{"id":330503,"date":"2024-06-16T09:02:20","date_gmt":"2024-06-16T08:02:20","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=330503"},"modified":"2024-06-15T22:04:05","modified_gmt":"2024-06-15T21:04:05","slug":"nem-poesia-nem-amor-nem-santidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/nem-poesia-nem-amor-nem-santidade\/","title":{"rendered":"Nem poesia, nem amor, nem santidade"},"content":{"rendered":"<p><em>Jorge Teixeira da Cunha, Diocese do Porto<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-321545 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Jorge-Teixeira-da-Cunha-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Jorge-Teixeira-da-Cunha-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Jorge-Teixeira-da-Cunha-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Jorge-Teixeira-da-Cunha-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Jorge-Teixeira-da-Cunha-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Jorge-Teixeira-da-Cunha-1536x1024.jpg 1536w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2024\/04\/Jorge-Teixeira-da-Cunha.jpg 1920w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/>Por estes dias, veio-me \u00e0 lembran\u00e7a um texto dos \u201cContos exemplares\u201d de Sophia de Mello Breyner Andresen: o retrato de M\u00f3nica. A personagem central desse conto leva uma vida de grande agita\u00e7\u00e3o, dedicada a mil coisas de grande e falso m\u00e9rito, cultura, pol\u00edtica, mesmo a obras ditas de caridade. Sucede que para conseguir chegar a tudo teve de renunciar a tr\u00eas coisas: \u00e0 poesia, ao amor e \u00e0 santidade. Este diagn\u00f3stico \u00e9 terr\u00edvel a respeito do modo como vivemos na sociedade de hoje e mesmo na Igreja.<\/p>\n<p>Foram v\u00e1rias as ocasi\u00f5es em que liguei o texto com acontecimentos do quotidiano. O primeiro deles foi o tratamento que um grande jornal deu \u00e0 vida religiosa do nosso Presidente da Rep\u00fablica. A vida pessoal dos pol\u00edticos pode e deve ser tratada pela comunica\u00e7\u00e3o social, mesmo a sua atitude religiosa. Por\u00e9m, para tratar um tal assunto \u00e9 necess\u00e1rio ter compet\u00eancia e essa compet\u00eancia n\u00e3o abunda nas reda\u00e7\u00f5es. Por isso, o nosso Presidente \u00e9 v\u00edtima de um tratamento que n\u00e3o lhe faz justi\u00e7a. O religioso \u00e9 pessoal\u00edssimo e, por isso, n\u00e3o pode ser tratado sem capacidade de entrar numa dimens\u00e3o que n\u00e3o \u00e9 perme\u00e1vel \u00e0 prosa sociol\u00f3gica ou jornal\u00edstica, ainda para mais quando se usa um discurso laico omnisciente, carregado de ironia e de altivez racionalista. Por esse caminho, n\u00e3o se entra na alma de ningu\u00e9m nem \u00e9 l\u00edcito tirar quaisquer conclus\u00f5es sensatas sobre o assunto. Para caracterizar a atitude religiosa de algu\u00e9m \u00e9 necess\u00e1rio o que Sophia chama \u201cpoesia\u201d, ou seja, uma palavra que n\u00e3o descreve, mas que se recebe de uma escuta e de uma empatia com a personalidade sobre quem se fala. O tratamento do tema da f\u00e9 religiosa na nossa comunica\u00e7\u00e3o social anda pelas ruas da amargura. Abunda a descri\u00e7\u00e3o crua da supersti\u00e7\u00e3o, a explora\u00e7\u00e3o do crime, quando se trata de falar dos abusos em contexto religioso. N\u00e3o h\u00e1 uma palavra po\u00e9tica sobre a atitude religiosa enquanto respira\u00e7\u00e3o da alma, enquanto vida conseguida do sujeito crente. A nossa teologia tamb\u00e9m n\u00e3o ajuda muito a isso, pois concentra a sua aten\u00e7\u00e3o preferentemente sobre assuntos epistemol\u00f3gicos e pouco se preocupa em inventar caminhos de dar a viver o mist\u00e9rio onde o sujeito \u00e9 dado a si mesmo em liberdade e felicidade.<\/p>\n<p>O segundo assunto que me arranhou os ouvidos foi o tratamento dado a uma indiscri\u00e7\u00e3o de algum bispo italiano que veio contar em p\u00fablico uma palava do Papa Francisco, dita no resguardo de uma conversa privada, sobre os seminaristas homossexuais. Deixando de lado a inten\u00e7\u00e3o de quem trouxe para p\u00fablico o assunto, certamente para embara\u00e7ar o Papa, o que resta \u00e9 mesmo o modo de tratar as pessoas como se de coisas se tratasse. \u00c9 um pouco irritante o modo como se trata este assunto de grande complexidade. H\u00e1 uma hipocrisia manifesta \u00e0 volta dele. As pessoas homossexuais que demandam o sacerd\u00f3cio por interesse em reciclar uma incomodidade, n\u00e3o d\u00e3o conta que est\u00e3o a jogar com a sua pr\u00f3pria vida. Por outro lado, os que t\u00eam por miss\u00e3o tomar decis\u00f5es sobre a voca\u00e7\u00e3o das pessoas homossexuais pouco se interessam pelas pessoas que t\u00eam diante de si e apenas tratam da homossexualidade como um objeto. Ambos os caminhos falham a sinceridade e a frontalidade evang\u00e9lica. O Papa Francisco, que n\u00e3o \u00e9 suspeito de hipocrisia neste assunto, encontra sempre uma surda oposi\u00e7\u00e3o por parte de pessoas que o rodeiam, quando leva a s\u00e9rio a \u00e9tica da homossexualidade. O tema continua a ser altamente relevante e necessita de ser tratado para l\u00e1 da barb\u00e1rie do discurso dominante, tanto dos que beneficiam com a sua suposta virtude homossexual, como dos que a ostentam a sua condi\u00e7\u00e3o como uma forma de orgulho existencialmente infundado. Nos dois casos, falham a vida, mesmo que sejam sacerdotes. E \u00e9 preciso evitar que isso aconte\u00e7a.<\/p>\n<p>Muitos outros contextos se poderiam enumerar sobre este modo de tratar os assuntos de \u00e9tica sem poesia, sem amor e sem santidade. A atitude religiosa, como Jesus a partilhou connosco, \u00e9 o nervo da personalidade enraizada na realidade, para l\u00e1 da ignor\u00e2ncia, da banalidade, da hipocrisia, da neurose, da nega\u00e7\u00e3o. Mas para l\u00e1 chegar ocorre uma aten\u00e7\u00e3o, uma intelig\u00eancia e uma convers\u00e3o cont\u00ednua.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Jorge Teixeira da Cunha, Diocese do Porto<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":321545,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-330503","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/330503","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=330503"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/330503\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/321545"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=330503"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=330503"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=330503"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}