u00e7\u00e3o dos filhos de Deus!\u201d (Rm 8, 19)<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[168,187,275,294],"class_list":["post-33103","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-diocese-da-guarda","tag-diocese-do-porto","tag-pascoa","tag-sacramentos"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33103","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=33103"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/33103\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=33103"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=33103"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=33103"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}