{"id":330499,"date":"2024-06-14T21:59:13","date_gmt":"2024-06-14T20:59:13","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=330499"},"modified":"2024-06-15T22:01:58","modified_gmt":"2024-06-15T21:01:58","slug":"carlos-drummond-de-andrade-um-coracao-que-nao-cabe-no-mundo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/carlos-drummond-de-andrade-um-coracao-que-nao-cabe-no-mundo\/","title":{"rendered":"Carlos Drummond de Andrade: um cora\u00e7\u00e3o que n\u00e3o cabe no mundo"},"content":{"rendered":"<p><em>Ricardo Formigo, Patriarcado de Lisboa<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p>Aos meus alunos de literatura digo, com frequ\u00eancia, que houve um momento da Hist\u00f3ria em que a Humanidade descobriu que o mundo era maior do que as margens do mar Mediterr\u00e2neo. O per\u00edodo dos Descobrimentos foi uma altura paradoxal na Hist\u00f3ria da Humanidade: por um lado o Homem descobre que o mundo \u00e9 muito maior do que pensava (muito mais tarde, veio a descobrir que o Universo \u00e9 infinito), logo, a consequ\u00eancia l\u00f3gica da descoberta da imensid\u00e3o do mundo seria a tomada de consci\u00eancia de que, num mundo t\u00e3o grande, o Homem afinal \u00e9 mais pequeno e mais insignificante do que inicialmente se pensava. No entanto, tamb\u00e9m desta vez o \u00a0mais expect\u00e1vel n\u00e3o aconteceu. Diante de um mundo infinito, o cora\u00e7\u00e3o do Homem dilatou-se: come\u00e7ou o Renascimento; na Arte, o Homem fez coisas que nunca antes tinha feito, o artista ganhou um novo estatuto na sociedade. Foi a era de Miguel \u00c2ngelo, da <em>Piet\u00e0<\/em> e de <em>David<\/em>; foi a era de Cam\u00f5es e d\u2019 <em>Os Lus\u00edadas <\/em>e foi a era que permitiu que a f\u00e9 crist\u00e3 e a cultura ocidental chegassem a todo o mundo (que era muito maior do que inicialmente se conhecia), numa altura em que a Igreja na Europa estava em cacos, com a Reforma Protestante em ascens\u00e3o.<\/p>\n<p>No entanto, Portugal nos Descobrimentos n\u00e3o deu apenas, como diria Cam\u00f5es, \u201cnovos mundos ao mundo\u201d<a href=\"#_ftn1\" name=\"_ftnref1\">[1]<\/a>, mas tamb\u00e9m deu novos poetas ao mundo&#8230; e novos mundos \u00e0 poesia. No Brasil modernista, incontorn\u00e1veis s\u00e3o os versos de Carlos Drummond de Andrade, um poeta que se entreteu a juntar os fragmentos da sua fragilidade humana, muitas vezes repetitivos e aparentemente vazios de significado. Parece absurdo que o autor de \u201cNo meio do caminho tinha uma pedra\u201d, um poema que parece dizer pouca coisa, tenha escrito outros poemas cujas dimens\u00f5es de significado n\u00e3o caibam no mundo.<\/p>\n<p>Carlos Drummond de Andrade \u00e9, ele pr\u00f3prio, um fruto dos Descobrimentos que fizeram com que a l\u00edngua portuguesa chegasse ao Brasil e fundisse uma cultura europeia com um lado ex\u00f3tico e cheio de variedade como os primeiros colonos se aperceberam ao desembarcarem na Terra de Vera Cruz.<\/p>\n<p>A sexta estrofe do \u201cPoema de Sete Faces\u201d \u00e9 particularmente significativa:<\/p>\n<p>Mundo mundo vasto mundo<\/p>\n<p>Mais vasto \u00e9 o meu cora\u00e7\u00e3o<\/p>\n<p>Portanto, o mundo \u00e9 um lugar vasto (tal como os Descobrimentos o demonstraram), mas o cora\u00e7\u00e3o do poeta consegue ser um lugar ainda maior.<\/p>\n<p>Num outro poema, publicado dez anos depois no livro <em>Sentimento do mundo<\/em>, Drummond afirma perentoriamente que:<\/p>\n<p>N\u00e3o,\u00a0meu\u00a0cora\u00e7\u00e3o\u00a0n\u00e3o\u00a0\u00e9\u00a0maior\u00a0que\u00a0o\u00a0mundo.<br \/>\n\u00c9\u00a0muito\u00a0menor.<br \/>\nNele n\u00e3o cabem nem as minhas dores.<\/p>\n<p>Uma vez que o cora\u00e7\u00e3o do poeta n\u00e3o \u00e9 capaz de albergar as pr\u00f3prias dores, ent\u00e3o deve ser menor do que o mundo. Qu\u00e3o pequeno \u00e9 ent\u00e3o o cora\u00e7\u00e3o do poeta?<\/p>\n<p>Sim,\u00a0meu\u00a0cora\u00e7\u00e3o\u00a0\u00e9\u00a0muito\u00a0pequeno.<br \/>\nS\u00f3\u00a0agora\u00a0vejo\u00a0que\u00a0nele\u00a0n\u00e3o\u00a0cabem os\u00a0homens.<br \/>\nOs\u00a0homens\u00a0est\u00e3o\u00a0c\u00e1\u00a0fora, est\u00e3o na\u00a0rua.<br \/>\nA\u00a0rua\u00a0\u00e9\u00a0enorme.\u00a0Maior,\u00a0muito\u00a0maior\u00a0do\u00a0que\u00a0eu esperava.<br \/>\nMas\u00a0tamb\u00e9m\u00a0a\u00a0rua\u00a0n\u00e3o\u00a0cabe\u00a0todos\u00a0os\u00a0homens.<br \/>\nA\u00a0rua\u00a0\u00e9\u00a0menor\u00a0que\u00a0o\u00a0mundo. O\u00a0mundo\u00a0\u00e9\u00a0grande.<\/p>\n<p>Nestas v\u00e1rias escalas de grandeza de que o poeta faz uso, apenas avalia o tamanho objetivo do cora\u00e7\u00e3o e do mundo. Por\u00e9m, as experi\u00eancias de beleza tamb\u00e9m podem fazer dilatar o cora\u00e7\u00e3o e um olhar atento revela que h\u00e1 mais mundo no mundo do que o mundo que \u00e0 primeira vista parecia existir. Diz-nos o poeta na \u00faltima estrofe:<\/p>\n<p>Ent\u00e3o,\u00a0meu\u00a0cora\u00e7\u00e3o\u00a0tamb\u00e9m\u00a0pode\u00a0crescer.<br \/>\nEntre o\u00a0amor\u00a0e o\u00a0fogo,<br \/>\nentre a\u00a0vida\u00a0e o\u00a0fogo,<br \/>\nmeu\u00a0cora\u00e7\u00e3o\u00a0cresce\u00a0dez\u00a0metros\u00a0e explode.<br \/>\n\u2013\u2013 \u00d3\u00a0vida\u00a0futura!\u00a0n\u00f3s\u00a0te\u00a0criaremos.<\/p>\n<p>Se o mundo \u00e9 grande, o cora\u00e7\u00e3o do poeta cabe no mundo? Qual dos dois \u00e9 maior? No poema \u201cCaso do Vestido\u201d, Drummond afirma que:<\/p>\n<p>O mundo \u00e9 grande e pequeno<\/p>\n<p>O tamanho do mundo \u00e9 o tamanho do cora\u00e7\u00e3o do poeta, pois \u00e9 atrav\u00e9s deste que o mundo ganha significado e os acontecimentos se tornam \u00e9picos. O \u00e9pico da poesia n\u00e3o reside somente nas viagens mar\u00edtimas ou grandes empreitadas. O \u00e9pico da poesia n\u00e3o \u00e9 descrever o que cont\u00e9m o mundo, mas sim o que acontece no cora\u00e7\u00e3o do Homem. O mundo est\u00e1 \u00e0 espera do cora\u00e7\u00e3o do poeta e o cora\u00e7\u00e3o do poeta \u00e0 espera do mundo.<\/p>\n<p>&nbsp;<\/p>\n<p><a href=\"#_ftnref1\" name=\"_ftn1\">[1]<\/a> Lu\u00eds de Cam\u00f5es, <em>Os Lus\u00edadas<\/em>, II, 45<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Ricardo Formigo, Patriarcado de Lisboa<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":330500,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-330499","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/330499","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=330499"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/330499\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/330500"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=330499"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=330499"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=330499"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}