{"id":3308,"date":"2006-04-03T14:44:19","date_gmt":"2006-04-03T14:44:19","guid":{"rendered":"http:\/\/localhost:81\/dados_wp\/2006\/04\/03\/o-desporto-ao-servico-da-construcao-da-pessoa-e-do-encontro-dos-povos\/"},"modified":"2006-04-03T14:44:19","modified_gmt":"2006-04-03T14:44:19","slug":"o-desporto-ao-servico-da-construcao-da-pessoa-e-do-encontro-dos-povos","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/o-desporto-ao-servico-da-construcao-da-pessoa-e-do-encontro-dos-povos\/","title":{"rendered":"O Desporto ao servi\u00e7o da constru\u00e7\u00e3o da pessoa e do encontro dos povos"},"content":{"rendered":"<p>Nota Pastoral da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa por ocasi\u00e3o do EURO 2004 <!--more--> &#8220;O Desporto ao servi\u00e7o da constru\u00e7\u00e3o da pessoa e do encontro dos povos&#8221;  Nota Pastoral da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa por ocasi\u00e3o do EURO 2004  INTRODU\u00c7\u00c3O 1. Entre 12 de Junho e 04 de Julho de 2004, decorrer\u00e1 em v\u00e1rias cidades de Portugal o Campeonato Europeu de Futebol, competi\u00e7\u00e3o promovida pela Uni\u00e3o das Federa\u00e7\u00f5es Europeias de Futebol. Dezasseis equipas nacionais de v\u00e1rios pa\u00edses da Europa competir\u00e3o pelo t\u00edtulo de Campe\u00e3o Europeu de Futebol. Tal circunst\u00e2ncia dever\u00e1 ser uma oportunidade para redescobrirmos a import\u00e2ncia do desporto na forma\u00e7\u00e3o do homem integral. Pode ser, tamb\u00e9m, uma ocasi\u00e3o oportuna para repensarmos alguns aspectos menos positivos que hoje est\u00e3o ligados \u00e0 pr\u00e1tica desportiva e que t\u00eam contribu\u00eddo para que o &#8220;jogo&#8221; tenha perdido o seu car\u00e1cter de festa, de divertimento saud\u00e1vel e de encontro fraterno.   O ano de 2004 ser\u00e1 tamb\u00e9m, por decis\u00e3o do Parlamento Europeu, Ano Europeu da Educa\u00e7\u00e3o pelo Desporto. Os promotores da iniciativa pretendem dar consist\u00eancia e visibilidade \u00e0s possibilidades de coopera\u00e7\u00e3o entre o mundo desportivo e o mundo educativo, a fim de sublinhar a import\u00e2ncia do desporto enquanto instrumento de educa\u00e7\u00e3o. O ano de 2004 ser\u00e1, ainda, o ano dos Jogos Ol\u00edmpicos e Paraol\u00edmpicos de Atenas. Estes jogos, momento especial de encontro de culturas, de partilha de valores, de s\u00e3o conv\u00edvio e de festa universal, constituir\u00e3o mais uma oportunidade para refor\u00e7ar e promover os valores desportivos.  2.A Igreja est\u00e1 no mundo e interessa-se por tudo aquilo que \u00e9 verdadeiramente humano. Ora o desporto, \u201ca actividade secund\u00e1ria mais bela do mundo\u201d , \u00e9 um instrumento importante para a constru\u00e7\u00e3o do homem integral e para a edifica\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais fraterna e solid\u00e1ria. Express\u00e3o do apre\u00e7o da Igreja pelo desporto \u00e9 o facto de, no contexto do Grande Jubileu do ano 2000, o Papa Jo\u00e3o Paulo II ter querido celebrar o Jubileu dos Desportistas. Sob o significativo tema &#8220;No tempo do Jubileu: o rosto e a alma do desporto&#8221;, o evento reuniu em Roma um n\u00famero consider\u00e1vel de intervenientes no fen\u00f3meno desportivo. Na homilia da Eucaristia do Jubileu dos Desportistas, celebrada no Est\u00e1dio Ol\u00edmpico de Roma, o Papa agradeceu a Deus pelo dom do desporto, &#8220;em que o homem exercita o pr\u00f3prio corpo, intelig\u00eancia e vontade, reconhecendo nestas suas capacidades outras tantas d\u00e1divas do seu Criador&#8221;; reconheceu no desporto &#8220;um dos fen\u00f3menos t\u00edpicos da modernidade&#8221;, um &#8220;sinal dos tempos capaz de interpretar as novas exig\u00eancias e as renovadas expectativas da humanidade; sublinhou o papel do desporto no cultivo de &#8220;valores relevantes como a lealdade, a perseveran\u00e7a, a amizade, a partilha e a solidariedade&#8221;; pediu aos desportistas que fa\u00e7am do desporto uma ocasi\u00e3o de encontro e de di\u00e1logo, para al\u00e9m de toda a barreira de l\u00edngua, de ra\u00e7a e de cultura&#8221;; exortou os atletas, dirigentes e outros agentes desportivos a aproveitar a oportunidade para um exame de consci\u00eancia, destinado a &#8220;relevar e promover os in\u00fameros aspectos positivos do desporto&#8221; e a compreender tamb\u00e9m &#8220;as v\u00e1rias situa\u00e7\u00f5es transgressivas \u00e0s quais ele pode ceder&#8221;, de forma que o desporto &#8220;corresponda, sem se desnaturar, \u00e0s exig\u00eancias dos homens do nosso tempo&#8221; .  3.Os Bispos portugueses, julgam \u00fatil chamar a aten\u00e7\u00e3o, n\u00e3o s\u00f3 dos crist\u00e3os, mas de todos os homens de boa vontade, para a import\u00e2ncia do desporto e dos valores que ele afirma e potencia, a fim de que o fen\u00f3meno desportivo possa corresponder \u00e0 sua voca\u00e7\u00e3o de forma\u00e7\u00e3o e de valoriza\u00e7\u00e3o do homem integral, n\u00e3o s\u00f3 como indiv\u00edduo, mas tamb\u00e9m como membro pleno da grande fam\u00edlia humana.   I.O DESPORTO E A PESSOA HUMANA 4. O &#8220;jogo&#8221; \u00e9 uma das express\u00f5es mais profundas do ser humano e tem estado presente na vida do homem em todos os tempos e culturas. A dimens\u00e3o l\u00fadica, a capacidade de rir, de se formar &#8220;brincando&#8221;, revelam que o ser humano \u00e9 bem mais do que &#8220;barro da terra&#8221;, ocupado com a simples satisfa\u00e7\u00e3o das suas necessidades mais b\u00e1sicas: sugere que o homem \u00e9 liberdade criativa, que reinventa o mundo e os seus ritmos, os desfruta simbolicamente e &#8220;dan\u00e7a&#8221; com a realidade. O &#8220;jogo&#8221; revela o &#8220;homem espiritual&#8221;, inventivo e original, que anela por uma vida plena e livre, que busca o est\u00edmulo e o desafio, que cultiva a arte e a beleza, que se realiza na alegria, no prazer e na festa, que aplica as suas for\u00e7as no sentido de ultrapassar continuamente os seus limites. Revela esse homem que \u00e9 &#8220;quase um ser divino, revestido de esplendor e majestade&#8221; (Sl 8,6), criado &#8220;\u00e0 imagem e \u00e0 semelhan\u00e7a de Deus&#8221; (Gn 1,27). Assim, o &#8220;jogo&#8221; fala-nos desse Deus criador, que ama cada uma das suas criaturas e que tem um projecto de felicidade, de realiza\u00e7\u00e3o e de vida plena para o homem. A consci\u00eancia desta realidade deve levar o homem a agradecer e a louvar o seu Criador .  5. O desporto \u00e9 uma forma culta, sofisticada e moderna do &#8220;jogo&#8221;. Tamb\u00e9m nele se expressam e exprimem essas caracter\u00edsticas que fazem do homem um caso \u00e0 parte, no universo dos seres criados por Deus: a viv\u00eancia gozosa, o esfor\u00e7o gratuito, a ocupa\u00e7\u00e3o jubilosa dos tempos de lazer, a dimens\u00e3o criativa, espiritual e divina.  No plano do indiv\u00edduo, o desporto contribui para preservar e melhorar a sa\u00fade, proporcionando uma serena distens\u00e3o, uma ocupa\u00e7\u00e3o salutar do tempo livre, uma forma de aliviar os inconvenientes e as dificuldades da vida moderna. Al\u00e9m disso, o desporto educa o homem na pedagogia do esfor\u00e7o, do empenho, do sacrif\u00edcio, da generosidade, na busca dos valores mais elevados, na supera\u00e7\u00e3o dos limites, na aposta numa vida com valores e com objectivos. Finalmente, o desporto liberta o homem de todas as formas de ego\u00edsmo e potencia a honestidade, o altru\u00edsmo, o respeito pelos outros e at\u00e9 pela natureza. Sem estas qualidades, &#8220;o desporto reduzir-se-ia a um simples esfor\u00e7o e a uma discut\u00edvel manifesta\u00e7\u00e3o de for\u00e7a f\u00edsica sem alma&#8221; . A exig\u00eancia do aperfei\u00e7oamento f\u00edsico e moral faz descobrir os caminhos da alegria e da responsabilidade, isto \u00e9, aponta os caminhos de Deus.   6. O objectivo final do esfor\u00e7o dos verdadeiros desportistas n\u00e3o \u00e9 conquistar um pr\u00e9mio material e perec\u00edvel, mas atingir uma vida mais plena. S. Paulo, dirigindo-se aos crist\u00e3os de Corinto, lembra-lhes que os atletas correm todos, no est\u00e1dio, e s\u00f3 um \u00e9 o vencedor; mas, na corrida da vida, todos os que participam podem ser vencedores (cfr. 1 Cor 9,24-25). Atrav\u00e9s desta met\u00e1fora, o ap\u00f3stolo p\u00f5e em evid\u00eancia o valor da vida, comparando-a a uma corrida ao encontro da felicidade plena, da vida definitiva. Trata-se de uma corrida que todos os homens podem e devem vencer. A vit\u00f3ria verdadeiramente humana e desportiva \u00e9 a dignifica\u00e7\u00e3o da pessoa humana.  7. O desporto n\u00e3o pode absorver de tal forma o homem, que o conduza a dispensar-se das suas responsabilidades religiosas, nomeadamente no que diz respeito \u00e0 viv\u00eancia lit\u00fargica do Domingo. A este prop\u00f3sito, o Papa Jo\u00e3o Paulo II observa que &#8220;os ritmos da sociedade moderna e de algumas actividades desportivas poder\u00e3o fazer com que o crist\u00e3o se esque\u00e7a da necessidade de participar na assembleia lit\u00fargica no Dia do Senhor. Contudo, as exig\u00eancias do justo e merecido entretenimento n\u00e3o podem causar detrimento \u00e0 obriga\u00e7\u00e3o do fiel de santificar a festa. Ao contr\u00e1rio, no Dia do Senhor a actividade desportiva deve estar inserida num contexto de serena distens\u00e3o, que favore\u00e7a o estar juntos e o crescer na comunh\u00e3o especialmente familiar&#8221; .  II. O DESPORTO E A CONSTRU\u00c7\u00c3O DA COMUNIDADE HUMANA 8. O homem \u00e9, &#8220;pela sua pr\u00f3pria natureza, um ser social, que n\u00e3o pode viver nem desenvolver as suas qualidades sem entrar em rela\u00e7\u00e3o com os outros&#8221; . \u00c9 na comunidade que o homem realiza plenamente essa voca\u00e7\u00e3o \u00e0 comunh\u00e3o que est\u00e1, desde os in\u00edcios, nos planos de Deus (cfr. Gn 2,18). Ora, o desporto poder\u00e1 constituir um significativo instrumento para que o homem se realize enquanto ser social.  O desporto facilita a integra\u00e7\u00e3o num grupo, onde o homem pode encontrar parceiros que partilham os mesmos desafios e lutam por objectivos semelhantes. Al\u00e9m disso, o desporto constitui um vector de aprendizagem das regras da vida colectiva: facilita a aquisi\u00e7\u00e3o de valores como o respeito pelos outros, a magnanimidade, a fraternidade, a solidariedade, a partilha, a generosidade, o altru\u00edsmo, a doa\u00e7\u00e3o, o respeito pelas regras e pelas leis, o confronto leal; inculca o sentido da disciplina colectiva e da vida em grupo; ajuda a vencer o ego\u00edsmo, o fechamento em si pr\u00f3prio, a auto-sufici\u00eancia e a evas\u00e3o alienante; transforma os impulsos humanos, mesmo aqueles que s\u00e3o potencialmente negativos, em prop\u00f3sitos positivos; educa para a cidadania, para o compromisso comunit\u00e1rio e para a responsabilidade solid\u00e1ria; contribui &#8220;para a edifica\u00e7\u00e3o de uma sociedade civil, onde o antagonismo \u00e9 substitu\u00eddo pela s\u00e3 competi\u00e7\u00e3o, onde o confronto \u00e9 substitu\u00eddo pelo encontro, onde a contraposi\u00e7\u00e3o rancorosa \u00e9 substitu\u00edda pelo confronto leal&#8221; .  Num tempo em que as diversas formas de viol\u00eancia, de \u00f3dio, de racismo, de exclus\u00e3o e de divis\u00e3o tendem a dilacerar o tecido da solidariedade social, o desporto pode tornar-se, com a ajuda de Deus, ve\u00edculo de civiliza\u00e7\u00e3o e contribuir para a edifica\u00e7\u00e3o de uma sociedade mais fraterna, mais solid\u00e1ria e mais humana.   9.  As manifesta\u00e7\u00f5es desportivas internacionais envolvem, hoje, atletas, agentes desportivos e multid\u00f5es de adeptos de todos os cantos do mundo. S\u00e3o um acontecimento planet\u00e1rio, no qual diversas na\u00e7\u00f5es e culturas vivem a mesma experi\u00eancia de encontro, de partilha e de festa. O desporto pode e deve ser, neste contexto, um instrumento e uma experi\u00eancia de encontro, de aproxima\u00e7\u00e3o, de compreens\u00e3o, de toler\u00e2ncia, de conviv\u00eancia entre os v\u00e1rios povos e culturas, frequentemente afastados entre si por motivos de ordem lingu\u00edstica, racial, hist\u00f3rica, social, pol\u00edtica, cultural e religiosa. O desporto pode e deve oferecer uma contribui\u00e7\u00e3o v\u00e1lida para a constru\u00e7\u00e3o de um mundo sem fracturas e sem fronteiras, ajudar ao &#8220;entendimento pac\u00edfico entre os povos e colaborar para a confirma\u00e7\u00e3o da nova civiliza\u00e7\u00e3o do amor no mundo&#8221; .   III. O FUTEBOL: LUZES E SOMBRAS DE UM DESPORTO MEDI\u00c1TICO 10. Tudo aquilo que dissemos sobre o &#8220;jogo&#8221; e sobre o desporto em geral, aplica-se ao futebol, desporto medi\u00e1tico que suscita paix\u00f5es incontrol\u00e1veis e que se tornou um dos fen\u00f3menos sociais mais marcantes do nosso tempo. A sua import\u00e2ncia manifesta-se em termos de n\u00famero de praticantes, de interesse dos cidad\u00e3os, de considera\u00e7\u00e3o nas pol\u00edticas p\u00fablicas e de impacto econ\u00f3mico na vida das sociedades modernas. Como qualquer outro desporto, o futebol \u00e9, antes de mais, um jogo \u201cem que as pessoas se divertem com as prodigiosas possibilidades da vida humana f\u00edsica, social e espiritual&#8221; . Nele est\u00e3o potencialmente presentes as grandes qualidades que o desporto, em geral, apresenta: a dimens\u00e3o l\u00fadica, a possibilidade de divertimento e de recria\u00e7\u00e3o salutar, a alegria e a festa, a beleza e a criatividade, a valoriza\u00e7\u00e3o do corpo, a promo\u00e7\u00e3o da grandeza e da dignidade do homem, a educa\u00e7\u00e3o para as virtudes que est\u00e3o na base de uma digna conviv\u00eancia humana, a possibilidade de contribuir para a constru\u00e7\u00e3o de um mundo mais unido e mais tolerante.   11. H\u00e1, no entanto, algumas &#8220;sombras&#8221; que pairam sobre este desporto e que podem fazer dele um fen\u00f3meno contr\u00e1rio ao desenvolvimento integral da pessoa e ao bem das sociedades. &#8220;Ao lado de um desporto que ajuda a pessoa h\u00e1, de facto, outro que a mortifica e atrai\u00e7oa; ao lado de um desporto que persegue ideais nobres, h\u00e1 outro que s\u00f3 recorre ao lucro; ao lado de um desporto que une, h\u00e1 outro que divide&#8221; . Na Carta Pastoral Responsabilidade Solid\u00e1ria pelo Bem Comum identific\u00e1mos, entre as linhas de comportamento a que cham\u00e1mos &#8220;pecados sociais&#8221;, a &#8220;exagerada comercializa\u00e7\u00e3o do fen\u00f3meno desportivo, que tem conduzido \u00e0 perda progressiva do sentido do &#8216;jogo&#8217; como aut\u00eantica actividade l\u00fadica, e a falta de transpar\u00eancia nos neg\u00f3cios que envolvem muitos sectores e profissionais de algumas \u00e1reas do desporto&#8221; . De facto, o futebol deixou de ser, em muitas circunst\u00e2ncias, um &#8220;jogo&#8221;, para se tornar uma ind\u00fastria. Perdeu o seu sentido l\u00fadico e humanizante, para se tornar uma competi\u00e7\u00e3o de artistas pagos a peso de ouro, que oferecem um espect\u00e1culo de alto valor comercial mas, muitas vezes, despido de alma e de sentimentos.   12. A comercializa\u00e7\u00e3o do futebol tem levado, por outro lado, a que as equipas se tornem pe\u00e7as na engrenagem de sociedades an\u00f3nimas desportivas, que se regem por interesses comerciais, por crit\u00e9rios de rentabilidade econ\u00f3mica e pelo esp\u00edrito de lucro. Dessa forma, o futebol deixa de ser uma festa, uma ocupa\u00e7\u00e3o jubilosa e salutar dos tempos de lazer, um esfor\u00e7o gratuito para superar os pr\u00f3prios limites, uma competi\u00e7\u00e3o leal onde os outros s\u00e3o advers\u00e1rios mas n\u00e3o inimigos, e torna-se um neg\u00f3cio regido pelas leis do mercado. O futebol arrisca-se a perder, portanto, o seu papel de desporto ao servi\u00e7o da constru\u00e7\u00e3o integral do homem, e torna-se uma m\u00e1quina desumana, posta ao servi\u00e7o de uma cultura de ego\u00edsmo e de avidez. Esta realidade obriga os dirigentes, os atletas e os clubes a viverem sob a press\u00e3o de obterem sucesso a todo o custo, mesmo utilizando m\u00e9todos pouco claros e que, frequentemente, s\u00e3o deseducativos e desumanizantes. Com frequ\u00eancia assistimos ao espect\u00e1culo deplor\u00e1vel dos discursos agressivos dirigidos aos advers\u00e1rios, das &#8220;guerras psicol\u00f3gicas&#8221; destinadas a decidir o jogo fora do campo, das press\u00f5es sobre os \u00e1rbitros, das tentativas de manipula\u00e7\u00e3o da opini\u00e3o p\u00fablica, dos cortes das rela\u00e7\u00f5es institucionais entre os clubes, das tentativas de condicionar as inst\u00e2ncias onde se decidem as quest\u00f5es controversas do futebol. Dessa forma, o futebol deixa de ser um ve\u00edculo dos valores que unem as pessoas e que geram comunidade, para se tornar um factor de divis\u00e3o, de \u00f3dio, de ruptura, de fractura social e de viol\u00eancia.  13. Um outro elemento que lan\u00e7a algum mal-estar sobre o mundo do futebol, \u00e9 o fen\u00f3meno das claques. Vocacionadas para apoiar o seu clube e para fazer a festa do futebol, elas aparecem, contudo, frequentemente ligadas a epis\u00f3dios de intoler\u00e2ncia e de agressividade que desembocam em graves manifesta\u00e7\u00f5es de viol\u00eancia. As palavras de ordem que ofendem os advers\u00e1rios, as provoca\u00e7\u00f5es racistas, o desrespeito pelas pessoas e pelos bens das colectividades, n\u00e3o s\u00e3o a melhor forma de colaborar na festa desportiva e n\u00e3o ajudam a tornar o desporto um instrumento de conc\u00f3rdia entre todos os homens.  H\u00e1 outras situa\u00e7\u00f5es, ligadas ao mundo do desporto &#8211; e do futebol, em particular &#8211; que exigem, urgentemente, uma reflex\u00e3o \u00e9tica. \u00c9 o caso do uso de subst\u00e2ncias qu\u00edmicas proibidas, para melhorar a compet\u00eancia f\u00edsica dos atletas: al\u00e9m de viciar os resultados desportivos, esta pr\u00e1tica p\u00f5e, frequentemente, em risco a sa\u00fade e a vida daqueles que as utilizam. \u00c9 o caso, tamb\u00e9m, do fabrico de &#8220;jogadores-\u00eddolos&#8221;, manipulados por empres\u00e1rios, tentados pelos milh\u00f5es dos clubes economicamente poderosos, vendidos para equilibrar as contas do clube-empresa, dispensados quando deixam de ser produtivos de acordo com crit\u00e9rios de lucro. \u00c9 o caso, ainda, da manipula\u00e7\u00e3o do futebol e dos clubes para fins pol\u00edticos e eleitoralistas. \u00c9 o caso, finalmente, das tentativas (periodicamente vindas a p\u00fablico) de corromper os agentes desportivos para falsear resultados. S\u00e3o situa\u00e7\u00f5es que n\u00e3o dignificam o desporto e que n\u00e3o contribuem para uma cultura de valores verdadeiros e duradouros.   IV. A FASE FINAL DO EURO 2004, UM DESAFIO A VENCER 14. A realiza\u00e7\u00e3o, em Portugal, da fase final do Campeonato Europeu de Futebol ser\u00e1, n\u00e3o apenas um acontecimento desportivo relevante, mas tamb\u00e9m um evento s\u00f3cio-cultural cheio de possibilidades, uma oportunidade para nos unirmos, como comunidade nacional, \u00e0 volta de um projecto motivador, e um excelente ensejo de afirmarmos Portugal, no concerto das na\u00e7\u00f5es, como pa\u00eds moderno e empreendedor, capaz de vencer os grandes desafios. Ser\u00e1, tamb\u00e9m, uma ocasi\u00e3o excelente para redescobrirmos a dimens\u00e3o l\u00fadica do futebol, o seu papel na educa\u00e7\u00e3o para os valores, o seu contributo para a constru\u00e7\u00e3o de um mundo mais unido, mais pac\u00edfico e mais solid\u00e1rio. Para al\u00e9m dos dirigentes e atletas das selec\u00e7\u00f5es envolvidas, Portugal acolher\u00e1 muitos milhares de espectadores, vindos dos v\u00e1rios pa\u00edses da Europa e do mundo. Ser\u00e1 um festa dos povos, um encontro de culturas, um ocasi\u00e3o prop\u00edcia para afirmarmos a nossa voca\u00e7\u00e3o de pa\u00eds hospitaleiro, aberto \u00e0 colabora\u00e7\u00e3o com outras na\u00e7\u00f5es, que acolhe, que dialoga e que partilha.   15. A organiza\u00e7\u00e3o de um acontecimento deste tipo implicou um esfor\u00e7o consider\u00e1vel de investimento em infra-estruturas, nomeadamente na constru\u00e7\u00e3o de novos est\u00e1dios. Independentemente da discuss\u00e3o sobre a oportunidade do investimento feito, consideramos indispens\u00e1vel que as novas estruturas desportivas sejam, no futuro, postas ao servi\u00e7o de toda a comunidade, particularmente apoiando as camadas mais desfavorecidas, e proporcionando um adequado espa\u00e7o de encontro com os valores que o desporto promove.  16. \u00c9 importante que o EURO 2004 seja uma celebra\u00e7\u00e3o da Vida, um momento de express\u00e3o saud\u00e1vel da dimens\u00e3o l\u00fadica, pac\u00edfica e criativa do ser humano; um reencontro com o futebol que \u00e9 arte e beleza, desportivismo, defesa das cores nacionais no respeito pelos advers\u00e1rios e pelas na\u00e7\u00f5es que representam; uma ocasi\u00e3o para potenciar o di\u00e1logo entre os povos, para suscitar a estima e o respeito m\u00fatuos, para afirmar a solidariedade humana, a amizade e a boa vontade entre os indiv\u00edduos, para reunir pessoas de diversos ambientes e para construir uma amizade que vai al\u00e9m de todas as barreiras de ra\u00e7a, de cultura ou de experi\u00eancia pol\u00edtica; um contributo para a constru\u00e7\u00e3o de uma Europa unida \u00e0 volta dos valores que dignificam o homem, empenhada em superar as barreiras que dividem os povos, comprometida com a instaura\u00e7\u00e3o de uma nova ordem internacional, solid\u00e1ria com os povos fragilizados pela pobreza, pela mis\u00e9ria e pela injusti\u00e7a. O EURO 2004 n\u00e3o \u00e9 um evento destinado a confinar-se \u00e0s quatro linhas dos relvados de futebol; mas \u00e9 um acontecimento que implicar\u00e1 o pa\u00eds global e que exige o esfor\u00e7o e o compromisso de toda a comunidade nacional.  Exortamos todos os portugueses a contribu\u00edrem, na medida das suas possibilidades, para que este acontecimento desportivo seja um sucesso e ajude \u00e0 constru\u00e7\u00e3o de uma nova civiliza\u00e7\u00e3o. Devemos todos assumir-nos, nas palavras, nas atitudes e nos comportamentos \u00e0 altura de t\u00e3o estimulante responsabilidade. Desejamos que, no final da competi\u00e7\u00e3o, saia vitorioso o desporto como instrumento de constru\u00e7\u00e3o do homem integral. Desejamos, simplesmente, que o grande vencedor do EURO 2004 seja o homem, nos seus altos valores de lealdade, de m\u00fatuo respeito, de generosidade e de beleza.  EXORTA\u00c7\u00c3O FINAL 17. Preocupados em contribuir para uma cultura que fa\u00e7a do &#8220;jogo&#8221; em geral e do futebol em particular um verdadeiro instrumento de realiza\u00e7\u00e3o do homem integral e de encontro de povos, lan\u00e7amos os seguintes apelos: &#8211; que os atletas continuem a dignificar o mundo do desporto, oferecendo-lhe, n\u00e3o s\u00f3 o melhor das suas for\u00e7as f\u00edsicas, mas tamb\u00e9m, e sobretudo, promovendo, com o seu comportamento dentro e fora do campo, os valores da lealdade, da solidariedade, do comportamento correcto, do respeito pelos outros; &#8211; que os dirigentes sejam os guardi\u00e3es do verdadeiro sentido do \u201cjogo\u201d, fa\u00e7am uma gest\u00e3o equilibrada das institui\u00e7\u00f5es e estruturas a que presidem, promovam a verdade desportiva, fomentem o respeito pelas institui\u00e7\u00f5es, actuem com transpar\u00eancia; que, como educadores, procurem inculcar uma cultura dos valores elevados, como a lealdade, a amizade, a toler\u00e2ncia, e o respeito pela verdade; que rejeitem e denunciem a mentira, os neg\u00f3cios nebulosos, a agressividade, o desrespeito pelo advers\u00e1rio; &#8211; que os jornalistas cumpram o seu dever de informar, sejam isentos e evitem divulgar suspei\u00e7\u00f5es infundadas ou explorar situa\u00e7\u00f5es que podem gerar tens\u00f5es ou conflitos na opini\u00e3o p\u00fablica: o desenvolvimento de uma verdadeira cultura do desporto tamb\u00e9m passa por uma informa\u00e7\u00e3o isenta e objectiva, que evite o recurso f\u00e1cil ao sensacionalismo; &#8211; que os adeptos, em geral, descubram no futebol um divertimento sadio, uma forma de lazer, uma express\u00e3o de arte e de beleza, uma festa de encontro e de uni\u00e3o, para al\u00e9m de todas as barreiras de ra\u00e7a, de l\u00edngua, de cultura ou de cor club\u00edstica; que o desporto n\u00e3o seja um factor de conflito ou de divis\u00e3o nas fam\u00edlias ou um obst\u00e1culo para o encontro, a partilha e a solidariedade familiar; que o futebol n\u00e3o seja um factor de aliena\u00e7\u00e3o, que fa\u00e7a esquecer as responsabilidades que cada um tem para com Deus e para com os outros.    F\u00e1tima, 13 de Novembro de 2003<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Nota Pastoral da Confer\u00eancia Episcopal Portuguesa por ocasi\u00e3o do EURO 2004<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"default","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[9],"tags":[147,187,193,202,203,206,207,237,314],"class_list":["post-3308","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-documentos","tag-conferencia-episcopal-portuguesa","tag-diocese-do-porto","tag-educacao","tag-euro-2004","tag-europa","tag-familia","tag-fatima","tag-joao-paulo-ii","tag-solidariedade"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3308","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=3308"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/3308\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=3308"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=3308"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=3308"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}