{"id":330241,"date":"2024-08-06T09:43:46","date_gmt":"2024-08-06T08:43:46","guid":{"rendered":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/?p=330241"},"modified":"2024-06-14T10:46:28","modified_gmt":"2024-06-14T09:46:28","slug":"identidade-e-diferenca-num-mundo-globalizado","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/identidade-e-diferenca-num-mundo-globalizado\/","title":{"rendered":"Identidade e diferen\u00e7a num mundo globalizado"},"content":{"rendered":"<p><em>Padre Manuel Ribeiro, Diocese de Bragan\u00e7a-Miranda<\/em><\/p>\n<p><!--more--><\/p>\n<p><img fetchpriority=\"high\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-228266 alignright\" src=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/padre-manuel-ribeiro-braganca-390x260.jpg\" alt=\"\" width=\"390\" height=\"260\" srcset=\"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/padre-manuel-ribeiro-braganca-390x260.jpg 390w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/padre-manuel-ribeiro-braganca-1024x683.jpg 1024w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/padre-manuel-ribeiro-braganca-768x512.jpg 768w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/padre-manuel-ribeiro-braganca-391x260.jpg 391w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/padre-manuel-ribeiro-braganca-1080x720.jpg 1080w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/padre-manuel-ribeiro-braganca-980x653.jpg 980w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/padre-manuel-ribeiro-braganca-480x320.jpg 480w, https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-content\/uploads\/2022\/02\/padre-manuel-ribeiro-braganca.jpg 1200w\" sizes=\"(max-width: 390px) 100vw, 390px\" \/>\u00abA identidade nacional constr\u00f3i-se numa din\u00e2mica de confronto\u00bb<\/p>\n<p>\u201cEu sou tu quando eu sou eu\u201d (Paul Celan)<\/p>\n<p>A identidade nacional (a portuguesa, em particular) resulta, inevitavelmente, dum processo de compara\u00e7\u00e3o com outras identidades e, em algumas circunst\u00e2ncias, resulta numa rea\u00e7\u00e3o de cariz mais b\u00e9lica, quase numa tentativa \u00faltima de afirma\u00e7\u00e3o da sua pertin\u00eancia enquanto povo e na\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p>A este prop\u00f3sito \u00e9 muito interessante ver todo o processo de defini\u00e7\u00e3o de uma identidade e marca. Podemos constatar na literatura antiga portuguesa uma procura por sinais divinos que atestem e\/ou sustentem a ideia de Portugal como na\u00e7\u00e3o e como povo desejado por Deus para um prop\u00f3sito e para uma miss\u00e3o \u00fanica e intransmiss\u00edvel. Esta procura de sentido, gerou, de forma mais ou menos evidente, a fabrica\u00e7\u00e3o de narrativas algo mitolizadas, com toques epopeicos, podendo observar isso nas Cr\u00f3nicas de Fern\u00e3o Lopes, passando pelos Os Lus\u00edadas de Lu\u00eds de Cam\u00f5es e, acabando, com A Mensagem de Fernando Pessoa.<\/p>\n<p>Portugal, dada a sua situa\u00e7\u00e3o e condi\u00e7\u00e3o geogr\u00e1fica, encontra-se, particularmente durante a baixa Idade M\u00e9dia e, mais tarde, no per\u00edodo dos Filipes, numa procura de consolidar a sua independ\u00eancia e identidade numa luta com a sua (\u00fanica) vizinha Espanha.<\/p>\n<p>Volvidos aos tempos hodiernos, a inquieta\u00e7\u00e3o que resulta do processo de globaliza\u00e7\u00e3o \u00e9 da preserva\u00e7\u00e3o de uma identidade local em detrimento de uma identidade global. Conv\u00e9m refor\u00e7ar que estas n\u00e3o dever\u00e3o ser vistas como contr\u00e1rias, mas como complementares, procurando cada uma ser e dar o melhor de si para que ascenda uma identidade mais inclusiva e agregante.<\/p>\n<p>Maalouf relembra o perigo para a procrastina\u00e7\u00e3o em chegar a uma defini\u00e7\u00e3o, mais ou menos contundente e transversal, de uma (nova ou renovada) identidade que responda, assertivamente, aos anseios, aos sonhos e aos desejos de uma sociedade que se quer mais altru\u00edsta, mais inclusiva, mais solid\u00e1ria, mais edificante e mais humanizada. Diz ele:<\/p>\n<p>\u201cNa era da globaliza\u00e7\u00e3o, com esta mistura acelerada, vertiginosa, que nos envolve a todos, imp\u00f5e-se uma nova conce\u00e7\u00e3o de identidade \u2013 urgentemente! N\u00e3o podemos contentar-nos em impor aos milhares de milh\u00f5es de humanos desamparados a escolha entre a afirma\u00e7\u00e3o descomedida da sua identidade e a perda de toda a identidade, entre integrismo e desintegra\u00e7\u00e3o. Ora, \u00e9 isso que implica a conce\u00e7\u00e3o que ainda prevalece neste dom\u00ednio. Se os nossos contempor\u00e2neos n\u00e3o forem encorajados a assumir as suas m\u00faltiplas perten\u00e7as, se n\u00e3o conseguirem conciliar a sua necessidade de identidade com uma abertura franca e descomplexada \u00e0s diferentes culturas, sentir-se-\u00e3o obrigados a escolher entre a nega\u00e7\u00e3o de si mesmos e a nega\u00e7\u00e3o do outro, estaremos a formar legi\u00f5es de loucos sanguin\u00e1rios, legi\u00f5es de alucinados\u201d (MAALOUF, 2023, p. 39).<\/p>\n<p>A sociedade moderna padece, como profeticamente Lipovetsky anunciou, de problema de individualismo e ego\u00edsmo \u00fanicos na hist\u00f3ria. Os indiv\u00edduos est\u00e3o cada vez mais &#8220;absorvidos neles pr\u00f3prios&#8221; (LIPOVETSKY, 1989, p. 20) e a procura por uma identidade pessoal apresenta-se como um problema premente, indissoci\u00e1vel das profundas modifica\u00e7\u00f5es culturais em curso.<\/p>\n<p>A este prop\u00f3sito, o Papa Francisco assevera que:<\/p>\n<p>\u201cIdentidade e alteridade existem juntas e podem coexistir apenas num contexto de coragem, liberdade e ora\u00e7\u00e3o. A alteridade \u00e9 vital para a identidade. \u00abNunca sem o outro\u00bb, o t\u00edtulo de um belo ensaio de Michael De Certeau, \u00e9 um belo \u00ablema\u00bb que pode distinguir a exist\u00eancia humana, que encontra no relacionamento a sua plenitude e o seu sentido \u00faltimo. Um cora\u00e7\u00e3o dobrado sobre si mesmo fica doente e \u00abincrustado\u00bb com esc\u00f3rias que impedem a sua pulsa\u00e7\u00e3o saud\u00e1vel e vivificante. O relacionamento tem a sua pr\u00f3pria \u00abrespira\u00e7\u00e3o\u00bb, que precisa de ritmo e oxig\u00e9nio limpo, condi\u00e7\u00f5es garantidas apenas pela presen\u00e7a do outro. A minha identidade \u00e9 um ponto de partida, mas, sem alteridade, ela cai em ouvidos surdos, murcha e corre o risco de morrer. Sem o reconhecimento da alteridade, n\u00e3o apenas o outro morre, mas tamb\u00e9m eu morro. O aspeto importante, no entanto, \u00e9 que, para ser \u00abcompleto\u00bb, esse reconhecimento deve abrir-se ao reconhecimento da liberdade do outro. Este ponto \u00e9 crucial. Aqui, vamos mais uma vez ao cora\u00e7\u00e3o do Cristianismo\u201d (FRANCISCO, 2020, pp. 128-129).<\/p>\n<p>O medo pelo outro sempre acompanhou a hist\u00f3ria da humanidade. Mas \u00e9 a assun\u00e7\u00e3o da alteridade que define e marca a identidade pessoal e colectiva. O Padre Anselmo Borges afirma que \u201ca identidade s\u00f3 se d\u00e1 na e pela alteridade. S\u00f3 h\u00e1 ser humano com outros seres humanos. Ser e ser-em-rela\u00e7\u00e3o identificam-se. A alteridade n\u00e3o \u00e9 adjacente, acrescentada. O Homem s\u00f3 existe no encontro com o Outro\/outros. Sem tu, n\u00e3o h\u00e1 eu, e n\u00f3s somos n\u00f3s, na presen\u00e7a e no encontro com os outros\u201d (BORGES, 2009, p. 8). Por isso, Beyung-Chul Han reitera que \u201cum sistema que rejeita a negatividade do diferente desenvolve tra\u00e7os autodestrutivos\u201d (HAN, 2018, p. 9).<\/p>\n<p>Nesta mudan\u00e7a de horizonte e de perspectiva, o Papa Francisco lembra que \u201cestamos todos no mesmo barco e somos chamados a empenhar-nos para que n\u00e3o existam mais muros que nos separam, nem existam mais os outros, mas s\u00f3 um n\u00f3s, do tamanho da humanidade inteira\u201d (FRANCISCO, 2021). Ali\u00e1s, j\u00e1 na Carta Enc\u00edclica Fratelli Tutti, o Papa Francisco expressa o seu desejo para que j\u00e1 \u201cn\u00e3o existam os outros, mas apenas um n\u00f3s\u201d (FRANCISCO, 2020, n\u00ba. 35). Eis o caminho e o roteiro para a nossa hodiernidade.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Padre Manuel Ribeiro, Diocese de Bragan\u00e7a-Miranda<\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":228266,"comment_status":"closed","ping_status":"closed","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"site-sidebar-layout":"default","site-content-layout":"","ast-site-content-layout":"default","site-content-style":"default","site-sidebar-style":"default","ast-global-header-display":"","ast-banner-title-visibility":"","ast-main-header-display":"","ast-hfb-above-header-display":"","ast-hfb-below-header-display":"","ast-hfb-mobile-header-display":"","site-post-title":"","ast-breadcrumbs-content":"","ast-featured-img":"","footer-sml-layout":"","ast-disable-related-posts":"","theme-transparent-header-meta":"default","adv-header-id-meta":"","stick-header-meta":"default","header-above-stick-meta":"","header-main-stick-meta":"","header-below-stick-meta":"","astra-migrate-meta-layouts":"set","ast-page-background-enabled":"default","ast-page-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-4)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"ast-content-background-meta":{"desktop":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"tablet":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""},"mobile":{"background-color":"var(--ast-global-color-5)","background-image":"","background-repeat":"repeat","background-position":"center center","background-size":"auto","background-attachment":"scroll","background-type":"","background-media":"","overlay-type":"","overlay-color":"","overlay-opacity":"","overlay-gradient":""}},"footnotes":""},"categories":[10],"tags":[],"class_list":["post-330241","post","type-post","status-publish","format-standard","has-post-thumbnail","hentry","category-opiniao"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/330241","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=330241"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/330241\/revisions"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media\/228266"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=330241"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=330241"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/agencia.ecclesia.pt\/portal\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=330241"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}